Potencial de exportação das usinas brasileiras pode chegar a 552 milhões de litros de etanol por ano
O estado norte-americano da Califórnia já foi o principal destino das exportações de etanol do Brasil. Em um ano o estado já importou 719 milhões de litros. Agora, outro estado dos EUA está tentando aprovar o seu Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS, na sigla em inglês).
Um amplo estudo foi realizado e revelou detalhes da iniciativa. Como a expectativa é que o etanol brasileiro tenha um papel importante para atender a demanda futura, a proposta está causando polêmica entre as usinas norte-americanas.
Veja a seguir detalhes do estudo, a expectativa de mercado para o etanol de cana e as acusações dos usineiros norte-americanos.
Um estudo feito a pedido do governo de Washington, no noroeste dos Estados Unidos, está causando polêmica entre as usinas americanas, que temem um avanço das importações brasileiras de etanol, caso o estado aprove uma lei de emissões de baixo carbono “ao estilo californiano”.
Usineiros do centro-oeste do país, uma das principais regiões produtoras de milho, estão tentando convencer o governador do estado, Jay Inslee, a não aprovar um Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS, na sigla em inglês).
A discussão, por enquanto, é até que ponto um LCFS ajudaria o estado a alcançar suas metas de redução de gases de efeito estufa. Mas entidades como a Renewable Fuels Association (RFA) e a Growth Energy, que representam as usinas americanas, já se posicionaram contra o documento, que apresenta a importação do etanol brasileiro como uma alternativa ao atingimento dos alvos propostos pelo governo de Washington.
Para as usinas brasileiras, uma medida como esta abriria espaço ao etanol de cana. O combustível brasileiro está perdendo terreno na Califórnia, que já sinalizou que pretende criar condições para equiparar o etanol de milho americano aos mesmos níveis de baixa emissão de CO2 do biocombustível brasileiro.
Etanol mais limpo
Em Washington, no entanto, o etanol “made in Brazil” teria um tratamento diferenciado. Um rascunho do documento, o qual está disponível online, mostra que o renovável apresenta quase metade da intensidade de carbono (CI) que o concorrente de milho.

A classificação – e a própria adoção de uma lei de emissões de baixo carbono, com um potencial de importação de 302 a 552 milhões de litros de etanol de cana por ano até 2026 – tem causado certo mal-estar entre o setor produtivo americano. “Eu acho que o que lemos no estudo de Washington foi uma aceitação da mentalidade e do jeito de pensar da Califórnia”, disse à imprensa do país, Geoff Cooper, vice-presidente sênior da RFA. “É absurdo acreditar que o etanol importado do Brasil é duas vezes mais limpo que o etanol produzido no centro-oeste [do país]”, contestou, sem apresentar argumentos.
A Growth Energy, que representa 85 produtores americanos de etanol e 91 membros associados, também se manifestou contra o estudo encomendado pelo governo do estado de Washington.
Em um carta enviada ao governador Jay Inslee no início de novembro, a entidade afirma que a experiência californiana trouxe poucas vantagens do ponto de vista ambiental. “O [mesmo] etanol que a Califórnia classificou como de alta intensidade de carbono pode não ser vendido no estado, mas é comercializado em outros lugares”, disse o documento.
Entre outros pontos, a entidade diz ainda que a importação de etanol do Brasil “exclui” o renovável feito do milho que é produzido em mercados estaduais. “Muitas vezes, o etanol de milho produzido domesticamente é excluído do mercado de um estado em particular, enquanto galões de etanol de cana produzidos no Brasil são exportados a milhares de quilômetros de distância para alcançar [as metas de] um LCFS”, criticou. Para ler a carta (em inglês), clique aqui [pdf].
Uma ‘nova Califórnia’
O estudo, que analisa diferentes cenários para a implantação de um Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono no estado de Washington, deixa claro que o “etanol produzido no Brasil a partir da cana-de-açúcar tem uma intensidade de carbono atrativa”. Além dessa vantagem em relação ao etanol de milho, o Brasil também sai na frente quando é considerada a produção de etanol a partir do melaço da cana.
O documento não cita que empresas forneceriam o produto, ou se a Raízen, que teve a posição final de seu etanol de melaço rebaixada na Califórnia seria uma delas, mas na comparação com o etanol de milho, por exemplo, o etanol do melaço apresenta uma intensidade de carbono (CI) de 30 gCO2/MJ, enquanto que o CI do combustível feito do grão é de 89 gCO2/MJ, e 85.2 gCO2/MJ, no caso do etanol de milho que atende as leis de emissões de baixo carbono da Califórnia.
O potencial da oferta do etanol de cana é estimado em até 552 milhões de litros por ano, valor menor que o observado na Califórnia, que já chegou a importar 719 milhões de litros, mas cujos volumes, recentemente, não ultrapassam 370 milhões de litros.
Em um dos cenários analisados, o documento chega a mostrar o potencial de suprimento de diversas fontes de energia, entre elas, o etanol de cana-de-açúcar.

Este gráfico, por exemplo, compara os volumes de importação do biocombustível brasileiro em quatro cenários. Os volumes variam de 302 a 552 milhões de litros de etanol de cana por ano.

Procuradas, a Growth Energy e a RFA não comentaram o assunto até o fechamento desta reportagem.
Para ler o estudo que propõe o LCFS, clique aqui.
Leonardo Siqueira – NovaCana