NovaCana

Pecege analisa capacidade de estocagem de etanol das usinas em meio à crise na demanda

Unidades conseguem estocar até 17,2 bilhões de litros da produção de etanol, o equivalente a 48,8% da produção total da safra passada

NovaCana 11 min de leitura

A redução na demanda por combustíveis do Ciclo Otto, devido ao menor crescimento da economia brasileira e ao isolamento social, fez com que o setor pleiteasse, junto ao governo, uma linha de financiamento para aumentar seus tanques em 6 bilhões de litros. O tema colocou em evidência a atual capacidade de estocagem de etanol existente no país.

Segundo o Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), as usinas brasileiras conseguem armazenar até 17,2 bilhões de litros do biocombustível. Deste total, 5,3 bilhões de litros seriam para anidro e 11,9 bilhões, para hidratado, uma proporção de 31% e 69%, respectivamente.

Em estudo dedicado ao tema, o instituto aponta que as usinas se tornam mais dependentes dos tanques em um momento de crise no consumo, pois muitas optam pela estratégia de carrego. Ou seja, elas controlam a oferta e estocam o máximo possível com o objetivo de vender o biocombustível posteriormente, quando os preços estiverem mais vantajosos.

De acordo com a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o cenário é realmente de pouca comercialização. As vendas totais de etanol em março recuaram 12,71% ante o mesmo período de 2019. Já na primeira quinzena de abril – que marca a retomada oficial da moagem –, a queda de 35,77% no volume vendido foi acompanhada por uma redução de quase 50% na receita.

Conforme o relatório do Pecege, a capacidade de estocagem se torna crucial por conta da queda nas vendas e da baixa remuneração do produto, elementos que exigem que mais espaço seja utilizado.

Além disso, os investimentos no aumento da tancagem têm sido raros nos últimos anos devido ao pouco acesso a crédito por grande parte do setor. Assim, embora a produção do biocombustível tenha aumentado nos últimos anos, a tancagem não cresceu na mesma proporção.

Segundo os números apresentados, os estoques das usinas acumulavam 11,4 bilhões de litros em novembro de 2019, o maior volume já armazenado pelo setor sucroenergético. Na ocasião, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Centro-Sul contabilizava 11,1 bilhões de litros.

De acordo com o Pecege, a relação entre a tancagem e a produção total de etanol em 2019/20 foi de 48,8%. “Proporcionalmente, a capacidade de estocagem do etanol anidro é maior, cerca de 50,7% do total da produção da safra 2019/20 (contra 48% no caso do etanol hidratado). Tal situação se dá, principalmente, devido ao espaçamento temporal dos contratos com as distribuidoras”, explica o relatório.

Para tal análise, o estudo considerou a produção da safra 2019/20, 35,30 bilhões de litros, sendo 10,4 bilhões de anidro e 24,90 bilhões de hidratado. Também foi analisada a tancagem disponível em 2019 em todos os estados brasileiros. Além disso, o Pecege observou a produção de etanol de milho.

Confira, na versão completa, mais informações sobre o estudo do Pecege e gráficos com:

- Simulação de redução do mix de etanol e impacto na tancagem
- Relação entre tancagem e produção, por regiões, em 2019
- Relação entre estoque máximo e produção, por regiões, em 2019
- Problemas de investimento enfrentados pelas usinas

A redução na demanda por combustíveis do Ciclo Otto, devido ao menor crescimento da economia brasileira e ao isolamento social, fez com que o setor pleiteasse, junto ao governo, uma linha de financiamento para aumentar seus tanques em 6 bilhões de litros. O tema colocou em evidência a atual capacidade de estocagem de etanol existente no país.

Segundo o Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), as usinas brasileiras conseguem armazenar até 17,2 bilhões de litros do biocombustível. Deste total, 5,3 bilhões de litros seriam para anidro e 11,9 bilhões, para hidratado, uma proporção de 31% e 69%, respectivamente.

Em estudo dedicado ao tema, o instituto aponta que as usinas se tornam mais dependentes dos tanques em um momento de crise no consumo, pois muitas optam pela estratégia de carrego. Ou seja, elas controlam a oferta e estocam o máximo possível, com o objetivo de vender o biocombustível posteriormente, quando os preços estiverem mais vantajosos.

De acordo com a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o cenário é realmente de pouca comercialização. As vendas totais de etanol em março recuaram 12,71% ante o mesmo período de 2019. Já na primeira quinzena de abril – que marca a retomada oficial da moagem –, a queda de 35,77% no volume vendido foi acompanhada por uma redução de quase 50% na receita.

