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Reflexo do PIS/Cofins no mix das usinas e na competitividade do etanol divide opiniões

abastecimento 261016Especialistas analisam como o mercado de açúcar e etanol vai reagir no curto e médio prazo com alteração do imposto

NovaCana 10 min de leitura

No vaivém das decisões judiciais sobre o aumento do PIS/Cofins para os combustíveis, especialistas analisam quais serões os reflexos para o mercado de etanol com a confirmação das mudanças.

Nesta semana, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal deve receber os esclarecimentos sobre o decreto de aumento dos combustíveis do presidente da República, Michel Temer.

A medida vem sendo questionada em outras instâncias da Justiça, além do STF. Um juiz do Distrito Federal, um da Paraíba e, mais recentemente, um no estado do Rio de Janeiro já determinaram a suspensão do decreto - todas derrubadas posteriormente.

Apesar da maneira atrapalhada com que o governo tomou a decisão, o mercado já trabalha com a certeza de manutenção dos novos valores. Neste sentido, há dois efeitos principais que entram no radar do mercado e divide opiniões dos especialistas.

A seguir:

- As diferentes opiniões sobre o mix açúcar/etanol para as próximas quinzenas e o desenvolvimento da safra
- Aquecimento da demanda
- Importação de etanol

O vaivém do PIS/Cofins para os combustíveis continua.

Nesta semana, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, deve receber os esclarecimentos do presidente da República, Michel Temer, sobre o decreto de aumento dos combustíveis. As informações serão usadas para a ministra preparar voto sobre a ação do PT que considera o aumento por decreto inconstitucional.

Aliás, a medida vem sendo questionada em outras instâncias da justiça. Um juiz do Distrito Federal, um da Paraíba e, mais recentemente, um no estado do Rio de Janeiro já determinaram a suspensão do decreto, mas todas as decisões foram derrubadas posteriormente.

Apesar da maneira atrapalhada com que o governo tomou a decisão, o mercado já trabalha com a certeza de manutenção dos novos valores. Neste sentido, há dois efeitos principais que entram no radar do mercado e divide opiniões dos especialistas.

Um deles é a migração do mix para o etanol, em detrimento ao açúcar. Essa escolha seria motivada tanto pelo provável aumento dos preços do biocombustível – que, com o imposto, ganha competitividade frente à gasolina – quanto pelo recuo na cotação do adoçante.

O segundo efeito, por sua vez, é a possibilidade de que a vantagem comercial do etanol amplie o consumo a ponto de abrir uma janela ainda maior para as importações, que já estão registrando recordes. Um aumento muito forte nos valores do etanol nacional, nesse caso, precisaria ser ponderado devido aos preços atrativos do etanol de milho vindo dos Estados Unidos.

Balanço internacional

Caso um número maior de unidades priorizarem a produção do etanol, a oferta total de açúcar pode se tornar menor, gerando um sinal positivo para contratos futuros da commodity.

Qualquer alteração na produção brasileira de açúcar chama muita atenção do mercado internacional de açúcar. Com isso, ao sinal de que o etanol começa a ficar vantajoso aqui, os preços do açúcar tendem a aumentar novamente no mercado internacional. O movimento frearia qualquer alteração significativa no mix para o etanol. “Qualquer redução considerável na produção do Brasil teria impactos muitos significativos sobre o comércio internacional. Então, pensando nisso, acredito que o impacto sobre o mix vai ser pequeno ou insignificante”, afirma.

Essa perspectiva é fortalecida, pois, conforme a análise de Botelho, apesar de parte do mercado ver um superávit no mercado internacional de açúcar a partir da safra 2017/18, ainda há o consenso de que existe um déficit considerável na atual safra global, que se encerra em setembro. “Mesmo olhando para o final da próxima safra, ninguém está vendo um nível de estoques global muito elevado do açúcar”, afirma.

Para ele, se os preços internacionais do açúcar voltarem a cair por algum motivo, pode haver uma mudança mais forte no direcionamento para a produção de etanol, uma possibilidade fortalecida pela mudança do imposto. “No entanto, considero que essa mudança seria bem limitada, pois já estamos próximos da metade da safra nacional, caminhando para o final”, alega e justifica: “Como grande parte das exportações de açúcar já estão vendidas, acho que o impacto seria mais sobre o mix da safra seguinte do Centro-Sul do Brasil, a safra que vai começar a ser colhida em 2018”.

NEC2017 safra

O analista da FG/A, João Rissi, compartilha dessa visão. Para ele, não deve surgir uma migração de mix relevante que valha ser pontuada. “Está todo mundo fixado e a tendência é seguir potencializando o mix de açúcar. Devemos ter recorde de produção de açúcar nessa temporada”, prevê.

O analista ainda acredita em uma pequena migração da produção de açúcar VHP para o etanol. Assim, uma valorização do combustível afetaria com maior intensidade apenas a produção de açúcar branco, destinado ao mercado interno. “Produtores de açúcar branco devem migrar para o etanol. O prêmio-base do Cepea está em 15% e não paga os custos de produção. Mas ainda seria uma leve migração”, pontua.

Outras opiniões

Em entrevista recente publicado pelo Estado de São Paulo, o presidente da Datagro, Plinio Nastari, avaliou que a partir de agosto algumas usinas devem intensificar a migração para o etanol. Ele indica que as companhias do setor priorizaram a fabricação do açúcar desde o início da safra 2017/2018. O objetivo era atender a entrega do produto que teve seu preço fixado no ano passado, mais remuneradores que os atuais.

Considerando um o aumento da competitividade do etanol após a redução do PIS/Cofins em R$ 0,0855 sobre litro do hidratado e a queda de 23% dos preços do açúcar neste ano, o presidente da Datagro considera que a produção do biocombustível sai fortalecida.

"Entre o fim do ano passado e o começo deste ano houve a oportunidade de hedge (fixação) do açúcar entre 19 cents e 22 cents por libra-peso (na Bolsa de Nova York). Produtores do Centro-Sul estiveram ocupados até o momento em produzir o açúcar para executar compromissos de exportação firmados para esse nível de preço", disse.

A parcela da produção de açúcar não fixada seria remuneradora apenas aos produtores da commodity localizados mais próximos dos portos, que têm custos menores e podem vender o produto pelo preço atual. "De agosto em diante, principalmente para os produtores localizados mais para o interior do Brasil, o ímpeto de fabricação de açúcar diminui. Independente da recuperação de competitividade do etanol, a orientação é para a produção do combustível", explicou.

Esse cenário já era indicado mesmo antes do aumento do imposto. Em abril, de acordo com as consultorias ouvidas pelo NovaCana para o levantamento de safra, se o preço do açúcar continuasse a cair e não acontecesse uma queda de preço da gasolina, algumas usinas, especialmente aquelas mais distantes dos portos – em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais –, acabariam produzindo menos açúcar do que poderiam, motivadas pelos preços bons do etanol. Efeito já observado nos meses subsequentes.

Produtividade

O sócio da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, analisou que a baixa umidade e o longo período sem chuvas na principal região produtora do mundo favorecem a colheita e o aumento do teor de sacarose na cana.

Por isso, segundo ele, as usinas devem seguir até setembro produzindo mais açúcar que etanol para ao menos estocar o produto na expectativa de preços melhores. "O mercado ainda não entendeu que a safra brasileira vai ser menor que no ano passado e, quando isso ocorrer, os preços do açúcar vão voltar a subir", disse. Para Carvalho, só a partir do último trimestre da safra a produção do etanol deverá ser priorizada.

O presidente da União de Produtores de Bioenergia (Udop), Celso Junqueira Franco, concorda que houve um incremento na competitividade do etanol com a redução do PIS/Cofins, mas entende que nesse período da safra dificilmente as usinas têm flexibilidade técnica e operacional para uma produção maior de álcool. Na opinião dele, apenas por volta de outubro e novembro, com mais chuva e com a queda do Açúcar Total Recuperável no processamento, deve acontecer essa migração para o etanol.

No entanto, salienta Franco, a produção de etanol pode ser limitada nesse último terço da safra, entre outubro e dezembro, pela queda no volume de cana disponibilizada para o processamento, já que a colheita e o processamento da atual safra caminham rapidamente, sem grandes interrupções por conta das chuvas.

Aumento da demanda

Parte do mercado acredita que a diferença entre a alíquota do etanol e da gasolina seria o suficiente para que a produção do etanol volte a crescer. A alta da gasolina seria tão grande que, mesmo que etanol suba, o combustível continuaria competitivo.

No entanto, na prática, o repasse é mais tortuoso. Nas duas últimas semanas - as duas após o aumento dos impostos -, a competitividade do etanol apresentou ligeiros recuos devido ao maior aumento dos preços do biocombustível em relação ao concorrente fóssil.

De acordo com as consultorias ouvidos pelos NovaCana, as vendas de etanol, que até agora só apresentaram quedas em 2017, vão depender do comportamento do mercado. Se o produtor incorporar mais preço em seu produto ou se a distribuição resolver incorporar mais margens, o etanol não ganhará competitividade em relação à gasolina, e o consumo se manterá reduzido.

Para Botelho da FCStone, a paridade deve continuar em patamares semelhantes ao que observamos nas semanas anteriores. “Consequentemente, não vejo muito espaço para aumento da demanda”, pontua. Dentro do cenário atual, o analista ainda pondera que os fatores que se apresentaram até o momento devem, sim, ter um maior impacto na margem das usinas. “Que já vem sendo apertada nos últimos meses”, explica.

Já para presidente da BioAgência, Tarcilo Rodrigues, a expectativa é que a relação entre os preços do etanol e da gasolina fique ainda mais vantajosa para o biocombustível na bomba. "Isso vai trazer mais demanda no curto prazo. Até porque o orçamento do consumidor está limitado", afirmou ao jornal Valor Econômico. Ele acredita que a demanda doméstica possa se aproximar dos 1,2 bilhão de litros de etanol por mês entre julho e agosto.

Os últimos números divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que os volumes de consumo permanecem abaixo do que foi registrado no ano passado. No acumulado de 2017, a quantidade de etanol consumida até junho já é 19% menor do que o total demandado no mesmo período de 2016. O consumo do biocombustível foi de 5,831 bilhões de litros, frente a um total de 7,226 bilhões de litros no primeiro semestre do ano anterior.

Aumento de importação

Se o consumo aumentar, o economista do Banco Pine, Lucas Brunetti, afirma que há um limite para os preços subirem. “Se a demanda do etanol crescer muito, coloca-se um limite no quanto os preços podem subir, já que a oferta de etanol estrangeiro [norte-americano] ainda está em preço bem mais atrativa que o biocombustível nacional]”.

Para a FG/A, caso aumente a demanda significativamente, a janela para maior importação aconteceria próximo a entressafra, pontua Rissi sobre a possibilidade de maior volume de etanol vindo de fora.

Marina Gallucci – NovaCana

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