Filipi Cardoso (Bradesco BBI):

“Expansão do consumo [de etanol] ajuda a absorver parte do adicional”

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Etanol: Mercado

Filipi Cardoso (Bradesco BBI):

“Expansão do consumo [de etanol] ajuda a absorver parte do adicional”

O NovaCana conversou com o economista sênior do banco para entender como a elevada produção de etanol pode impactar no caixa das usinas; a expansão para novos mercados também foi tema do bate-papo


NovaCana - Publicado: 21 Jul 2026 - 14:59

Com preços do etanol – bicombustível que deve atingir uma produção recorde na safra vigente – em patamares limítrofes ou desfavoráveis, as usinas precisam ter atenção extra. O cenário envolve valores do açúcar em queda, conflitos internacionais e a influência do mercado de petróleo, além da subvenção aos combustíveis e até mesmo fatores climáticos, como o El Niño.

Nesse contexto, as companhias mais estruturadas devem passar pela temporada 2026/27 com poucos arranhões, enquanto as menos eficientes correm o risco de registrarem margens negativas.

Considerando a relevância destes temas, a Conferência NovaCana 2026 terá um painel sobre o dilema do etanol no Brasil, voltado para assuntos como a evolução da oferta e da demanda do biocombustível, a dinâmica de preços, os desafios logísticos e outros.

Um dos palestrantes do painel será o economista sênior do Bradesco BBI, Filipi Cardoso. Também estão confirmados: o sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, João Rosa; e o diretor comercial da Evolua Etanol, Alexandre Zebulun.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2026 já está disponível.

Cardoso é formado em engenharia ambiental e sanitária pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e tem mestrados em engenharia, biocombustíveis, bioenergia e biotecnologia pela mesma universidade.

O NovaCana conversou com o economista sobre temas como preços dos combustíveis, desempenho produtivo da safra 2026/27 do Centro-Sul e novos caminhos para as sucroenergéticas, considerando uma possível sobreoferta do etanol.

Confira a entrevista completa a seguir.

Como uma possível produção recorde de etanol nessa temporada – tanto pelos preços baixos do açúcar, como pelo aumento da produção de etanol de milho –, há chances de o mercado ficar saturado? Quais são os impactos disso nos preços, nos curto e médio prazos?
As estimativas indicam que a oferta de etanol no Brasil poderá superar 40 bilhões de litros na safra 2026/27, estabelecendo um novo recorde para o setor. Esse aumento da produção ocorre em um momento favorável, já que a demanda doméstica continua avançando. Com os preços da gasolina em níveis relativamente elevados, o etanol hidratado mantém uma importante vantagem competitiva na bomba, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, onde sua participação no consumo de combustíveis leves tende a ser mais expressiva. Além disso, a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 27% para 30%, implementada no ano passado, adicionou uma fonte estrutural de crescimento para a demanda pelo biocombustível. Os dados da ANP mostram que, até maio de 2026, o consumo de combustíveis do ciclo Otto acumulava alta de 3,4% na comparação anual, reforçando o cenário de mercado aquecido. Dessa forma, embora o país caminhe para uma oferta recorde de etanol, a expansão do consumo ajuda a absorver parte desse volume adicional, reduzindo o risco de excesso de produto no mercado. Ainda assim, a competitividade seguirá sendo um fator-chave.


“Para que a demanda continue crescendo e o etanol amplie seu espaço frente à gasolina, será importante que os preços permaneçam atrativos ao consumidor, limitando movimentos mais expressivos de alta ao longo da safra”, Filipi Cardoso (Bradesco BBI)


A competitividade do etanol frente a gasolina na faixa dos 60% na média nacional é positiva aos consumidores, mas aperta a margem dos produtores. Na sua visão, considerando os preços do açúcar e do etanol, como está a saúde financeira das usinas?
As usinas, em sua maioria, entram neste novo ciclo em uma posição financeira mais confortável do que em períodos anteriores. Beneficiadas por anos de preços elevados para açúcar e etanol, muitas empresas aproveitaram o momento para alongar o perfil de suas dívidas e fortalecer seus balanços. Esse fator deve mitigar parte dos impactos da deterioração das margens observada atualmente. Ainda assim, a safra 2026/27 tende a ser marcada por margens bastante apertadas e, em alguns casos, negativas, especialmente para as usinas menos eficientes. Nesse cenário, é esperado um ciclo de menor investimento, maior foco na preservação de caixa e possível aumento do endividamento setorial. Do ponto de vista operacional, a expectativa é que as usinas mais eficientes consigam encerrar o ciclo com fluxo de caixa próximo do equilíbrio, enquanto a maior parte do setor poderá registrar geração de caixa negativa caso os preços permaneçam nos níveis atuais.

A aprovação da mistura E32 e uma eventual ampliação até E35 traz quais impactos na demanda e nos preços do etanol?
O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina é, estruturalmente, um vetor positivo para o setor sucroenergético, pois eleva a demanda cativa por etanol e amplia a participação dos biocombustíveis na matriz de combustíveis leves. O Brasil já possui uma das maiores misturas de anidro à gasolina no mundo e uma elevação do percentual reforçaria ainda mais o papel estratégico do etanol na segurança energética nacional. Do ponto de vista energético, o aumento da porcentagem reduz a necessidade de gasolina A na composição da gasolina C, diminuindo a dependência de importações e a exposição do país à volatilidade internacional do petróleo e dos derivados. Esse fator ganha relevância em momentos de maior estresse geopolítico, como conflitos envolvendo grandes produtores ou rotas relevantes de energia, quando choques externos podem pressionar custos, logística e preços domésticos dos combustíveis.


“Mais do que uma medida setorial, o aumento do teor de anidro deve ser visto como uma política de segurança energética, desenvolvimento da cadeia sucroenergética e redução da vulnerabilidade externa”, Filipi Cardoso (Bradesco BBI)


A elevação da mistura de 30% para 32% pode gerar um incremento adicional de demanda por etanol anidro. Considerando a implementação em 1º de agosto, a demanda de anidro poderia aumentar em cerca de 630 milhões de litros na safra 2026/27, criando um suporte relevante para o setor em um momento de margens mais pressionadas. Além de fortalecer a demanda doméstica por etanol, essa medida contribuiria para reduzir o consumo de gasolina A, com potencial efeito positivo sobre a balança comercial de combustíveis e sobre a capacidade do país de administrar melhor os preços ao consumidor final. Em um cenário global marcado por elevada volatilidade geopolítica e incertezas sobre preços de energia, ampliar a participação do etanol na matriz de combustíveis reforça a competitividade brasileira, reduz riscos de abastecimento e fortalece um setor estratégico para a economia nacional.

Diversas análises já apontam para impactos consideráveis do El Niño. Em seu relatório de abril, você trouxe que ele não deve ser tão significativo nos canaviais. Essa visão se mantém? Qual é a sua perspectiva para o nível de risco do fenômeno para a produção de cana nesta temporada?
Para o Centro-Sul, o El Niño não tende a provocar impactos diretos tão relevantes quanto os observados em importantes regiões produtoras do sudeste asiático. Já para a Índia e para a Tailândia, o fenômeno influencia de forma significativa o regime das chuvas de monções. Nas áreas canavieiras do Centro-Sul do Brasil, os efeitos costumam ser mais indiretos, por meio de alterações na distribuição e na frequência das precipitações ao longo da safra. Nesse contexto, o principal risco para o setor sucroenergético está associado a eventuais excessos de chuva durante o período de colheita, pois isso compromete o ritmo das operações no campo. Esse é um fator que já está incorporado às nossas projeções. A estimativa atual considera possíveis atrasos na colheita entre os meses de junho e setembro, o que poderia resultar em um volume relevante de cana bisada. Ainda assim, de forma geral, o Centro-Sul tende a se beneficiar de um ambiente mais úmido, já que a disponibilidade hídrica favorece o desenvolvimento dos canaviais e contribui para a recuperação da produtividade.

Quais são as suas previsões mais recentes para a produção no Centro-Sul?
O potencial produtivo do Centro-Sul continua bastante elevado. Em um cenário sem interrupções relevantes da colheita, a safra poderia superar 640 milhões de toneladas de cana processada. No entanto, nossa projeção atual é de 627,3 milhões de toneladas, considerando aproximadamente 12 milhões de toneladas de cana que permaneceriam para a safra seguinte em função dos atrasos operacionais. Além dos impactos sobre a safra atual, um cenário climático mais favorável também pode criar condições para uma melhoria da produtividade na temporada 2027/28. Embora ainda seja cedo para conclusões definitivas, a combinação de boa disponibilidade de umidade e desenvolvimento adequado dos canaviais aumenta a probabilidade de uma recuperação mais consistente dos rendimentos agrícolas nos próximos ciclos.

E em relação à produtividade? Quais são as principais influências para esses números?
O Centro-Sul deve registrar uma recuperação relevante na produtividade dos canaviais na safra 2026/27, reflexo de uma combinação mais favorável de fatores climáticos. Após um período de entressafra com chuvas mais próximas da normalidade e volumes mais elevados durante o outono – com possibilidade de continuidade das precipitações também no inverno –, as condições de desenvolvimento da cana tendem a ser melhores do que as observadas em ciclos recentes. Esse cenário deve favorecer a recuperação da produtividade e ampliar a disponibilidade potencial de matéria-prima para moagem. A ocorrência de um El Niño de intensidade elevada, contudo, adiciona um elemento importante de risco operacional. Historicamente, eventos desse tipo tendem a aumentar o volume de chuvas em parte relevante do Centro-Sul, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Embora esse padrão climático seja positivo para o desenvolvimento vegetativo da cana, ele também pode gerar impactos sobre o ritmo de colheita, aumentando o número de dias parados, reduzindo a eficiência operacional das usinas e limitando a moagem em determinados períodos da safra.

Ao longo dos últimos meses, vimos um fortalecimento do etanol para SAF e biocombustível marítimo. Qual é a sua visão quanto ao avanço desses novos mercados?
O mercado brasileiro de etanol vem passando por uma transformação estrutural, marcada pelo crescimento contínuo da oferta e pela diversificação das matérias-primas. Além da cana-de-açúcar, o avanço acelerado do etanol de milho deve ampliar de forma relevante a disponibilidade do biocombustível nos próximos anos, reforçando uma tendência de expansão da produção ao longo da próxima década. Nesse contexto, o principal desafio para o setor será garantir que a demanda acompanhe o ritmo de crescimento da oferta. Atualmente, o consumo de etanol no Brasil ainda está fortemente concentrado no abastecimento de veículos leves, por meio do etanol hidratado e da mistura obrigatória de anidro na gasolina. Mesmo considerando o aumento gradual da mistura da gasolina C, que pode chegar a 35% até 2030, as projeções indicam risco de superávit relevante no mercado doméstico.

Quais são as consequências deste descompasso?
Esse desequilíbrio entre oferta e demanda pode pressionar significativamente os preços do etanol, comprimindo margens e reduzindo a rentabilidade do setor. Trata-se de um risco relevante, especialmente porque o mercado brasileiro já vivenciou um movimento semelhante no início dos anos 2000, quando o forte crescimento da produção de etanol, sem expansão proporcional do consumo, resultou em queda de preços e deterioração financeira para parte das usinas. Diante desse cenário, torna-se cada vez mais necessário desenvolver novos usos estruturais para o etanol, ampliando sua aplicação para além dos veículos leves. Entre as alternativas com maior potencial, destacam-se a utilização em outros modais de transporte, a produção de combustíveis sustentáveis de aviação, como o SAF, e o uso em rotas marítimas. No caso do SAF, o etanol aparece como uma matéria-prima estratégica, embora sua adoção dependa de investimentos industriais mais complexos, que exigem novos aportes nas refinarias atuais. Já no transporte marítimo, o uso do etanol tende a ser mais direto, o que pode facilitar sua incorporação como solução de descarbonização.

Há outros mercados possíveis, em sua opinião?
Outro vetor relevante de crescimento da demanda é o uso de biocombustíveis em máquinas agrícolas. Essa aplicação tem forte aderência ao perfil produtivo brasileiro, pois conecta a cadeia agropecuária à própria matriz energética renovável do setor. Além de reduzir emissões no campo, o uso de etanol em equipamentos agrícolas poderia criar uma fonte de demanda recorrente, contribuindo para absorver o aumento da oferta e fortalecer a sustentabilidade econômica do setor sucroenergético. Portanto, a expansão da produção de etanol no Brasil representa uma oportunidade estratégica, mas também impõe a necessidade de diversificação do consumo. Sem novos mercados, o setor corre o risco de enfrentar um cenário de excesso de oferta, queda de preços e margens mais pressionadas. A consolidação de novas aplicações – especialmente em transporte pesado, aviação, navegação e máquinas agrícolas – será fundamental para transformar o crescimento da oferta em valor econômico, segurança energética e avanço da agenda de descarbonização.

Inclusive, em um podcast recente do Rabobank, os analistas falaram sobre a diversificação das usinas, considerando apertos nos mercados de açúcar, de etanol e de energia. Mas a ida para outros produtos (como leveduras, bioplásticos, biometano e biogás) depende de investimentos em um cenário de juros altos. Como as usinas podem agir estrategicamente neste contexto?
Acredito que esse seja o caminho natural para o qual o setor sucroenergético deve convergir, especialmente quando analisamos as tendências de longo prazo. Embora o consumo global de açúcar não deva sofrer uma queda abrupta, a tendência é de um crescimento cada vez mais limitado, refletindo mudanças nos hábitos de consumo, maior preocupação com saúde e políticas de redução de açúcar em diversos mercados. Em contrapartida, a demanda por etanol e outros biocombustíveis apresenta perspectivas mais favoráveis, impulsionada pela busca por fontes renováveis de energia e pelas metas globais de descarbonização. No entanto, o crescimento da demanda por etanol não ocorrerá de forma automática.


“Para que o mercado absorva o aumento da oferta de etanol previsto para os próximos anos, será necessário promover mudanças estruturais que ampliem o uso do biocombustível para além do transporte leve”, Filipi Cardoso (Bradesco BBI)


Nesse contexto, o setor sucroenergético possui uma vantagem competitiva importante: sua capacidade de evoluir de um produtor de commodities tradicionais para um fornecedor de soluções energéticas e bioprodutos de maior valor agregado. Além do açúcar e do etanol, há oportunidades relevantes em segmentos como SAF, biometano, bioquímicos, bioplásticos, captura de carbono e geração de energia renovável, ampliando as fontes de receita e reduzindo a dependência de mercados mais voláteis. Entretanto, essa transformação deve ocorrer de forma gradual. A consolidação de novos mercados demanda elevados investimentos, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura adequada, marcos regulatórios favoráveis e maturação da demanda. Dessa forma, a diversificação do setor tende a ser um movimento de longo prazo, impulsionado tanto pela necessidade de encontrar novas fontes de crescimento quanto pela busca de maior resiliência econômica e sustentabilidade para a cadeia sucroenergética brasileira.

Estas e outras análises a respeito do mercado de combustíveis estarão na Conferência NovaCana 2026.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana