Na média, especialistas estimam uma moagem de 550,3 milhões de toneladas para o ciclo vigente e de 581,9 milhões de toneladas para o próximo
Os canaviais do Centro-Sul sofreram com intempéries climáticas que levaram à menor produção de cana-de-açúcar dos últimos dez anos em 2021/22. Passado pouco tempo, eles ainda não têm condições de entregar volumes de matéria-prima muito elevados, mas estão aptos o suficiente para renderem mais na temporada vigente e em 2023/24.
Durante a Conferência NovaCana 2022, as empresas BTG Pactual, Czarnikow, FG/A, Platts, Pecege, StoneX e Sudcen apresentaram suas visões para a safra atual e para a que virá, projetando o quanto a produção pode crescer. Para acessar mais conteúdos sobre o evento, clique aqui.
Para 2022/23, que já se encaminha para a entressafra, a diferença entre o maior e o menor dos seis números apresentados para a moagem de cana no Centro-Sul brasileiro foi de somente 12,5 milhões de toneladas. Já no caso do ciclo 2023/24, os valores oscilaram mais, em 42 milhões de toneladas, afinal, muito pode ocorrer até lá.
Além disso, os palestrantes apresentaram seus principais argumentos referentes não somente à moagem, mas também quanto a produtividade, qualidade da cana, mix de produção e volumes de açúcar e etanol. Entre os principais fatores analisados estão: custos de produção, clima, tributação dos combustíveis e mercado internacional.
Confira na versão completa (restrita aos assinantes do NovaCana) os valores e médias apresentados pelas empresas, além das suas justificativas.
Os canaviais do Centro-Sul sofreram com intempéries climáticas que levaram à menor produção de cana-de-açúcar dos últimos dez anos em 2021/22. Passado pouco tempo, eles ainda não têm condições de entregar volumes de matéria-prima muito elevados, mas estão aptos o suficiente para renderem mais na temporada vigente e em 2023/24.
Durante a Conferência NovaCana 2022, as empresas BTG Pactual, Czarnikow, FG/A, Platts, Pecege, StoneX e Sudcen apresentaram suas visões para a safra atual e para a que virá, projetando o quanto a produção pode crescer. Para acessar mais conteúdos sobre o evento, clique aqui.
Para 2022/23, que já se encaminha para a entressafra, a diferença entre o maior e o menor dos seis números apresentados para a moagem de cana no Centro-Sul brasileiro foi de somente 12,5 milhões de toneladas. Já no caso do ciclo 2023/24, os valores oscilaram mais, em 42 milhões de toneladas, afinal, muito pode ocorrer até lá.
Além disso, os palestrantes apresentaram seus principais argumentos referentes não somente à moagem, mas também quanto a produtividade, qualidade da cana, mix de produção e volumes de açúcar e etanol. Entre os principais fatores analisados estão: custos de produção, clima, tributação dos combustíveis e mercado internacional.
Mais cana
“Há uma jornada de recuperação da produtividade agrícola após a catarse pela qual passamos em 2021/22”, destaca o economista do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres.
Com isso, ele crê que a temporada atual se encerre próxima às 547 milhões de toneladas e, a próxima, em 560 milhões de toneladas. De acordo com Torres, os sinais de recuperação podem ser ainda maiores a depender das condições climáticas que vierem a partir do verão.
Apesar disso, o volume projetado pela entidade para 2023/24 foi o mais baixo dentre as empresas presentes na Conferência NovaCana. A perspectiva mais baixista para 2022/23, por sua vez, foi a do BTG Pactual, com 545 milhões de toneladas.

Já a Platts, conforme pontua a analista de açúcar na S&P Global Platts, Luciana Torrezan, tem uma expectativa de moagem de cana em 2022/23 a 550 milhões de toneladas. Já para a próxima temporada, ela acredita que deve haver uma recuperação para 586,1 milhões de toneladas.