Conforme o relatório do Pecege, a capacidade de estocagem se torna crucial por conta da queda nas vendas e da baixa remuneração do produto, elementos que exigem que mais espaço seja utilizado.

Além disso, os investimentos no aumento da tancagem têm sido raros nos últimos anos devido ao pouco acesso a crédito por grande parte do setor. Assim, embora a produção do biocombustível tenha aumentado nos últimos anos, a tancagem não cresceu na mesma proporção.

Produção x armazenamento

Segundo os números apresentados, os estoques das usinas acumulavam 11,4 bilhões de litros em novembro de 2019, o maior volume já armazenado pelo setor sucroenergético. Na ocasião, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Centro-Sul contabilizava 11,1 bilhões de litros.

De acordo com o Pecege, a relação entre a tancagem e a produção total de etanol em 2019/20 foi de 48,8%. “Proporcionalmente, a capacidade de estocagem do etanol anidro é maior, cerca de 50,7% do total da produção da safra 2019/20 (contra 48% no caso do etanol hidratado). Tal situação se dá, principalmente, devido ao espaçamento temporal dos contratos com as distribuidoras”, explica o relatório.

Para tal análise, o estudo considerou a produção da safra 2019/20, 35,30 bilhões de litros, sendo 10,4 bilhões de anidro e 24,90 bilhões de hidratado. Também foi analisada a tancagem disponível em 2019 em todos os estados brasileiros. Além disso, o Pecege observou a produção de etanol de milho.

20200430 pecege tancagem produção capacidade V2

O instituto ainda esclarece que os volumes são estocados em dois módulos principais: tanques das próprias usinas e tanques das distribuidoras, que incluem terminais da Transpetro, centros coletores de etanol e, em menor escala, terminais portuários. O estudo, porém, considerou apenas o volume armazenado pelas usinas.

Em relação ao etanol hidratado, a maior utilização da capacidade do que foi produzido em 2019/20 foi no Nordeste, com 67%, enquanto a menor foi no Centro-Oeste, com 39,2%. Quando o anidro entra na conta, estas regiões seguem sendo as com maior e menor utilização para estocagem, passando para 59,8% e 40,8%, respectivamente.

Considerando ambos os etanóis, a capacidade de tancagem das usinas nordestinas era de 1,13 bilhão de litros, sendo que foram produzidos 1,9 bilhões de litros. Já as usinas do Centro-Oeste poderiam armazenar 4,5 bilhões de litros e produziram 11,02 bilhões de litros.

De acordo com o Pecege, as usinas ainda estão bem capacitadas para armazenar grandes volumes, o que o instituto considera uma “herança” das necessidades de estocagem do ProÁlcool e de safras mais curtas.

Segundo o documento, as usinas construídas durante o período de vigência do programa possuem maior capacidade de armazenagem em relação às mais novas, construídas principalmente durante os anos 2000. Além disso, essa capacidade pode ser dividida livremente entre os diferentes tipos de etanol, desde que eles não sejam misturados.

Mix mais açucareiro reduz a pressão

De acordo com o Pecege, a alteração do mix de produção para a temporada 2020/21 pode ajudar a reduzir a pressão sobre o armazenamento das produtoras. Segundo as estimativas de safra divulgadas até o momento, este deve ser o caminho adotado pelas usinas, com foco no produto de maior remuneração.

Levando isso em consideração, o Pecege simulou como os estoques seriam afetados por uma redução gradual do mix de etanol, passando de 65,67% (que ocorreu em 2019/20) para 50%. Conforme levantamento feito pelo NovaCana em abril, a estimativa de direcionamento de matéria-prima para a produção de etanol em 2020/21 é, em média, de 55%.

A relação entre o espaço disponível nos estoques e a produção se dá de forma inversamente proporcional, então, com a perspectiva de redução do mix alcooleiro, ela passa de 48,17% para 63,27% – um aumento de 15 pontos percentuais. A simulação utiliza como base uma safra com moagem semelhante à vista em 2019/20.

20200430 pecege tancagem mix tancagem

Contudo, a simulação não considera os estoques já carregados da safra passada. “Em contrapartida, a retomada da demanda no segundo semestre pode reduzir a necessidade de armazenamento retratada”, complementa o estudo.

