
BP Bioenergy fez parceria com climatech para enfrentar desafios de prevenção e combate a incêndios
Para garantir a qualidade dos canaviais e uma boa produção, o setor sucroenergético depende de muitos fatores. Alguns deles estão sob o controle das usinas, como renovação e cuidados com o campo, assim como a manutenção da estrutura industrial. Outros, porém, estão fora de alcance, como as intempéries climáticas e os incêndios.
Com a queima controlada, para tirar a palha e realizar o corte manual da cana-de-açúcar, sendo uma prática quase inexistente no Centro-Sul – e até proibida em algumas regiões –, as companhias visam proteger o meio ambiente e as comunidades onde estão localizadas. Além disso, com a colheita mecanizada, a palha começou a ser aproveitada como biomassa para geração de energia.
Antes um auxílio, o fogo agora se tornou um problema para os produtores de açúcar e etanol, prejudicando a qualidade da matéria-prima e comprometendo o desenvolvimento dos canaviais. Mas, nos meses de inverno, o clima seco e os ventos tornam o cenário propício para espalhar as chamas, que podem começar de forma acidental ou mesmo criminosa.
Em agosto de 2024, vários incêndios de grandes proporções geraram uma crise no setor. Segundo a Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), os prejuízos ultrapassaram R$ 1,5 bilhão, tendo atingido mais de 200 mil hectares de cana em pé em São Paulo, 160 mil hectares em Minas Gerais, 19 mil hectares no Mato Grosso e mais 12 mil hectares no Mato Grosso do Sul.
As queimadas vieram após um período longo de estiagem. Na ocasião, houve a combinação de três fatores, gerando o chamado “triplo 30”: temperaturas acima de 30°C, ventos acima de 30 quilômetros por hora e umidade relativa do ar abaixo de 30%.
O estado paulista registrou um recorde de focos de queimadas, com 3,6 mil apenas em agosto de 2024. No mesmo mês em 2023, foram 352 pontos. Os dados são do programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Ainda segundo o Inpe, em 2025, até 19 de agosto, já foram localizados 783 focos de incêndios em São Paulo. Entre janeiro e agosto do ano passado, foram 5,41 mil pontos.
Além da redução na área a ser colhida, o fogo afeta a produtividade e a qualidade da cana-de-açúcar atingida, que precisa ser processada rapidamente. As usinas também precisam fazer uma renovação antecipada do canavial, o que exige altos investimentos.
Os problemas se alastraram até a safra 2025/26, que está em andamento. De acordo com a Hedgepoint, os efeitos prolongados das queimadas do ano passado e a seca vista no começo deste ano impactaram a matéria-prima moída durante a primeira parte da temporada.
Assim, as empresas do setor reforçaram os esforços em combate e prevenção de incêndios, tentando minimizar os impactos. As iniciativas envolvem tanto o uso de tecnologia no campo quanto campanhas de conscientização para a sociedade. O objetivo é evitar o fogo e, caso não seja possível, ter uma resposta rápida para mitigar grandes perdas no canavial.
A BP Bioenergy já investiu R$ 80 milhões nos últimos cinco anos, entre tecnologias e infraestrutura, para reduzir o índice de incêndios em seus canaviais. O programa Brigada 4.0 consegue identificar focos de queimadas em tempo real, com auxílio de inteligência artificial (IA) que capta os dados com câmeras térmicas de alta definição. A companhia também contratou brigadistas e, com dados de satélite e GPS, pode aplicar práticas preventivas.
Os números são alocados em uma central de logística integrada, instalada no escritório da empresa, em São José do Rio Preto (SP), que monitora em tempo real e 24h por dia as atividades no campo. A BP ainda possui uma estrutura de combate ao fogo com 16 caminhões pipa, 12 caminhões tanque e mais de mil brigadistas treinados.
O número de ocorrências de incêndios nas áreas próximas às 11 unidades do grupo, localizadas em cinco estados, caíram 46,5%. Em 2024, no ápice de queimadas que atingiram o Centro-Sul, a área afetada da BP caiu 9%. Os números foram compartilhados pelo diretor agrícola da companhia, Rogério Bremm.
“É sobre antecipar riscos, proteger vidas e atuar de forma responsável nas regiões onde estamos presentes”, Rogério Bremm (BP Bioenergy)
Já a Zilor possui um sistema de monitoramento com cinco câmeras de longo alcance e imagens de satélite, cobrindo cerca de 130 mil hectares dos canaviais da região onde o grupo se encontra. Segundo a companhia, as equipes se comunicam por aplicativos de mensagem instantânea, com colaboradores treinados para conter os incêndios com agilidade. A estrutura ainda inclui 54 caminhões-pipa.
Por sua vez, a Pedra Agroindustrial instalou 22 câmeras de longo alcance, entre 20 e 30 quilômetros, para otimizar o monitoramento e a prevenção dos incêndios. De acordo com a empresa, elas estão instaladas em pontos estratégicos e as ferramentas de inteligência artificial analisam as imagens em tempo real para detectar focos ou atividades suspeitas.
A Lins também deslocou recursos para equipamentos especializados e treinamentos periódicos. Segundo a sucroenergética, as atividades permitem a simulação de cenários reais, “capacitando os colaboradores para que possam adotar medidas preventivas e corretivas de maneira ágil e segura”.
A companhia possui ainda uma frota de 19 caminhões pipa, três caminhões tanques com abastecimento de água, um veículo com motobomba e reservatório, duas motoniveladoras e uma equipe de 133 brigadistas agrícolas. Este ano, a usina também investiu em nove câmeras com IA, com as imagens sendo acompanhadas o dia todo no centro de operações agrícolas.
De acordo com o diretor agrícola da Lins, Rodrigo Correa, já foram direcionados R$ 2,8 milhões para prevenção e controle de incêndios.
Segundo a Raízen, a companhia realocou recursos para a tropa de brigadistas em áreas consideradas mais críticas. A sucroenergética também investiu em práticas sustentáveis no campo, assim como em ferramentas para acompanhamento meteorológico de alta precisão, com uso de cerca de 300 estações para prever e controlar riscos de incêndios. Hoje, a empresa monitora 700 mil hectares de cana.
Atualmente, a gigante sucroenergética possui uma equipe de 2,7 mil brigadistas treinados para atuar em emergências e ainda uma frota de 300 veículos, entre caminhões-pipa e veículos de intervenção rápida.
Para evitar os incêndios, ou que as chamas se alastrem pelos canaviais, há iniciativas como o programa Pantera, da climatech Umgrauemeio, que utiliza dados de satélite e GPS para antecipar condições que seriam propícias para o surgimento do fogo, já mobilizando as equipes mais próximas.
A tecnologia é utilizada pela BP Bioenergy e permitiu que o tempo de resposta e combate ao fogo caíssem 66%.
Pioneira no monitoramento de canaviais via satélite no Brasil, a Tereos relata que tem cobertura total das áreas próprias, de fornecedores e de parceiros. Ainda neste ano, houve uma troca do satélite e as imagens passaram a ter uma maior definição e atualização mais rápida, permitindo identificação e reação mais eficaz a focos de calor. O sistema ainda emite alertas automáticos com localização precisa e dados sobre vento, temperatura e umidade.
A Tereos ainda leva em conta o “triplo 30” para antecipar riscos e atuar em áreas mais críticas. No campo, a empresa mantém seis veículos de acesso rápido, 35 caminhões pipa e uma equipe de 200 brigadistas.
As câmeras instaladas pela Pedra Agroindustrial também emitem alertas automáticos, com localização precisa, proporcionando uma resposta rápida às ocorrências. “Trata-se de uma ação integrada com outras usinas da região, ampliando o alcance da rede de prevenção”, reforça a companhia.
Pertencentes a um mesmo grupo, a Batatais e a Cevasa elaboraram um simulado em março, antes mesmo do início da safra. O treinamento visava trazer uma resposta rápida e emergencial no caso de focos de incêndios.
Para mitigar perdas no campo, a Raízen também implementou uma série de ajustes estratégicos, visando antecipar e agilizar as decisões advindas do campo. O objetivo era aproveitar a matéria-prima em seu ponto ideal, reduzindo a exposição do canavial ao risco de queimadas.
A Zilor, em parceria com a Associação dos Plantadores de Cana do Médio Tietê (Ascana), lançou em maio a edição 2025 de uma campanha para prevenir e combater incêndios em canaviais, áreas de preservação permanente e matas ciliares da região. As ações educativas, ambientais e operacionais são voltadas para os colaboradores da sucroenergética, escolas, comunidade e autoridades e acontecerão até outubro, o período de maior risco.
Já a Raízen promoveu em junho a campanha “Quem ama a terra, não chama o fogo”, com carreatas para conscientizar a população sobre os perigos das queimadas. A primeira delas ocorreu em Morro Agudo (SP), com participação da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Houve também uma blitz para distribuição de panfletos com orientações para evitar focos de incêndios.
As operações também foram vistas nos estados de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul, com mobilização de colaboradores, fornecedores e parceiros. A companhia ainda estimulou a participação da população, com dicas de segurança e promoveu ações nas escolas da região.
O objetivo da sucroenergética era reforçar o papel da população no combate e prevenção de incêndios, afirmando que os principais causadores do fogo ainda são bitucas de cigarro jogadas em estradas, fogueiras e limpeza de terrenos em áreas de grande circulação.
Por sua vez, a usina Lins preparou painéis em rodovias, placas, adesivos, palestras em escolas e treinamentos com brigadas de incêndio. O projeto teve início em junho e deve continuar até outubro. De acordo com a companhia, esta é a terceira edição da campanha “Juntos prevenindo incêndios”, com a participação de 30 instituições.
A Tereos também realizou ações de conscientização na região do entorno de Olímpia (SP). Colaboradores da usina entregaram materiais educativos e lixos para o carro em pontos estratégicos, alertando a população sobre os riscos dos incêndios.
“Reforçamos a importância do engajamento da população. As consequências dos incêndios atingem a todos, com riscos à vida e saúde das pessoas, ao meio ambiente, além de prejuízo financeiro. É fundamental que todos entendam o seu papel nesse combate”, salienta a gestora de meio ambiente da Tereos, Rafaela Shiota.
Este ano, a campanha da Tereos tinha o mote “Ninguém queima o lugar onde vive” e incluiu palestras escolares, com foco na conscientização de crianças e adolescentes sobre a importância da preservação do meio ambiente.
Já a Colombo promoveu workshops gratuitos para a prevenção de incêndios rurais, nos municípios paulistas de Santa Albertina, Palestina e Santa Adélia. A campanha “Unidos contra o fogo” também teve carreatas de conscientização e ações educativas em escolas, com o apoio de brigadistas da usina.
O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) estuda as principais causas dos incêndios e soluções para a perda de eficiência do solo e necessidade de reposição de nutrientes. No final do ano passado, a entidade apontou que os canaviais atingidos pelas queimadas teriam mais de 50% de falhas de brotação.
A usina São Manoel teve 5 mil hectares de canaviais atingidos pelo fogo em 2024 e precisou moer 150 mil toneladas de matéria-prima queimada. Em evento da Datagro, o gerente industrial da companhia, Rafael Carnietto Bassetto, explicou que a deterioração da cana aumenta com ação de bactérias e outros fatores, então é importante agilizar a colheita e processamento.
Na ocasião, Basseto contou que a primeira decisão foi justamente acelerar a colheita, ainda que a medida prejudicasse planejamentos prévios. Além disso, 100% das máquinas foram concentradas na cana queimada. A equipe da usina também buscou manter as moendas limpas, para garantir estabilidade do processo, uma vez que o teor de fibras e a água da cana estavam diferente da normalidade.
Em junho deste ano, novos focos de queimadas foram registrados em canaviais. Um incêndio atingiu uma plantação próxima do munícipio de Boituva (SP), que assustou moradores com chamas altas e fumaça no céu. O corpo de bombeiros levou uma hora e meia para controlar o fogo.
Queimadas também destruíram 63 hectares de canaviais na cidade de Bom Despacho (MG), em 1º de julho. Enquanto as autoridades eram acionadas, brigadistas da Raízen atuaram no combate às chamas com dois caminhões tanque de 15 mil litros e seis brigadistas.
No mesmo mês, o fogo atingiu uma plantação próxima de Limeira (SP). As chamas foram controladas uma hora depois por equipes de bombeiros e da brigada da usina responsável na região.
No dia 12 de agosto, chamas atingiram um canavial na Estrada Mata da Anta, em Osvaldo Cruz (SP). Neste caso, o fogo começou em uma máquina colhedora e 15 caminhões pipa de usinas da região auxiliaram na contenção das chamas.
Ainda no mesmo mês, no dia 18, incêndios atingiram áreas de canaviais nos municípios paulistas de São João de Iracema e Mesópolis. A ocorrência mobilizou 13 caminhões de combate às chamas da Colombo, que agiu juntamente com os bombeiros e membros do Plano de Auxílio Mútuo (PAM).
Para evitar mais problemas com o fogo, o governo de São Paulo anunciou que, durante o período de estiagem, a queima da palha de cana-de-açúcar está proibida entre 6h da manhã e 20h da noite. Quando a umidade do ar estiver abaixo de 20%, a atividade será completamente suspensa pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
De acordo com o órgão, a meta é extinguir completamente a queima controlada no estado até 2030, mesmo em regiões íngremes que dificultem a entrada das máquinas agrícolas. Na safra 2023/24, menos de mil hectares foram autorizados para queima pela Cetesb.
Da mesma forma, o Ministério Público está intensificando a fiscalização para combater as queimadas na região de Ribeirão Preto (SP). Um grupo de usinas próximas estão atuando em forças-tarefas para combater os incêndios.
A prefeitura ainda decretou estado de alerta para a estiagem. No mapa de risco emitido pela defesa civil do estado, o município estava oscilando entre o grau vermelho, de alerta, e o grau roxo, de emergência, na semana entre os dias 13 e 18 de agosto.
Para estimular a participação da população, algumas sucroenergéticas criaram canais gratuitos de denúncias. Desde 2020, a Santa Terezinha, que controla dez usinas no Paraná, oferece R$ 10 mil por denúncia de incêndios criminosos, na ação chamada de Unidos contra o fogo. A recompensa é oferecida uma vez comprovado o conteúdo da denúncia.
A Lins também conta com um canal para registro de informações que possam levar a identificação e responsabilização de pessoas envolvidas em inícios de incêndios.
Com duas unidades em São Paulo, o grupo Santa Adélia também criou duas linhas telefônicas para chamadas de emergência.
Giully Regina – NovaCana
Com reportagem adicional de Renata Bossle