Especialistas detalham perspectiva sobre estímulo de acesso a crédito democratizado e afirmam que setor sucroenergético está preparado para encarar desafios
Iniciado no ano passado, o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) é outra forma de captação de recursos financeiros no agronegócio – além das debêntures e dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), por exemplo. Segundo o sócio fundador da Vectis, Alexandre Aoude, este mercado já chegou a R$ 5 bilhões emitidos, sendo que 115 mil pessoas físicas já fizeram investimentos.
“Por um lado, isso cria o que chamamos de democratização do investimento e, por outro, acesso aos investidores a um setor. O agro até tinha os CRAs, mas, para chegar no investidor final, o Fiagro tem sido crucial”, destaca.
Assim, para Aoude, este mercado deve continuar crescendo. “Nesse ano, tivemos taxas de juros muito altas, o que afugenta o investidor. Mesmo assim, já conseguimos colocar R$ 5 bilhões nessa indústria”, pondera.
As informações foram trazidas durante um debate sobre financiamentos e mercado de capitais ocorrido na 22ª Conferência Datagro.
Segundo o sócio da Vectis, a maior parte desses fundos são listados em bolsa, então, eles são considerados perenes. “Como os fundos não têm resgate, eles vão crescendo ao longo do tempo. À medida que as pessoas tenham conforto com o setor, vai desenvolver mais e mais”, completa.
Aoude expressa que esses fundos também permitem ter diversificação de risco de clima, de setor e de cultura, por exemplo. Como considera que, em relação ao PIB, o agronegócio é muito pouco representativo no mercado de capitais brasileiro, o executivo visualiza um ambiente de “ganha-ganha” para a economia, com o setor tendo mais acesso a crédito de longo prazo.
“Também estimula mais necessidade de governança [pelas empresas], perenidade de recurso e prazos mais extensos nas operações”, expressa o sócio da Vectis.
Confira, na versão restrita aos assinantes do NovaCana, mais detalhes sobre o acesso ao mercado de capitais, conforme análises de especialistas.
Iniciado no ano passado, o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro) é outra forma de captação de recursos financeiros no agronegócio – além das debêntures e dos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), por exemplo. Segundo o sócio fundador da Vectis, Alexandre Aoude, este mercado já chegou a R$ 5 bilhões emitidos, sendo que 115 mil pessoas físicas já fizeram investimentos.
“Por um lado, isso cria o que chamamos de democratização do investimento e, por outro, acesso aos investidores a um setor. O agro até tinha os CRAs, mas, para chegar no investidor final, o Fiagro tem sido crucial”, destaca.
Assim, para Aoude, este mercado deve continuar crescendo. “Nesse ano, tivemos taxas de juros muito altas, o que afugenta o investidor. Mesmo assim, já conseguimos colocar R$ 5 bilhões nessa indústria”, pondera.
As informações foram trazidas durante um debate sobre financiamentos e mercado de capitais ocorrido na 22ª Conferência Datagro.
Segundo o sócio da Vectis, a maior parte desses fundos são listados em bolsa, então, eles são considerados perenes. “Como os fundos não têm resgate, eles vão crescendo ao longo do tempo. À medida que as pessoas tenham conforto com o setor, vai desenvolver mais e mais”, completa.
Aoude expressa que esses fundos também permitem ter diversificação de risco de clima, de setor e de cultura, por exemplo. Como considera que, em relação ao PIB, o agronegócio é muito pouco representativo no mercado de capitais brasileiro, o executivo visualiza um ambiente de “ganha-ganha” para a economia, com o setor tendo mais acesso a crédito de longo prazo.
“Também estimula mais necessidade de governança [pelas empresas], perenidade de recurso e prazos mais extensos nas operações”, expressa o sócio da Vectis.
Estímulo à diversificação
Com a entrada do Fiagro, várias empresas que talvez não teriam acesso ao mercado começam a ter pela necessidade de diversificação e pela governança imposta por essas empresas. “Até agora, tem sido um sucesso absoluto e esperamos que a taxa de juros caia para as pessoas terem mais apetite para o produto”, completa Aoude.
O gerente de agronegócio do Itaú BBA, Guilherme Bellotti de Melo, visualiza que a diversificação de fontes de financiamento é saudável para as sucroenergéticas. Além disso, assim como Aoude, também vê que o movimento estimula a governança e a gestão de risco para que haja um relacionamento estável e de longo prazo.
