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Setor sucroenergético sobe o tom das críticas com buraco no abastecimento do Ciclo Otto

ethanol summit 130715O Brasil encontra-se diante de um desafio que não sabe como superar. Num horizonte de dez anos será preciso importar 10,9 bilhões de litros por ano — podendo chegar, na pior das hipóteses, a 33,9 bilhões de litros por ano.

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O Brasil encontra-se diante de um desafio que não sabe como superar. Num horizonte de dez anos será preciso importar 10,9 bilhões de litros por ano — podendo chegar, na pior das hipóteses, a 33,9 bilhões de litros por ano. A saída evidente para o problema está no estímulo à produção nacional de etanol.

Mas esta opção não virá sem medidas por parte do governo e agentes reguladores que definam qual a participação do etanol na matriz energética brasileira, além de políticas claras que garantam estabilidade e previsibilidade.

Este foi o ponto central levantado por analistas e empresários do setor em meio ao atual momento enfrentado no ramo sucroenergético.

O portal NovaCana apresenta a seguir a opinião sobre assunto dos profissionais:

- Magda Chambriard, diretora geral da ANP

- Luiz Augusto Horta Nogueira, membro do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp

- José Luiz Oliverio, vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini S/A

- Alexandre Figliolino, diretor de agronegócios do Itaú BBA

- Elizabeth Farina, Presidente da Unica

- Pedro Mizutani, diretor de operações da Raízen

O Brasil encontra-se diante de um desafio que não sabe como superar. Num horizonte de dez anos será preciso importar 188 mil barris de gasolina equivalente por dia (10,9 bilhões de litros por ano) — podendo chegar, na pior das hipóteses, a 585 mil diários (33,9 bilhões de litros por ano). A saída evidente para o problema está no estímulo à produção nacional de etanol.

Mas esta opção não virá sem medidas por parte do governo e agentes reguladores que definam qual a participação do etanol na matriz energética brasileira, além de políticas claras que garantam estabilidade e previsibilidade.

Este foi o ponto central levantado por analistas e empresários do setor em meio ao atual momento enfrentado no ramo sucroenergético.

"Temos de saber o que essa indústria pode de fato nos ofertar em um cenário de dez anos", Magda Chambriard

A diretora da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, considera a possibilidade de outros cenários se apresentarem, mas trabalha com uma necessidade média, no Ciclo-Otto, de 400 mil barris diários para 2024 (23,2 bilhões de litros por ano).

"Isso significa um nicho de oportunidade para o etanol hidratado,", aposta Magda, não sem fazer, porém, uma ressalva: "mas temos de saber o que essa indústria pode de fato nos ofertar em um cenário de dez anos", afirmou na última semana, durante o Ethanol Summit.

Reivindicações

Em conversa com jornalistas no mesmo evento, a presidente da Unica, Elizabeth Farina, apontou ações esperadas pelo setor para que o etanol se torne novamente rentável para o investidor privado e que permitam então a retomada de investimentos, podendo suprir o déficit de gasolina equivalente apontado pela ANP.

Entre as principais reivindicações da indústria sucroalcooleira levantadas por ela estão o fim do subsídio à gasolina, a aplicação de alíquotas diferentes de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para o etanol hidratado em comparação ao da gasolina e o reconhecimento por meio de remuneração das "externalidades positivas" geradas pelo biocombustível, como o potencial de mitigação de emissão de gases poluentes.

A líder da Unica defende ainda que, se é importante para o país aumentar a participação do etanol na matriz energética, é preciso encontrar formas de torná-lo rentável rapidamente.

"Em vez de investir em terminais de importação de gasolina, temos de investir na capacidade interna de produção de etanol", Horta Nogueira

"A retomada da Cide foi uma sinalização positiva, embora aquém do que foi no passado em termos do preço de bomba da gasolina, e a competitividade do etanol está vinculada a isso", completou Elizabeth. Ela reconhece a importância do aumento do percentual de etanol na gasolina para o crescimento da demanda, mas afirma que isso não será suficiente se as políticas públicas não transmitirem segurança às usinas.

"Será que se houver um recrudescimento da inflação, o governo não vai baixar a Cide para zero de novo, ou impedir que o [presidente da Petrobras, Aldemir Bendine] faça política de preços que melhor se ajuste à companhia?", questiona.

Retomada de estímulos ao etanol

“Ainda não caiu a ficha para muita gente da crescente dependência para motores do Ciclo-Otto de importação de gasolina", aponta Luiz Augusto Horta Nogueira, do núcleo interdisciplinar de planejamento energético da Unicamp.

Para ele, este é o maior sinal de que o programa de etanol precisa ser revigorado. Horta calcula que, que se não houver definições de políticas públicas claras que retomem a confiança do setor, o país corre o risco de se ver obrigado a importar, diariamente, algo entre 250 mil a 300 mil barris diários de gasolina (14,5 a 17,4 bilhões de litros por ano).

"Setor já disse o que precisa para voltar a acreditar", Alexandre Figliolino

"A retração do programa de etanol foi de tal ordem que o Brasil passou a ser player importante na importação de gasolina. A prosseguir nesse caminho, não teremos infraestrutura para importar o dobro de gasolina do que já estamos importando. Em vez de investir em terminais de importação, temos de investir na nossa capacidade interna de produção", afirma.

"O setor já disse o que precisa para voltar a acreditar", reforça Alexandre Figliolino, diretor de agronegócios do Itaú BBA. "Agora é preciso ver em que intensidade e se [o governo] vai realmente dar um papel importante para o etanol hidratado na matriz [energética] ou se nós vamos para um fade out em que o hidratado lentamente vai morrer e vai sobrar o anidro como aditivo da gasolina", questiona, em um reforço ao clamor do segmento por políticas públicas que auxiliem na retomada da competitividade do etanol.

Figliolino deixa no ar uma interrogação: "para que importar combustível fóssil se você pode produzir combustível renovável aqui a custos razoavelmente competitivos?"

"Falta estabilidade, credibilidade e política de estado, independentemente do governo que esteja lá", Pedro Mizutani

Para tentar substituir as importações, o setor precisa de investimentos. Nas atuais condições propostas, em um cenário de endividamento alto, usinas estão investindo um pouco mais em manutenção, em redução de custos e em diversificação da produção do que em aumento de capacidade, informa José Luiz Oliverio, vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini S/A.

"Temos uma situação absurda: estamos importando gasolina, gerando riqueza fora do país, prejudicando o meio ambiente, a Petrobras, o setor canavieiro, quando se fossem dadas condições de definições políticas, o combustível poderia estar sendo produzido no país, favorecendo a geração de empregos, aumento de renda per capta e controle ambiental", destaca Oliverio.

Desconfiança

Pedro Mizutani, diretor de operações da Raízen, credita ao momento atual — falta de uma agenda clara e confiável direcionada à indústria e a consequente crise do setor — e às especificidades da indústria do etanol, a possibilidade, na sua visão, real, de que o etanol não será suficiente para completar o gap do Ciclo-Otto, já que, entre tantas outras características, uma usina leva cerca de cinco anos para amadurecer. “Atualmente, não temos visto ninguém investir em novas plantas. Para fazer isso, as empresas precisam ter no horizonte qual o papel do etanol na matriz energética”.

O executivo arremata o discurso de reivindicações apresentadas e debatidas pelo setor durante os dois dias de evento com uma provocação, que reforça a desconfiança de empresários e investidores. “Imagine o seguinte: hoje um empresário pode voltar-se a um projeto de etanol e, no dia seguinte, o governo decidir investir tudo no pré-sal. Então [se isso acontecer], não vai dar para vender etanol. Falta estabilidade, credibilidade e política de estado, independentemente do governo que esteja lá”, diz Mizutani.

Filipe Albuquerque e Felipe Vanini Bruning — NovaCana

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