A expectativa de um clima “normal” e a premissa de que o hidratado será a “âncora” da atual safra canavieira trouxeram uma dose de otimismo para o setor, que espera obter melhores margens com o renovável. Mas o mercado ainda vê inquietações
A expectativa de um clima “normal” e a premissa de que o hidratado será a “âncora” da atual safra canavieira trouxeram uma dose de otimismo para o setor, que espera obter melhores margens com o renovável.
Com o ciclo 2015/16 a todo o vapor no Centro-Sul, consultorias especializadas fazem suas apostas para a atual temporada de cana ao mesmo tempo em que lançam um olhar preocupado para a safra do ano que vem na principal região produtora do país.
Em evento promovido pela Guarani na semana passada, investidores, analistas e executivos do setor sucroalcooleiro discutiram as principais inquietações e perspectivas para esta e as próximas safras.
Embora a situação econômica, no geral, seja de um forte ajuste fiscal, com a visão de economistas como Alexandre Schwartsman indicando um ano de “transição” de um “regime insustentável de política econômica” para uma “alternativa” mais “estável”, as perspectivas para o etanol hidratado...
A expectativa de um clima “normal” e a premissa de que o hidratado será a “âncora” da atual safra canavieira trouxeram uma dose de otimismo para o setor, que espera obter melhores margens com o renovável.
Com o ciclo 2015/16 a todo o vapor no Centro-Sul, consultorias especializadas fazem suas apostas para a atual temporada de cana ao mesmo tempo em que lançam um olhar preocupado para a safra do ano que vem na principal região produtora do país.
Em evento promovido pela Guarani na semana passada, investidores, analistas e executivos do setor sucroalcooleiro discutiram as principais inquietações e perspectivas para esta e as próximas safras.
Perspectivas para o etanol hidratado
Embora a situação econômica, no geral, seja de um forte ajuste fiscal, com a visão de economistas como Alexandre Schwartsman indicando um ano de “transição” de um “regime insustentável de política econômica” para uma “alternativa” mais “estável”, as perspectivas para o etanol hidratado são mais animadoras.
“Atualmente, 59% da frota brasileira de veículos leves tem paridade favorável ao uso do hidratado. Há muito tempo trabalhávamos com apenas dois estados [com paridade inferior a 70%], mas agora temos seis”, disse o CEO da trading SCA, Martinho Ono.
|
Estado |
Ranking de paridade |
Frota de veículos leves |
|
Mato Grosso do Sul |
69,7% |
1,3% |
|
Paraná |
67,7% |
8,2% |
|
Minas Gerais |
66,4% |
10,8% |
|
Goiás |
65,6% |
3,3% |
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São Paulo |
63,7% |
34,1% |
|
Mato Grosso |
61,7% |
1,2% |
Dados da semana 17/05 a 23/05. Fonte: ANP, SCA
Na visão da trading, uma das maiores comercializadoras de etanol do país, as recentes medidas do governo e a resposta positiva da demanda por etanol no início da safra sinalizam uma “tendência de recuperação” do produto.
A SCA aposta em um novo recorde de vendas para o hidratado, o qual pode se concretizar “num período próximo” entre junho e julho. O último recorde de vendas para o produto ocorreu em setembro de 2009, quando as vendas chegaram a 1,3 bilhão de litros.
Os números mostram esta recuperação de espaço do hidratado na matriz energética dos combustíveis de ciclo Otto. “Em 2013, esta participação era de 16,5%. Em 2014 foi de 17% e em março deste ano chegou a 23%”, comparou.
Em relação ao preço médio do hidratado, este deve ficar em R$ 1,57 o litro na safra 2015/16. O valor representa alta de 11% sobre a média de R$ 1,41 o litro observada em 2014/15, sugeriu o executivo.
Para o anidro, as perspectivas são semelhantes. “Haverá um aumento parecido com o que haverá para o hidratado. O percentual será menor, uma vez que as distribuidoras nos apertaram, tirando um pedaço do nosso prêmio”, comentou Ono.
Aumento no preço da gasolina
Apesar da sinalização de perspectivas mais positivas para o hidratado, há pontos de dúvida.
“Haverá um novo aumento na Cide, dona Elizabeth?”, questionou o diretor da divisão de cana-de-açúcar da Tereos Internacional, Jacyr Costa Filho, em um rápido discurso durante a abertura do evento.
A pergunta, endereçada a presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar, Elizabeth Farina, que atentamente acompanhava o encontro, reflete parte das inquietações do setor, que durante muito tempo viu a competividade do etanol limitada pelo controle artificial do preço da gasolina.
Diante de uma plateia ambientada, composta por executivos do alto escalão das usinas e investidores, Filho sintetizou a principal dúvida do setor no momento.
Para Ono, a resposta é sim. “Em persistindo os atuais preços do petróleo e considerando a situação em que o governo e a própria Petrobras se encontram, um aumento no preço da gasolina deve ocorrer nos próximos meses. Este aumento deverá acontecer provavelmente no segundo semestre”, previu.
A Petrobras sinalizou que deverá praticar “preços de mercado na venda de combustíveis”. Além disso, a equipe comandada pelo novo presidente, Aldemir Bendine, acredita que será preciso fazer, na prática, os reajustes para recuperar a confiança.
A presidente da Unica expressou as preocupações e as expectativas da entidade com o assunto.
“Você sabe que este setor foi extremamente impactado por uma política de inflação que francamente, como economista, achei que não fosse persistir. Mas já que esta política persistiu, nós temos uma preocupação grande com esta estratégia. E uma das coisas que me animou, foi quando o ministro Joaquim Levy disse que o preço da gasolina ‘não é um problema da Fazenda, é um problema gerencial da Petrobrás’. Isso me deixou tranquila, porque podemos retomar a racionalidade econômica em algumas searas onde ela estava perdida”, comentou.
Próximas safras
Na visão de Ono, a oferta de cana não crescerá nas próximas cinco safras, reflexo da estagnação do ciclo de investimentos no setor.
“Temos uma ponta de esperança. O que marcha contra a segurança é a demonstração de que o governo Lula deu uma projeção e um otimismo muito grandes para o setor, mas que foram jogados por terra pela Dilma. Agora nós estamos retomando um processo [de recuperação]. A esperança ou a perspectiva concreta da volta dos investimentos ao setor sucroenergético ainda carece de muita conversa e de muito mais demonstrações práticas”, avaliou o executivo.
A Canaplan projeta um maior esforço em plantio para o ciclo 2016/17, o que, por sua vez, reduzirá a área de colheita de cana.
Segundo a consultoria, a redução de área, em produtividade semelhante, reduzirá a oferta de cana. Com isso, a oferta total de ATR poderá ser menor que a registrada em 2015/16. Os preços, no entanto, “certamente serão melhores”.
Mesmo com uma produção estagnada, Ono vê perspectivas positivas para o setor no médio e longo prazo.
“As perspectivas de médio e longo prazo podem ser boas. Não haverá refinarias ou novas usinas, o que significa que o álcool que sobrar vai ser vendido a preços bons, pelo menos esta é a expectativa. Se houver dois, três e até quatro bons anos de safra em termos de remuneração, eu prefiro acreditar que daí para frente será criada uma confiança de investimento porque o mercado vai estar vendo a remuneração acontecer. Estamos agora num momento de transição onde precisamos saber se vai haver ou não esta retomada do investimento”, concluiu Ono.
Leonardo Siqueira – NovaCana
