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Preços, consumo, produção, exportações e incertezas no mercado global de açúcar

acucar 300714As perspectivas para o mercado de açúcar para os próximos dez anos
NovaCana 12 min de leitura
Documento publicado recentemente em 24 línguas mostra as tendências que deverão ditar os preços, o consumo, a produção e as exportações do açúcar no mercado mundial.

O relatório dedica um capítulo inteiro à commodity e faz previsões sobre a oferta e a demanda do produto em mercados importantes como o Brasil, os Estados Unidos, a União Europeia, a Indonésia, a Tailândia, a Índia, a China e a Austrália.

Confira, a seguir, um resumo detalhado do relatório com as principais projeções das agências internacionais para o mercado de açúcar, considerado "um dos mais voláteis de todas as commodities agrícolas".

Após quatro safras consecutivas de superávit na produção mundial de açúcar (veja o gráfico abaixo), os preços do adoçante no mercado global tiveram uma queda no final de 2013. No curto prazo, porém, a expectativa é que haja uma recuperação e os preços da commodity se mantenham num patamar mais elevado.

As informações são da Agência das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Elas estão disponíveis no relatório "OECD-FAO Agricultural Outlook 2014", publicado em 24 línguas.

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Preços estáveis no curto prazo

"A expectativa é que os preços globais do açúcar continuem voláteis ao longo do período projetado [2013-2023], mas [eles deverão] ficar levemente para cima ante custos de produção mais elevados", disseram os dois organismos internacionais.

Os preços nominais (preço atual pelo qual um produto é vendido) e reais (já descontada a inflação) não deverão ter altas significativas em 2014 e manterão patamares semelhantes aos de 2013. Nas contas da FAO e da OCDE, os valores reais para o açúcar branco e o bruto em 2014 serão de, aproximadamente, U$ 406,45/tonelada e U$ 317,34/tonelada, respectivamente. Em 2013, estes valores eram de U$ 407,36/t para o açúcar branco e U$ 315,56/t para o bruto.

Em 2016, o preço real da commodity deverá alcançar sua maior alta no período projetado, que vai de 2013 a 2023. Os preços reais chegarão a U$ 419,65/t e U$ 343,21/t para o açúcar branco e bruto, respectivamente, mas não superarão os picos de 2010, quando os preços eram de U$ 654,35/t e U$ 569,44/t para ambos os produtos.

Já os preços nominais deverão ficar mais firmes nos próximos dois anos, dependendo dos volumes de produção. De 2016 a 2019, os preços terão uma queda, tendência típica no ciclo de produção do açúcar. Nos anos subsequentes até 2023, os preços oscilarão moderadamente. "Este padrão de preços irá refletir os longos ciclos de produção em países líderes na fabricação de açúcar da Ásia, como a Índia e nações vizinhas. Estes ciclos resultam em mudanças periódicas grandes nas importações e exportações ao mercado mundial e causam ajustes nos preços globais", considera a análise das entidades.

Demanda maior sustenta preços

No médio prazo, os preços serão sustentados por uma demanda mais forte, com o retorno de um crescimento econômico global em grande escala, uma produção maior de etanol no Brasil a partir da cana-de-açúcar e em outros países, um dólar mais forte, custos de produção mais altos e estoques mais enxutos.

FAO e OCDE apontam um crescimento baixo da produtividade e restrições cada vez maiores na expansão da produção de açúcar em muitos países produtores, exceto o Brasil. Isso tudo ajudará a manter os preços mais altos, enquanto a demanda pelo adoçante aumenta.

Os preços nominais tanto para o açúcar branco como para o bruto manterão padrões semelhantes. O preço dos próximos contratos futuros do açúcar bruto no mercado mundial deverão alcançar U$ 431/t em 2023 ou 19,5 centavos de dólar por libra-peso na bolsa de Nova York (ICE Futures US).

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Já o indicador mundial para contratos futuros de açúcar branco projeta um preço de U$519/t ou 24 centavos de dólar por libra-peso em 2023.

"Estas tendências de preços são baseadas na crescente demanda por etanol no Brasil como combustível para a frota doméstica de veículos flex-fuel [que está em] rápida expansão, dentre outros usos", diz o documento.

