As queimadas em canaviais do Centro-Sul do Brasil em 2024 trouxeram sustos e prejuízos para produtores e usinas. Para evitar transtornos, o setor está reforçando as ações para a prevenção, monitoramento e combate ao fogo.
Não há dados totalizados dos investimentos, mas o reforço inclui a aquisição de mais equipamentos, treinamento de novos brigadistas e uma aposta cada vez maior na tecnologia, como os sistemas de monitoramento com câmeras.
Os sistemas de acompanhamento e registro de imagens, especificamente, têm o objetivo de dar uma visão 360 graus das áreas dos canaviais. Alguns desses equipamentos, inclusive, possuem inteligência artificial (IA), para permitir uma identificação otimizada o mais rapidamente possível.
A usina Lins foi uma das que aderiram à ideia. A empresa gerencia 75 mil hectares de cana na região de Lins (SP) e teve 1.831 hectares atingidos pelo fogo no ano passado. As lavouras já vinham sendo monitoradas por seis câmeras com IA. A partir de abril, serão nove. As imagens são acompanhadas no centro de operações agrícolas, 24 horas por dia.
As câmeras integram uma operação que inclui brigadistas, caminhões-pipa, torres de monitoramento e caminhonetes para combate rápido ao fogo. O investimento total da companhia em prevenção e controle de incêndios chega a R$ 2,8 milhões, afirma o diretor agrícola Rodrigo Correa.
“Assim como uma boa estrutura e equipes bem treinadas, acreditamos que a prevenção é a prioridade”, pontua o executivo, acrescentando que a usina Lins também participa de ações integradas com instituições pública, empresas e sociedade civil da região onde atua.
A Caeté, unidade de Paulicéia (SP) do Grupo Carlos Lyra, investiu neste ano R$ 200 mil na instalação de câmeras de longo alcance para monitorar seus canaviais e o de parceiros, integradas com o sistema da polícia militar do estado de São Paulo. A central de operações fica na sede da empresa e controla também a logística dos caminhões e máquinas.
Já está nos planos aumentar a quantidade de câmeras, afirma o superintendente da área industrial, Glênio Fireman Tenorio Filho. O objetivo é flagrar incendiários e impedir que um pequeno foco se torne um grande incêndio e um enorme prejuízo.
A Caeté também está incentivando outras usinas da sua região como a Ipê, que pertence à Pedra Agroindustrial, a também instalar câmeras e integrar os sistemas.
“No ano passado, tivemos problemas com incêndios criminosos, embora não tenha sido na mesma dimensão do que ocorreu na região de Ribeirão Preto. Até fizemos alguns flagrantes, mas com as câmeras vamos expandir nossa vigilância e as ações de prevenção, monitoramento e combate”, afirma.
Já a multinacional Tereos opera em 100% das áreas próprias e de parceiros com um sistema de 13 satélites meteorológicos e alertas automáticos. Segundo o diretor de sustentabilidade, novos negócios e relações institucionais, Felipe Mendes, a empresa recebe informações sobre o bloco atingido pelo fogo, ajudando a direcionar as equipes de combate. O sistema permite ainda visualizações climáticas, como velocidade e direção do vento, e períodos de estiagem e chuvas.
“Nosso sistema sinaliza as áreas críticas para combate considerando ventos acima de 30 km/h, temperatura acima de 30°C e umidade abaixo de 30%, ajudando a direcionar esforços para um combate mais assertivo”, diz o diretor.
A Tereos teve 30 mil hectares queimados no ano passado e contabilizou um prejuízo de R$ 100 milhões com o fogo. A operação de controle inclui também caminhonetes equipadas, caminhões-pipa com rastreadores e brigadistas.
O diretor de inteligência setorial da União da Indústria da Cana de Açúcar e Bioenergia (Unica), Luciano Rodrigues, não cita números, mas afirma que o prejuízo financeiro causado pelo fogo foi “bem significativo” para o setor, embora tenha variado muito entre as empresas. Só em São Paulo, as unidades produtoras mantêm investimento constante, porque fogo no canavial é prejuízo financeiro e ambiental.
São mais de 1,5 mil caminhões-pipa e cerca de 10 mil brigadistas treinados atuando junto com o poder público para combater os focos. Além da frota de caminhões-pipa, as usinas usam aviões e drones. E vêm aumentando o monitoramento com câmeras em tempo real e imagens de satélite, para a classificação das áreas de maior e menor risco, instalação de pontos observação e monitoramento de condições climáticas.
“Já é sabido que os focos de incêndio quase sempre começam fora das áreas de produção, especialmente em pontos próximos às rodovias e estradas, daí a importância do envolvimento de todo setor produtivo e do governo", disse ele, ressaltando a importância da cooperação.
A Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana) calcula que 414 mil hectares de canaviais queimaram no Estado de São Paulo, em 2024. Pelo menos 80% dos incêndios que atingem os canaviais são iniciados em mato à beira das rodovias e ferrovias, estima o CEO da Orplana, José Guilherme Nogueira.
O governo de São Paulo promete intensificar as ações de prevenção e controle de incêndios neste ano. Incluem articulação entre órgãos e entidades públicas e privadas para melhores a mobilidade, conectividade e segurança nas áreas suscetíveis. Além de melhorar a vigilância e de notificação dos produtores rurais, e promover ações educativas.
Em nota, a secretaria da agricultura do estado informa que convênios com municípios paulistas resultaram na entrega de 200 caminhões-pipa equipados para combate a incêndios em propriedades rurais, 550 caminhonetes e 96 kits de combate a incêndios compostos por tanque rígido e moto-bomba.
Eliane Silva