A operadora de commodities francesa Sucden observa o mercado de açúcar no mundo como poucos. Uma aposta certa ou errada no futuro pode significar dezenas de milhões dólares de lucro ou prejuízo.
Com isso em mente, a empresa elaborou uma análise de sensibilidade para a produção de açúcar no Centro-Sul do Brasil, a principal região produtora de açúcar do mundo.
Além disso, os analistas da empresa fizeram previsões sobre o tamanho da vantagem do açúcar sobre o etanol para os próximos meses e os níveis históricos da competição açúcar/etanol.
Envelhecimento dos canaviais e queda na área colhida: esses são os principais fundamentos que levam a operadora de commodities francesa Sucden a apostar em menos cana na safra 2017/18 do Centro-Sul, em uma comparação com 2016/17.
A previsão da companhia para a região é de 581 milhões de toneladas cana moída. Com um mix de açúcar de 47,5%, a produção de açúcar chegaria a 35,2 milhões de toneladas — assumindo um ATR de 134 kg/ton. “Um desempenho decente, mas ligeiramente abaixo do recorde de 2016/17”, avalia odiretor de pesquisa do grupo, Emmanuel Jayet.
Ele aponta que os efeitos da idade avançada dos canaviais devem acarretar perdas sobre a produtividade agrícola do ciclo 2017/18. Depois de dois anos de baixas taxas de renovação, a idade média da cana será a mais alta desde “a terrível temporada 2011/12”, conforme Jayet.
Isso certamente merece um olhar de cautela sobre os rendimentos agrícolas. De acordo com o pesquisador, esses indicadores estão propensos a ficarem abaixo dos níveis registrados em 2016/17.

Outro ponto levantado pela Sucden é a perspectiva de uso de parte da área de lavouras para a renovação nos canaviais – o que, certamente, trará uma recuperação da produtividade agrícola, mas com resultados perceptíveis apenas em 2018/2019. Esse elemento, somado ao fato de que haverá menos cana bisada em relação ao ano passado, implica em uma área colhida que, para a companhia, pode diminuir em 1% em 2017/18.

Produção de açúcar
Mesmo com a perspectiva de menos cana disponível na safra 2017/18, a percepção da Sucden é que as usinas do Centro-Sul brasileiro devem trabalhar duramente para maximizar a produção de açúcar. Tendo isso em vista, a empresa analisa até onde pode chegar a produção da commodity a partir das previsões de moagem e mix de açúcar para a próxima temporada.
Caso a cana esmagada diminuísse (em relação à estimativa de 581 milhões de toneladas) devido a uma queda nos rendimentos agrícolas, as usinas conseguiriam manter a produção de açúcar na casa dos 35 milhões de toneladas apenas aumentando seu mix. Dessa maneira, a Sucden prevê que o mix poderia ser chegar a até 48,5%.
Jayet afirma que esse mix elevado é uma possibilidade graças aos investimentos realizados em 2016/17. Segundo o pesquisador, as usinas do Centro-Sul, estimuladas pelos preços atrativos, teriam aumentado sua capacidade de produção de açúcar em 1,1 milhões de toneladas.
Por outro lado, há também possibilidade de que as usinas consigam produzir mais cana e, consequentemente, mais açúcar.
Um dos fatores que aumentam as dúvidas em relação ao volume de cana disponível no Centro-Sul é o desenvolvimento dos canaviais durante a entressafra. A Sucden destaca que a estação chuvosa foi normal de outubro a janeiro e permitiu que a cana se desenvolvesse favoravelmente. No entanto, a irregularidade das chuvas nas entressafras dificulta uma previsão sobre o desenvolvimento da cana no período. “Depois de um fevereiro decepcionante, boas chuvas precisarão ser confirmadas em março”, assinala.

Entre outros fatores que podem mudar os resultados estão a quantidade de cana bisada, a precocidade do início da safra e até onde a capacidade de produção de açúcar pode aumentar. “Há sinalizadores ascendentes para a cana esmagada e a mistura de açúcar” aponta o pesquisador.
Dentro da visão da Sucden, com isso, a moagem poderia crescer para 590 milhões de toneladas e a produção de açúcar do Centro-Sul poderia subir para aproximadamente 36 milhões de toneladas.
Fatores de maximização do açúcar
De acordo com relatório da Sucden, os futuros de etanol na BM&F estão atualmente em R$ 1.626/m³ para o contrato julho-2017, um recorde para esta época do ano. No entanto, uma coisa é dada como certa pela companhia: mesmo com a alta do etanol, os preços do açúcar ainda apresentam uma forte vantagem sobre os valores do biocombustível.


Marina Gallucci – NovaCana