Primeira produtora de etanol a entrar em consulta pública para se certificar no RenovaBio poderá emitir até 408,5 mil CBios no primeiro ano do programa
A nova política nacional de biocombustíveis (RenovaBio) fará parte do dia a dia da cadeia de combustíveis a partir de 2020. Para que o programa funcione, entretanto, é preciso que as usinas produtoras de biocombustíveis obtenham a certificação prévia que permitirá a emissão dos créditos de descarbonização (CBios). Estes títulos, por sua vez, serão comprados pelas distribuidoras de acordo com uma meta anual.
A Usina Vale do Paraná, do grupo Pantaleon, foi a primeira produtora de etanol a submeter sua avaliação para consulta pública. Os dados da companhia ficarão disponíveis para receber comentários até 3 de julho no site da SGS Brasil, firma inspetora contratada pela usina para a realização do processo de certificação. Depois disso, eles serão enviados em sua versão final para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A usina, localizada em Suzanápolis (SP), submeteu notas de eficiência energético-ambiental para a produção de etanol anidro e hidratado. A princípio, elas foram calculadas em 67 gCO2eq/MJ e 66,6 gCO2eq/MJ, respectivamente.
Os valores representam a quantidade de gás carbônico que deixa de ir para a atmosfera na produção dos biocombustíveis no comparativo com a gasolina. Conforme a SGS Brasil, o certificado terá validade de três anos contados a partir da data da emissão.
Leia mais:
- Potencial de emissão de CBios da Vale do Paraná
- Estimativas de receita considerando diferentes cenários para os preços dos CBios
- Os canaviais da Vale do Paraná segundo os critérios de elegibilidade do RenovaBio
- Comparativo com a Olfar Porto Real, única produtora de biocombustível já certificada no RenovaBio
- Utilização de dados primários sobre os canaviais e seus impactos
- Resultado financeiro da Vale do Paraná em 2018
A nova política nacional de biocombustíveis (RenovaBio) fará parte do dia a dia da cadeia de combustíveis a partir de 2020. Para que o programa funcione, entretanto, é preciso que as usinas produtoras de biocombustíveis obtenham a certificação prévia que permitirá a emissão dos créditos de descarbonização (CBios). Estes títulos, por sua vez, serão comprados pelas distribuidoras de acordo com uma meta anual.
A Usina Vale do Paraná, do grupo Pantaleon, foi a primeira produtora de etanol a submeter sua avaliação para consulta pública. Os dados da companhia ficarão disponíveis para receber comentários até 3 de julho no site da SGS Brasil, firma inspetora contratada pela usina para a realização do processo de certificação. Depois disso, eles serão enviados em sua versão final para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A usina, localizada em Suzanápolis (SP), submeteu notas de eficiência energético-ambiental para a produção de etanol anidro e hidratado. A princípio, elas foram calculadas em 67 gCO2eq/MJ e 66,6 gCO2eq/MJ, respectivamente.
Os valores representam a quantidade de gás carbônico que deixa de ir para a atmosfera na produção dos biocombustíveis no comparativo com a gasolina. Conforme a SGS Brasil, o certificado terá validade de três anos contados a partir da data da emissão.
Potencial para a emissão de CBios
As notas da Vale do Paraná significam que, para emitir um CBio, a unidade precisará comercializar 667,56 litros de etanol anidro ou 703,73 litros de etanol hidratado.
Atualmente, a capacidade diária de produção autorizada pela ANP para a unidade é de 500 mil litros de etanol anidro e 1,07 milhão de litros de hidratado. Desta forma, considerando uma safra de 180 dias, a usina pode produzir 90 milhões e 192,6 milhões de litros de cada biocombustível, respectivamente.
Com isso, o potencial da unidade para a emissão de CBios é de 408.504 títulos por safra – 134.820 com anidro e 273.684 com hidratado.
Considerando o intervalo de preços calculado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), de R$ 17 a R$ 146 por CBio, os rendimentos da Vale do Paraná com a participação no RenovaBio podem ficar entre R$ 6,94 milhões e R$ 59,64 milhões em uma safra. O valor padrão apresentado pelo ministério, entretanto, é de R$ 34. Nesse caso, os rendimentos seriam de R$ 13,89 milhões.

Etanol x biodiesel
Até o momento, apenas uma produtora de biocombustível já concluiu sua certificação no RenovaBio: a Olfar, usina de biodiesel localizada em Porto Real (RJ). A unidade obteve a nota 80,8 gCO2eq/MJ, o que significa que ela poderá emitir mais CBios que a Vale do Paraná, mesmo que com uma produção inferior.
