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Uma análise do mercado global de etanol

etanol-sem-fronteira-240913Décio Gazzoni fala sobre as transformações significativas dos últimos anos no mercado mundial de etanol
NovaCana 13 min de leitura
Por Décio Luiz Gazzoni

O setor sucroenergético nacional já passou por diversas crises ao longo de sua trajetória. Entretanto, pelas perspectivas favoráveis antecipadas para esta década, e pela dimensão dos valores monetários envolvidos, provavelmente nenhuma se compara à crise do momento, apesar do ensaio de recuperação no período mais recente. Além das perturbações que ocorreram no Brasil, fatores incidentes em outros players do mercado provocaram um repaginamento do mercado e dos fluxos comerciais do bioetanol, em escala global.

Veja a seguir:
- Os oito principais fatores envolvidos nas mudanças do mercado
- Principais fluxos comerciais do etanol
- Turbulência no Brasil
- Altos e baixos nos EUA
- Reversão do cenário

Por Décio Gazzoni

O setor sucroenergético nacional já passou por diversas crises ao longo de sua trajetória. Entretanto, pelas perspectivas favoráveis antecipadas para esta década, e pela dimensão dos valores monetários envolvidos, provavelmente nenhuma se compara à crise do momento, apesar do ensaio de recuperação no período mais recente. Além das perturbações que ocorreram no Brasil, fatores incidentes em outros players do mercado provocaram um repaginamento do mercado e dos fluxos comerciais do bioetanol, em escala global.

Os principais fatores envolvidos nas mudanças do mercado são:

  • Política equivocada de compressão dos preços dos combustíveis fósseis no Brasil, que já dura cerca de uma década, e que estreitou o mercado de bioetanol hidratado;
  • Ocorrência de seca quando a cana precisava de chuva e de chuva quando havia necessidade de seca, reduzindo a produtividade das lavouras e da indústria no Brasil;
  • Sequência de eventos climáticos desfavoráveis nos EUA, culminando com a quebra da safra de milho devido à seca de 2012;
  • Clima de insegurança para investimentos no Brasil, levando a menores taxas de renovação de canaviais, consequentemente menor produtividade;
  • Suspensão de investimentos em novas áreas de cana e em novos complexos industriais no Brasil, pelo ambiente adverso para negócios;
  • Mercados associados (açúcar, milho, trigo) com remuneração superior ao etanol;
  • Margens de esmagamento negativas nos EUA e na Europa;
  • Alterações nos mandatos nacionais de biocombustíveis, especialmente na União Europeia, Canadá e EUA.

Turbulência no Brasil

Comparativamente a outros mercados de commodities agrícolas (óleos, proteína, cereais, frutas, carnes) o mercado internacional de etanol é relativamente pequeno, com poucos atores e, especialmente, poucos fornecedores. Por muitos anos o Brasil cumpriu a missão de garantir a oferta para atender a demanda deste mercado, detendo mais de 50% das exportações. A partir da crise financeira de 2008, o Brasil enfrentou sucessivos problemas regulatórios e climáticos, culminando com a escassez de bioetanol para atender o seu mercado doméstico em 2010/2011, em consequência da redução de investimentos no setor, da menor produção de cana, do aumento da demanda de bioetanol e da forte concorrência do mercado de açúcar.

Em 2010 as exportações brasileiras de etanol caíram cerca de 42% em relação a 2009. Ironicamente, o país maior exportador de bioetanol operou com sinal trocado no mercado, importando o produto para atender o mercado doméstico, o que pode ser comprovado tanto por estatísticas privadas quanto do Governo brasileiro 1 .

Além de ser um grande produtor e exportador de bioetanol, o Brasil é, também, o maior produtor e exportador de açúcar do mundo, detendo entre 40 e 50% do comércio global. Respaldado pela condição de protagonista do mercado, as usinas brasileiras possuem enorme poder de arbitragem nos mercados de açúcar e etanol, o que lhe permite, em teoria, maximizar suas margens, decidindo a cada momento se é mais remunerador operar com açúcar ou etanol.

Devido às frustrações de safra de cana na Índia, e com um mercado francamente comprador, os preços mundiais do açúcar atingiram cotações recordes no início desta década 2. Portanto, pelas leis fundamentais da economia, considerando o desestímulo da política pública brasileira para o consumo de bioetanol, e a elevada remuneração do mercado internacional de açúcar, as usinas modularam a produção de suas unidades fabris para maximizar a produção de açúcar, em seu mix industrial.

Ocorre que, juntamente com a compressão artificial dos preços dos combustíveis derivados de petróleo, o Governo brasileiro incentivou fortemente a aquisição de veículos de passeio, com medidas macroeconômicas como isenções tributárias e facilidades creditícias. Devido ao sucesso espetacular dos veículos flex-fuel na década passada, as montadoras de veículos estão equipadas para produzir elevada proporção de veículos com esta característica.

Bingo: menor oferta de bioetanol e maior demanda dos consumidores resultaram em pressão altista nos preços do etanol, desaguando em importação para conter a elevação dos preços 3. No entanto, a importação não foi suficiente para conter a alta do preço do bioetanol hidratado no varejo, o que levou os consumidores a usarem mais gasolina. Mas, o aumento do consumo de gasolina resultou em maior procura do etanol anidro, devido ao mandato legal de mistura, forçando as usinas a produzirem mais etanol anidro, comprimindo ainda mais a oferta de bioetanol hidratado. Ainda assim a produção brasileira de etanol não foi suficiente, forçando a importação, e, para evitar preços elevados no mercado interno, o Governo abriu mão da tarifa de importação de etanol de 20%.

Altos e baixos nos EUA

Em 2010 o Brasil reduziu fortemente sua exportação de etanol para os EUA, ao tempo em que importou 86 ML de etanol dos EUA (Tabela 1).

No início de 2011 as margens dos processadores de etanol de milho nos EUA oscilaram próximas de zero. As margens para o DDG (subproduto da fabricação do etanol, destinado à alimentação animal), e que compõem o mix de rentabilidade da cadeia do etanol de milho norteamericano, seguiram, aproximadamente, a mesma curva de variação sazonal do etanol.

Porém, durante o período de maior intensidade de negócios (julho/dezembro), o mercado operou com excelentes margens para os produtores de etanol (Figura 1), conduzindo a um superávit de 3 bilhões de litros do produto. Esse excedente de oferta permitiu abastecer o Brasil, que importou quase 1,5 bilhão de litros de bioetanol, ao mesmo tempo em que a exportação para os EUA situava-se abaixo da média histórica. Essa mudança de padrão dos fluxos comerciais está diretamente ligada aos fatores expostos na introdução deste artigo.

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Em 2011, o mercado também ficou agitado pelo ingresso mais intenso do Canadá como importador, para cumprir o seu mandato de uso de biocombustíveis. O Japão iniciou o uso de ETBE (Éter etil-terc-butílico), um bioaditivo para gasolina que utiliza etanol como matéria prima. O ETBE é obtido pela reação do etanol (43%) com o isobuteno (57%). Por conter matéria-prima de fonte renovável, evita emissões de CO2, quando comparado com o MTBE. A cada tonelada produzida de ETBE evita-se a emissão de 783 Kg de CO2, o que contribui para mitigação das mudanças climáticas. Em 2010, cerca de 700 GL de ETBE, para cuja elaboração foram utilizados de 300 GL de bioetanol, foram exportados dos EUA para o Japão, de acordo com a USITC 4 , o que poderia ser um mercado interessante para o Brasil, já que dispomos de capacidade de produção de ETBE.

O ano de 2011 foi muito bom para os produtores e exportadores de bioetanol de milho dos EUA, que ingressaram fortemente no mercado internacional, no vácuo da retração da participação brasileira. Nesse ano, as exportações norte-americanas ultrapassaram 4,5 GL, cerca de 900% de acréscimo em relação a 2009, de acordo com as estatísticas da USITC. Como no mercado internacional se um ganha outro perde, o Brasil começou o ano como o grande perdedor no comércio mundial de etanol. Como exposto anteriormente, o Brasil importou bioetanol mais barato dos EUA para compensar as suas políticas públicas desfavoráveis ao etanol, o clima inadequado e a forte destinação de cana para produção de açúcar.

