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João Rosa (Pecege): “Há uma ‘inundação’ de etanol de milho e isso vai mudar a dinâmica do setor”

Sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos aborda o excesso de oferta de etanol – e o que fazer com o biocombustível

NovaCana 11 min de leitura

Projetando uma moagem de 641,87 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul em 2026/27, o Pecege Consultoria e Projetos acredita que a região deve produzir 38,64 milhões de toneladas de açúcar (-4,4% safra a safra) e 27,6 bilhões de litros de etanol de cana (+12,5%). Além disso, a expectativa para o etanol de milho é de 10,25 bilhões de litros (+11,2%).

O excesso de etanol no mercado já se faz evidente nos preços baixos do produto, gerando uma sobreoferta que precisa ser endereçada – não somente nesta temporada, mas considerando cenários semelhantes no longo prazo.

Devido à relevância do tema, a Conferência NovaCana 2026 terá um painel sobre o dilema do etanol no Brasil, voltado para assuntos como a evolução da oferta e da demanda do biocombustível e a mudança na dinâmica de preços, além dos desafios logísticos.

Um dos palestrantes será o sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos, João Rosa. Também estão confirmados: o especialista de agro do Bradesco - Pesquisa Econômica, Filipi Cardoso; e o diretor comercial da Evolua Etanol, Alexandre Zebulun.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2026 já está disponível.

Rosa, mais conhecido como Botão, é graduado em engenharia agronômica pela Universidade de São Paulo (USP), possui especialização em gestão e tecnologia do setor sucroalcoleiro, além de mestrado e doutorado em engenharia de sistemas agrícolas pela mesma instituição. Ele é sócio-diretor do Pecege Consultoria e Projetos desde 2008.

O NovaCana conversou com ele sobre temas como novos caminhos para a demanda por etanol, perspectivas de preços do açúcar total recuperável (ATR) e rentabilidade das usinas e dos produtores.

Confira a entrevista completa a seguir.

Em um artigo de opinião recente de sua autoria, você citou o mercado mundial como uma das possíveis oportunidades para o etanol brasileiro. Como você visualiza as negociações e os movimentos para ampliação da exportação por parte do governo e de entidades setoriais?
Há uma “inundação” de etanol de milho e isso vai mudar a dinâmica do setor sucroenergético: ou nós teremos uma nova onda de consumo ou realmente vai haver uma reorganização e o pessoal vai deixar do mercado. Vai sair quem é mais ineficiente, quem tem menor produtividade, quem tem mais gorduras operacionais, etc. Nós temos que ser mais eficientes, mas também temos que cuidar do outro lado, de aumentarmos a demanda. No artigo, eu falei justamente da questão de intensificação do uso de etanol por outros países. Eu sei que SAF e biobunker [combustíveis sustentáveis de aviação e marítimo, respectivamente] são os queridinhos das mídias sucroenergéticas, sei que o pessoal aposta muito nisso e eu também acho que tem que apostar, tem que ir atrás, tem que incentivar. Mas, sinceramente, no curto prazo, eu não vejo isso como a solução. A solução seria aumentar a demanda por consumo interno, principalmente, e o externo. O uso de etanol por outros países, misturado aos combustíveis, é muito pequeno para não se dizer irrisório. Como estimular para que isso faça parte da composição da gasolina de outros países, mesmo que seja em pequenas misturas? A partir do momento que se começa a misturar em outros locais, acaba gerando negócio. Hoje, o uso de etanol no mundo é pequeno e eu vejo que é mais um dos pilares em que temos que procurar abrir fronteiras.


“Somos muito apaixonados, achamos que o etanol é a bala de prata do mundo. Ele é um item muito importante, mas tem um monte de mercados para explorarmos. Como fazemos outros países adicionarem o etanol nas suas matrizes de combustível?”, João Rosa (Pecege Consultoria e Projetos)


Como você citou, o etanol marítimo e o SAF estão entre os novos mercados possíveis, mas eles necessitam de investimentos elevados e de criação de demanda, por exemplo. Qual é a sua visão em relação a estes biocombustíveis avançados? Como as usinas podem começar a agir desde já para acessar tais mercados?
É preciso pegar instituições que representam as classes e tentar fazer com que haja esse consumo. Mas a minha linha de raciocínio vai muito no seguinte: temos que estimular o biobanker? Temos, mas se agarrar nisso como uma esperança setorial pode criar uma ilusão, pois a solução para aumentar a demanda está pronta: os carros flex estão aí. Antes de querer fazer com que o mundo consuma via biobunker, temos que trazer aquelas pessoas que têm um veículo flex – e o produto está mais barato, compensa mais, gera emprego, gera desenvolvimento, gera uma questão de soberania nacional –, mas ainda assim abastecem com gasolina. Temos que fazer com que o próprio brasileiro consuma. Hoje a cada quatro carros, apenas um coloca etanol. Se fizermos com que dois abasteçam, já abre um mercado gigantesco.

Falando na demanda interna, a mistura de etanol à gasolina em 32% foi aprovada e deve ter vigência inicial de seis meses. Você enxerga uma perenidade nesta medida? Qual volume de etanol deve ser destinado para essa mistura?
As estimativas são de que isso vai adicionar uma demanda de 1 bilhão de litros [por ano]. Uma usina nova da Inpasa faz este volume. Sinceramente, essa questão do E32 dá uma “estimuladinha” na demanda no curto prazo, mas o alívio que traz é muito pequeno. Eu acho que, na verdade, ele ajuda a “manchar” um pouco o etanol, devido ao preconceito que muitos têm. É aquela história: “eu vou comprar gasolina ‘sabor’ etanol”. Aumentar mais dois pontos percentuais da mistura traz um pequeno alívio que, daqui a pouco, vai ser suprido com as novas plantas de etanol de milho. É um tiro que pode “sair pela culatra”, enquanto não fazemos nenhuma ação para estimular o consumo. Uma das coisas que o pessoal me pergunta é: “podemos ter gasolina pura?”. Do ponto de vista liberal, eu acho que sim, vejo que o consumidor pode ter o direito de chegar lá no posto e abastecer um carro com 100% gasolina. Coloca o preço bem mais alto, uma gasolina de R$ 10 o litro por questões fiscais. Eu quero ver se o consumidor vai ficar abastecendo [com ela] ou se ele vai procurar uma gasolina com E32 ou o etanol [hidratado]. Sou muito a favor desse liberalismo. Eu acho que o nosso ponto não está na capacidade produtiva, mas na demanda. Se aumentamos a demanda, uma coisa puxa a outra. Nós estamos em um momento de colapso, com um aumento de oferta, e não temos a demanda. As usinas vão encontrar o seu ponto de equilíbrio. Pode até aumentar a quantidade de produtoras; se tivermos demanda pelo produto, é o que vai acontecer.

Os custos de produção estão sendo impactados com a alta dos insumos e os preços baixos para etanol e açúcar vêm apertando as margens. Como deve ficar saúde financeira das usinas nesta temporada?
Era para o preço do etanol estar em patamares maiores. Isso não está acontecendo porque temos uma intervenção do governo na gasolina. É um pecado que cometemos em outros momentos, aliás. Na história, depois da abertura dos mercados, todos os governantes fizeram. Não é uma questão de sigla, não é uma questão do Lula, nem do PT. O Bolsonaro fez, o Temer fez, a Dilma fez por três anos e o Lula vem fazendo agora. Toda vez que a inflação ameaça sair do controle, como está saindo, eles seguram via combustível. Só que leva o nosso setor de arrasto. Se pegar o preço internacional, era para os preços da gasolina estarem maiores e, consequentemente, os preços do etanol; com isso, o nosso setor estaria muito mais aliviado. Segurando o preço da gasolina, se segura o do etanol, só que segura só o preço de um negócio atrelado ao petróleo. Para a população é ótimo, porque ela chega no posto e o preço está o mesmo. Só que outras coisas, como o preço de fertilizantes, não têm uma trava. Então, se coloca um teto no preço e deixa com que o custo continue subindo. Nesse momento, nós estamos em um ponto de inflexão em que o preço desceu e o custo continua em um patamar elevado. Então, teremos uma redução de margens no setor sucroenergético. Todo mundo vai sofrer esse ano. Só que, enquanto alguns sofrem, outros começam a quebrar. Quem tem menos eficiência e menos produtividade começa a sair do negócio. O problema é que, na cana, o produtor não quebra de um ano para o outro. É um negócio que possui uma morte lenta e duradora.

Conforme o Radar Compara de agosto, o preço médio do ATR em 2026 deve ficar em R$ 0,9379 por quilo. Qual é a sua visão para a precificação da cana neste ano e quais seriam os impactos ao produtor?
Para o produtor, acaba sendo dramático. Estávamos nos últimos três ou quatro anos sustentando patamares na casa de R$ 1,10/kg a R$ 1,15/kg, chegando a até R$ 1,20/kg. Agora, retornamos para R$ 0,95/kg, sendo que este é um preço considerado otimista. O movimento do mercado do Consecana, historicamente, em termos reais, alterna picos e vales. A cada cinco ou sete anos, temos esse movimento de oscilação. Só que, nos últimos três ou quatro anos, não tivemos esse movimento. O nosso setor ficou em um bom patamar de preço. Então, será que está ruim ou será que nós estamos voltando para o movimento de oscilação normal? Só que nos acostumamos com bons preços e tomamos algumas outras decisões. Era, sim, esperado que o preço tivesse uma baixa, talvez no ano que vem ele continue baixo para depois voltar a subir, porque foi o que aconteceu historicamente. O que muda essa curva é o etanol de milho que, nos últimos 25 anos, não tivemos. Teoricamente, se não tivéssemos o etanol de milho, provavelmente a curva já estaria acontecendo, só que agora tem 10 bilhões de litros a mais de etanol. Para o produtor, é um ano realmente apertado. Só que segue a mesma lógica da usina. Depende da situação em que ele está, do que fez nos últimos anos e de onde se entrega a cana – porque, pelo Consecana seco, o negócio não remunera mesmo. Mas há regiões onde se trabalha com ATR fixo e que possuem uma perpetuidade melhor do negócio.

Nesse cenário, há perspectiva de uma melhora nos preços do açúcar, o que talvez possa salvar alguns produtores e usinas?
Eu acho que o açúcar tende a ajudar. Todo mundo está falando que o produto está subprecificado, que já era para os preços terem reagido. Mas a cana não se faz em apenas um ano, é uma cultura semiperene; a situação não inverte de quadro rapidamente. O valor do ATR no mês de julho foi de R$ 0,85/kg e o acumulado é de R$ 0,87/kg. A tendência é que isso puxe o mercado do segundo semestre para frente, mas não a ponto de voltar para R$ 1,10/kg.

Você enxerga que algumas usinas de etanol de cana vão começar a produzir também com milho para se reerguerem nos negócios? Há esse movimento?
Já em movimento, não, mas há estudos, com certeza. O que é importante dizer é o seguinte: o pessoal sempre fala do etanol de milho, mas o produtor não vai montar uma destilaria por causa do etanol de milho, mas sim devido ao complexo milho. O etanol de milho por si só também não é competitivo com os preços como estão. Por outro lado, quando inclui o DDG [grão seco de destilaria] e o óleo de milho, o negócio se inverte. No estado de São Paulo, vai haver o desenvolvimento da cadeia do milho. Eu vejo muito espaço para crescimento e o desenvolvimento faz total sentido porque, de certa forma, já temos um negócio que a cadeia do milho peleja tanto para ter, que é a questão da biomassa. Já temos um certo bagaço excedente; o preço de energia por si só está ruim e, muitas vezes, o bagaço fica sobrando. Então, por que não aproveitar isso? Eu tenho, sim, a visão de que haverá uma integração da cadeia e não somente do etanol de milho. Pode ser que o usineiro também desenvolva um confinamento [de gado] na porta da usina. O nosso setor vai para esse rumo de diversificação e de colocar a cadeia de milho como complemento.


Estas e outras análises a respeito do mercado de combustíveis estarão na Conferência NovaCana 2026.


Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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