Isso acontece porque a produtora de biodiesel declarou como matéria-prima apenas a utilização de óleos e gorduras reaproveitados, o que traz vantagens no preenchimento da RenovaCalc. Além disso, como as emissões atribuídas ao processo de fabricação do diesel são mais altas no comparativo com a gasolina, o biodiesel tem potencial para minimizar uma emissão maior do que o etanol.
Segundo números divulgados pela BiodieselBR, a Olfar tem capacidade instalada para produzir até 162 milhões de litros de biodiesel por ano. Com este volume, a unidade poderia emitir um pouco mais do que 434 mil CBios.
Dentro do intervalo de valores projetado pelo MME, essa quantia de CBios pode representar um rendimento de R$ 7,4 milhões a R$ 63,3 milhões para a unidade fluminense. Considerando o valor padrão, o montante seria de R$ 14,76 milhões.
Fornecedores de cana contabilizados
A princípio, as notas apresentadas pela Vale do Paraná estão bastante próximas aos números de uma usina média do setor, conforme divulgado no momento do lançamento da RenovaCalc. Naquele momento, falava-se em 66,9 gCO2eq/MJ para o etanol anidro e 66,6 gCO2eq/MJ para o hidratado.
Contudo, a usina apresenta uma característica que não deve ser unanimidade entre as sucroenergéticas e pode beneficiar sua nota em relação às concorrentes: a Vale do Paraná informou dados primários para toda a cana-de-açúcar utilizada. Ou seja, utilizou dados reais de seus canaviais e não os dados padrão fornecidos pela RenovaCalc.
Segundo os desenvolvedores da ferramenta, a possibilidade do preenchimento padrão foi criada para facilitar a participação das usinas, já que nem todas terão os dados disponíveis. Porém, essa facilidade traz uma espécie de penalização, pois o resultado do produtor que a utilizar deve ser menor do que nos casos em que os dados primários forem preenchidos com números reais – justamente o que a Vale do Paraná fez.
Todos os canaviais dentro das regras
Além disso, a firma inspetora atesta que todos os canaviais da usina atendem aos critérios de elegibilidade do RenovaBio – ausência de desmatamento, apresentação de Cadastro Ambiental Rural (CAR) e respeito aos limites do zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar (ZAE Cana).
“As áreas foram consideradas elegíveis de acordo com o estabelecido na Resolução 758 da ANP”, aponta relatório da SGS Brasil, divulgado como parte da consulta pública. “As áreas dentro do ZAE foram consideradas elegíveis e as que estão parcialmente ou totalmente fora do ZAE foram analisadas com relação à consolidação da produção de cana de açúcar em 2009”.
No total, foram analisadas 157 fazendas, que somaram uma área de 59,87 mil hectares. Dentro deste número, 26,4 mil hectares, ou 44%, foram contabilizados como áreas produtivas para a cana-de-açúcar. As fazendas estão localizadas em 11 municípios paulistas: Aparecida d’Oeste, Ilha Solteira, Marinópolis, Nova Canaã Paulista, Rubinéia, Santa Clara d’Oeste, Santa Fé do Sul, Santana da Ponte Pensa, Sud Mennucci, Suzanápolis e Três Fronteiras.
Usina tem histórico de prejuízos
Única operação do grupo guatemalteco Pantaleon no Brasil, a Vale do Paraná teve uma perda líquida de R$ 53,12 milhões em 2018 – o segundo prejuízo consecutivo e o pior resultado da companhia em cinco anos. Os resultados financeiros da companhia foram divulgados no Diário Oficial de São Paulo em março.
O resultado negativo, entretanto, não está diretamente vinculado ao desempenho operacional da Vale do Paraná. Em 2018, o lucro bruto da usina foi de R$ 67,52 milhões – um crescimento de 18% ante os R$ 57,20 milhões registrados um ano antes.
Um dos grandes “vilões” da companhia no período foi o impacto da variação cambial. Nesse caso, o valor líquido foi negativo em R$ 56,78 milhões, ante um prejuízo de R$ 8,33 milhões em 2017. Assim, considerando o resultado líquido de R$ 53,12 milhões, a Vale do Paraná poderia ter registrado um lucro de R$ 3,66 milhões se a variação cambial fosse desconsiderada.
Renata Bossle – NovaCana