Ana Zancaner (Czarnikow):

Superávit de açúcar em 2024/25 será o maior desde 2017/18

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Açúcar: Exportação

Ana Zancaner (Czarnikow):

Superávit de açúcar em 2024/25 será o maior desde 2017/18

O cenário de preços elevados de açúcar, motivado por um volume fabricado inferior à demanda, pode estar caminhando para o fim; para entender este momento, o NovaCana conversou com exclusividade com a gerente da área de análise da Czarnikow, Ana Carolina Zancaner


NovaCana - Publicado: 22 Ago 2024 - 10:16

Após safras consecutivas de déficit na produção em relação ao consumo, o mercado global de açúcar começa a vislumbrar um excedente. Entretanto, os estoques seguem relativamente apertados, a demanda ainda existe e os preços permanecem em patamares vantajosos, mantendo o estímulo para as usinas brasileiras seguirem produzindo o adoçante em detrimento do etanol.

Mas as mudanças nesse quadro não são um consenso, com especialistas divergindo em relação ao tamanho do excedente e, até mesmo, o ponto da virada. Em abril, na média de um levantamento feito pelo NovaCana com 19 companhias, a projeção para a safra 2023/24 (outubro a setembro) era de um superávit de 1,01 milhão de toneladas. Já em relação a 2024/25, a visão ainda era de déficit, com 910 milhões de toneladas, na média.

De lá para cá, muitas perspectivas mudaram, afetadas principalmente por alterações na produção do hemisfério Norte. Em meados de abril, a trading Czarnikow foi uma das primeiras a elevar seus números, com sua estimativa de superávit global de açúcar em 2023/24 passando de 3,5 milhões de toneladas para 4,7 milhões de toneladas – atualmente, é esperado um superávit de 5,5 milhões de toneladas.

Mais recentemente, em julho, o Rabobank foi pelo mesmo caminho e passou a esperar por uma sobra de 3,2 milhões de toneladas na safra 2023/24. Em contrapartida, a Organização Internacional do Açúcar (OIA, na sigla em inglês) elevou sua previsão de déficit para a safra global, projetando uma carência de 2,95 milhões de toneladas do produto no mercado.

Em relação à temporada 2024/25, os números também divergem. Enquanto na visão da Czarnikow haverá um excedente de 5,9 milhões de toneladas de açúcar, outras companhias têm perspectivas menores, como StoneX (1,21 milhão de toneladas), Hedgepoint (menos de 1 milhão de toneladas), Louis Dreyfus (800 mil toneladas) e Rabobank (700 mil toneladas).

Para entender melhor esse quadro, o NovaCana conversou com a gerente da área de análise da Czarnikow, Ana Carolina Zancaner. Ela será responsável pela palestra “Mercado global de açúcar” durante a Conferência NovaCana, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 9 e 10 de setembro.

Além disso, Zancaner estará presente em um debate ao lado da coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint, Lívea Coda, e do especialista de inteligência de mercado da Stonex, Filipi Cardoso.

Formada em Administração pela Insper, Ana Carolina Zancaner é a atual líder da equipe de análises da Czarnikow no Brasil. Ela faz parte do time desde 2013, quando ingressou na companhia ainda como estagiária.

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A programação completa da Conferência NovaCana já está disponível. Você pode se inscrever, clicando aqui.

A seguir, leia a entrevista exclusiva com Zancaner sobre o atual cenário do mercado global de açúcar e as perspectivas para a próxima temporada.

Quais são as perspectivas gerais da Czarnikow para o balanço global de açúcar em 2024/25?
Em meados de julho, publicamos em nosso site as estimativas de safra para os principais players [Nota da edição, a entrevista foi realizada antes da mais recente atualização da Czarnikow, publicada esta semana]. Estimamos que a produção mundial atinja um recorde de 189,7 milhões de toneladas, maior ainda que 2017/18 – lembrando que o valor se refere ao ano safra do hemisfério Norte (outubro a setembro). Isso pode parecer uma surpresa, tendo em mente tantas incertezas acerca da safra no Centro-Sul, mas melhoras nas perspectivas das safras da Tailandia, da União Europeia e da Índia resultam nessa estimativa. Já o consumo segue subindo com o crescimento populacional e estimamos que ultrapasse 180 milhões de toneladas em 2024/25. Portanto, vemos um superávit da ordem de 8,8 milhões de toneladas, o maior desde 2017/18.

Em comparação com os números de outras empresas, a Czarnikow aposta em valores significativamente mais altos, já que muitos estão prevendo um excedente abaixo de 1 milhão de toneladas para 2024/25. O que leva a essa diferença?
Algo que é preciso considerar é que o nosso número é sempre tel quel [como está], ou seja, ele não é raw value [valor bruto]. Além disso, ele é referente ao ciclo de outubro a setembro e não de abril a março, que é o ano-safra brasileiro. E um terceiro ponto é que a nossa expectativa para a recuperação de Índia, Tailândia e Europa, muito provavelmente, deve estar acima da de outras casas. Para completar, sempre tem a questão da estimativa para o consumo. Continuamos achando que o crescimento da demanda mundial está muito mais atrelada a um aumento populacional do que a uma mudança nos hábitos de consumo.

Com isso, a perspectiva é que os preços sigam atrativos para as usinas brasileiras? Qual é a faixa estimada para os próximos meses?
Mesmo com um superávit de 8,8 milhões de toneladas, vemos que o mercado acha suporte por volta de 18 centavos de dólar por libra-peso. Mas é preciso lembrar que, à medida em que o mercado fica mais abastecido em 2025 – com as exportações do hemisfério Norte –, isso deve pesar. Além disso, o fortalecimento do dólar limita as altas para commodities. Os especuladores também têm pressionado o mercado, adicionando posições vendidas; ou seja, depende de qual “história” eles acham que vai pesar mais. Mas uma reversão de posição sempre é possível.

Com os estoques globais baixos, o Brasil passou a “dar as cartas” no mercado. Há possibilidade de outro grande produtor se destacar e passar a competir com mais afinco?
Na verdade, esse ciclo de 2023/24 já deve terminar em um superávit de 5,5 milhões de toneladas. Com essa expectativa de uma melhora na safra do hemisfério Norte, a dependência do Brasil deve cair no próximo ano. Mas ainda precisamos chegar em dezembro; até lá, qualquer disrupção na logística no Centro-Sul será sentida no mercado.

Você pode destacar alguns fatores que levaram a essa maior produção de açúcar no hemisfério Norte?
Uma questão relevante é o aumento da área na Tailândia e na Europa. Como o preço do açúcar esteve em um patamar muito bom nos últimos dois anos, os produtores voltaram a aumentar a área plantada nessas regiões. Isso é muito significativo porque a flexibilidade de mudança de área na Tailândia e na Europa é muito maior do que no Brasil – o ciclo na Tailândia, por exemplo, é de dois anos e não de seis, como no Brasil. Com isso, a resposta a preço é muito mais rápida. Na Europa, se o preço oferecido pela beterraba é melhor, os fazendeiros vão deixar de plantar alguma outra cultura para plantar beterraba. O mesmo acontece na Tailândia, que tem um sistema de remuneração para a cana muito parecido com o do Brasil. Então, se o preço do açúcar sobe, isso impacta no cálculo do preço da cana. No ano passado, por conta disso, a cana voltou a remunerar mais que outras culturas. Eu acho que isso é um ponto de atenção para o longo prazo também.

“O preço do açúcar estava ótimo há dois anos, mas já voltou para 18 centavos. Como é que fica o cálculo, daqui para frente, para os fazendeiros na Tailândia? Eles podem voltar a plantar outras culturas”, Ana Zancaner (Czarnikow)

A possibilidade de uma transição de El Niño para La Niña deve mexer com o mercado de açúcar nos próximos meses? O que deve mudar no cenário global?
Depende muito de qual lado se olha. O fenômeno tem impacto diferente dependendo da região. O Centro-Sul, por exemplo, é uma zona de transição e, sendo assim, não tem um padrão definido. Enquanto com o El Niño vemos chuvas fortes no Sul e seca no Norte-Nordeste, a região central do país teve menos chuvas neste ano. Se lembrarmos do último El Niño forte, que foi em 2015/16, choveu muito bem no Centro-Sul. A última probabilidade de La Niña coloca o fenômeno para depois de agosto e persistindo pelo menos até janeiro de 2025. Qualquer previsão para a safra 2025/26 do Centro-Sul a esta altura é puro achismo. Precisamos ver como o clima irá se comportar a partir de outubro. O canavial precisa de chuvas na média para se recuperar para o próximo ciclo. Para a Índia, a ocorrência de La Niña seria positiva para as monções. Mas, dado que estas acabam em setembro e a transição para La Niña é esperada para depois disso, o fenômeno não teria muito impacto para este ciclo.

Qual é a visão da Czarnikow para a produção nos maiores produtores asiáticos, em especial a Índia e a Tailândia?
Na Tailandia, os altos preços do açúcar na safra passada contribuíram para um aumento de área plantada com cana. Então, vemos um aumento de área que, combinado a um clima mais favorável, ajudou na recuperação da produção, indo para 12,1 milhões de toneladas. Na Índia, também esperamos uma safra melhor e com maior produção de açúcar. Inclusive, subimos em 3 milhões de toneladas a nossa projeção para 2024/25.

“Os preços altos do açúcar são necessários para manter o patamar de produção em outras regiões”, Ana Zancaner (Czarnikow)

Considerando outro aspecto, a Indonésia tem se destacado como um mercado relevante para a commodity. Essa tendência deve seguir?
A Indonésia é um grande consumidor de açúcar, por volta de 7,7 milhões de toneladas. No entanto, o país produz apenas 2,5 milhões de toneladas, sem muita perspectiva de aumento. Então, sempre é um destino importante. O que muda quando a safra da Tailândia engatar é que, pela proximidade, a Indonésia pode voltar a contar com essa origem e depender menos do açúcar brasileiro.

A China está ativa no mercado de açúcar, mesmo considerando as tarifas elevadas aplicadas em alguns casos? Quais são as perspectivas para o país?
As margens de importação de açúcar melhoraram recentemente devido a uma combinação da queda nos contratos futuros negociados na ICE com o fortalecimento do mercado doméstico. Com o baixo rendimento da produção, os estoques globais estão apertados. Isso deve oferecer suporte suficiente para que importações perto de 18 centavos de dólar por libra-peso sejam atrativas para os compradores chineses.


Estas e outras análises a respeito do mercado global de açúcar serão apresentadas durante a Conferência NovaCana 2024. A programação completa está disponível no site do evento.


Renata Bossle – NovaCana