Dentre as sete rotas tecnológicas para o combustível de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês) autorizadas no Brasil, o setor sucroenergético tem condições de participar de quatro delas, seja por meio do etanol ou da biomassa, com o bagaço da cana.
Conforme um estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgado no início de junho, há registros de sete instalações produtoras de SAF em fase de planejamento na América do Sul, sendo quatro no Brasil – mas nenhuma vinculada ao setor de açúcar e etanol.
Juntas, essas unidades somam a capacidade de 1,2 milhão de toneladas ao ano. Especificamente, as plantas brasileiras com previsão de início de operação entre 2026 e 2029 representam 900 mil toneladas dessa capacidade.
Ainda conforme o estudo, este volume seria suficiente para atender às metas estabelecidas pelo Programa Bioquerosene de Aviação (ProBioQAV), que busca redução de emissões de 1% a 10% até 2037.
Contudo, elas não seriam suficientes para os objetivos estipulados pelo Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional (Corsia), que busca neutralidade de carbono até 2035. “Para o devido atendimento do programa, seria necessário que o Brasil ampliasse a capacidade produtiva de SAF nos próximos anos”, destaca o documento.
No âmbito global, a expectativa é que o consumo de SAF cresça e atinja 5,1 bilhões de litros ao ano até 2028, o que corresponderá a 60,7% da capacidade de oferta no mesmo período, no cenário principal das projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, da sigla em inglês). “Essa demanda equivaleria a, apenas, 1% do suprimento global de combustível necessário para a aviação”, complementa o documento.
Considerando os níveis de custos e de esforço tecnológico, o uso de açúcares e amidos para a produção de SAF apresentam gastos “relativamente elevados”, mas também menor esforço de conversão se comparado com biomassas lignocelulósicas (que inclui o bagaço de cana) e outros tipos de matérias-primas, como resíduos sólidos urbanos, gás de combustão e CO2, por exemplo.
Mesmo com diversas incertezas tecnológicas, de oferta e de procura pelo produto, as sucroenergéticas tem se preparado para atender a demanda de SAF e entrar neste mercado de diferentes maneiras.
A Satarem America divulgou interesse em construir uma planta do biocombustível sustentável a partir do uso de etanol; diversas companhias, como Inpasa e Adecoagro, receberam certificação internacional que qualifica o etanol que produzem para a fabricação de SAF; e a Raízen assinou um memorando de entendimentos com a SAFPAC, de Hong Kong, para viabilizar a produção de SAF na região Ásia-Pacífico.
Com um cenário promissor, mas ainda incerto, o SAF está na pauta das sucroenergéticas brasileiras. Por isso, a Conferência NovaCana trará o tema no durante o seu terceiro painel, dedicado a inovações no setor sucroenergético, incluindo biocombustíveis do futuro e soluções sustentáveis.
Dele, participarão o diretor da Abiogás, Tiago Santovito; o vice-presidente de açúcar, etanol e energia da Adecoagro, Renato Junqueira Santos Pereira; o diretor de estratégia e novos negócios da Copersucar, Daniel Valle; e o estrategista global de açúcar do Rabobank, Andy Duff.
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Recentemente, o NovaCana conversou com exclusividade com Duff, que é formado pela Universidade de Cambridge e atua como gerente do departamento de pesquisa e análise setorial do Rabobank, além de ser o especialista em açúcar e etanol da instituição.
O gerente não só tratou das incertezas e potenciais do setor sucroenergético em relação ao SAF, mas também sobre o desenvolvimento do biogás e do biometano e a abertura do mercado internacional para grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS) brasileiros, temas que também serão abordados durante a oitava edição da Conferência NovaCana.
Leia a entrevista completa a seguir.
Durante a edição de 2024 da Conferência NovaCana, você comentou que a demanda por SAF existe; a questão principal seria a incerteza da oferta, além de que seria impossível atingir as metas da Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) apenas com o uso de biocombustíveis para produção de SAF. Como ficou esta visão de lá para cá? Algo mudou?
Não, honestamente, a respeito de SAF é difícil apontar. Tem alguns projetos e o da Acelen, que é o que ganha mais destaque, ao que parece, está avançando. Mas em termos de investimento... Há grandes ambições, ou seja, tem projeção para um projeto de grande escala, mas do lado de etanol, pelo menos o que eu vi no âmbito público, ainda está demorando para algo sair. Isso não é surpresa porque sabemos que é preciso montar uma cadeia de suprimentos totalmente nova. Tem que envolver vários agentes, parceiros de tecnologia, compradores, distribuidoras de combustíveis. É uma coordenação de fatores. Não é fácil, especialmente falando da quantidade de dinheiro que a grande maioria das pessoas chutam que seja necessário para montar um projeto de escala minimamente eficiente. É difícil organizar tudo isso e ter um projeto robusto o suficiente para, só então, sair buscando financiamentos.
Como você visualizava que este mercado funcionaria?
Eu imagino que seria como uma coalização, ou seja, grandes players de vários elos do setor que reconhecem o potencial, mas reconhecem também a interdependência dos vários elos para o negócio decolar. Penso que esses agentes se conversam, mas é um projeto complexo e tem seus riscos. Outra coisa bem importante é que, entre setembro do ano passado, quando vocês fizeram o evento, e agora, o pano de fundo geopolítico mudou. Acho que, especialmente para qualquer projeto que cogita o mercado de exportação, é muito difícil acreditar que não haveria mais dúvidas a respeito de acesso aos mercados do que se tinha há um ano – com toda essa turbulência geopolítica, ninguém sabe exatamente onde vai terminar em termos de acesso. Há várias predições no comércio Internacional que não existiam há um ano. As pessoas ainda estão falando e estão animadas, porém, a construção de uma cadeia de fornecimento está demorando pelas razões que citei. Mas as exigências em termos de mistura obrigatória em várias partes do mundo não mudaram de lugar. Ou seja, talvez tenhamos uma contagem regressiva e vamos ver o que vai acontecer quando chegar o momento de começarem a respeitar as misturas obrigatórias.
Como você vê a questão das tarifas estadunidenses sobre o etanol brasileiro, em relação ao seu uso para produção de SAF no país americano? Qual será o impacto neste sentido?
Eu não sei se essas tarifas vão chegar ou se outras medidas implementadas pelos Estados Unidos poderiam ter o impacto de melhorar a competitividade do etanol brasileiro, que sempre ganha em termos de intensidade de carbono. É possível ver iniciativas nos Estados Unidos para mudar a competitividade relativa em relação à atratividade como matéria-prima. Se isso vai acontecer ou não, é difícil dizer, mas é claro que o mercado de combustível de aviação norte-americano é uma opção natural para o Brasil. O mercado é 16 vezes maior do que o nosso em termos de uso de combustível de aviação e há políticas implementadas para incentivar o uso de SAF. Confesso que não está claro para mim como a mudança de administração pode impactar o ambiente de negócio, considerando as várias políticas implementadas para incentivar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis. Tem um ponto de interrogação nisso que não existia com a administração prévia. O mercado dos Estados Unidos sempre foi visto como um ponto de venda pelo Brasil, que tem vocação enorme para produzir biocombustíveis, mas tem um mercado doméstico pequeno.
“Há uma dissonância dentro do país, que tem um mercado [de SAF] pequeno. Para ser competitivo, você precisa de uma escala grande”, Andy Duff (Rabobank)
Pensando tanto na produção de SAF no Brasil quanto na venda do etanol para produção externa: o ideal seria a exportação? Quais seriam os principais mercados?
Exportar é a resposta óbvia. Mas não são só os Estados Unidos que oferecem oportunidades. Os mesmos agentes que estão estudando de perto as possibilidades para um projeto, talvez estejam dedicando um pouco mais de tempo para olhar o mercado asiático, onde sabemos que ocorre uma falta de matéria-prima estrutural para o desenvolvimento de projetos locais. Talvez esses mercados se tornem mais interessantes. Isso não significa desistir totalmente dos Estados Unidos, mas ter um pouco mais de cautela a respeito de expectativas. Temos no horizonte, em 2027, uma mistura obrigatória para reduzir as essas emissões em 1%. A quantidade é pouca coisa. Seria uma tragédia se o Brasil tiver que importar para atender a essa meta, mas eu acho que ainda há tempo para o país ter uma produção suficiente para atender à meta doméstica. Não é que não existam projetos, mas tem uma demora natural quando falamos de tecnologia nova. O projeto da Geo [Biogas & Tech] com a Copersucar, por exemplo, tem como ponto de partida o biogás e o biometano. Honestamente, não sei se o cronograma é capaz de entregar algo até 2027 ou se eles estão olhando para anos subsequentes. Não temos ainda muita evidência de alguém que vá erguer uma planta de SAF e realmente contribuir com a produção.
“São poucos os produtores de etanol que não estão de olho no mercado de SAF como potencial; como um tipo de demanda adicional”, Andy Duff (Rabobank)
O Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), instituído pela Lei do Combustível do Futuro, também tem gerado alguns esforços governamentais em prol do biocombustível. Como você enxerga que o governo pode auxiliar para estímulo à produção e ao consumo do SAF?
Quando você estuda a legislação, nota que ela é muito ampla, mas é rasa. Falta muito detalhe na regulamentação, de mecanismos para funcionamento, fiscalização, etc. Então, eu entendo que é inevitável que, uma vez que a legislação sai, muito trabalho é deixado nas mesas dos funcionários públicos, nos ministérios, na ANP e essas pessoas estão trabalhando dia e noite para deixar tudo pronto para o primeiro dia de implementação da legislação. Para o SAF, [o início da meta] é 2027, mas para o biometano, isso já começa no ano que vem. Teve uma consulta pública e uma reunião bem recentemente e me impressionou muito o esforço que o Ministério [de Minas e Energia] fez para dar a chance para os agentes, vários elos da cadeia, comentarem sobre um rascunho da regulamentação. Eles apontaram dificuldades, percepções de fraquezas ou de melhorias. Acho que tudo isso é muito saudável, mas demora. Para ser honesto, eu não sei se estão seguindo o mesmo processo, não vi nada parecido com essa consulta pública para o SAF.
E quais são as consequências disso, ao seu ver?
Qualquer falta de clareza sobre aspectos regulatórios pode inibir uma decisão a respeito de investimento. Eu lembro do RenovaBio, das idas e vindas, de como a questão de tributação foi um problema, assim como as várias mudança de meta. No caso do biometano, parece que, de certa forma, já está todo mundo preparado. O biometano é uma tecnologia dominada, ou seja, ninguém tem as dúvidas a respeito, mas essas questões existem na tecnologia de SAF. Além disso, os investimentos [em biometano] cabem muito melhor dentro do orçamento de uma empresa. Em relação ao SAF, não é só o Brasil que está enfrentando dificuldades; é a mesma coisa na Europa, que tem sido muito exigente em termos de padrões. Mas, quando esses mandatos começarem a valer realmente, vamos ver se a oferta estará lá. Imagino que, se tiver falta, a precificação vai mostrar isso. Mas talvez seja tarde demais, pelo menos no curto prazo, para estimular a produção.
“Para o SAF, existem as dúvidas naturais a respeito de tecnologia, de tamanho de investimento, de acesso a mercados. Mas eu estou positivo. O entusiasmo ainda existe”, Andy Duff (Rabobank)
Quais são as forças do setor sucroenergético neste cenário?
O que é sempre muito importante nesse setor de açúcar e etanol é o quanto de flexibilidade e opcionalidade que o modelo de negócio traz. Então, já estamos falando de biometano, que tem seus próprios mercados e capacidade de substituir diesel dentro da usina. Se, por algum motivo, as vendas não se dão ou a precificação não é a esperada, ainda tem essa opção de substituir o diesel, que é um baita ganho para o setor em termos de custo e de redução de intensidade de carbono. Além disso, temos essa rota possível de biometano para SAF, que é uma possibilidade a ser explorada. Há, ainda, os combustíveis sustentáveis marítimos, que estão aparecendo. Ter sempre essa opcionalidade é uma característica do setor; acrescenta muito à robustez e à resiliência. Também existe bastante esperança e confiança nesses avanços. Talvez, esses novos mercados encontrem dificuldades, mas o setor tem a estrutura e o modelo de negócio para enfrentar obstáculos de uma maneira muito melhor do que indústrias que estão com apenas um produto e um modelo de negócio muito restrito.
Quais outros mercados internacionais podem ser interessantes para o setor de etanol do Brasil?
Eu fiquei muito focado na abertura do mercado de etanol e DDGS para a China; achei muito positivo e interessante, dado o desenvolvimento rápido do setor de etanol de milho. São produtos agrícolas do Brasil abrindo novos mercados. Isso tem sido um trabalho importante e relevante para o agro brasileiro, de acessar mais fontes para a demanda. Voltando para o assunto da geopolítica e de situações que podem atrapalhar o fechamento de negócios em certas partes do mundo, é mais importante do que nunca ter um acesso amplo a compradores dos nossos produtos. A guerra comercial, no momento, é entre os Estados Unidos e China. Os Estados Unidos são um grande exportador de DDG e DDGS no mundo. De certa forma, é muito oportuno ter a abertura de um mercado grande comprador de DDG, ou seja, há várias razões para as quais isso é um exemplo excelente de atividade estratégica. Em um mundo onde as tensões geopolíticas parecem que estão para ficar, isso é uma coisa boa para o agro brasileiro. Em algum momento, o mercado doméstico, se já não saturou, vai saturar. Então, esse acesso aos mercados externos seria cada vez mais importante, considerando que haverá mais expansão do setor.
Estas e outras análises a respeito de inovação no setor sucroenergético serão apresentadas durante a Conferência NovaCana 2025. A programação completa está disponível no site do evento.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana