Suleiman Hassuani (CTC):

Até 2030, número de variedades transgênicas vai mais que dobrar

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Cana: Variedades

Suleiman Hassuani (CTC):

Até 2030, número de variedades transgênicas vai mais que dobrar

Atenta às necessidades das usinas, empresa de pesquisa busca por soluções como cultivares com maior resistência a herbicidas ou seca; ao mesmo tempo, também direciona esforços para uma tecnologia com potencial para revolucionar os canaviais


NovaCana - Publicado: 24 Ago 2023 - 08:58

A adoção de novas variedades de cana-de-açúcar, ou mesmo de novas técnicas e tecnologias, pode ser um processo lento no setor sucroenergético. Entre os fatores que contribuem para este cenário estão o modelo tradicional de plantio, os elevados custos no campo e até certa aversão ao risco por parte das usinas.

Ainda assim, há empresas dedicadas a trazer novidades ao setor, como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), considerado o maior centro de pesquisa em cana-de-açúcar do mundo. Atualmente, ele é o único a ter autorização da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para comercializar cana geneticamente modificada.

“Hoje, o CTC está procurando entregar tecnologia para o mercado. Temos um modelo de negócios que envolve o recebimento de royalties e esse recurso é reinvestido na pesquisa. Só tem sido possível trazer essas novas tecnologias, e trabalhar nas tecnologias que estão vindo, por conta dessa remuneração”, relata o diretor de pesquisa e desenvolvimento, Suleiman Hassuani.

Ele explica que, para poder alavancar a pesquisa, o CTC tem colocado um preço dos produtos equivalente a um terço do benefício a ser gerado para a usina. “A ideia tem sido usar esse valor para contratar gente qualificada e investir na pesquisa, ou seja, isso retorna em benefício para o setor”, reforça.

Além da cana transgênica, uma das principais apostas do centro é a semente sintética de cana. Segundo o diretor, por meio dela, será possível acelerar a adoção de novidades.

“Quando conseguirmos entregar a semente de cana e toda a parte de avanço biológico dentro dessa semente, vai ser o ideal”, projeta e justifica: “Teremos um produto biológico com sanidade e entregue de uma maneira rápida para a usina. Não vamos precisar esperar os anos de propagação, de multiplicação, como acontece hoje”.

“O que chega no mercado é aquilo em que temos sucesso, mas algumas coisas não dão certo. O CTC tem assumido um risco grande. É uma empresa inovadora na área de biotecnologia”, Suleiman Hassuani (CTC)

Para explorar o tema com mais profundidade, Hassuani foi convidado para ser um dos palestrantes da Conferência NovaCana 2023. Ele representará o CTC no painel “Revolução tecnológica no campo”.

Além dele, o diretor do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Marcos Landell, também já confirmou presença no evento. A Conferência NovaCana 2023 acontece em São Paulo (SP), nos dias 4 e 5 de setembro.

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A programação completa da Conferência NovaCana 2023 já está disponível. Clique aqui para se inscrever.

A seguir, confira uma entrevista exclusiva realizada com Hassuani sobre alguns dos temas que devem ser abordados durante sua palestra.

Quando visitei o CTC, há quase um ano, foi comentado que os primeiros testes com a semente sintética de cana em usinas parceiras seriam feitos nesta safra. Como está este passo?
Estamos mantendo o cronograma. A safra começou em abril e vai até março do ano que vem. O foco da semente é o plantio no que chamamos de período das águas, o período de chuvas. Ele vai, basicamente, de outubro ou novembro a março. Então, o nosso plano é para o plantio nessa época. Ainda são áreas experimentais, mas em larga escala. A ideia é fazer isso nas usinas para trazer a experiência delas, para que elas possam contribuir no aprimoramento do produto. Hoje, só para você ter uma ideia, as usinas procuram plantar nesse período; acho que de 60% a 70% da cana é plantada nesses meses. Porém, muitas vezes, as usinas precisam de um investimento em máquina muito grande para conseguir fazer o plantio nesta época, então elas acabam distribuindo ao longo do ano. A estratégia do projeto das sementes é realmente se beneficiar da facilidade no plantio, podendo concentrar na época que é a mais favorável para a produtividade.

