Embora possam existir conflitos entre as indústrias do petróleo e dos biocombustíveis, existe na verdade uma crescente dependência e perspectivas de vantagens recíprocas com a evolução dos mercados energéticosLuiz A. Horta Nogueira, assina regularmente uma coluna exclusiva para o portal NovaCana. Horta Nogueira é autor do livro "Bioetanol de Cana-de-açúcar", ex-diretor da ANP e consultor das Nações Unidas para temas energéticos.
A proximidade e interdependência entre a moderna indústria automobilística e a indústria de petróleo é tão grande que chegamos a imaginar que nasceram juntas. Não é bem assim.
A proximidade e interdependência entre a moderna indústria automobilística e a indústria de petróleo é tão grande que chegamos a imaginar que nasceram juntas. Não é bem assim. A indústria do petróleo surgiu a partir do desenvolvimento de técnicas de perfuração, extração e refino no final do século XIX, e visou inicialmente a produção de querosene de iluminação, as demais frações eram descartadas. Com a invenção da lâmpada elétrica, o querosene perdeu importância e cedeu lugar aos combustíveis para motores de combustão. A indústria automobilística, um pouco mais antiga, em seu início não tinha muito claro qual fonte de energia deveria adotar, no começo do século passado ainda disputavam a dianteira o acionamento elétrico e os motores a vapor e a combustão interna. Como não existiam os atuais combustíveis, Rudolf Diesel experimentou o óleo de amendoim em seus motores, enquanto Henry Ford produziu muitos Modelos T a etanol de milho. Apenas com o desenvolvimento da partida elétrica e do aumento da oferta e redução dos preços dos derivados de petróleo que os motores a gasolina e óleo diesel passaram a predominar e dominaram a tecnologia veicular.
Com o retorno dos biocombustíveis veiculares, agora em um marco de sustentabilidade, progressivamente substituindo os combustíveis fósseis, pode dar a impressão de que as indústrias do petróleo e dos biocombustíveis são necessariamente inimigas, disputando um mesmo consumidor. Embora possam existir conflitos, existe na verdade uma crescente dependência e perspectivas de vantagens recíprocas com a evolução dos mercados energéticos. Nas palavras elegantes do Prof. Szklo, da UFRJ, recorrendo à mitologia grega: para a indústria do petróleo, os biocombustíveis são como a famosa lança de Peleus, presente do centauro Quíron, que tanto era capaz de matar como de salvar e curar. De fato, os biocombustíveis são crescentemente relevantes para os combustíveis convencionais, pelo benefícios que podem trazer.
O primeiro benefício é a possibilidade de manter e mesmo expandir a oferta de combustíveis. A indústria do petróleo envolve todos os sistemas de armazenamento, transporte, distribuição e revenda; a inserção dos biocombustíveis altera apenas uma parte da produção, utilizando toda a cadeia logística já existente. Outro benefício importante é a possibilidade de atender às especificações de combustíveis cada dia mais apertadas, sem a necessidade de investimentos em unidades de refino. É conhecido o efeito antidetonante do etanol, melhorando a octanagem da gasolina sem utilizar aditivos ambientalmente reprovados, como o chumbo tetraetila ou o MTBE. Do mesmo modo, o biodiesel permite manter a lubricidade do diesel, comprometida pela redução dos teores de enxofre, imposta para melhorar a qualidade do ar em nossas cidades. E poderia ainda ser citado como benefício trazido pelos biocombustíveis a progressiva introdução do uso de recursos renováveis, capazes de estender a duração das reservas de energia fóssil e auxiliar na transição para um setor energético mais sustentável.
Uma evidência da percepção de que os biocombustíveis são crescentemente relevantes para a indústria do petróleo é o destaque que vêm ganhando no principal evento global das energias fósseis, o Congresso Mundial do Petróleo (World Petroleum Congress, WPC), que acontece a cada 3 anos, desde 1933, e reuniu 5.700 profissionais em sua vigésima edição em Doha, no Qatar. O próximo WPC será em Moscou, de 15 a 19 de junho de 2014 e já vem mobilizando interessados em todo o mundo. Na agenda desse encontro disputam espaço muitos assuntos relevantes, mas os biocombustíveis mais uma vez estarão presentes: uma sessão técnica será dedicada à sua tecnologia e uma mesa redonda vai abordar a sustentabilidade dos biocombustíveis. A chamada de trabalhos está aberta, os resumos devem ser enviados até 17 de setembro de 2013 (http://www.21wpc.com/index.php/call-for-papers), sendo importante a participação brasileira. E vale mesmo a pena ir, inclusive para ver como, cada vez mais, a indústria do petróleo e dos biocombustíveis caminham juntas.
Luiz A Horta Nogueira
UNIFEI, Itajubá MG
A proximidade e interdependência entre a moderna indústria automobilística e a indústria de petróleo é tão grande que chegamos a imaginar que nasceram juntas. Não é bem assim.
A proximidade e interdependência entre a moderna indústria automobilística e a indústria de petróleo é tão grande que chegamos a imaginar que nasceram juntas. Não é bem assim. A indústria do petróleo surgiu a partir do desenvolvimento de técnicas de perfuração, extração e refino no final do século XIX, e visou inicialmente a produção de querosene de iluminação, as demais frações eram descartadas. Com a invenção da lâmpada elétrica, o querosene perdeu importância e cedeu lugar aos combustíveis para motores de combustão. A indústria automobilística, um pouco mais antiga, em seu início não tinha muito claro qual fonte de energia deveria adotar, no começo do século passado ainda disputavam a dianteira o acionamento elétrico e os motores a vapor e a combustão interna. Como não existiam os atuais combustíveis, Rudolf Diesel experimentou o óleo de amendoim em seus motores, enquanto Henry Ford produziu muitos Modelos T a etanol de milho. Apenas com o desenvolvimento da partida elétrica e do aumento da oferta e redução dos preços dos derivados de petróleo que os motores a gasolina e óleo diesel passaram a predominar e dominaram a tecnologia veicular.
Com o retorno dos biocombustíveis veiculares, agora em um marco de sustentabilidade, progressivamente substituindo os combustíveis fósseis, pode dar a impressão de que as indústrias do petróleo e dos biocombustíveis são necessariamente inimigas, disputando um mesmo consumidor. Embora possam existir conflitos, existe na verdade uma crescente dependência e perspectivas de vantagens recíprocas com a evolução dos mercados energéticos. Nas palavras elegantes do Prof. Szklo, da UFRJ, recorrendo à mitologia grega: para a indústria do petróleo, os biocombustíveis são como a famosa lança de Peleus, presente do centauro Quíron, que tanto era capaz de matar como de salvar e curar. De fato, os biocombustíveis são crescentemente relevantes para os combustíveis convencionais, pelo benefícios que podem trazer.
O primeiro benefício é a possibilidade de manter e mesmo expandir a oferta de combustíveis. A indústria do petróleo envolve todos os sistemas de armazenamento, transporte, distribuição e revenda; a inserção dos biocombustíveis altera apenas uma parte da produção, utilizando toda a cadeia logística já existente. Outro benefício importante é a possibilidade de atender às especificações de combustíveis cada dia mais apertadas, sem a necessidade de investimentos em unidades de refino. É conhecido o efeito antidetonante do etanol, melhorando a octanagem da gasolina sem utilizar aditivos ambientalmente reprovados, como o chumbo tetraetila ou o MTBE. Do mesmo modo, o biodiesel permite manter a lubricidade do diesel, comprometida pela redução dos teores de enxofre, imposta para melhorar a qualidade do ar em nossas cidades. E poderia ainda ser citado como benefício trazido pelos biocombustíveis a progressiva introdução do uso de recursos renováveis, capazes de estender a duração das reservas de energia fóssil e auxiliar na transição para um setor energético mais sustentável.
Uma evidência da percepção de que os biocombustíveis são crescentemente relevantes para a indústria do petróleo é o destaque que vêm ganhando no principal evento global das energias fósseis, o Congresso Mundial do Petróleo (World Petroleum Congress, WPC), que acontece a cada 3 anos, desde 1933, e reuniu 5.700 profissionais em sua vigésima edição em Doha, no Qatar. O próximo WPC será em Moscou, de 15 a 19 de junho de 2014 e já vem mobilizando interessados em todo o mundo. Na agenda desse encontro disputam espaço muitos assuntos relevantes, mas os biocombustíveis mais uma vez estarão presentes: uma sessão técnica será dedicada à sua tecnologia e uma mesa redonda vai abordar a sustentabilidade dos biocombustíveis. A chamada de trabalhos está aberta, os resumos devem ser enviados até 17 de setembro de 2013 (http://www.21wpc.com/index.php/call-for-papers), sendo importante a participação brasileira. E vale mesmo a pena ir, inclusive para ver como, cada vez mais, a indústria do petróleo e dos biocombustíveis caminham juntas.
Luiz A Horta Nogueira
UNIFEI, Itajubá MG
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