Conforme o analista de inteligência de mercado da StoneX, Filipi Cardoso, a moagem estimada pela consultoria está em 557,5 milhões de toneladas para 2022/23, um aumento de 6,6% ano a ano. Para 2023/24, a visão é de 583,2 milhões de toneladas, representando um possível incremento de 4,6%. “Desde o início do ciclo, já devemos ter uma moagem mais forte, justamente por não termos justificativa no atraso”, declara.
Por sua vez, a trading Sucden acredita que a quantidade de cana disponível pode passar de 555 milhões de toneladas em 2022/23 para 590 milhões em 2023/24 – a estimativa, entretanto, considera um clima mais próximo da normalidade. “Esperamos que um La Niña severo não se configure, trazendo prejuízo para a produção”, enxerga o gerente comercial Ulysses Carvalho.
Em relação à cana disponível para este ano, Carvalho, relembra o atraso na moagem e o fato de a recuperação ser desafiadora. “Precisaríamos ter todas as quinzenas com moagem muito próxima das máximas históricas para que consigamos chegar a 530 milhões ou a 540 milhões de toneladas já no final de novembro”, expressa.
Enquanto isso, o sócio da FG/A, Willian Hernandes, relembra que o setor sucroenergético passou o período de 2002 até 2012 crescendo 7% ao ano, depois entrou em estagnação na moagem e na concentração de açúcares totais recuperáveis (ATR). “É a década perdida do setor”, afirma.
Ainda assim, ele visualiza uma recuperação para este ano, com a temporada fechando em 547 milhões de toneladas. Em relação a 2023/24, a consultoria é a mais otimista da amostra e crê ser possível atingir 602 milhões de toneladas, ainda que seja apenas uma conjectura.
“Esta é a capacidade instalada do setor. Devemos chegar sem maiores dificuldades, com investimento em canavial e clima normal; o clima em 2019 e 2020 foi muito hostil e acabou prejudicando muito a produtividade”, recorda.
A visão da FG/A é que não haja uma perda de área significativa para a cana. “Outras culturas de fato vêm ameaçando, mas o setor tem conseguido se defender bem. Ele perdeu algumas áreas, mas trouxe outras novas”, enxerga.
Já para o diretor da Czarnikow, Tiago Medeiros, o Brasil só vai chegar a sua capacidade máxima de moagem no horizonte de três a quatro anos. “Não acreditamos que isso aconteça em uma ou duas safras”, completa.
Segundo as projeções da trading, o Centro-Sul deve moer cerca de 570 milhões de toneladas de cana na temporada 2023/24. Caso o clima seja muito melhor do que o esperado, a estimativa é que a produção fique próxima de 584 milhões de toneladas.
O peso do clima
Depois da seca, o setor ansiava por chuva. De acordo com Haroldo Torres, do Pecege, a precipitação acumulada no mês de janeiro deste ano foi acima da média, mas isso trouxe reflexos negativos: especialmente devido às geadas de 2021, o canavial não estava fechado o suficiente, aumentando a competição no solo com ervas daninhas.
“O meio de safra, ou período de inverno, foi bastante seco. Por outro lado, propiciou uma aceleração da moagem principalmente a partir de junho e julho”, destaca. O economista ainda chama atenção para a produtividade. Ele aponta que, até o início de julho, o setor tinha uma grande dúvida se a safra seria de fato maior que a passada.
“Até meados de junho, tínhamos uma produtividade próxima à da safra 2021/22 – o que mudou foi a ausência dos incêndios, que impactaram o mesmo período do ano passado. Com isso passamos a ter uma produtividade acima da média observada”, Haroldo Torres (Pecege)
“Em função das geadas, atrasamos o início da safra para que a cana pudesse ganhar rendimento [em toneladas de cana por hectare] em detrimento de qualidade [em ATR por quilo de cana]”, relata e complementa: “Vínhamos com uma idade fisiológica atrasada e começamos a ter um nível de qualidade da matéria-prima muito baixo. Agora, começamos a ver o ATR superar o do ano passado”.
Torres acredita que a produtividade para essa safra deve ficar ao redor de 73,1 toneladas de cana por hectare – um crescimento ante as 67,8 t/ha da temporada anterior. Por sua vez, 2023/24 deve seguir a tendência de recuperação, caminhando para um valor próximo de 76,6 t/ha. Por outro lado, ele não vê avanços muito significativos quanto ao ATR, que deve ficar em 141,3 quilos por tonelada de cana no próximo ciclo.
Hernandes, da FG/A, também destaca a retomada da produtividade. Para ele, um dos efeitos da melhoria do clima foi a reforma dos canaviais, que devem atingir de 71 t/ha a 72 t/ha. Para o próximo ciclo, o sócio projeta 78 t/ha.
Já Cardoso, da StoneX, expressa que a consultoria considera uma retração sutil de 0,3% na área a ser colhida em 2022/23, principalmente devido ao atraso no início da safra. Ao mesmo tempo, o rendimento se beneficia das condições climáticas positivas. Assim, ele estima um crescimento de 6,9%, para 72,5 t/ha.
Para 2023/24, Cardoso aponta uma recuperação de área, gerando um crescimento de 1% e chegando próximo a 7,8 milhões de hectares. “Temos estimativa de expansão da área de cana, mas também de recuperação do que não será colhido devido ao atraso desse ciclo”, destaca.
Além disso, ele acredita que o rendimento dos canaviais deve continuar se beneficiando das condições climáticas em 2023/24, uma vez que não foram registradas geadas e há um volume de chuvas bastante significativo ocorrendo desde abril. Com isso, a StoneX estima um crescimento de 4,2% no indicador, atingindo 75,5 t/ha.
Conforme a consultoria, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul têm projeção de chuvas acima do normal. Além disso, em São Paulo e no Paraná, o verão deve trazer as chuvas na normalidade e acima do que foi em 2020, propiciando uma recuperação.
Cardoso também aponta a questão do La Niña. De acordo com ele, o fenômeno já vem perdendo força e deve ter sua finalização no final da primavera, fazendo o país voltar a uma normalidade climática a partir do verão, em dezembro.
Em contrapartida, Carvalho, da Sucden, relata que algumas previsões já demonstrando uma intensificação da presença do La Niña, o que seria um evento raro. “Olhando as previsões das principais empresas de meteorologia, conseguimos verificar a temperatura das águas do Pacífico abaixo de 1 grau negativo, o que traz preocupação para o período de setembro a novembro e já tem impacto importante em relação às chuvas da primavera na região de produção de grão e parte da produção canavieira”, destaca.
Ele também identificou um aumento de plantio e renovação dos canaviais durante esse ano, trazendo uma perspectiva de melhora de produtividade agrícola para a safra 2023/24.
“A gente costumava ter um evento climático mais severo no setor a cada dez anos. Em 2011, tivemos seca; em 2014 e 2021, geada, seca e incêndios. Isso transforma o setor de uma forma bastante significativa”, Tarcilo Rodrigues (Bioagência)
Um mix açucareiro
Haroldo Torres pontua que a safra 2022/23 foi de viradas a partir do meio do ano. Mas, de acordo com ele, a mudança afetou não somente a produtividade e a concentração de ATR, atingindo principalmente o mix de produção, que vem registrando níveis recordes para o açúcar.
Na média das empresas analisadas, o direcionamento da matéria-prima para a fabricação de açúcar deve ser de 45% em 2022/23, chegando a 46% no ciclo seguinte. Com isso, a produção do adoçante deve sair de 33,2 milhões de toneladas para 35,5 milhões de toneladas na mesma comparação.
Para Torrezan, da Platts, as usinas devem maximizar a produção da commodity tanto na safra atual quanto na próxima: “Hoje, o açúcar tem um prêmio de 400 pontos em relação ao etanol e estimamos que isso deve ficar entre 200 e 300 pontos na próxima safra. Tomamos como referência a curva futura de Nova York e a nossa projeção de preço de hidratado”, disse.
A estimativa da Platts é de 33,3 milhões de toneladas em 2022/23 e de 36,1 milhões de toneladas em 2023/24.
Com a queda do preço do etanol após a mudança tributária e a retração do petróleo, o açúcar passou a representar um retorno muito maior em relação ao etanol, explica Medeiros, da Czarnikow. “As usinas começaram a maximizar a produção de açúcar e tudo indica que isso continuará na próxima safra”, destaca.
A trading, portanto, prevê um mix de 45% para o produto. A partir deste percentual, a expectativa é que sejam produzidas 33,2 milhões de toneladas de açúcar, considerando que siga existindo uma arbitragem positiva para o adoçante.
Para 2023/24, a Czarnikow tem uma visão um pouco acima, com o mix oscilando na faixa de 46,5% e 47,5%. Desta forma, a produção estimada de açúcar estaria entre 34,9 e 35,6 milhões de toneladas.
Ainda assim, caso ocorra um verão bastante chuvoso e com clima “excepcional”, o número pode ser ainda mais alto, com a produção de açúcar ficando acima de 36 milhões de toneladas, de acordo com a Czarnikow.
Segundo Medeiros, o que poderia alterar o mix seria uma reavaliação do preço do petróleo e uma retomada dos impostos, com uma estrutura tributária para a gasolina que traga mais competitividade para o etanol.
Por sua vez, Cardoso, da StoneX, afirma que o mix foi “uma incógnita” desde o início da safra, pois ele dependia de como os mercados de açúcar e de etanol iriam se comportar e qual produto seria mais vantajoso para o produtor. Atualmente, a visão da consultoria é de que 44,8% da matéria-prima seja direcionada ao açúcar, uma redução sutil em relação à safra passada.
Ele ainda considera que, para 2023/24, a balanço de destinação da matéria-prima deve praticamente se manter. “O mix deve ser de 45% para o açúcar. A competitividade entre a gasolina e o etanol renova a dinâmica de precificação, devendo seguir mais acirrada entre os dois e dando mais vantagem para o açúcar”, complementa
A projeção da StoneX é que a produção de açúcar fique acima da safra anterior porque há mais cana sendo processada. “Devemos ultrapassar [o volume de 2021/22] no início de novembro”, acredita Cardoso.
A fabricação do adoçante, portanto, deve ficar, aproximadamente, 3,9% superior ante o volume produzido na safra passada, indo para 33,3 milhões de toneladas. Já para 2023/24, a consultoria estima um crescimento acentuado pelo maior volume de cana disponível. Com isso, são esperadas 35,2 milhões de toneladas.
Um pouco mais de etanol
Somente duas empresas da amostra divulgaram projeções para a produção de etanol, com média de 29,5 bilhões de litros para 2022/23 e de 31,5 bilhões de litros para o ciclo seguinte.
A estimativa da Platts é de 29,1 bilhões de litros em 2022/23 e de 30,9 bilhões de litros em 2023/24. “Logicamente, boa parte desse crescimento vem do etanol de milho”, pontua Torrezan. Ela completa que o mix não está cravado e depende dos preços dos produtos.
Já a StoneX destaca que, apesar de a produção de etanol estar atrás em relação a de 2021/22, o volume está próximo porque a fabricação do renovável foi mais intensa no início da safra. Com isso, Cardoso detalha que, até o final da safra, tanto hidratado quanto anidro devem apresentar crescimento.
A consultoria projeta que a produção total de etanol deva ficar em 29,71 bilhões de litros, valor próximo das médias das últimas cinco safras. Dentro desse total, o hidratado corresponderá a 18,3 bilhões de litros e o anidro a 11,5 bilhões de litros.
Já para 2023/24, a produção total de hidratado deve ser de 19,7 bilhões de litros e, a de anidro, de 12,3 bilhões de litros, atingindo 32 bilhões de litros.
“Para a próxima safra, ambos [os biocombustíveis] devem crescer com o maior processamento de cana. Além disso, ainda há a participação cada vez mais representativa do etanol de milho na matriz energética”, aponta o analista de inteligência de mercado.
No ciclo passado, a participação do etanol de milho na produção total de renovável fechou em 14,4%. Com isso, a StoneX projeta um crescimento de 1 bilhão de litros em 2022/23, fechando em 4,5 bilhões de litros (17,7% do total) e mais 1 bilhão em 2023/24, atingindo 5,5 bilhões de litros (20,9%).
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana