O banco privado que detém a maior carteira de clientes do setor sucroenergético atualizou seus indicadores sobre as usinas
O Itaú BBA, banco privado que detém a maior carteira de clientes do setor sucroenergético, atualizou seus indicadores sobre as usinas e apresentou o tamanho do abismo que separa o setor produtivo.
O banco também arriscou suas previsões sobre como se dará o processo de recuperação, que se dividirá em três fases distintas.
Veja também:
- “Quadrante da morte” atualizado: 19 grupos
- Os calotes e a seletividade das empresas de crédito para as usinas
- Os 8 fatores chave para o sucesso dos grupos da “elite” canavieira
- As diferentes características entre as melhores e piores usinas
- Os três movimentos da recuperação
O Itaú BBA, banco privado que detém a maior carteira de clientes do setor sucroenergético, afirma que 24 de 65 grupos tiveram prejuízos com a venda de açúcar. Considerando as transações no mercado futuro para entrega em outubro último, foram enviadas para fora do Brasil, 2,735 milhões de toneladas de açúcar, com preço FOB Santos de R$ 861/ton, enquanto a maior parte dos grupos, 41, teve custos entre R$ 870/ton e R$ 1.100/ton.

Para a venda de etanol a situação é melhor, mas pouco. Nesta safra, para 55 grupos o preço médio do etanol hidratado cobriu os custos desembolsados, sendo que 11 sucroalcooleiras apenas empataram os custos, sem obter qualquer margem. Outras 11 entregaram o biocombustível com prejuízo.

Os 65 clientes do banco responderam pela moagem de 428 milhões de toneladas de cana na safra 2013/14, aproximadamente 72% de toda cana processada na região centro-sul. Entre os clienteso crescimento em volume de moagem na safra passada foi de 13%, já no atual ciclo a expectativa é de retração.
Para explicar a derrocada de uma indústria que quase dobrou sua capacidade produtiva na última década, o diretor do Itaú BBA, Alexandre Figliolino, confirma o inevitável, boa parte da tormenta do setor deriva da "total ausência de definição de políticas públicas".
No entanto, avalia que a deterioração da indústria canavieira foi agravada por questões climáticas e pela mecanização acelerada das atividades de colheita e plantio. Para completar, o executivo aponta para os próprios empresários. Segundo ele, a "má gestão e planejamento em uma parte significante do setor também tem seu papel de responsabilidade no tamanho da crise que vivemos".

Há 19 grupos no “quadrante da morte”
Na análise do banco, no quesito geração de caixa em relação à dívida líquida das empresas, há 19 grupos em situação de crédito mais deteriorada. Pela avaliação, que é quantitativa, as companhias com alta dívida e baixa geração de caixa respondem por moagem de 145 milhões de toneladas de cana.
Nessa perspectiva de análise, o banco classifica os grupos sucroenergéticos em quatro quadrantes para mostrar o quão heterogêneo é o setor. Há desde “empresas que estão em quadrantes considerados positivos do ponto de vista de crédito, com baixa dívida e alta geração de caixa, até o quadrante que chamamos de ‘quadrante da morte’, com alta dívida e baixa geração de caixa”, comenta Figliolino.

Sobre a situação de crédito, o processo atual de alta restrição para a maioria das usinas faz parte de um processo para filtrar as empresas do setor. “Sempre defendi que as instituições financeiras fossem extremamente criteriosas e profundas para que em situações de crise não se provocasse um pânico generalizado com situações de default porque o setor não é todo a mesma coisa. Na medida em que as instituições financeiras agem de forma responsável, elas acabam induzindo o setor de forma positiva, o que está acontecendo hoje é aumento enorme de seletividade”, analisa.
Um abismo separa melhores dos piores
A diferença entre as realidades das companhias fica ainda mais evidente quando o banco apresenta a média dos indicadores das cinco melhores companhias, ante as cinco piores.
No quesito receita por tonelada de cana (R$/ton) a diferença entre as primeiras e as últimas colocadas é de 33%.
Já a distância entre os melhores e os piores lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), um dos principais indicadores financeiros, chega a 83%, sendo que os grupos mais deteriorados obtêm somente R$ 8/ton.
Quando analisado o lucro antes dos juros e tributos (Ebit) o abismo entre os primeiros e os últimos colocados da amostra chega a 98%, com os piores registrando apenas R$ 1/ton. A diferença de custo também é muito acentuada e chega a 67%.

Figliolino indica como fatores chave para o sucesso dos grupos da “elite” canavieira, a boa gestão operacional financeira e de riscos, alavancagem financeira adequada, o elevado nível de governança e a existência de um plano de sucessão. Na produção pesam favoravelmente o domínio sobre o canavial, com elevados rendimentos, um mix de produção rico, com flexibilidade e cogeração, o crescimento planejado e a constante evolução tecnológica.
Análise qualitativa
Na análise qualitativa, além da dívida líquida e Ebitda, mais indicadores financeiros são avaliados assim como índices de desempenho agrícola e industrial e, ao invés de ser repartida em quadrantes, as companhias são avaliadas em quatro grupos, sendo os dois primeiros com lucro antes dos impostos (EBT) e os dois últimos com prejuízo.
O “grupo A” reúne os 14 melhores grupos econômicos da carteira do Itaú BBA, que respondem pela moagem de 144 milhões de toneladas. Em seguida o “grupo B” possui “mais fortalezas do que fragilidades” e concentra o maior número de empresas, 28, com processamento de 159 milhões de toneladas.
O grupo “C” abarca grupos com mais fragilidades do que fortalezas, mas que ainda assim podem superar a crise com alguma melhora conjuntural no cenário. O “grupo D” é o de situação mais crítica, que está em recuperação judicial ou em vias de entrar em recuperação.

