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Rabobank: evolução das usinas de açúcar e etanol é uma questão de liquidez e caixa

Grupo Guarani - Usina VertentePrestes a entrar em um cenário de mercado mais favorável, os grupos sucroenergéticos têm a oportunidade de despontar para a esperada melhora do setor

NovaCana 6 min de leitura

Prestes a entrar em um cenário de mercado mais favorável, os grupos sucroenergéticos têm a oportunidade de despontar para a esperada melhora do setor.

O gerente de pesquisa e estrategista global de açúcar do Rabobank Brasil, Andy Duff, analisa essa recuperação pela ótica da gestão financeira e do financiamento ao segmento. A ponderação leva em conta o papel da boa liquidez, que desperta o olhar dos investidores e, consequentemente, gera um círculo positivo para os grupos do setor.

O estrategista alerta que, atualmente, muitos investidores e credores estrangeiros não querem nem ouvir falar de empresas brasileiras.

Veja também:

- Elementos-chave para uma boa liquidez
- Importância de atenuar o risco da percepção em relação ao crédito da companhia
- A dificuldade ao se analisar a situação financeira de uma empresa e os indicadores subjetivos que podem ser avaliados
- Desconfiança dos investidores sobre os bonds do setor.

A melhora esperada por parte das empresas sucroenergéticas deve ocorrer pela ótica da gestão financeira e do financiamento ao segmento. É o que aponta o gerente de pesquisa e estrategista global de açúcar do Rabobank Brasil, Andy Duff. Dentro dessa perspectiva, a necessidade de um rompimento de paradigma torna-se ainda mais ampla do ponto de vista do banco holandês: “é menos uma questão de reinvenção e mais uma questão de evolução”.

A ponderação é feita pelo estrategista do Rabobank ao analisar que a competitividade internacional da indústria sucroenergética, pelo menos no que diz respeito ao açúcar, deu um salto mais por “reinvenção do câmbio” do que por uma mudança estrutural na indústria sucroenergética. “E isso não confere competitividade para sempre”, enfatiza.

Em artigo publicado pela revista Opiniões, o estrategista revela sua visão considerando a enormes diferenças entre as usinas que do setor.

Se por um lado as manchetes estampam a situação financeira precária da indústria sucroenergética brasileira, pontua, quem vive o dia a dia do setor percebe que as melhores empresas contam com gestão financeira altamente robusta e conservadora, mantendo uma estabilidade adequada, mesmo com os constantes desafios de clima e volatilidade dos mercados.

O maior diferencial de tais empresas seria a manutenção do acesso a financiamentos competitivos de várias fontes, mesmo nos momentos de maior incerteza. A natureza do setor sucroenergético, segundo Duff, com a sua forte sazonalidade de produção e a demanda constante de investimento, gera uma necessidade contínua de crédito.

No momento atual, essa estabilidade ainda se faria mais urgente, já “que muitos investidores e credores estrangeiros nem querem ouvir falar do Brasil, dada a deterioração do quadro político-econômico e a grande incerteza a respeito da evolução do mesmo no futuro”, cita o gerente.

Dentro dessa visão, é que se considera a reinvenção pela ótica da gestão financeira e do financiamento ao setor. Defendendo um posicionamento do Rabobank, Duff aponta que a evolução consistiria em um maior número de empresas do setor atingir esse patamar de gestão financeira.

“Nossa experiência tem mostrado que uma gestão financeira robusta tem potencial para gerar um círculo virtuoso, fazendo com que essas empresas sejam mais bem avaliadas pelos bancos, aumentando, consequentemente, o seu acesso a financiamentos e reduzindo o custo de captação”, considera.

Liquidez

Um dos pontos fundamentais apontados pelo gerente da Rabobank para atingir esse ciclo virtuoso é a manutenção de uma ampla liquidez, que é a capacidade financeira em cumprir os compromissos de curto prazo. “Até uma empresa de desempenho técnico excelente arrisca ao se afundar se a liquidez for baixa. Qualquer choque pode levá-la a uma situação de inadimplência. Nesse setor, viver com liquidez baixa é viver à beira do precipício”, alarma.

Dentro disso, Duff aponta que o primeiro elemento chave de uma boa liquidez é, geralmente, a presença de um colchão de caixa no ativo circulante. O segundo elemento é um nível baixo de dívida vencendo no curto prazo.

Na prática, mesmo que uma empresa tenha volume de dívida elevado, como geralmente é inevitável durante uma fase de investimento em expansão, por exemplo, se tiver um bom colchão no caixa e sua dívida predominantemente no longo prazo, diminuirá significantemente o que os bancos chamam de “risco de refinanciamento”. “Isso melhora a percepção em relação ao crédito da companhia”, pontua.

É importante ponderar que é quase impossível uma empresa com liquidez apertada reverter a situação da noite para o dia considera o profissional. Em tais situações, existe o risco de a empresa entrar em uma espiral viciosa: a baixa liquidez eleva custo de financiamento e limita a disponibilidade de crédito a operações de curto prazo, espremendo, por sua vez, ainda mais a própria liquidez.

“Por isso, idealmente, o trabalho de estabelecer uma liquidez robusta deve ser feito na época de vacas gordas, conferindo, dessa forma, estabilidade frente à reversão do ciclo dos preços ou aos choques inesperados na economia”, assinala.

Segundo o gerente da Rabobank, outro indicador financeiro considerado um “sinal vital” de uma empresa do setor — do ponto de vista dos bancos e outros credores em época de crise — é a geração de caixa. Normalmente, é analisado se ela é pelo menos suficiente para a manutenção de investimento mínimo para a continuidade da operação e o pagamento dos juros. “Caso não seja, a conta só fechará via investimento aquém do necessário ou aumento de dívida, o que em algum momento afetará a liquidez”.

Análise dos resultados

Um ponto importante destacado pelo estrategista da Rabobank é que, para quem analisa empresas do setor sucroenergético, geralmente é difícil observar a dinâmica de fluxo de caixa por meio dos indicadores financeiros tradicionais. “Podemos olhar os elementos do fluxo de caixa de uma empresa para ver o balanço entre o caixa que a operação gera, os custos dessa operação, o caixa exigido pelos investimentos e o caixa líquido fornecido ou consumido por atividades financeiras, mas é muito raro que a informação padrão seja suficiente”.

Para cumprir a missão, segundo ele, é necessário ver, por exemplo, se, ao longo dos anos, uma porcentagem adequada da terra controlada por uma usina está sendo replantada anualmente, ou se o gasto com trato cultural por hectare de soca está sendo adequado.

Perspectiva

Em conclusão, ele denota que hoje paira uma ameaça sobre a imagem do setor, manchado por casos específicos “que geraram dores de cabeça para investidores e financiadores”, como a questão dos bonds lançados por empresas do setor em anos recentes.

Esses acontecimentos fazem com que os investidores tenham alguns questionamentos sobre as companhias sucroenergéticas. Como, por exemplo, até que ponto as empresas saudáveis e bem geridas vão ter que evoluir no discurso com o mercado para ter chance de abrir novamente a torneira dos recursos financeiros? Ou, se será possível essas empresas voltarem a acessar novas fontes de financiamento como o mercado de capitais?

Na visão do Rabobank, além da liquidez e geração de caixa, é necessário lembrar que o primeiro passo para ter acesso ao crédito é o aumento da governança corporativa e a consequente transparência total no fornecimento de informações aponta o gerente.

Marina Gallucci – NovaCana

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