Por Letícia Corrêa e Marcelo Di Bonifácio Filho*
O governo americano oficializou tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 (investigação aberta desde julho de 2025). O mercado de etanol será diretamente impactado: apesar de discussões recentes entre entidades dos dois países, produtores norte-americanos usaram a tarifa brasileira de 18% sobre etanol importado como justificativa para a medida.
Em paralelo, tramita nos Estados Unidos a extensão do E15 durante todo o ano, o que segundo estimativas da StoneX reduziria em cerca de 76% o potencial exportável americano até 2027.
Portanto, a combinação entre o avanço do E15 e a revisão tarifária sob a Seção 301 configura um movimento de proteção à indústria doméstica de etanol de milho.
A União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) rebateu a decisão, afirmando que a tarifa de 18% é não discriminatória e segue as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O posicionamento brasileiro destaca a assimetria bilateral: o etanol americano acessa livremente o Brasil, enquanto o açúcar brasileiro enfrenta tarifas e cotas nos EUA.
A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) também rebateu a tarifa, classificando-a como retrocesso na cooperação entre os maiores produtores de biocombustíveis e defendendo negociação.
Embora o impacto direto sobre as exportações de etanol seja limitado, a instituição alerta para riscos indiretos: maior insegurança regulatória e possível efeito cascata em outros parceiros comerciais.
O saldo comercial bilateral de etanol entre Brasil e EUA, historicamente favorável ao lado brasileiro, inverteu-se de forma acentuada nos últimos dois anos.
Após um superávit de 202 milhões de litros em 2024, o indicador recuou para 113 milhões de litros em 2025 – queda de 44% –, reflexo tanto da retração das exportações brasileiras (-18,5%) quanto do avanço das importações do etanol americano (+28,1%).

O ponto de inflexão relevante ocorreu em agosto de 2025, quando o Brasil elevou a mistura obrigatória de anidro na gasolina de 27% para 30%, consumindo parte relevante dos estoques domésticos do produto. No mesmo mês, as importações de etanol americano saltaram para 35 milhões de litros, ante apenas 0,2 milhão em agosto de 2024.
O movimento se intensificou no início de 2026, antes do começo da safra de cana-de-açúcar no Centro-Sul, em um contexto marcado por estoques abaixo da média histórica, o que reforçou a necessidade de importação. Entre janeiro e março, o Brasil importou 248 milhões de litros de etanol americano, volume que não se concretizava desde 2020.
No acumulado do primeiro semestre de 2026, o desequilíbrio se consolidou: as importações de etanol dos EUA somaram 250,8 milhões de litros – sendo que praticamente todo o volume foi concentrado no primeiro trimestre, refletindo o fechamento da janela de arbitragem a partir de março –, ante 96,6 milhões de litros no mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, as exportações brasileiras aos EUA recuaram para 66,4 milhões de litros, ante 160,9 milhões de litros. Esse movimento configurou um saldo bilateral negativo de cerca de 184,4 milhões de litros, revertendo a posição historicamente superavitária do Brasil no fluxo direto com os EUA.
Além disso, os preços americanos estavam mais atrativos no começo do ano para a referência em Suape (PE) – com impostos –, em um contexto marcado tanto pelo encarecimento do produto nacional, devido ao período de entressafra e aos estoques baixos, quanto pelo barateamento do produto internacional.
Nos EUA, a oferta recorde de milho da safra 2025/26 derrubou os custos de produção, levando a referência do etanol de milho em Chicago a mínimas desde 2024 – reduzindo o componente FOB no preço de paridade de importação.
No lado brasileiro, os estoques do Norte-Nordeste operavam em níveis historicamente baixos: dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apontavam, no início de fevereiro, recuo anual de 10,6% para o anidro, pressionado por distribuidoras disputando volumes escassos.
A janela de arbitragem, contudo, estreitou-se a partir de março: o início da safra no Centro-Sul pressionou os preços do anidro para baixo, enquanto a chegada de cargas importadas ao Norte-Nordeste forçou cortes de preço para liberar espaço de tancagem.
De imediato, os impactos sobre as exportações de etanol aos EUA são limitados, já que o volume vinha em queda desde 2024.
O cenário doméstico para o etanol americano mostra uma constituição de estoques relevantes, acima das máximas históricas desde meados de maio, em 24 milhões de barris em 9 de julho, 6,3% acima da média dos últimos cinco anos.
Ou seja, a necessidade de importações americanas, de qualquer destino, está muito baixa, tornando pouco provável a inversão da balança comercial nos próximos meses.
No médio prazo, o Brasil precisará encontrar novos destinos para exportação de etanol, visto que a produção segue crescendo em níveis recordes e a demanda interna não vem respondendo na mesma medida, especialmente para o etanol hidratado, que divide a produção das usinas com o anidro.
Possíveis destinos incluem os próprios parceiros comerciais já existentes, como Coreia do Sul, Países Baixos e Filipinas. No acumulado de 2026, Coreia do Sul e Filipinas apresentaram quedas relevantes nas exportações brasileiras, ao contrário dos Países Baixos, que praticamente dobraram o volume comprado do Brasil no período.
Além disso, o conflito no Oriente Médio evidenciou a fragilidade da matriz energética global e o avanço de combustíveis renováveis. O Vietnã, por exemplo, eliminou a gasolina pura e adotou mandatos de mistura de 5% a 10%, enquanto o USDA projeta importações de 490 milhões de litros em 2026, ante capacidade doméstica de cerca de 210 milhões de litros.
Apesar de volumes baixos no comparativo com as exportações anuais do país, o Brasil conta com participação relevante nas cotas de importação de açúcar bruto pelos EUA, com 156 mil toneladas no exercício de 2026 publicado pela USTR. As tarifas adicionais aplicadas pelo governo americano tendem a encarecer o açúcar internalizado pelos americanos, ou até mesmo desestimular o cumprimento da cota brasileira.
Esse fator tende a ser altista para o mercado doméstico dos EUA, cujas importações caíram significativamente na safra 2025/26 (outubro a setembro), o mercado global pode entender as tarifas como um fundamento baixista, afinal, é mais açúcar brasileiro “sobrando” para encontrar outros destinos, o que já tem sido um grande desafio.
Como perspectivas, o andamento das importações americanas nos próximos meses irá determinar os impactos práticos das tarifas no mercado doméstico, cuja indústria tem reclamado das novas taxas.
No médio prazo, os EUA podem ver uma safra 2026/27 em queda, uma vez que o clima nas áreas de beterraba tem piorado de acordo com o aumento das temperaturas em junho e julho.
O menor escoamento do açúcar brasileiro ao mercado norte-americano prejudica os estoques do país e pode por outro lado forçar as usinas (especialmente do Nordeste) que embarcam açúcar aos EUA a buscarem outros destinos.
Em um mercado sobreofertado no curto prazo, em termos de trade flow, essa notícia é relativamente baixista, mas no médio prazo, imaginando um ciclo global 2026/27 (outubro a setembro) deficitário, a demanda por importação pode ser mais ativa.
* Letícia Corrêa e Marcelo Di Bonifácio Filho são analistas de inteligência de mercado da StoneX, com foco em açúcar e etanol
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