Segundo pessoas a par do assunto que falaram à Bloomberg News, Raízen colocará à venda uma participação no negócio de distribuição de combustíveis, enquanto a Shell terá direitos sobre a nova unidade
A Raízen, empresa brasileira produtora de biocombustíveis, colocará à venda uma participação no negócio de distribuição de combustíveis, enquanto a Shell terá direitos sobre a companhia, já que sua marca seguirá sendo usada pela nova unidade, segundo pessoas a par do assunto que falaram à Bloomberg News.
A operação ocorre no momento em que a Raízen avança com uma cisão da companhia, parte de uma reestruturação mais ampla dos negócios, disseram as pessoas, que pediram anonimato porque nem todos os detalhes são públicos.
Uma assembleia de acionistas marcada para esta sexta-feira, 30, deve aprovar as etapas finais da reorganização.
A Raízen anunciará, após a votação na assembleia, que buscará um sócio para a unidade de distribuição de combustíveis, que opera postos com a marca Shell, disse uma das pessoas.
No âmbito da reestruturação, credores concordaram com uma conversão de dívida em ações que lhes dará mais de 80% do capital da companhia. Qualquer venda de participação na unidade de combustíveis só ocorrerá depois da conversão, afirmou a pessoa.
A Shell ficará com uma participação inferior a 20% na empresa de distribuição de combustíveis depois da conversão da dívida em ações, segundo a pessoa. A Shell terá ainda alguns direitos sobre o uso da marca, disseram as pessoas.
A reestruturação inclui uma cláusula de “poison pill”. Caso qualquer outro acionista alcance participação superior a 25% na empresa de distribuição de combustíveis, o novo investidor terá de fazer uma oferta pública para adquirir as ações restantes, de acordo com a proposta que será submetida a votação.
Raízen e Shell não comentaram.
O negócio de distribuição de combustíveis da Raízen está entre os maiores do Brasil e recentemente se beneficiou dos efeitos em cadeia da guerra no Irã, que elevou os preços do diesel e reduziu a concorrência de importadores de combustíveis.
Já o negócio de açúcar e etanol enfrentou mais obstáculos com o aumento da oferta de biocombustíveis e um período de preços mais baixos das commodities no início deste ano.
A Raízen enfrenta dificuldades em meio a uma série de apostas estratégicas malsucedidas, juros elevados e safras fracas. A companhia, que tinha Shell e a Cosan como controladores conjuntos, chegou a um acordo com credores em março para reestruturar extrajudicialmente cerca de R$ 65 bilhões (US$ 12 bilhões) em dívidas.
O atual diretor financeiro da Raízen, Lorival Luz, será nomeado diretor-presidente da empresa de distribuição de combustíveis, segundo as pessoas. Ele teve papel central no processo de reestruturação e tratou pessoalmente com os credores da Raízen.
O diretor-gerente sênior da FTI Consulting, Sam Aguirre, que assessorou bancos na reestruturação da dívida da Raízen, será nomeado presidente do conselho da unidade de combustíveis.
O negócio de produção de açúcar e etanol da Raízen será separado em outra empresa, que será comandada por Geovane Consul, disseram as pessoas. Ele já era vice-presidente da unidade responsável pelas usinas de cana-de-açúcar da Raízen.
O negócio de cana-de-açúcar também terá uma cláusula de “poison pill”, acionada caso qualquer acionista alcance participação de 20% ou mais. Julio Piza será nomeado presidente do conselho dessa unidade.
No início desta semana, a companhia chegou a um acordo tributário com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e a Receita Federal envolvendo R$ 22,4 bilhões em passivos tributários, condição importante para a reestruturação. Pelo acordo, a Raízen pagará R$ 2,5 bilhões em dinheiro.
As mudanças na Raízen ocorrem após movimentos de potenciais compradores que avaliavam a possibilidade de adquirir dívida da companhia antes da conversão em ações.
A produtora de biocombustíveis FS, o fundo soberano de Abu Dhabi Mubadala Investment e a IG4 Capital Group haviam demonstrado interesse anteriormente, segundo noticiou a Bloomberg News.
As finanças da Raízen mostraram sinais recentes de melhora, e a companhia registrou geração positiva de caixa nas operações no período de abril a junho.
Rachel Gamarski e Dayanne Sousa