Quais são as atuais expectativas para o lançamento deste produto?
É lógico que queremos que seja o mais rápido possível. Mas essa é uma pergunta difícil porque o nosso plano depende muito dos resultados, de quanto este produto está próximo de um produto comercial, que vai ser manipulado nas usinas. E depende também dos investimentos para escalonar a produção. Temos um plano aqui, mas preferimos manter interno porque, na medida em que confirmamos cada etapa, é que divulgamos a próxima. Estamos indo para a usina agora porque os resultados que tivemos aqui dentro do CTC foram muito bons – isso deu confiança.

Pelo que eu lembro, o elemento genético da semente será transportado até locais onde ele será “envelopado” com nutrientes e uma proteção. A princípio, estes locais seriam mais próximos das usinas. Já existe uma perspectiva de onde será feito este envelopamento?
Você está correta. Na verdade, temos considerado alguns modelos de negócio. Mas, em um primeiro momento, o CTC vai fornecer a semente pronta até porque vamos concentrar o início dos testes o mais próximo possível daqui. O que acontece é que têm questões de logística e de modelo de negócio. Estamos avaliando fracionar essa produção: com uma parte sendo feita aqui – aquilo que é importante ter o controle do CTC – e opções de tanto fazer tudo ou alguma parte na usina ou em um terceiro. Isso ainda não está decidido e precisa passar por avaliações do nosso conselho, análises de investimento e tudo o mais. Dependendo do modelo adotado, podemos reduzir custos, mas aumentar o investimento necessário. Às vezes, se você quer ter um investimento menor, pode ter parceiros nesse processo, que podem ser as próprias usinas. Então, isso ainda não está fechado.

A cana transgênica está no mercado há alguns anos. A adoção destas variedades está dentro do ritmo esperado pelo CTC?
Tivemos uma expansão muito grande. A multiplicação de um produto novo no setor é muito lenta por essa questão da forma do plantio. Então, leva muito tempo para que uma nova tecnologia ganhe mercado. Sabendo disso, montamos várias estratégias para alavancar a introdução das variedades transgênicas. Tivemos bastante sucesso em acelerar isso, muito mais do que acontece com as variedades convencionais. Mas, sendo bem franco, temos ambição para números bem mais altos nessa expansão. Estamos trabalhando para acelerar mais, não só com estratégias de produção de mudas, maior quantidade e mais clientes, mas também ao começar a trazer para o mercado mais produtos, mais variedades.

O que podemos esperar para os próximos lançamentos?
Estamos considerando tanto usar o mesmo tipo de tecnologia – que seria o controle da broca ou a questão de resistência a herbicida – para várias variedades, criando um portfólio maior. Mas também estamos trabalhando em outras tecnologias, como a de combate ao bicudo, que tem um apelo e uma demanda muito grandes.

“Queremos alavancar realmente a introdução da cana transgênica enquanto a semente não chega [ao mercado]. Na hora que a semente chegar, isso vai se acelerar em muitas vezes”, Suleiman Hassuani (CTC)

Como estão as perspectivas do CTC em relação a fazer novos lançamentos de variedades transgênicas?
Até 2030, pretendemos lançar mais variedades transgênicas do que lançamos até hoje. As primeiras opções transgênicas foram muito focadas em variedades que já estavam consolidadas no mercado. Então, essas de agora são de variedades mais novas, com um ganho genético maior e que vão trazer outras resistências, não só à broca, mas também aos herbicidas. Hoje, a broca tem alguns controles biológicos e químicos que não são tão eficientes quanto a nossa tecnologia, mas há algumas alternativas. Já no caso do herbicida, vamos trazer uma tecnologia que possibilita um controle de erva-daninha que, hoje, ainda é muito complicado. As alternativas não são tão fáceis de usar e esse problema de mato é muito sério nas usinas.

