Devido à crise nos preços e na demanda, o banco de investimentos acredita em piora nas receitas da Adecoagro e Cosan em 2020, mas assume posição neutra para a São Martinho
O setor de açúcar e etanol deve apresentar resultados pouco animadores no curto prazo, especialmente em comparação com outros segmentos do agronegócio. A perspectiva, presente em relatório do BTG Pactual, leva em consideração especialmente o cenário criado pela pandemia de covid-19 e as recomendações de isolamento social que afetam o consumo e os preços dos combustíveis em todo o mundo.
“Devido à pouca visibilidade em relação à duração dos impactos do covid-19 sobre o consumo de combustível e à queda nos preços do petróleo, acreditamos que o setor de açúcar e etanol oferece uma proposta de valor menos atraente se comparado a outros produtos agrícolas, como grãos e, até certo ponto, algodão”, afirma.
As projeções do banco, desta forma, apontam para uma maior produção de açúcar por parte das usinas brasileiras. Porém este mercado também pode ser afetado. “Nossa expectativa é que, sozinho, o Brasil consiga transformar o mercado de açúcar em superavitário”, complementa.
Por conta disso, o relatório também traz uma perspectiva de queda para os resultados financeiros de Adecoagro e Cosan, controladora da Raízen. Já a perspectiva em relação à São Martinho é tida como neutra pelo banco. Além disso, o BTG apresenta indicadores que permitem a realização de um comparativo da saúde financeira e do desempenho operacional das três companhias.
No texto completo, veja gráficos com histórico dos resultados das sucroenergéticas e projeções até 2022:
- Receitas e custos
- Ebitda e margem Ebitda
- Lucro líquido ajustado
- Dívidas de curto e longo prazo
- Dívida líquida e dívida total em relação ao Ebitda
- Margem operacional
- Margem de lucro
- Relação entre Ebitda e lucro
O setor de açúcar e etanol deve apresentar resultados pouco animadores no curto prazo, especialmente em comparação com outros segmentos do agronegócio. A perspectiva, presente em relatório do BTG Pactual, leva em consideração especialmente o cenário criado pela pandemia de covid-19 e as recomendações de isolamento social que afetam o consumo e os preços dos combustíveis em todo o mundo.
“Devido à pouca visibilidade em relação à duração dos impactos do covid-19 sobre o consumo de combustível e à queda nos preços do petróleo, acreditamos que o setor de açúcar e etanol oferece uma proposta de valor menos atraente se comparado a outros produtos agrícolas, como grãos e, até certo ponto, algodão”, afirma.
As projeções do banco, desta forma, apontam para uma maior produção de açúcar por parte das usinas brasileiras. Porém este mercado também pode ser afetado. “Nossa expectativa é que, sozinho, o Brasil consiga transformar o mercado de açúcar em superavitário”, complementa.
Por conta disso, o relatório também traz uma perspectiva de queda para os resultados financeiros de Adecoagro e Cosan, controladora da Raízen. Já a perspectiva em relação à São Martinho é tida como neutra pelo banco.
Adecoagro: impactos já em 2020
Ao menos por enquanto, a Adecoagro é o único dos grandes grupos do setor sucroenergético a ter abertamente aplicado medidas de contenção de gastos por conta da pandemia. Em abril, a companhia anunciou que suspendeu, de forma temporária, os contratos de trabalho de uma parcela de seus colaboradores.
Segundo a empresa, a decisão afetou um número relativamente pequeno do quadro de funcionários das duas usinas do grupo em Mato Grosso do Sul. Além disso, não houve cortes na unidade em Belo Monte (MG) e nem paralisação das atividades nas usinas.
No relatório do BTG, a projeção é que as receitas da companhia no ano fiscal 2020 tenham uma queda de quase 10% ante o desempenho do ano anterior, chegando a US$ 804 milhões. Os custos da Adecoagro também devem diminuir no período, mas a uma velocidade menor, de 2,4%. Com isso, o desempenho operacional da companhia deve piorar.
O quadro se reflete diretamente no Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que tem uma queda prevista de 23,3% em 2020. Ainda assim, o resultado será positivo em US$ 234 milhões. Para os anos seguintes, a perspectiva é de recuperação – ainda que os resultados sigam abaixo do registrado em 2019 – com US$ 244 milhões em 2021 e US$ 278 milhões em 2022.