“Os Fiagros entram para fazer coro à necessidade de melhora de gestão. Temos excelência de maneira geral no manejo agrícola e temos o mesmo nível de excelência no escritório”, completa.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que já participa de debêntures, quer levar este movimento para o Fiagro por meio de aquisições de cotas. Um dos objetivos seria tentar fazer com que os recursos de mercados de capitais tivessem um prazo mais longo para investimentos.
“Estamos mudando um pouco a regra interna para aplicar o mesmo que aportamos em debêntures no Fiagro. Mas queremos entender os perfis, temos que aprender um pouco”, explica o chefe de departamento do complexo agroalimentar e biocombustíveis do banco, Mauro Mattoso, que segue: “Temos bastante interesse, a partir do ano que vem, de fazer algumas aquisições de cotas para buscar ajudar o mercado”.
Até mesmo para a área de seguradoras o Fiagro pode ser benéfico. Conforme a cofundadora e CEO Agrymet, Bárbara Sentelhas, assim como o movimento dos fundos de investimentos busca trazer os pequenos empresários, o caminho dos seguros também é esse. “Dá para segurar a produtividade de forma rentável”, expressa.
Mas Sentelhas destaca que, quando o produtor está em condição favorável, o maior acesso ao crédito não é uma prioridade. “Quando se fala em mercado financeiro, o profissional sabe que precisa desse investimento para organizar a operação, mas o seguro nunca está na mesma linha. Agora, as condições adversas talvez façam o produtor olhar o seguro como uma linha do custo de produção”, completa.
Capital para fornecedores de cana
Durante o evento, os debatedores também comentaram sobre a garantia de financiamento dada pelo BNDES a cerca de 50 fornecedores de cana-de-açúcar da usina Coruripe, em agosto, ao longo de cinco anos. A estruturação da operação foi coordenada pelo Itaú BBA, com apoio da Vectis e da Datagro. O banco de desenvolvimento foi garantidor da emissão de CRA de R$ 156,4 milhões, por meio do produto BNDES Garantia.
Conforme a sócia da Datagro Financial, Carolina Troster, houve muito aprendizado no processo: “Vimos que não é fácil, mas estudamos como tornar esse processo mais célere porque sabemos que o fornecedor em si é quem demanda recurso”. Ela também acredita que a demanda por esse tipo de operação é muito alta, então, trata-se de uma oportunidade a ser aproveitada.
“A operação da Coruripe foi um sucesso. É difícil ser pioneiro, pois o Brasil penaliza um pouco quem faz a primeira operação por conta da novidade”, Alexandre Aoude (Vectis)
Segundo Mattoso, essa foi a primeira operação que o banco de desenvolvimento fez com captação via mercado de capitais para o setor sucroenergético. Assim, ele explica que foi uma tentativa para atingir o pequeno produtor, indo não somente por meio dos agentes financeiros.
“Há uma parceria com os bancos comerciais que têm acesso aos recursos do BNDES que não tem gestão bancária, mas acaba havendo uma dificuldade de acessar o pequeno produtor. Uma forma que os atingimos é por meio do Plano Safra, do governo federal”, destaca Mattoso.
Ele complementa que, como pode haver uma redução dos recursos, os interessados precisam se preparar com alternativas. “O setor está crescendo muito mais com o aumento dos recursos, o que é bom. Estamos pensando em instrumentos para facilitar o contato do pequeno produtor com o mercado de capitais”, afirma.
Ainda que haja uma quantidade considerável de emissões de CRAs, a grande maioria das operações são corporativas, com as próprias empresas emitindo os seus certificados. “Esses CRAs mais pulverizados tem uma quantidade muito menor. Cerca de 85% são certificados com corporativos, 15% são pulverizados”, comenta.
Mattoso também crê que a análise de risco de crédito pelo mercado é mais bem desenvolvida para o mercado corporativo do que para o pulverizado.
O chefe do departamento diz ainda que o objetivo é estimular esta área ao fazer o contato entre o mercado de capitais e os pequenos produtores individuais sem a necessidade de desembolsar recursos.
“No longo prazo, se fizermos mais operações e elas não derem problema, pode ser que o mercado comece a acreditar mais nesse tipo de negociação e aí, talvez, o BNDES não precise mais participar”, explica Mattoso.
A intenção é dar esse sinal ao mercado, assumindo o risco para que, futuramente, isso seja feito diretamente. “A estruturação de um CRA pulverizado dá muito mais trabalho, mas nós estamos tentando entender e tornar isso mais prático e rápido”, complementa.