Estoque máximo x capacidade de armazenamento

Em outra análise da taxa de utilização da tancagem, o Pecege expõe a relação entre o maior estoque identificado em 2019/20 com a capacidade total. Segundo o estudo, nas regiões Sul e Sudeste, a armazenagem de anidro atingia níveis próximos a 89,6% e 79,7%, respectivamente. Ou seja, valores bem próximos ao limite.

O Pecege também identificou uma estagnação da capacidade de armazenamento das unidades: desde a temporada 2014/15, ela é de aproximadamente 17,2 bilhões de litros. Naquele ano, aliás, houve um armazenamento atípico e acima do esperado devido ao aumento da mistura de anidro à gasolina.

Desta forma, o crescimento da produção nas temporadas 2018/19 e 2019/20 aumentou o uso dos tanques já existentes, chegando a uma utilização média de 66,7% na safra passada. Em litros, o volume do estoque máximo foi de 7,6 bilhões de litros de hidratado e de 3,91 bilhões de litros de anidro, totalizando 11,5 bilhões de litros.

“Observa-se um grau crescente de utilização das instalações de tancagem, o que, embora reduza o capital ocioso, pode colocar a produção em risco em situações atípicas, especialmente quanto ao anidro”, detalha o relatório.

20200430 pecege tancagem total histórico

De acordo com os números apresentados, a região brasileira com maior ocupação da capacidade de tancagem é o Sudeste, com 71,3%. Já o menor resultado foi na região Norte, com 55% – estas também foram as regiões com a maior e a menor produção, respectivamente.

Considerando apenas o etanol hidratado, a taxa de ocupação foi de 67,1% para o Sudeste e de 49,1% para o Norte.

20200430 pecege tancagem estoque max capacidade V2

Em volume, o Sudeste produziu 10,65 bilhões de litros no período analisado, somando anidro e hidratado, e registrou o estoque máximo de 7,6 bilhões de litros. Já as usinas nortistas produziram 129,8 milhões de litros e o estoque máximo registrado foi de 71,39 milhões de litros.

Custos altos e poucos investimentos

A questão da tancagem no setor perpassa por custos elevados de formação e manutenção de estoques, afinal muitas usinas não possuem capital de giro suficiente para suportar o carrego do produto. Agora, com a crise na demanda, as companhias pleiteiam uma linha de crédito que sirva tanto para aumentar a capacidade de estocagem quanto para sustentar seu fluxo de caixa.

O Pecege detalha que as entidades representativas do setor defendem financiamentos para 25% da produção, ou seja, 6 bilhões de litros via instituições oficiais. O crédito total seria de R$ 9 bilhões para apoio da estocagem na temporada 2020/21.

De acordo com o instituto, na temporada 2020/21, as receitas vindas da venda de açúcar serão usadas para compensar as perdas pela manutenção dos estoques de etanol. A perspectiva é que as unidades carreguem ao máximo os estoques durante a temporada, estando limitadas justamente pela estagnação da capacidade de armazenamento.

“Ao longo da trajetória do setor sucroenergético, fica evidente que há falta de mecanismos para financiamento da estocagem e, no caso do etanol, de instrumentos que permitam maior previsibilidade de preços. Estes fatores dificultam o carregamento dos estoques por parte das usinas”, detalha o instituto.

Uma maior capacidade de estocagem, desta forma, poderia proporcionar uma estabilidade dos preços que são, por característica, sazonais, devido ao desajuste existente entre a oferta e a demanda ao longo do ano. Além disso, o Pecege argumenta que o risco de preço do produtor seria muito maior que as oscilações de margens das distribuidoras e dos postos revendedores.

Outro ponto que encarece a armazenagem é o aumento do aluguel dos tanques de usinas que têm espaço sobrando – afinal, a capacidade ociosa vem diminuindo ao longo dos anos. Para completar, manter estoques tem um alto custo financeiro, que reduz as margens das companhias.

Aliás, o instituto relembra que o nível de estoque é uma variável estratégica para as organizações, uma vez que impacta diretamente na sua competitividade. Produtores mais capitalizados costumam manter estoques para venda no período de entressafra, quando a oferta de etanol é menor e os preços tendem a subir. As grandes distribuidoras têm uma estratégia similar, firmando contratos de fornecimento que funcionam como um estoque indireto.

Por fim, o Pecege observa que também incorrem tarifas periódicas e eventuais perdas no armazenamento, onerando as companhias não apenas em capital financeiro, mas também com custos com manutenção. Conforme o estudo, o custo total do carregamento dos estoques equivale ao volume de capital de giro envolvido, além das tarifas de armazenagem e perdas decorrentes do processo.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

Compartilhar: