Usinas

Custo da certificação para o RenovaBio pode variar em até 20 vezes, dizem firmas inspetoras

Número de fornecedores de cana-de-açúcar, uso de dados primários ou padrão e urgência da certificação são alguns dos fatores que pesam no preço


novaCana.com - 08 out 2019 - 08:24

O processo de certificação das usinas produtoras de biocombustíveis no RenovaBio tem caminhado, mesmo que a passos lentos. Apesar do senso de urgência, já que o programa entra em vigor em 2020, apenas 16 empresas já entraram em processo de consulta pública, sendo 12 de etanol.

Uma das questões apontadas como restritivas ao ingresso no programa é o custo do processo de certificação. Durante a NovaCana Ethanol Conference, em setembro, o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, fez menção a um valor hipotético da certificação: “Não é porque uma certificadora está cobrando R$ 70 mil, R$ 80 mil, que eu vou ficar esperando até o ano que vem para ver se tem resultado ou não”.

Apesar desta hipótese, as firmas inspetoras afirmam que os preços podem variar bastante. Segundo o diretor técnico do Instituto Totum, Fernando Lopes, o tamanho da usina tem influência no custo da certificação, mas a característica mais relevante é a quantidade de fornecedores de matéria-prima. “A parte de verificação dos dados da fase agrícola é realmente a que dá mais trabalho”, afirma.

Ele declara que, para o Instituto Totum, dificilmente a proposta será inferior a R$ 35 mil – mas, até o momento, a empresa tampouco fez uma cotação acima de R$ 100 mil. “Isso não quer dizer que não possa haver. Para fazer uma proposta bem-feita, precisamos colher os dados da usina, principalmente o número de produtores e o percentual a ser declarado por dados padrões e reais”, expressa.

O responsável técnico pelo RenovaBio na Fundação Carlos Alberto Vanzolini, Felipe Coelho, concorda que o uso de dados padrão e a quantidade de fazendas também influenciam muito no preço final. “A cana é uma indústria que tem apenas uma entrada de matéria-prima, e é mais complexa na fase agrícola”, explica.

Por sua vez, o sócio diretor da KPMG, Ricardo Zibas, inclui o tempo para a certificação no cálculo da variação do custo – que, de acordo com ele, pode ser superior a 100%. “Como o tempo está curto, para fazer no prazo que as usinas estão pedindo, precisamos colocar mais gente em campo. Automaticamente, você tem um custo maior”, argumenta.

Outro ponto citado é a organização da usina em relação aos seus dados, bem como as distâncias que os profissionais da firma inspetora precisam percorrer, já que as verificações são in loco. É por isso que o coordenador de projetos do Benri, Thierry Couto, acredita que “é difícil apontar uma faixa de preço, pois cada rota, usina e região tem suas particularidades”.

O sócio-fundador da Green Domus, Felipe Bottini, utiliza dois cenários hipotéticos para expressar a variação nos custos de certificação: “Em um, a planta tem dez áreas próprias, em que todas as gestões de dados são centralizadas na mão do emissor primário. No outro, a unidade tem mil fornecedores de cana, são todos terceiros, e ela não tem as informações centralizadas”. De acordo com ele, por conta disso, o trabalho de verificação pode variar de 10 a 20 vezes entre os dois casos apresentados.

Porém, Bottini também alerta ter sido informado sobre preços de certificação que não cobrem os custos da firma inspetora. “Para mim, é uma indicação forte de que a coisa não foi bem compreendida ou de que não há intenção de fazer o trabalho na extensão que é segura para o programa”, declara.

A SGS do Brasil foi contactada pela equipe de reportagem do novaCana, mas não quis dar entrevista.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com