Além disso, a perspectiva do BTG é que a Adecoagro atinja um lucro líquido ajustado de US$ 3 milhões – um resultado melhor que o desempenho nulo de 2019 e que o prejuízo de US$ 28 milhões visto em 2018. Para 2021 e 2022, a trajetória deve ser de crescimento, com lucros líquidos ajustados projetados em US$ 17 milhões e US$ 34 milhões, respectivamente.
As dívidas da companhia, por sua vez, devem se manter em um patamar estável. A projeção do BTG Pactual é que os débitos de curto prazo permaneçam em torno de US$ 188 milhões ao longo dos próximos três anos, enquanto as dívidas com prazos superiores somam cerca de US$ 780 milhões.
Cosan: recuperação rápida
Além de atuar no setor de açúcar e etanol com a Raízen Energia, a Cosan também é controladora de empresas no segmento de distribuição de combustíveis (Raízen Combustíveis), gás e energia (Compass) e lubrificantes (Moove). Com a queda nos preços internacionais do petróleo, diversos desses negócios devem ser afetados.
Em webinar com investidores realizado em abril, o diretor-presidente da Cosan, Luis Guimarães, assegurou que a Raízen tem liquidez suficiente para lidar com a crise, estando bem posicionada para o momento de retomada do mercado. De acordo com o executivo, o atual cenário é, sim, difícil para as sucroenergéticas, mas ele deve afetar com mais força as empresas que não adotam políticas de hedge e não possuem um gerenciamento de risco bem estruturado, o que não seria o caso da Raízen.
No relatório do BTG, a projeção para o ano fiscal 2020 envolve uma queda de receita de 7,5% ante 2019, chegando a R$ 67,49 bilhões. Entretanto, os custos devem cair um pouco mais, 7,9%, permitindo que a companhia mantenha seu desempenho operacional em ordem.
Ainda assim, a estimativa do banco é que ocorra uma queda de 12,6% no Ebitda da companhia em 2020, chegando a R$ 6,27 bilhões. A recuperação deve acontecer já no ano seguinte, com um crescimento de 12,6%, para R$ 7,07 milhões. Em 2022, por sua vez, a projeção aponta para um novo crescimento no Ebitda, desta vez de 6%, alcançando o melhor resultado da série histórica com R$ 7,49 bilhões.

Esta perspectiva se reflete nos números apresentados para o lucro líquido ajustado. A projeção do BTG para 2020 é de R$ 1,58 bilhões, o que caracteriza uma queda de 34,8% em comparação com o ano anterior. Para 2021, porém, o crescimento é estimado em 61,7%, com o lucro líquido ajustado chegando a R$ 2,56 bilhões. Já em 2022, após um crescimento anual de 8,5%, o resultado deve ser de R$ 2,78 bilhões.
Em relação às dívidas da companhia, o banco contabiliza apenas débitos com vencimento superior a 12 meses. Para este ano, a perspectiva é de um aumento de 1,6% na posição das dívidas, alcançando R$ 24,91 bilhões. Para 2021 e 2022, a perspectiva é de aumentos anuais de 0,3%.
São Martinho: queda só em 2021
Desde o começo da crise na demanda, a São Martinho demonstrou um posicionamento firme: para a companhia, o momento é de mudar o mix de produção, com maior direcionamento da cana para a produção de açúcar. Segundo o presidente do grupo, Fábio Venturelli, a São Martinho já vinha apostando na forte demanda pela commodity no mercado internacional, tendo contratos do produto negociados há um ano e preços garantidos.
Nas projeções do BTG Pactual para a companhia, a perspectiva para 2020 é de um crescimento anual de 14,5% nas receitas e uma queda de 10,4% nos custos. Com isso, os valores passam a ser de R$ 3,85 bilhões e R$ 1,45 bilhão.
Porém o resultado se inverte em 2021, com uma queda de 6% nas receitas e um aumento de 17,5% nos custos. Já em 2022, tanto receitas quanto custos devem apresentar crescimentos superiores a 10%.

A perspectiva de uma melhora em 2020, com uma subsequente piora nos resultados em 2021, se repete nas projeções para o Ebitda e para o lucro líquido ajustado da empresa.
No primeiro caso, o aumento deve ser de 11,4% em 2020, chegando a R$ 1,83 bilhão – para o ano seguinte, a queda projetada é de 8,3%, com o desempenho da companhia sendo calculado em R$ 1,68 bilhão. Um acréscimo de 10,7% em 2022, porém, recoloca a São Martinho nos patamares anteriores, com um Ebitda de R$ 1,86 bilhão.
Em relação ao lucro líquido ajustado, a projeção do BTG é de um resultado de R$ 409 milhões em 2020, o equivalente a um crescimento de 30,3% ante 2019. No ano seguinte, a queda deve ser de 23,7%, levando o montante a R$ 312 milhões. Já para 2022, o resultado foi estimado em R$ 368 milhões.
Por fim, assim como aconteceu com a Adecoagro, o banco estima uma estabilidade no endividamento da companhia. A projeção do BTG Pactual é que os débitos de curto prazo fiquem em torno de R$ 644 milhões ao longo dos próximos três anos. As dívidas com prazo superior, por sua vez, devem manter uma posição de R$ 4,05 bilhões.
Desempenho lado a lado
Como as empresas analisadas pelo banco possuem tamanhos diferentes, o uso de indicadores é uma forma eficiente de comparar a saúde financeira e o desempenho operacional das companhias.
Um desses indicadores é a margem Ebitda, calculada com base no Ebitda e na receita líquida das empresas. Segundo o BTG Pactual, Cosan e Adecoagro devem registrar queda em 2020 na comparação com 2019, indicando uma piora na eficiência operacional das duas sucroenergéticas.
Para a Cosan, a margem Ebitda deve ir de 9,8% em 2019 para 9,3% em 2020. A partir de 2021, a empresa deve retomar o patamar visto no ano passado. Já a Adecoagro deve registrar uma queda nos próximos dois anos, indo de 33% em 2019 para 29,1% em 2020 e 28,7% em 2021. A projeção é a que a empresa registre uma margem de 31% em 2022.
Por sua vez, a São Martinho deve apresentar alta em 2020, indo de 48,9% para 53,6%. Entretanto, os dois anos seguintes devem ser de queda, com 52,8% em 2021 e 52% em 2022. Ainda assim, a companhia apresenta números superiores em relação a Adecoagro e Cosan.

Outras margens apresentadas pelo BTG Pactual envolvem o desempenho operacional das empresas e o lucro. Em ambos os casos, a São Martinho apresentou resultados maiores que os registrados por Adecoagro e Cosan. A projeção do banco também envolve uma melhora nos indicadores em 2020, com uma subsequente queda em 2021.
No caso da Cosan, o banco estima uma queda nestes indicadores já em 2020, com uma retomada da estratégia de crescimentos em 2021 – inclusive com uma margem de lucro superior às vistas anteriormente.
Para a Adecoagro, porém, a recuperação da margem operacional deve ser mais lenta, enquanto a margem de lucro não deve apresentar quedas nos próximos anos. Segundo o BTG, a companhia registrou um resultado negativo em 0,1% em 2019. Nos próximos três anos, a companhia deve registrar, consecutivamente, 0,4%, 2% e 3,8% e, desta forma, “ultrapassar” por 0,1 ponto percentual o resultado da Cosan.
Além disso, o BTG também analisou o endividamento das companhias em relação ao Ebitda anual. Em 2020, a perspectiva é que a Adecoagro registre os indicadores mais altos, com a dívida líquida representando 2,9 vezes o valor do Ebitda. Em relação à dívida total, este número sobe para 4,1 vezes. Ainda assim, a projeção estima uma redução nestes indicadores em 2021 e 2022.
Já o menor endividamento em relação ao Ebitda é o da São Martinho: 1,1 vez quando se considera o valor líquido e 2 vezes quando se trata do montante total. No entanto, a perspectiva é que o primeiro valor permaneça estável em 2021, com um crescimento do segundo para 2,5 vezes. Como o BTG Pactual estima uma estabilidade no valor das dívidas, o resultado é derivado de uma piora no desempenho operacional da companhia no período.
Renata Bossle – NovaCana