Mariangela Grola (Santander):

As metas de CBios para 2024 representam um desafio

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Etanol: Mercado

Mariangela Grola (Santander):

As metas de CBios para 2024 representam um desafio

Considerando que distribuidoras terão nove meses entre a data limite para comprovação da meta de 2023 e a de 2024, analista do banco acredita que o cenário de 2024 é de déficit


NovaCana - Publicado: 05 Jul 2023 - 08:48 | Atualizado: 06 Jul 2023 - 09:31

Desde sua implementação, em 2020, o programa RenovaBio já passou por diversas fases. Nos primeiros meses, os créditos de descarbonização (CBios), emitidos pelas usinas e a serem retirados de circulação pelas distribuidoras de combustíveis, custavam entre R$ 15 e R$ 30, por exemplo.

Mas muito já aconteceu desde então. Em junho do ano passado, os valores dos títulos chegaram a superar os R$ 200. Essa movimentação fez com que o governo de Jair Bolsonaro revisasse a data de comprovação das metas.

Com as mudanças na administração do país, entretanto, foi retomada a exigência de uma comprovação até 31 de dezembro, mas só a partir de 2024. Ou seja, as metas de 2022 ainda devem ser entregues até setembro deste ano, enquanto as de 2023 serão mantidas para março de 2024.

Além desta questão, ainda há variáveis a serem discutidas. O mercado futuro de CBios, por exemplo, está em pauta desde 2022, com bancos e a Bolsa de Valores Brasileira (B3) participando de fóruns relacionados ao tema. A consultoria hEDGEpoint, inclusive, recentemente destacou que essa negociação poderia reduzir as oscilações dos preços.

Também precisam ser levadas em conta, a questão da fungibilidade do CBio com outros mercados de carbono e as dificuldades na rastreabilidade de grãos, matéria-prima das usinas de biodiesel e de etanol de milho.

Para falar deste cenário e das constantes flutuações no mercado de créditos de carbono, a especialista em setor sucroenergético do Santander, Mariangela Grola, estará presente na Conferência NovaCana 2023, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 4 e 5 de setembro. No evento, ela terá o tema “Mercado de CBios em transição”.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2023 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

Grola conversou com o NovaCana a respeito do mercado de CBios e trouxe seus vislumbres para os próximos anos em relação ao programa. A seguir, confira a seguir a entrevista completa:

As metas das distribuidoras referentes a 2022 e 2023 no RenovaBio foram alongadas. Você acredita ser possível cumprir com a meta deste ano, de 37,47 milhões de CBios, até março do ano que vem?
Sim. Na estimativa do Santander, 2023 vai ser um ano em que teremos geração suficiente para atender a meta de 37,47 milhões de CBios. Vemos, na nossa projeção, um período com uma oferta de créditos em aproximadamente 42 milhões. Esse volume, somado ao estoque, é suficiente para atender a meta de 2022 e a meta de 2023.

Então não há perigo de um déficit já em 2023?
Não. Vemos uma geração suficiente pela safra atual, com uma disponibilidade de cana próxima de 600 milhões de toneladas. Mesmo com a produção de açúcar maximizada, se tem uma emissão de CBios suficiente, realmente chegando a 42 milhões. Essa geração considera um período de janeiro de 2023 a março de 2024, então são 15 meses. Isso é superimportante porque se tem uma emissão média mensal de 3 milhões de CBios. Do total, 42 milhões de CBios, por volta de 9 milhões serão emitidos nos meses de janeiro, fevereiro e março de 2024.

E como será o quadro para 2024?
Para 2024, o cenário é de déficit. Nesse caso, tivemos uma antecipação, uma vez que a comprovação da meta voltou a ocorrer no último dia de dezembro. Vamos ter geração de abril a dezembro, ou seja, serão nove meses para atender uma meta de 50,81 milhões de CBios. Mesmo o limite mínimo previsto, de 41,31 milhões, será desafiador.

De que forma esse movimento poderá afetar os preços?
O cenário de 2024 é bastante apertado e o preço tende a subir. A grande questão é em relação a meta de 2024. Será proporcional ao tempo, ou não? Vai ter algum ajuste? As bandas das metas de dez anos serão mantidas? Esses são os pontos de interrogação para este momento. O ideal é que as metas nunca sejam alteradas, pois a previsibilidade é importante para que novos investimentos sejam feitos. Mas precisamos ter um mecanismo, uma forma de atendimento à meta quando a geração de CBios não for suficiente. Temos comentado que uma possível solução seria o atendimento via Cumprimento Financeiro, com o recurso adquirido sendo destinado a um fundo para investimento em pesquisa e tecnologia voltadas a descarbonização e biocombustíveis. Mas isso é algo que precisa ser construído.