Boas perspectivas
Mattoso ainda afirma que o BNDES busca sempre enxergar “mais adiante”: “Em 2000, olhamos para a cogeração e o setor caminhou nessa direção; em 2010, para mudanças de variedade de cana, inovação e investimento em E2G. Hoje, temos o CTC crescendo muito e a Raízen começando a mostrar resultados com E2G”.
Atualmente, o banco de desenvolvimento está atento ao biogás. “É um resíduo e queremos que o setor crie cada vez mais receita a partir de um mesmo ativo”, destaca.
A intenção do BNDES é buscar contatos para trazer o mercado de capitais para dentro do setor. Com isso, o banco espera que, em 2023, com o programa mais estabilizado e a equipe mais bem preparada, também possa desenvolver essa área. “Se tem algo que funciona muito no Brasil e que se desenvolve é o agro”, completa.
Melo, do Itaú BBA, diz que a sua visão para o agronegócio como um todo é “positiva”, pois há um nível de competitividade “muito grande”.
“Seja pelas próprias condições edafoclimáticas ou pelo ímpeto empreendedor de produtores e acionistas, temos um lugar na produção e exportação global difícil de ser batida”, detalha o gerente. Mas ele pondera que 2023 deve ser um ano mais desafiador em termos globais, com possibilidade de recessão ganhando mais tração, além de uma desaceleração da atividade econômica que atinge commodities mais elásticas à renda.
Aoude, da Vectis, reitera que será um ano desafiador no cenário global, mas que o Brasil tem uma vocação no setor agrícola, algo que o diferencia do resto do mundo. “Por mais que o ano seja difícil, vamos ter o setor sendo bastante alimentado pelos mercados para fazer o país se destacar”, completa.
Para ele, é possível que 2023 entre em um cenário de círculo virtuoso de curto a médio prazo. O motivo seria a combinação de mercado de capitais com bancos de desenvolvimento, novas empresas de seguro e empresas já existentes. “Acho que o setor está mais robusto e o acesso ao capital cria esse dinamismo todo, fica multiplicado”, diz.
Melo completa: “De maneira geral, esperamos um ano bastante bom. Nos últimos dois ou três anos, tivemos muito boa margem e geração de caixa, incluindo o setor sucroenergético, apesar da quebra que tivemos no último ano”.
O gerente do Itaú BBA destaca que, em 2021/22, a alavancagem foi a menor desde 2013/14. Portanto, ainda que o cenário seja desafiador, as empresas estão em melhor posição de enfrentar o que vier pela frente.
Ele também enxerga que o setor privado tem buscado entender mais as sucroenergéticas e seu funcionamento em ciclos. “Entender isso faz os bancos participarem mais e aumentarem o envolvimento na necessidade de financiamento do setor”, explica.
Ainda assim, Melo destaca que os custos têm crescido nos últimos anos e, em 2022/23, subiram de forma abrupta, aumentando a necessidade de capital de giro das usinas. “Isso faz com que a fonte de recursos vinda de funding subsidiado acabe não sendo suficiente para atender todo o dinamismo do setor, o que abriu espaços para os bancos privados entrarem no segmento”, complementa.
Somente 1% segurado
Segundo a cofundadora e CEO Agrymet, Bárbara Sentelhas, a representatividade do seguro agrícola no setor de cana é de somente 1%. No Brasil como um todo, a fatia é de 20%, sendo grande parte para o mercado de grãos.
“É interessante considerar o seguro paramétrico [que utiliza como referência parâmetros climáticos de cada região e as necessidades pluviométricas da cultura a ser assegurada] como uma ferramenta de gestão de risco. Eu levanto a bandeira do clima, de como ele é um risco muito grande de mercado”, destaca.
“O seguro é uma garantia em condições extremas. O mercado de seguradoras teve R$ 11 bilhões de perdas por conta das condições climáticas”, Bárbara Sentelhas (Agrymetric)
Ela complementa que o clima é responsável por 50% a 80% da construção da produtividade no campo e que este rendimento também é sinônimo de resultado financeiro. “É preciso entender como o clima interfere e proteger a produção dessas condições climáticas”, reitera.
Para ela, a análise de seguro para o setor agrícola ultrapassa a medição do volume de chuva, mas é preciso ter uma ferramenta customizável para o setor de cana para entender como produzir mais ou reduzir perdas.
“Existem estudos que mostram que a cada 100 milímetros de déficit hídrico, existe uma perda de 12 a 13 toneladas de cana por hectare. Isso impacta todo o resto: o acesso ao mercado de financiamentos, ao mercado de capitais”, completa.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana