Usinas

Dezesseis usinas de etanol já entraram em consulta pública para certificação no RenovaBio

No total, existem 27 certificações em andamento; melhor e pior notas são da Jalles Machado e da Zilor, respectivamente


NovaCana - 12 set 2019 - 10:37 - Última atualização em: 01 out 2020 - 09:31

  1. Até o momento, 27 certificações estão em andamento no RenovaBio, sendo 16 de etanol hidratado e 11 de anidro.
  2. No total, 16 usinas e 11 grupos entraram em consulta pública – oito usinas já tiveram o processo concluído e aguardam parecer final da ANP, seis estão em andamento e duas foram retiradas do site da firma inspetora. Os grupos São Martinho, Zilor, Abengoa e Jalles Machado certificaram mais de uma usina.
  3. A quantidade de litros necessários para a emissão de um CBio varia de 661,81 a 1.288,66.
  4. Com uma produção em plena capacidade por 180 dias (de acordo com o volume diário autorizado pela ANP), as usinas em consulta pública podem emitir cerca de 5,46 milhões de CBios por ano – o que equivale a 19% da meta de 28,7 milhões de CBios estabelecida para 2020.
  5. Considerando um cenário de preço do CBio a R$ 34, as usinas podem ter uma receita adicional de 2,64 centavos a 5,14 centavos por litro de etanol produzido.
  6. Neste cenário de preço do CBio, as unidades em consulta pública devem receber entre R$ 1,06 e R$ 8,46 por tonelada de cana moída. Já em relação à área de canavial, a projeção é de uma receita adicional de R$ 67,67 a R$ 528,01 por hectare plantado.
  7. Nos mesmos 180 dias de plena capacidade, as receitas adicionais das unidades foram projetadas entre R$ 3,23 milhões e R$ 24,87 milhões.
  8. Em um cenário otimista, com o preço do CBio a R$ 146, a usina com melhor desempenho pode obter R$ 106,81 milhões de receita adicional com o etanol hidratado. Já no cenário considerado pessimista – com CBio a R$ 17 –, a unidade de pior desempenho teve uma receita adicional projetada de R$ 1,61 milhão com o anidro.
  9. O rendimento agrícola dos canaviais analisados varia de 43,6 t/ha a 77,5 t/ha.
  10. Todas as usinas tiveram queimadas contabilizadas na RenovaCalc; elas vão desde 106,42 ha até 68,54 mil ha. A ferramenta considera como queimadas as áreas cadastradas com dados padrões.
  11. Apesar de cinco firmas inspetoras estarem cadastradas na ANP, apenas duas tiveram consultas públicas iniciadas: SGS do Brasil e Green Domus.

Ainda que o número de usinas de etanol em processo de certificação para o RenovaBio esteja bem abaixo das 370 unidades brasileiras autorizadas a produzir o biocombustível, novas consultas públicas têm aparecido conforme a data para início do programa se aproxima.

Por enquanto, nenhuma usina está apta para a emissão dos créditos de descarbonização (CBios), mas oito unidades já concluíram a consulta e aguardam apenas um parecer final da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Desde a publicação do levantamento anterior realizado pelo novaCana, no final de julho, oito usinas – de cinco grupos distintos – iniciaram suas consultas públicas. São elas: Boa Vista (São Martinho); São Luiz e São João (Abengoa Bioenergia); Barra Grande, São José e Quatá (Grupo ZIlor); Usina Cevasa; e Usina Ferrari.

Assim, no acumulado até o momento, 16 usinas iniciaram esta fase do processo de certificação. Ela tem início depois que os relatórios são finalizados pela firma inspetora; a própria certificadora envia o formulário de consulta pública para a ANP, que possui um prazo de cinco dias para fazer uma análise inicial e autorizar a publicação da consulta.

Segundo um consultor de uma firma inspetora, que pediu para não ser identificado, já existem mais usinas com documentação pronta, porém, uma nova versão da RenovaCalc foi liberada pela ANP, atrasando os processos.

Com isso, as datas de consulta pública inicialmente divulgadas para as usinas Cevasa e Ferrari provavelmente sofrerão modificações. Seus documentos estavam disponíveis no site da SGS, mas foram retirados poucos dias depois de serem disponibilizados. Segundo a fonte consultada, nestes dois casos, a ANP demorou mais do que cinco dias para fazer a liberação, ao passo em que o site da firma inspetora já estava programado para colocar os documentos no ar dentro do prazo.

Agora, embora as consultas públicas já tenham sido liberadas pela ANP, a firma inspetora teria optado por atualizar os documentos seguindo a nova versão da RenovaCalc. Até o fechamento desta reportagem, a documentação corrigida ainda não havia sido disponibilizada e, por isso, foram consideradas as versões anteriores.

Apesar dessa justificativa relacionada à automatização do site, os dados de etanol hidratado da usina Ferrari não foram disponibilizados no site da firma inspetora. Isso impediu que alguns cálculos fossem feitos no momento deste levantamento.

Notas das usinas e impacto na geração de CBios

Conforme os dados apresentados pela SGS do Brasil e pela Green Domus, as mais recentes certificações tiveram notas de eficiência energético-ambiental entre 67,4 gCO2/MJ, no caso do etanol anidro da usina Ferrari, e 49,7 gCO2/MJ, do etanol hidratado da usina Barra Grande, do grupo Zilor.

Dentre todas as usinas em processo de certificação até agora, a usina Ferrari tem a terceira melhor nota, atrás do anidro e do hidratado da unidade Matriz, da Jalles Machado. A nota mais baixa, que até o início de agosto era da Otávio Lage (53 gCO2/MJ), também da Jalles Machado, passou a ser a da usina Barra Grande (49,7 gCO2/MJ).

renovabio pioneiras notas 100919

Na prática, as notas funcionam como um fator multiplicador sobre o volume comercializado de etanol, delimitando o número de CBios que uma usina pode emitir a partir da quantidade de dióxido de carbono liberado em seu processo produtivo completo. Por isso, considerando que usinas registrem a mesma produção, mas possuam notas diferentes, a quantidade de CBios também não será igual.

Por exemplo, enquanto a usina Ferrari precisaria de 663,57 mil litros de etanol anidro para produzir um CBio, a usina Barra Grande precisaria de 942,51 mil litros de hidratado, ou 894,45 de anidro, para gerar o mesmo crédito.

Este cálculo leva em conta não somente a nota de eficiência energético-ambiental de cada processo produtivo, mas também a participação da matéria-prima considerada elegível no RenovaBio. Os dois dados são informados no momento da consulta pública.

renovabio pioneiras litros cbio 100919

Das 16 usinas que entraram em consulta pública até o momento – somando 27 certificações entre anidro e hidratado – o volume médio de litros necessários para a geração de um CBio é de 784,14 litros para o anidro e 826,54 litros para o hidratado.

O menor valor registrado é da usina Matriz, do grupo Jalles Machado (661,81 litros de anidro) e o máximo é da usina Iracema, do Grupo São Martinho (1.288,66 litros de hidratado).

Projeção de receita das usinas – por litro e por safra

A partir destes valores e das perspectivas de preço para os CBios traçadas pelo Ministério de Minas e Energia (MME), é possível calcular que a usina Ferrari pode obter uma receita adicional de 5,12 centavos para cada litro de anidro produzido. Já a Barra Grande receberia 3,80 centavos por litro de anidro e 3,61 centavos por litro de hidratado. Os valores consideram um cenário mediano, com o CBio sendo comercializado a R$ 34.

renovabio pioneiras rendimento litro 100919

Com estes valores também é possível calcular o rendimento das unidades por safra. Levando em conta a autorização de produção diária concedida pela ANP e uma temporada de 180 dias de operação plena, a usina Ferrari – que tem autorização para produzir apenas 350 litros de etanol anidro por dia – tem um rendimento projetado de R$ 3,23 milhões em um cenário médio. Como os dados referentes ao etanol hidratado não foram disponibilizados pela firma inspetora até o momento, não foi possível fazer o cálculo.

Em contrapartida, a usina Boa Vista – que tem uma nota inferior no RenovaBio em relação à Ferrari – tem o maior volume autorizado pela ANP entre as unidades que entraram em consulta pública nos últimos dois meses: 2,6 milhões de litros diários para o hidratado e 530 mil litros para o anidro.

Por conta disso, a unidade tem uma receita adicional projetada maior do que da usina Ferrari. Considerando um cenário médio, com o CBio a R$ 34, a Boa Vista teria uma receita adicional de R$ 20,48 milhões por safra apenas com o hidratado, ou R$ 24,87 milhões contando anidro e hidratado. Esta é a maior receita dentre todas as usinas que entraram em consulta pública até o momento.

renovabio pioneiras rendimento safra 100919

Inclusive, até mesmo a usina Barra Grande, que registrou as notas mais baixas até o momento, tem uma receita projetada superior à da Ferrari, de R$ 11,93 milhões, considerando anidro e hidratado.

Produtividade: o RenovaBio em relação ao campo

A partir dos dados disponibilizados na RenovaCalc, foi possível calcular que a produtividade agrícola das usinas em certificação até então variou entre 43,59 t/ha, da usina Quatá, da Zilor, e 77,49 t/ha, da Otávio Lage, da Jalles Machado. Já a média ficou em 61,19 t/ha, valor considerado abaixo do ideal para o setor.

Entre as certificações mais recentes, a produtividade mais elevada foi a da São Luiz, com 73,87 t/ha.

renovabio pioneiras canaviais 100919

Estes valores são relevantes porque a maior parte dos custos das sucroenergéticas está no campo. Ou seja, uma baixa produtividade prejudica a rentabilidade das usinas. Além disso, com o RenovaBio em vigor, a produtividade é duplamente recompensada: as usinas podem negociar um número maior de CBios porque terão um maior volume de produção e uma melhor nota de eficiência energético-ambiental, ampliando o ganho de receita adicional.

Em compensação, as usinas com um desempenho ruim nos canaviais também são duplamente penalizadas, o que pode ampliar a já conhecida discrepância entre os resultados das melhores e das piores companhias do setor.

Com os mesmos dados, é possível observar que a usina Vale do Paraná pode produzir a maior quantidade de CBios por hectare: 15,53. Em um cenário em que cada CBio será vendido por R$ 34, isso implica em uma receita adicional de R$ 528,02 por hectare. Por tonelada de cana, o adicional seria de R$ 8,46.

A usina Boa Vista, por sua vez, é a que possui a segunda maior quantidade de CBios por hectare, 11,75. Já sua produtividade agrícola faz com que ela seja a terceira em número de CBios para cada tonelada de cana moída, com 169,76, ficando atrás da Vale do Paraná e da usina Iracema, também da São Martinho.

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Com isso, a Boa Vista tem uma projeção de receita de R$ 5,77 por tonelada de cana moída ou R$ 399,52 por hectare. Já a Iracema pode receber R$ 5,89/t ou R$ 356,78/ha.

Campo é o fator de disparidade

A grande diferença na nota das usinas para o RenovaBio fica com a parte no campo, ou seja, depende do registro das emissões de CO2 ocorridas nos canaviais. Neste quesito, a Ferrari é a que possui a menor emissão, com 15,3 gCO2/MJ.

Isso se deve principalmente pela unidade não utilizar fosfato monoamônico e nitrato de amônio nos canaviais, além de volumes menores de calcário, gesso e ureia. Também entra na conta a utilização de dados próprios, vindos dos canaviais.

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Na outra ponta, as usinas São José e Barra Grande apresentaram as maiores emissões no campo, com 30 e 32,7 gCO2/MJ respectivamente. Isso ocorreu porque as usinas utilizaram apenas os dados padrões da RenovaCalc, que estão acima da média do mercado e conferem uma espécie de penalidade à nota.

Entre os malefícios da utilização de dados padrão está a contabilização de queima total da área de canavial. Segundo o consultor de uma firma inspetora que não quis se identificar, quando é indicado que uma usina queimou toda sua área não necessariamente significa uma queima efetiva, pois isso é uma consequência do preenchimento. Ele explica, ainda, que só é possível considerar que houve queimadas quando os dados reportados são primários, ou seja, derivados de boletins e documentos que comprovem a situação.

Uma unidade que teve sua nota prejudicada foi a Cevasa, que utilizou dados próprios de forma parcial. Neste caso, a participação da área contabilizada como queimada foi de 67,41% em relação à área total. Com isso, a unidade teve emissões no campo calculadas em 24,9 gCO2/MJ.

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Na outra ponta, a usina Matriz, da Jalles Machado, teve apenas 0,32% da sua área total queimada, o que é uma das justificativas para a baixa emissão contabilizada em seus canaviais.

Divergência na interpretação da lei sobre áreas elegíveis

Outra questão que impacta a quantidade de CBios que as usinas podem emitir é a quantidade de matéria-prima elegível para o programa. Conforme as regras instituídas pela ANP, é necessário que todas as fazendas cadastradas pelos produtores de biocombustíveis que desejam participar do RenovaBio possuam o Cadastro Ambiental Rural (CAR), documento que comprova que o terreno está cumprindo as regras do Código Florestal.

Segundo reportagem do Valor Econômico, a Green Domus enxerga que o CAR é obrigatório para todas as áreas credenciadas desde o primeiro ano e que a Resolução ANP nº 758, de 2018, não desobriga a fazenda de ter CAR até 31 de dezembro de 2018.

Por outro lado, a SGS do Brasil tem uma visão diferente. Ainda conforme a reportagem, a interpretação da firma inspetora é de que há uma exceção para a biomassa adquirida no ano passado, uma vez que a inscrição de produtores rurais no CAR só se tornou obrigatória em 2019.

Assim, nas certificações mais recentes da SGS, todas as unidades dispõem de áreas sem CAR que foram consideradas elegíveis. Entre elas estão a da usina Ferrari, com 45 fazendas – de um total de 845 – sem o documento, enquanto a Barra Grande possui 65, dentre 1.139. Já a Quatá tem duas, dentre 549; a São João tem 19 dentre, 445; a São José tem 43, dentre 1.170; a São Luiz tem 12, dentre 451; e a Cevasa tem 33, dentre 434.

Após a consulta pública, as certificadoras podem fazer alterações nos dados apresentados, acatando ou não os argumentos apresentados. Em seguida, seus documentos passarão pelas mãos da ANP, quando será definido em definitivo se as fazendas sem CAR entrarão na contabilização dos créditos das usinas ou serão suprimidas.

Gabrielle Rumor Koster – novaCana.com


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