Um dado frequentemente esquecido é que esta cadeia produtiva não tem apenas usineiros: são 70 mil produtores independentes de canaTendo assumido recentemente a Presidência do Conselho Deliberativo da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), volto ao tema da crise do setor sucroenergético.
Quais as ações necessárias para reposicionar este importante segmento agroindustrial em seu exitoso caminho, tão glorificado no mundo todo como a única real alternativa aos combustíveis fósseis? Quatro itens são fundamentais neste caminho. O primeiro é a definição governamental sobre qual o papel que se espera do etanol na matriz energética brasileira. Sem essa clareza, tudo mais fica sem sustentação.
O segundo é a necessidade de restabelecimento da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) como mecanismo de diferenciação tributária entre combustíveis fósseis e renováveis. Ainda no campo tributário, é preciso alinhar as alíquotas do ICMS do etanol hidratado entre os estados produtores.
O terceiro é estimular, no contexto do Inovar-Auto, a busca pela maior eficiência dos motores de veículos flex ou dos motores a etanol hidratado.
E o quarto é adequar os leilões da energia elétrica, valorizando os atributos ambientais elétricos e as economias advindas do uso da bioeletricidade. Isso implica leilões diferenciados por fontes de energia.
Mas, é absolutamente essencial que a sociedade compreenda que tais ações não são benéficas apenas para os usineiros, e sim que seus efeitos serão positivos para todos os cidadãos brasileiros.
Se não, vejamos: segundo estudos da Universidade de São Paulo (USP), o valor bruto movimentado por toda a cadeia sucroenergética na safra 2013/14 foi superior a U$ 100 bilhões, com um PIB do setor sucroenergético de U$ 43 bilhões e uma geração de divisas da ordem de U$ 14 bilhões, o que é ótimo para a economia brasileira.
O setor gera 1 milhão de empregos diretos -e se contados os indiretos, mais do que isso -, considerando cerca de 16 mil estabelecimentos vinculados à produção de cana e etanol.
Um dado frequentemente esquecido é que esta cadeia produtiva não tem apenas usineiros: são 70 mil produtores independentes de cana, os denominados "fornecedores", que vão à falência se as usinas não pagam.
A cana-de-açúcar é a segunda fonte de energia do País, com 15,4% da participação na matriz nacional, maior até do que a participação das hidroelétricas.
Desde a chegada dos carros flex no mercado, em março de 2003 (há onze anos, portanto), a redução das emissões de C02 foi superior a 240 milhões de toneladas!
Isso tem efeito impressionante para a saúde pública. Trabalho realizado por médicos especialistas da USP concluiu que o uso do etanol combustível nas oito principais regiões metropolitanas do País reduziu em quase 1.400 mortes/ano ocasionadas por problemas respiratórios e cardiovasculares associados ao uso de combustíveis fósseis; e, também, cortou cerca de 9.000 internações anuais pelos mesmos motivos. Isso equivale a uma economia de U$ 43 milhões de dólares por ano para o sistema de saúde público e privado.
E mais: a bioeletricidade gerada perto dos maiores centros consumidores de energia reduz as perdas do sistema e a necessidade de investimentos em transmissão. Aliás, a bioeletricidade é gerada exatamente no período de seca, quando os reservatórios de água ficam mais vazios e, por isso, ela é complementar à geração das hidroelétricas.
Em 2013, por exemplo, a bioeletricidade economizou 7% da água dos reservatórios, fator que, neste ano, terá muito maior peso, em função da seca no Sudeste. No ano passado, a bioeletricidade vendida às redes de transmissão respondeu por 12% do consumo residencial do País, o equivalente ao atendimento de 8.000 lares. Isso tudo leva ao seguinte raciocínio: a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) calcula que toda a palha de cana e todo o bagaço poderiam gerar eletricidade equivalente a cinco usinas Belo Monte, sem nenhum problema como os que se observam neste empreendimento.
Esses argumentos são mais do que suficientes para justificar as vantagens do setor sucroenergético para toda a sociedade brasileira.
Roberto Rodrigues é ex-ministro da agricultura e presidente do conselho da Unica
Artigo originalmente publicado na Revista Agroanalysis, edição de julho de 2014
Quais as ações necessárias para reposicionar este importante segmento agroindustrial em seu exitoso caminho, tão glorificado no mundo todo como a única real alternativa aos combustíveis fósseis? Quatro itens são fundamentais neste caminho. O primeiro é a definição governamental sobre qual o papel que se espera do etanol na matriz energética brasileira. Sem essa clareza, tudo mais fica sem sustentação.
O segundo é a necessidade de restabelecimento da CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) como mecanismo de diferenciação tributária entre combustíveis fósseis e renováveis. Ainda no campo tributário, é preciso alinhar as alíquotas do ICMS do etanol hidratado entre os estados produtores.
O terceiro é estimular, no contexto do Inovar-Auto, a busca pela maior eficiência dos motores de veículos flex ou dos motores a etanol hidratado.
E o quarto é adequar os leilões da energia elétrica, valorizando os atributos ambientais elétricos e as economias advindas do uso da bioeletricidade. Isso implica leilões diferenciados por fontes de energia.
Mas, é absolutamente essencial que a sociedade compreenda que tais ações não são benéficas apenas para os usineiros, e sim que seus efeitos serão positivos para todos os cidadãos brasileiros.
Se não, vejamos: segundo estudos da Universidade de São Paulo (USP), o valor bruto movimentado por toda a cadeia sucroenergética na safra 2013/14 foi superior a U$ 100 bilhões, com um PIB do setor sucroenergético de U$ 43 bilhões e uma geração de divisas da ordem de U$ 14 bilhões, o que é ótimo para a economia brasileira.
O setor gera 1 milhão de empregos diretos -e se contados os indiretos, mais do que isso -, considerando cerca de 16 mil estabelecimentos vinculados à produção de cana e etanol.
Um dado frequentemente esquecido é que esta cadeia produtiva não tem apenas usineiros: são 70 mil produtores independentes de cana, os denominados "fornecedores", que vão à falência se as usinas não pagam.
A cana-de-açúcar é a segunda fonte de energia do País, com 15,4% da participação na matriz nacional, maior até do que a participação das hidroelétricas.
Desde a chegada dos carros flex no mercado, em março de 2003 (há onze anos, portanto), a redução das emissões de C02 foi superior a 240 milhões de toneladas!
Isso tem efeito impressionante para a saúde pública. Trabalho realizado por médicos especialistas da USP concluiu que o uso do etanol combustível nas oito principais regiões metropolitanas do País reduziu em quase 1.400 mortes/ano ocasionadas por problemas respiratórios e cardiovasculares associados ao uso de combustíveis fósseis; e, também, cortou cerca de 9.000 internações anuais pelos mesmos motivos. Isso equivale a uma economia de U$ 43 milhões de dólares por ano para o sistema de saúde público e privado.
E mais: a bioeletricidade gerada perto dos maiores centros consumidores de energia reduz as perdas do sistema e a necessidade de investimentos em transmissão. Aliás, a bioeletricidade é gerada exatamente no período de seca, quando os reservatórios de água ficam mais vazios e, por isso, ela é complementar à geração das hidroelétricas.
Em 2013, por exemplo, a bioeletricidade economizou 7% da água dos reservatórios, fator que, neste ano, terá muito maior peso, em função da seca no Sudeste. No ano passado, a bioeletricidade vendida às redes de transmissão respondeu por 12% do consumo residencial do País, o equivalente ao atendimento de 8.000 lares. Isso tudo leva ao seguinte raciocínio: a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) calcula que toda a palha de cana e todo o bagaço poderiam gerar eletricidade equivalente a cinco usinas Belo Monte, sem nenhum problema como os que se observam neste empreendimento.
Esses argumentos são mais do que suficientes para justificar as vantagens do setor sucroenergético para toda a sociedade brasileira.
Roberto Rodrigues é ex-ministro da agricultura e presidente do conselho da Unica
Artigo originalmente publicado na Revista Agroanalysis, edição de julho de 2014
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