Porém, no segundo semestre de 2011, houve uma recuperação parcial das exportações brasileiras, que terminaram o ano 3,75% acima de 2010. A explicação para o fato é que, em 2010 entrou em vigor o mandato do Renewable Fuel Standard Act (RFS2) nos EUA. Posto que o bioetanol de cana se qualifica como um biocombustível avançado, cerca de 50% das exportações brasileiras dirigiram-se aos EUA diretamente, ou através de países membros da Caribbean Basin Initiative (CBI) que têm acesso privilegiado ao mercado EUA, com diferenciais tarifários e de cotas.

Reversão

Se 2011 foi um ótimo ano para produtores e exportadores norteamericanos, e cercado de agruras para os brasileiros, o ano de 2012 provocou uma reversão de expectativas. Enquanto a produção de cana no Brasil iniciava um processo de recuperação, embora ainda abaixo dos níveis históricos, os norteamericanos enfrentaram o duplo problema de falta de matéria prima, pela forte seca no Corn Belt, e por margens reduzidas no processamento (Figura 1).

Seca e margens negativas não foram os únicos problemas para os produtores de etanol de milho, que também tiveram que se adaptar a mudanças nas políticas públicas, quais sejam:

  • O fim da Volumetric Ethanol Excise Tax Credit (VEETC), que se constituía no maior subsídio ao etanol de milho, com crédito fiscal de 45 centavos de dólar por galão de etanol misturado à gasolina. O valor do subsídio, em 2009, foi de US$5,16 bilhões;
  • A extinção do mecanismo protecionista representado pela sobretaxa de US$0,54 / gal sobre o etanol importado;
  • A extinção das alíquotas mais baixas de impostos pago pelo etanol importado pela UE 5 .

A extinção do VEETC teve impacto mais forte no mercado interno, enquanto as outras duas medidas alteraram o equilíbrio das importações e exportações norte-americanas. Como resultado, diminuiu a exportação para a União Europeia e aumentou a importação do Brasil. A entrada em vigor da RFS2 também impactou o fluxo comercial, porque a obrigatoriedade de um percentual de biocombustível avançado gerou a necessidade de importação do etanol de cana brasileiro, devido à escassez de biocombustíveis avançados nos EUA. Isso levou a um aumento de 3,2 vezes nas importações americanas do Brasil, perspectiva esta que se mantém para os próximos anos visto que os mandatos de biocombustíveis avançados da RFS2 continuam a aumentar.

Porém, no caso das exportações brasileiras para os EUA, há que se considerar não apenas as exportações diretas, mas também aquelas efetuadas através dos países do Caribe incluídos no CBI. No total, o Brasil exportou mais de 3 GL. Assim, após um período de dois anos de baixa, no final de 2012 o Brasil recuperou sua posição de principal exportador de etanol do mundo. Neste mesmo ano, as importações brasileiras de etanol de milho dos EUA também declinaram no final do primeiro semestre, com o início da safra de cana brasileira, sendo zeradas até o final do ano.

Nos EUA, cerca de 40% da produção de milho é dirigida para a produção de etanol, onde também é obtido um coproduto (DDG), que representa cerca de 30% da massa de matéria prima, e destinado à alimentação animal. A safra de milho de 2012 era muito promissora, tendo sido semeados 97,2 Mha, a maior área já cultivada com milho nos EUA. Entrementes, a violenta seca que se abateu sobre o Meio Oeste americano reduziu a produtividade o que redundou em uma perda de 13%, equivalendo a quase 40 Mt ano 6.

Com a redução da disponibilidade de matéria prima, a bonança das altas margens de processamento verificadas em 2011 desapareceram e os processadores operaram no vermelho em 2012, enquanto as margens de DDGS oscilaram ao redor do valor zero. Face à rentabilidade negativa, muitas processadoras preferiram manter grande capacidade ociosa, para evitar prejuízos, fazendo com que a produção dos EUA se reduzisse em 5%, para 51 GL de bioetanol.

Para 2013, a proximidade entre oferta e demanda doméstica no ano anterior, e a lenta recuperação brasileira, sinalizam que as margens para os processadores americanos devem melhorar no segundo semestre de 2013, aumentando a oferta naquele país.

Enquanto isto, no Brasil, o Governo se mostra muito reticente em corrigir os preços dos combustíveis fósseis. Em janeiro de 2013 foi aplicado um aumento do preço da gasolina, na refinaria, de 6,6%, que não foi transferido integralmente para os preços ao consumidor, especialmente pela redução da incidência da CIDE. Segundo o levantamento sistemático da ANP, o impacto nas bombas foi de, aproximadamente, 4,5% 7.

Para reduzir as importações de gasolina, que oneram sobremaneira a balança comercial, e impõem pesados prejuízos à Petrobras, em maio foi anunciado um aumento da mistura compulsória de etanol anidro à gasolina, que passou de 20 para 25%. Esta mudança prevê uma demanda adicional de 1,47 GL de etanol anidro, mantendo a compressão da oferta de etanol hidratado para abastecer os veículos flex fuel. A aleatoriedade da política pública brasileira tem como uma de suas externalidades negativas a perda de confiança do consumidor e de credibilidade no dueto veículos flex/bioetanol, minando as bases do que já foi considerado um programa exemplar de uso de energia limpa no mundo, que outros países buscavam emular.

A evolução da safra de milho norteamericana, até o momento, indica uma produção 10% superior à obtida em 2012, regularizando a oferta de matéria prima e recuperando as margens dos processadores. No Brasil, as perspectivas eram animadoras no início da safra, com aumento da área plantada e colheita estimada de 530 Mt, projetando-se próximo a 60 0Mt para 2014. Porém as frentes frias que ingressaram no país em meados do ano podem repercutir na produtividade da cana e no teor de sacarose, comprometendo as metas de produção de etanol. Como os elevados preços recentes do açúcar induziram aumento da sua oferta, a tendência dos preços desta commoditie é declinante, o que deve inverter o mix de produção industrial, favorecendo o etanol. Como tal, o Brasil volta a consolidar a sua posição de principal exportador, embora o mercado doméstico esteja longe de ser atendido em sua demanda potencial, pela manutenção dos preços comprimidos para a gasolina.

Décio Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa e foi eleito este ano pela revista Isto É um dos 100 brasileiros mais influentes do agronegócio. Já integrou a equipe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e, hoje, se dedica às pesquisas sobre o potencial agroenergético brasileiro.

1 ÚNICA - Moagem de cana-de-açúcar e produção de açúcar e etanol – safra 2011/2012, 2010/2011, 2009/2010, 2008/2009, 2007/2008. Disponível em www.unicadata.com.br/historico-de-producao-e-moagem.php?idMn=32&tipoHistorico=4.
ALICEWEB (SECEX Brasil: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior). Disponível em aliceweb2.mdic.gov.br.
2 CME Group: prices on ethanol, corn, wheat, and natural gas. Available at: http://www.cmegroup.com
3 Posta a alta substituibilidade entre gasolina C e etanol hidratado, e considerando o mandato de adição de 20-24% de etanol anidro na gasolina C, existe uma relação forte entre tamanho de frota e consumo de bioetanol, mesmo com o desincentivo da política pública para o consumo de bioetanol. Como a compressão dos preços dos combustíveis derivados de petróleo eram parcialmente devidos à necessidade de conter os índices inflacionários na amplitude das metas governamentais, a frustração da safra de etanol no Brasil teve que ser compensada por importações do produto, em um trade off entre déficit na balança comercial e inflação mais comportada. A escalada de preços do etanol pode ser comprovada nas estatísticas da ANP (www.anp.gov.br/preco/prc/Resumo_Mensal_Index.asp)
4 USITC Interactive Tariff and Trade DataWeb. Disponível em http://dataweb.usitc.gov/scripts/user_set.asp
5 Regulation No. 211/2012 of 12 March 2012 concerning the classification of certain goods in the Combined Nomenclature. Official Journal of the European Union" Disponível em. http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2012:073:0001:0002:EN:PDF
6 USDA/ERS/FAS/WASDE. Disponível em http://www.fas.usda.gov/report.asp
7 http://www.anp.gov.br/preco/prc/Resumo_Mensal_Index.asp
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