Se a Amyris for bem sucedida em seu ambicioso plano, ela transformará o mercado de diesel fóssil com o seu renovável de cana-de-açúcar
A Amyris ganhou a atenção do mercado energético ao redor do mundo graças ao seu ambicioso plano de aposentar o diesel fóssil e inundar o mercado com o seu diesel de cana-de-açúcar, com especificação idêntica ao diesel tradicional.Para o setor canavieiro, o aproveitamento eficiente do ATR da cana pela Amyris e a evolução do processo tem um reflexo evidente na valorização da cana, que passaria a ter o preço também influenciado pelo diesel, reduzindo o peso do açúcar e do etanol na composição do valor da cana.
Essa façanha almejada tem seu preço, e ele não é baixo. Descobrir quanto a Amyris gasta para produzir um litro do seu diesel de cana e quanto o preço vem caindo ultimamente são duas das melhores pistas para descobrir como os planos da empresa estão caminhando.
A Amyris não abre exatamente o preço do seu produto e não respondeu nenhuma das perguntas desta reportagem, mas o portal NovaCana encontrou detalhes com um parceiro da empresa e em documento divulgado aos investidores e revela o preço e a evolução dele nos últimos 14 meses.
A Amyris ganhou a atenção do mercado energético ao redor do mundo graças ao seu ambicioso plano de aposentar o diesel fóssil e inundar o mercado com o seu diesel de cana-de-açúcar, com especificação idêntica ao diesel tradicional.Para o setor canavieiro, o aproveitamento eficiente do ATR da cana pela Amyris e a evolução do processo tem um reflexo evidente na valorização da cana, que passaria a ter o preço também atrelado ao diesel, além de reduzir o peso do açúcar e do etanol na composição do valor da cana.
Essa façanha almejada tem seu preço, e ele não é baixo. Descobrir quanto a Amyris gasta para produzir um litro do seu diesel de cana e qual é o nível de redução que ela está conseguindo ultimamente são duas das melhores pistas para descobrir como os planos da empresa estão caminhando.
A Amyris não abre exatamente o preço do seu produto e não respondeu nenhuma das perguntas desta reportagem, mas o portal NovaCana procurou a prefeitura de São Paulo e descobriu que ela paga R$ 7,63 pelo litro do diesel de cana.
A capital paulista consome 900 mil litros do diesel produzido pela Amyris e desembolsa cerca de R$ 6,87 milhões por ano com a iniciativa. Ao todo existem 295 ônibus da frota do transporte coletivo municipal circulando com a adição de 10% de diesel de cana ao diesel convencional (B5). O custo da mistura atualmente é de R$ 2,63 o litro, 30 centavos acima do preço de varejo do diesel convencional.
O portal NovaCana procurou a Amyris para falar sobre o preço do seu produto, mas a empresa não respondeu os questionamentos. No entanto, uma análise da documentação divulgada aos investidores indica que o preço pago pela prefeitura de São Paulo ainda é subsidiado pela empresa norte-americana. Em um arquivo com data de 8 de agosto, o CEO da empresa John Melo informa que a empresa mantem o objetivo de reduzir o valor de fabricação do farneseno a US$ 4,00 por litro até o final de 2013. Isso significa que, no câmbio atual, o custo de produção é superior a R$ 8,75.
Mas a proposta da Amyris é de longo prazo e, por isso, tão importante quanto o preço atual, é a velocidade com que ele está caindo. A Amyris já passou por momentos de crise ao estimular as expectativas dos investidores e não atendê-las. Assim, ela também não revela como espera que sua tecnologia evolua economicamente. Mas, de acordo com informações obtidas pelo portal NovaCana, a prefeitura de São Paulo estava pagando R$ 9,00 pelo litro do diesel de cana em julho do ano passado.
Assim, se considerarmos esse histórico recente de redução do preço, chegamos a uma queda média no litro do diesel de cana de 10 centavos por mês. Mantendo esse ritmo e desconsiderando que normalmente ganhos econômicos ficam mais difíceis com o aprimoramento das tecnologias, é possível projetar que o diesel de cana será competitivo economicamente com o diesel apenas em maio de 2018.
Farneseno
A produção do diesel de cana é possível graças à engenharia genética que faz com que as leveduras da Amyris, ao metabolizarem o caldo de cana, ao invés de álcool, secretem farneseno (hidrocarboneto), uma substância mais versátil e de maior valor. O farneseno é então hidrogenado e se transforma em diesel. Mas a produção dessa rica molécula não é tão certeira como a de álcool, nem tão barata.Embora possa produzir o farneseno e seu diesel renovável de qualquer fonte de açúcares como beterraba, dextrose de milho, sorgo doce e mesmo açúcares celulósicos, a companhia apostou na utilização de uma matéria-prima abundante e barata: o caldo da cana-de-açúcar. Foi por isso que a empresa estabeleceu parcerias para instalar-se junto a usinas tradicionais. A primeira fábrica é adjacente à usina da antiga Paraíso Bioenergia, atualmente Tonon.
Produzindo na instalação própria, a empresa enfrentou dificuldades para fazer suas leveduras obterem em escala industrial o mesmo desempenho do laboratório. A Amyris informou que colocou todos os seus seis fermentadores (de 200 mil litros cada) em operação.
Prejuízo crescente e perspectiva de melhora
A companhia vem sofrendo prejuízos consecutivos e no último demonstrativo financeiro (relativo ao segundo trimestre de 2013), reportou um encolhimento de suas receitas de 44% em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram US$ 10,8 milhões contra US$ 19,3 milhões auferidos durante o mesmo período de 2012. Uma parte do recuo está relacionado ao fim da comercialização de etanol, o que fazia anteriormente.Não há perspectiva de que a situação se reverta muito em breve. "A Companhia tem sofrido perdas significativas em cada ano desde a sua criação e acredita que continuará a incorrer em perdas e fluxo de caixa negativo de operações pelo menos até 2014", relata o demonstrativo. O mesmo documento aponta que, em 30 de junho de 2013, a companhia tinha um déficit acumulado de US$ 657,8 milhões.
Além da unidade de Brotas (SP), que está operando desde 2011, está prevista uma segunda a ser instalada junto à Usina São Martinho, com a capacidade projetada para 100 milhões de litros de farneseno por ano. No entanto, os planos para essa nova unidade foram colocados na gaveta. De acordo com o demonstrativo financeiro, as duas empresas reviram o plano de negócios no início de 2013 e concordaram em adiar a operação da nova usina até 2016.
Depois de uma ter uma série de metas frustradas, agora a empresa têm objetivos menos arrojados, mas aparentemente mais viáveis. Apesar da escalada de perdas, os custos vêm diminuindo e a produção parece ter chegado a um ponto de estabilidade, o que possibilitou que rompesse um contrato de produção terceirizada de farneseno, que era feita pela empresa Tate & Lyle. Com isso, foi preciso desembolsar US$ 8,4 milhão para a rescisão do acordo, mas a Amyris se liberou de obrigações de longo prazo e prevê economia com a produção em Brotas.
Apesar do alto preço do diesel de cana e das dúvidas sobre as margens oferecidas, considerando o custo de produção, o produto foi responsável pela maior parte da receita da companhia, que durante o segundo trimestre aumentou cerca de 20% em relação ao trimestre anterior. Segundo dados da empresa, as vendas de diesel representaram pouco mais de um terço das receitas de produtos renováveis totais do trimestre.
Amanda SchArr – NovaCana