Existe a possibilidade de as novas variedades transgênicas terem as duas resistências – broca e herbicidas – ou seria necessário optar por uma ou outra?
Nós vamos ter os dois tipos. Vamos ter o produto que tem as duas coisas juntas, que seria a resistência à broca e ao herbicida. E vamos ter produtos só com resistência ao herbicida. Vai ser uma opção da usina. Se ela não tem problema de broca e só quer usar a resistência a herbicida, por exemplo. Temos vários clientes que entendem que o nível de infestação deles é muito baixo. Assim, eles não teriam a necessidade de adquirir um produto com resistência à broca. Por isso, vamos dar essa opção.

Em relação às variedades em desenvolvimento, transgênicas ou não, quais características têm recebido prioridade?
Para o produtor, a questão sempre está na maior produtividade de açúcar. O que temos percebido é que, além de desejar que o material genético entregue bastante açúcar, ele quer ter um produto que não seja tão sensível a questões climáticas e a pragas. Nos dois anos anteriores a esse, eles tiveram muito problema de seca. Os canaviais sentiram muito esse estresse, que faz parte de um ciclo, algo que acontece de tempos em tempos. Então, o produto mais resistente à seca é um desejo do setor. Nós já começamos a trabalhar nisso e há um desafio grande porque as variedades mais rústicas que são resistentes a secas também entregam menos produtividade normalmente, quando tem água. Então, estamos começando a trabalhar com algumas tecnologias que envolvem não só o melhoramento, mas também a questão de modificação genética e edição genética. São tecnologias mais complexas porque, quando falamos de resistência a seca, isso envolve vários genes da planta. Mas são produtos que vão ter demanda, tanto por questões climáticas como também pelos ambientes mais desafiadores para onde o setor tem ido.

Além das variedades, os equipamentos e as técnicas de plantio também fazem diferença nos canaviais. O CTC está de olho nestas questões?
No passado, o CTC investiu muito nessas áreas. Hoje, o foco não está mais na questão de máquina, mas é lógico que isso afeta a produtividade. Então, temos uma equipe técnica que vai até as usinas e orienta se alguma prática não está sendo feita da forma mais adequada, sugerindo que tecnologia usar e tudo o mais. Mas, no caso da semente de cana, o CTC está desenvolvendo todo o sistema de plantio com alguns parceiros. Começa com o equipamento rodoviário que vai transportar as sementes, o sistema de descarregamento, o de abastecimento da plantadora e a própria plantadora. Então, nesse caso específico, o CTC vai entregar um sistema completo. Mas, para práticas de plantio convencionais, não.

Muitas empresas do setor almejam a “produtividade de três dígitos”, ou seja, ultrapassar o rendimento de 100 toneladas de cana por hectare. Considerando novas variedades e tecnologias, até onde é possível ir?
Hoje, já é possível ter uma produtividade de três dígitos. Nós temos material genético para isso, mas depende muito de clima, manejo, solo e do que está sendo aplicado. Além disso, depende muito de quantos ciclos se faz até renovar o canavial; se deixar o canavial envelhecer muito, a média cai. Usinas que empregam tecnologia de ponta e seguem as melhores práticas têm conseguido produtividade próxima ou acima de 100 toneladas por hectare. A cana, vamos dizer assim, tem uma genética que pode alcançar até o dobro disso. As áreas irrigadas já estão entregando uma produtividade acima de 150 toneladas por hectare. Eu diria que nós estamos trabalhando no material genético para, nos próximos anos, ganhar 30% de capacidade de produção. Mas isso tem que estar aliado a outros fatores, como disponibilidade de fertilizante, água e clima.


Estes e outros tópicos a respeito das novas tecnologias disponíveis para os canaviais serão discutidos durante a Conferência NovaCana 2023. A programação completa está disponível no site do evento.


Renata Bossle – NovaCana