A pergunta que mais escuto de quem produz, distribui e financia etanol é outra: e se a regra não bastar?
Por Miguel Angelo Vedana*
O setor sucroenergético nunca teve tantas regras a seu favor. A lei do Combustível do Futuro foi sancionada e permite chegar ao E35; por ora, o E32 foi anunciado depois de sucessivos adiamentos. O RenovaBio, único programa do gênero no mundo, segue em operação. Mais recentemente, o PLP dos combustíveis foi aprovado no Senado e segue para sanção.
No papel, a demanda para o próximo ciclo está desenhada. Ainda assim, a pergunta que mais escuto de quem produz, distribui e financia etanol é outra: e se a regra não bastar?
A dúvida não é retórica. O arcabouço regulatório foi desenhado sobre um pressuposto, o de que o ciclo Otto continuará sendo o coração da frota brasileira. Mas o consumidor está dando sinais de que pensa diferente.
Os híbridos e elétricos ampliam participação nas vendas. Segundo levantamento da Bright Consulting, eles ultrapassaram 30% dos emplacamentos na primeira quinzena de agosto – e um em cada sete era um elétrico puro. Esses veículos já custam o mesmo que um carro a combustão e entregam mais tecnologia.
O diretor da Bioagência, Tarcilo Rodrigues, resumiu o cenário em entrevista ao NovaCana: o carro a combustão puro tem os dias contados e, para ele, o híbrido tende a vencer a disputa pelo bolso do brasileiro. Cada ponto de mercado que migra para a tomada é um ponto que nenhum aumento de mistura recupera.
Enquanto isso, as políticas que deveriam sustentar a transição sofrem. Os créditos de descarbonização do RenovaBio, os CBios, foram negociados abaixo de R$ 20 em junho, no menor patamar desde 2020, corroídos por liminares que desobrigam parte das distribuidoras de cumprir suas metas. Quem cumpre a regra financia o programa sozinho e se pergunta o porquê.
Na crise recente dos combustíveis, a subvenção foi para a gasolina importada, não para o etanol nacional, uma inversão que Rodrigues classificou como equívoco. Regra boa mal aplicada produz o mesmo resultado que regra nenhuma.
Não se trata de escolher entre mandato e mercado; trata-se de admitir que o mandato compra tempo, e tempo precisa ser usado.
A reforma tributária, que equaliza alíquotas e pode devolver competitividade ao etanol em estados onde ele tem uma participação residual, é a oportunidade concreta da vez. O custo do capital, a política de preços da gasolina e a briga para que os híbridos sejam flex completam a lista do que o setor precisa resolver enquanto a régua regulatória ainda o protege.
É por isso que, nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP), o painel de abertura da Conferência NovaCana 2026 coloca no mesmo palco quem escreve a regra – Ministério de Minas e Energia (MME) e Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) – e quem vive dela: União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica), Federação Brasilcom, Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) e Bioagência.
Este é o debate que o setor sucroenergético precisa ter antes que outros agentes decidam por ele. Programação e inscrições em: NovaCana/conferencia2026.
* Miguel Angelo Vedana é diretor executivo do NovaCana