BASF
Investimento

BNDES financia R$ 2,76 bi para usinas em 2018 – Tereos, Batatais e Cocal lideram [atualizado]

Levantamento inédito demonstra que tanto operações indiretas, automáticas ou não, quanto diretas não automáticas aumentaram no último ano


novaCana.com - 09 abr 2019 - 11:46 - Última atualização em: 06 set 2019 - 08:14

Atualização (23/04, às 12h20): Os dados do BNDES utilizados para a matéria inicial foram atualizados pelo  banco. O texto e os gráficos abaixo foram alterados com base nos números consolidados mais recentes.

O setor sucroenergético precisa de investimentos. Seja para renovação do canavial – essencial para melhorar a produtividade e, consequentemente, os lucros –, para construção, ampliação e manutenção de usinas, ou para outros fins, as empresas demandam recursos que vão além dos seus próprios rendimentos.

Ainda assim, muitas companhias não possuem um bom acesso ao crédito, já que enfrentam dificuldades financeiras provocadas por fatores diversos, como variações cambiais, o impacto do controle de preços realizado no começo da década e as flutuações do mercado de açúcar. A Usina Santa Terezinha, por exemplo, teve dificuldade em reestruturar uma dívida superior a R$ 4 bilhões e, por isso, entrou com pedido de recuperação judicial no fim de março.

Porém, em 2018, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi na contramão das perspectivas negativas. Em levantamento realizado pelo novaCana a partir de dados divulgados pelo banco, as companhias sucroenergéticas viram um aumento na quantia aprovada para financiamentos.

No ano passado, o apoio do banco ao setor correspondeu a R$ 2,76 bilhões, divididos em 709 projetos. Este é o maior valor desde 2014, quando o BNDES atingiu o auge de R$ 6,8 bilhões. De lá para cá, os valores não ultrapassaram a marca de R$ 1,5 bilhão e a queda entre 2016 e 2017 chegou a 33,56%.

bndes 3 totalanosV2

Entre os dois últimos anos, o crédito do BNDES para as sucroenergéticas aumentou 181% em relação ao valor investido. Por outro lado, o número de projetos diminuiu 42,78%, passando de 1.239 em 2017 para 709 em 2018.

Os dados divulgados pelo banco foram agrupados pelo novaCana e são referentes à relação de financiamentos aprovados por diferentes modalidades – sejam operações indiretas, automáticas ou não, ou diretas não automáticas. Esta é a primeira vez que as operações indiretas automáticas também fazem parte do levantamento, que traz dados inéditos para o setor.

Com a entrada dessa nova categoria de operações, o panorama de empréstimos dos últimos anos fica completo. Em 2017, por exemplo, os financiamentos do BNDES foram calculados em apenas R$ 246,78 milhões, quando desconsideradas as transações indiretas automáticas. Agora, é possível saber que a modalidade corresponde a 73,7% do total, fazendo o valor chegar a R$ 983,25 milhões.

bndes 8 financiamentotiposV2

A diferença entre as formas de financiamento se dá de acordo com a forma como o investimento é repassado para as empresas. Como o BNDES não tem agências, ele atua em parceria com uma rede de instituições financeiras credenciadas para fazer com que os recursos cheguem a todos os municípios do Brasil – essas são as operações indiretas. No caso da automática, não há a avaliação anterior do banco, enquanto a não automática requer uma consulta prévia para verificar a viabilidade do apoio.

Já as operações diretas são realizadas por meio do BNDES Finem, produto com linhas de financiamento acima de R$ 10 milhões e voltadas para projetos. Por ter algumas condições que requerem análise, elas não são automáticas.

Sucroenergéticas que mais receberam dinheiro do BNDES

Em 2018, 100 empresas receberam financiamento do BNDES, seja com vários projetos ou em apenas um. O número é menor do que em 2017, quando 122 companhias assinaram contratos com o banco. Assim, com a redução no número de empresas e a elevação no montante financiado, o valor médio recebido pelas companhias no ano passado foi bem maior – R$ 27,6 milhões em 2018 ante R$ 8,06 milhões em 2017.

Entretanto, a concentração dos valores é heterogênea. A empresa que recebeu mais recursos em 2018 foi a Guarani, da Tereos Açúcar e Álcool, com R$ 522,16 milhões. O grupo também aparece na sexta e nona posições, sendo o que mais recebeu no ano, com um total de R$ 776,2 milhões – todos os investimentos foram na área de expansão e manutenção industrial.

bndes 1 20empresasV2

No segundo lugar de ambos os rankings – por empresa e por grupo – ficou a Usina Batatais, com R$ 345 milhões e R$ 349,73 milhões, respectivamente. A diferença entre as quantias se deve a projetos financiados para a Unidade Lins, também pertencente ao grupo, que somam R$ 4,73 milhões. Ainda há uma discrepância nos dados, pois consta o CNPJ da Unidade Batatais, porém na cidade de Lins, então decidimos utilizar o CNPJ como informação principal.

A unidade matriz do grupo, especificamente, contratou R$ 332,68 milhões para a ampliação de sua capacidade de moagem para até 4,2 milhões de toneladas de cana por safra, valor que também deve ser usado para expansão do plantio, aumento da cogeração na Unidade Lins e reflorestamento de áreas nas duas usinas. Além disso, R$ 9,75 milhões foram destinados ao plantio de cana-de-açúcar e R$ 2,56 milhões, à fabricação de açúcar bruto.

Por sua vez, na terceira posição em ambos os rankings está a Cocal. O valor de R$ 243,95 milhões foi destinado, segundo o BNDES, para modernização industrial, agrícola e das unidades de cogeração de energia, além de melhorias em armazéns e capital de giro isolado.

bndes 2 15gruposV2

O ranking completo dos grupos, disponível também por ano e por categoria de financiamento, pode ser acessado no novaCana DATA (exclusivo para assinantes).

Histórico de contratações das empresas

Levando em consideração as empresas que ficaram nas dez primeiras posições em relação ao valor recebido em 2018, o novaCana traçou o histórico das captações nos últimos cinco anos.

Considerando o total acumulado – mas, principalmente, graças aos valores recebidos no ano passado – Guarani e Batatais seguem em primeiro e segundo lugares, respectivamente. A primeira também recebeu investimentos apenas 2014, enquanto a segunda firmou contratos com o BNDES em 2017, 2016 e 2014.

bndes 7 tabelaV2

O terceiro lugar em relação ao montante total também segue ocupado pela Cocal que, dentre as dez maiores de 2018, só recebeu um financiamento nos últimos cinco anos,com o valor de R$ 243,95 milhões.

A Vale do Paraná e a São Martinho, quarto e quinto lugares no ranking, respectivamente, foram financiadas nos últimos cinco anos. A São Martinho, inclusive, acumulou R$ 300,72 milhões no período, e ficou na terceira posição no total.

Mudança de perfil: Indústria x campo

Dentre os projetos apoiados em 2018, a grande maioria (70%) foi direcionada à área de expansão e modernização industrial. Em geral, o foco é na ampliação da capacidade instalada de moagem e na reestruturação, renovação e modernização das atividades agrícolas e industriais, ampliando as produções. A categoria ainda envolve contratos para a aquisição de máquinas e equipamentos, além de outras melhorias.

No total, 16 empresas receberam recursos para esta área no ano passado: Unidade Ariranha, Usina Batatais, Ferrari, Alcoeste, Pedra Agroindustrial, Usina São José, Unidade WD, Cocal, Raízen Energia, Guarani, Companhia Energética São José, Andrade Açúcar e Álcool, Usina Vertente, Usina Boa Vista, São Martinho e Jalles Machado.

Juntas, elas receberam R$ 1,9 bilhões, o equivalente a R$ 120,2 milhões para cada, em média. O número de empresas que receberam financiamentos na categoria cresceu 70% desde 2017, e o valor aumentou 3.040,55% no mesmo período. A diferença é substancial.

bndes 5 expansaoV2

Na comparação com os últimos seis anos, houve uma inversão na concentração dos investimentos. Entre 2012 e 2017, a maior parte era destinada ao plantio de cana-de-açúcar. Em 2018, o setor de expansão industrial dominou os recursos.

Assim, segunda área com mais investimentos em 2018, o plantio de cana-de-açúcar recebeu 11% dos recursos. Os outros 19% foram divididos entre projetos de cogeração, fabricação de etanol e de açúcar, logística para açúcar e/ou etanol e apoio ao campo.

Especificamente em relação aos investimentos para o plantio de cana-de-açúcar, 66 empresas receberam recursos, o menor número dos últimos quatro anos. A quantia caiu 39,07% na comparação anual – de R$ 509,23 milhões em 2017 para R$ 310,27 milhões em 2018. Ainda assim, a área é a segunda que mais recebeu recursos no ano passado.

bndes 6 plantioV2

Os grupos sucroenergéticos que contrataram financiamento na área de plantio superiores a R$ 10 milhões foram: Santa Adélia, Colombo, Pedra Agroindustrial, Alto Alegre, Alta Mogiana, Tércio Wanderley (Usina Coruripe), Cooperb Novo Milênio, Batatais, Construcap e Bioenergética Aroeira.

O levantamento completo dos financiamentos de cada companhia, assim como o detalhamento das contratações – valor, prazo de carência, juros, prazo de amortização, agente financeiro contratado e a descrição do projeto – estão disponíveis no novaCana DATA (acesso exclusivo para assinantes).

Destinação dos recursos

Os R$ 2,76 milhões de reais emprestados pelo BNDES para o setor sucroenergético em 2018 foram destinados às áreas de expansão e modernização industrial – que concentrou 70% dos recursos –, plantio de cana-de-açúcar, cogeração, fabricação de etanol e de açúcar, logística para açúcar e/ou etanol e apoio ao campo. Apoio à indústria e compra e venda de insumos ou derivados também receberam investimentos, porém, com representação mínima no total.

bndes 4 setoresV2

Mesmo com uma pequena representação, o ano passado foi o primeiro, desde 2013, com um projeto financiado no setor de apoio à indústria. Com o valor de apenas R$ 36 mil, o recurso destinado à Usina Colorado por meio do BNDES Finame poderá ser utilizado para manutenção e reparo de máquinas e equipamentos. Dentro da mesma categoria também se enquadrariam, por exemplo, investimentos em instalações hidráulicas, sistemas de refrigeração e serviços de usinagem e solda.

O setor de logística para açúcar e etanol, que teve bastante peso em 2013 e 2014, teve uma queda nos últimos anos e representou apenas 2% do total financiado em 2018. Os maiores projetos nessa categoria envolvem um investimento de R$ 25 milhões da Raízen Energia para construção de armazéns para açúcar, e um de R$ 20 milhões da Usina Serrana, do grupo Pedra Agroindustrial, envolvendo a emissão de warrants (títulos de garantia) para armazéns.

Já a cogeração teve um aumento considerável: depois de receber apenas R$ 4,58 milhões em 2017, chegou a R$ 294,68 milhões em 2018, um incremento de 6.334,06%. Os financiamentos nesta área, que pode representar um alívio financeiro em meio à crise, foram contratados pela Pitangueiras Açúcar e Álcool (R$ 62,87 milhões), pela unidade Vale do Paraná, do grupo Pantaleon (R$ 159,22 milhões) e pela Usina Sonora, da Companhia Agrícola Sonora Estância (R$ 72,6 milhões). Todos são projetos de expansão de capacidade instalada.

novaCana DATA

Rafaella Coury – novaCana.com