Os números de produção de etanol são motivo de orgulho e de insônia ao mesmo tempo: afinal, quem vai comprar tudo isso?
Por Miguel Angelo Vedana*
O Brasil caminha para produzir mais etanol do que em qualquer outro momento de sua história. As projeções apontam para uma oferta acima de 40 bilhões de litros em 2026/27, impulsionada pela recuperação da safra de cana e, sobretudo, pelo avanço do biocombustível de milho, que deve somar mais de 10 bilhões de litros.
Os números são motivo de orgulho e de insônia ao mesmo tempo. Afinal, quem vai comprar tudo isso?
Dois dos analistas mais respeitados do setor discordam publicamente sobre essa questão e a divergência é saudável de acompanhar.
Para João Rosa, do Pecege Consultoria e Projetos, vivemos uma “inundação” de etanol de milho que vai mudar a dinâmica do setor: ou surge uma nova onda de consumo ou haverá uma reorganização, com a saída dos produtores menos eficientes. Ele observa que a mistura de 32% à gasolina (E32) adiciona cerca de 1 bilhão de litros anuais de demanda, o equivalente a uma única usina nova de milho, ou seja, um alívio pequeno que as próximas plantas devem engolir rapidamente.
Já Filipi Cardoso, do Bradesco - Pesquisa e Projetos, vê o copo meio cheio. O consumo do ciclo Otto acumulava alta de 3,4% até maio e o hidratado segue competitivo na bomba; a partir disso, ele acredita que a expansão da demanda irá absorver parte do adicional. Mesmo assim, o próprio Cardoso lembra que o mercado já viu esse filme no início dos anos 2000, quando a produção cresceu sem demanda proporcional e parte das usinas não atravessou o ciclo.
Também há pontos em que os dois convergem, como a perda de margem. Rosa observa que o valor do açúcar total recuperável (ATR) projetado recuou para perto de R$ 0,95 por quilo depois de anos entre R$ 1,10 e R$ 1,20. Ele ainda acrescenta que, no setor de cana, o produtor não quebra de um ano para o outro – o negócio definha vagarosamente.
Cardoso, por sua vez, estima uma safra de margens apertadas, chegando a valores negativos para os menos eficientes, com a preservação de caixa ganhando prioridade sobre os investimentos. Assim, mesmo leituras diferentes do mercado chegam ao mesmo diagnóstico quanto à rentabilidade.
Ambos ainda observam o lado da demanda. Rosa aponta o caminho interno: hoje, a cada quatro carros flex, só um abastece com etanol; subir esse valor para dois veículos, segundo ele, abriria um mercado gigantesco. Já Cardoso enxerga a resposta na diversificação de usos, indo do SAF ao biobunker e às máquinas agrícolas.
São caminhos diferentes que partem do mesmo ponto: a percepção de que o Brasil já provou que sabe construir oferta, embora o desenvolvimento de um mercado consumidor ainda esteja em disputa.
Sobreoferta ou sobredemanda? Este dilema será debatido nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP). Rosa, Cardoso e o diretor comercial da Evolua Etanol, Alexandre Zebulun, dividem o palco do segundo painel da Conferência NovaCana 2026.
Para quem produz, financia ou negocia etanol, esta é a discussão mais importante do ano. Programação e inscrições: NovaCana/conferencia2026.
* Miguel Angelo Vedana é diretor executivo do NovaCana