Como o mercado pode se reajustar para voltar a cumprir anualmente as metas do programa?
Ou o governo ajusta a meta ou deveríamos ter uma safra em 2024 com produção maximizada de etanol; seria preciso chegar muito próximo da capacidade de fabricação. Mesmo assim, a geração dos CBios se dá na venda de etanol, então, não é a produção que vai implicar no número de emissão. A questão é: se só tivermos nove meses de geração, serão nove meses de venda para considerar. A oferta tende a ser menor do que esses 50,81 milhões de CBios da meta atual de 2024. Então, não é só ter uma safra voltada para o etanol, teria que vender muito biocombustível para gerar CBios suficiente para atender a meta mínima. A tendência é que, a cada ano, a gente tenha um cenário mais apertado pelo fato de as metas serem crescentes. Afinal, esta é uma política pública cujo objetivo é aumentar o uso de biocombustíveis na matriz. Nosso ponto no longo prazo é de onde vem a oferta adicional. Onde será feito investimento? Vamos ter ou não?

Os valores dos CBios já voltaram a ultrapassar a marca dos R$ 100. Você acredita que este é o novo patamar esperado para os créditos ou há chances de queda?
A curto prazo, vimos bater um patamar de R$ 138, no qual o apetite dos compradores de CBios, das distribuidoras de combustíveis, reduziu e então o preço voltou para R$ 125, mas a tendência a médio e longo prazos é de crescimento. Esse crescimento não vai ser uma curva constante; em alguns momentos teremos um pouco de redução de apetite mesmo, faz parte, mas a nossa visão é de que os preços continuem subindo no longo prazo, com algumas realizações pontuais quando as distribuidoras estiverem com seus volumes do mês já comprados ou quando sentirem que chegou em um patamar de preço que permitiria uma desaceleração. Mas a nossa visão é de preço para cima, com alguma volatilidade, como faz parte de todo mercado.

Qual é a sua visão em relação ao mercado futuro de CBios?
O mercado futuro de CBios está sendo construído, mas depende de várias evoluções que ainda não aconteceram. Existem hoje algumas iniciativas nos balcões de CBios, como aqui no Santander, para estruturar esta forma de negociação, mas é um plano de médio a longo prazo. A B3 tem evoluído e construiu um índice para CBios, tem dado alguns passos, mas nós não temos no radar o mercado de CBios na B3 de forma tão imediata assim.

“O mercado futuro de CBios dará uma maior previsibilidade aos preços e trará uma ferramenta importante para produtores travarem suas receitas e distribuidores travarem seus custos”, Mariangela Grola (Santander)

Já foi comentado sobre a possibilidade de fungibilidade do RenovaBio com outros mercados de carbono, com a criação do CBio+, por exemplo. Você acha que é possível, considerando as regras atuais do programa? Quais pontos poderiam ser aperfeiçoados para alcançar a fungibilidade?
O RenovaBio tem como base o mercado de combustível – temos um programa específico, com regras específicas. Essa fungibilidade para o setor sucroenergético é bastante complicada, porque acaba misturando diferentes fontes sem necessariamente ter as mesmas regras. Então, vemos com bastante cautela a questão da fungibilidade. Ela precisa ser muito bem-feita e estruturada para não destruir o que foi construído em cima do RenovaBio.

Na sua visão, quais seriam os principais pontos de atenção que envolvem o programa atualmente?
Vemos o RenovaBio como algo muito benéfico para investimentos no agronegócio, no setor sucroenergético, nas indústrias de etanol de milho e nas empresas de biodiesel. Um ponto que nos preocupa, no curto prazo, é a política energética do novo governo, com o modelo de precificação da Petrobras. O objetivo do RenovaBio, de uma forma geral, é aumentar a participação dos biocombustíveis na matriz energética e, para isso, é necessário aumentar a oferta. Mas, como um investidor ou um empresário pode investir em um ambiente de tanta incerteza? Quando conversamos com players e produtores, a questão da incerteza na política energética, na política de precificação dos combustíveis, coloca um peso na perspectiva do RenovaBio. Uma preocupação nossa é que temos metas e objetivos de longo prazo, mas como dar credibilidade, como criar um ambiente realmente de investimento? Se não tivermos isso, não vai dar certo. Acho que este é um momento delicado. Não vemos apetite para novos investimentos em biocombustíveis no curto prazo.


Esta e outras discussões a respeito do RenovaBio e o mercado de CBios acontecerão durante a Conferência NovaCana 2023. A programação completa está disponível no site do evento.


Giully Regina – NovaCana