As companhias mais bem posicionadas, grupos A e B, possuem menor custo de arrendamento da terra, entre R$ 18 e R$ 19, e maior índice de cana própria, de 71% a 77% (incluindo área própria e arrendada).

Na medição do açúcar recuperável por hectare (kg de ATR/ha) o indicador mostra uma diferença de 10% entre os primeiros e últimos colocados, sendo 11.392 kg de ATR/h, no melhor grupo. “As melhores têm um domínio maior sobre o canavial, elas dominam muito bem suas atividades agrícolas, um fator chave para o sucesso”.
O custo de Corte, Carregamento e Transporte (CCT) da cana também é 14% mais caro para as companhias do grupo D, enquanto as melhores empresas, dos grupos A e B, registraram CCTs entre R$ 24/ton e R$ 25/ton.
Chama atenção que os ganhos com a venda de energia são relevantes para os grupos com melhor e pior classificação da amostra, ambos tendo registrado 5% de participação da cogeração na receita global. Entre os grupos classificados com “B” e “C” o índice reduz para, respectivamente, 4% e 3%.
Já a margem Ebita das companhias com menor desempenho fica na faixa entre 5 e 10%. Além de ter um custo maior de arrendamento, as empresas do grupo D possuem menos cana própria, aproximadamente 56%. No caso das companhias em melhor situação financeiras, dos grupos A e B, o índice varia entre 71% e 77%.
O que esperar do futuro próximo?
Para o curto prazo as apostas do diretor do banco são modestas. Ele acredita na melhora gradual dos preços do açúcar em real e no aumento nos preços da gasolina.
A expectativa de alteração de cenário que pode ser mais perene, é a da volta da cobrança da Cide sobre a gasolina, medida considerada “provável” por Figliolino. Segundo avalia, esta seria uma forma do governo fazer o “reconhecimento das externalidades positivas do combustível renovável em relação ao fóssil”.
Essas medidas positivas, no entanto, não serão suficientes para a recuperação de um setor em que mais de 60 unidades produtoras foram fechadas em apenas quatro anos. “Regras mais previsíveis são imprescindíveis para o retorno do investimento”.
Mas a almejada recuperação de competitividade do etanol em relação à gasolina deve vir de outra via. Na opinião do executivo, “sem dúvida, será através da tecnologia, sobretudo as adotadas nas atividades agrícolas, que o etanol irá recuperar a sua competitividade em relação à gasolina”.
Os três movimentos da recuperação
Quando o setor começar a retomar o fôlego e recuperar o ânimo para investir são esperadas três etapas de recuperação. O executivo afirma que o primeiro movimento será realizado nas unidades já existentes que passarão por pequenas ampliações e otimização de suas instalações. Dessa forma, as usinas devem aliar “algum crescimento horizontal com crescimento vertical”, com produtos considerados secundários se tornando mais relevante.
A avaliação é que o crescimento inicial estará focado na “cogeração e outros agregadores de valor que aumentem a competitividade das empresas em relação aos produtos principais, açúcar e etanol".
A energia gerada a partir do bagaço já vem ganhando mais espaço na geração de receita das usinas e foi destacada. Apesar do crescimento crescente nos últimos anos, a bioeletricidade apresenta um desempenho ainda aquém de seu potencial, segundo o Figliolino. Ele analisa que o crescimento na geração de bioeletricidade, com aumentos acima de 20% nas duas safras passadas, ainda é resultado de leilões realizados na década anterior.
Para este ano, a oferta estimada é próxima a 2.000 MW médios, mas o diretor do banco afirma que se houvessem políticas adequadas para a produção de energia, este número já poderia ser quase três vezes maior. “Teríamos um potencial, se fosse usada na plenitude a oferta de bagaço, de injetar 5.570 MW médios, que correspondem a aproximadamente 10% do consumo médio brasileiro”, afirmou.
Segundo ele os investimentos em cogeração poderão se acelerar com a revisão de dois aspectos. Primeiro, se forem realizados leilões de energia por região e por fonte e, segundo, se o preço teto for elevado, iniciando em R$200/MWh. Esse preço mínimo considerado atrativo já será praticado no próximo certame.
Na sequência aos investimentos incrementais, a recuperação se dará pela seletividade em um setor ainda marcado por uma enorme heterogeneidade. Figliolino considera que “um movimento de consolidação significante é previsível na medida em que há uma enorme disparidade de resultados e nível de endividamento no setor”. Nesse processo de fusão e aquisição, avalia, empresas bem estruturadas do ponto de vista operacional e com capacidade de alavancagem financeira irão absorver as que estiverem em dificuldade, desde que ofereçam um bom ganho de sinergias.
O terceiro momento será marcado pela volta do capital estrangeiro. No entanto, diferente do que ocorreu no passado recente, quando investidores internacionais apostaram em levar sozinhos uma indústria com diversas peculiaridaddes locais, dessa vez os estrangeiros não devem dispensar a expertise nacional.
“Novos entrantes, basicamente investidores estrangeiros financeiros/estratégicos podem adentrar ao setor fazendo parcerias com grupos já estabelecidos”, prevê.
Amanda SchArr - NovaCana