"A produção de etanol para consumo interno e as exportações deverão utilizar mais de 63% da safra da cana-de-açúcar brasileira até 2023 e darão um suporte direto aos preços mundiais do açúcar". Se esta capacidade adicional de cana-de-açúcar fosse redirecionada para a produção do adoçante, ao invés da do etanol, os resultados seriam preços globais menores para o produto.

"Como principal fornecedor de açúcar ao mercado mundial, os custos de produção no Brasil proverão um preço base efetivo aos preços mundiais na próxima década. Contudo, a depreciação esperada do real ante o dólar americano implicarão num piso de preço menor, atualmente equivalente ao custo de produção de cerca de 19-20 centavos de dólar por libra-peso", contextualiza a análise conjunta da FAO e OCDE.

O documento chega a classificar o mercado de açúcar como "um dos mais voláteis de todas as commodities agrícolas".

Mesmo com as flutuações, os preços do açúcar serão "suficientemente atrativos para encorajar novos investimentos em países produtores".

Na Europa, os preços domésticos do açúcar deverão ser maiores por causa do sistema nacional de cotas e das barreiras alfandegárias.

Produção

A produção mundial de açúcar deverá alcançar 216 milhões de toneladas até o final da década, volume 20% maior que a média de produção registrada no período de 2011 a 2013. O Brasil manterá o posto de maior produtor mundial do produto.

As usinas brasileiras produzirão 49 milhões de toneladas até o fim da década, o que representa um crescimento médio de 1,7% ao ano.

Em 2023, os países em desenvolvimento serão responsáveis por 79% da produção mundial do adoçante, enquanto os países desenvolvidos ficarão com uma fatia de 21%. Deste total, a América Latina e o Caribe responderão por 34% da produção global. Esta mesma região também terá um crescimento de 22% na produção do produto até o fim do período.

Na Ásia e no Pacífico a produção deve aumentar 2,4% por ano até 2023, influenciada principalmente pela China e Tailândia.

O maior crescimento, porém, se dará no continente africano, cuja produção saltará 42% até o final da década, como resultado de uma expansão produtiva na África subsaariana e no Egito. A demanda doméstica por açúcar deverá impulsionar o setor no continente africano.

Na Índia, o maior consumidor mundial de açúcar, a produção cresceu 4,7% por ano na última década e deve subir 2,2% por ano nos próximos anos, graças ao crescimento da produtividade agrícola. Até o final do período analisado pelas duas entidades internacionais, a produção, ainda que variável, chegará a 31 milhões de toneladas.

Na Tailândia, segundo maior exportador de açúcar do mundo, a produção chegará perto de 13,5 milhões de toneladas até 2023, com um crescimento médio de 3,1% ao ano.

Ao contrário do que a FAO e a OCDE apontam para as principais regiões produtoras do planeta, até o final da década, a União Europeia reduziria a sua produção de açúcar em 11%, a partir de 2017, caso mantivesse seu sistema de cotas nacionais de produção e preço mínimo da beterraba. O sistema foi instituído em 1968 a fim de garantir a oferta local e uma renda mínima aos produtores europeus. Mas deverá ter um fim em 2017.

Consumo

A demanda mundial pelo adoçante será influenciada pela recuperação do crescimento da economia global e por uma expansão ligeiramente mais lenta na população do planeta ao longo da década.

O consumo deverá atingir 211 milhões de toneladas no período, com um crescimento de 1,9% ao ano e será puxado pelos países em desenvolvimento.  Entre os fatores apontados pelo documento para este aumento no consumo, destacam-se o aumento de renda e a urbanização destas populações. Em contraste, os países desenvolvidos terão pouco ou nenhum crescimento no consumo de açúcar, uma vez que seus mercados já estão mais maduros ou saturados.

Em alguns países, o crescimento lento de habitantes e o aumento da população idosa, somada a hábitos de vida mais saudáveis e às mudanças na dieta, impedem o uso do açúcar nestas regiões. As regiões deficitárias de açúcar da Ásia, Pacífico e África serão responsáveis por boa parte da expansão no consumo até 2023, o qual deverá crescer mais rápido que a média mundial (32% e 47%, respectivamente).

"Na primeira região, espera-se que a China e a Índia tenham o maior aumento no consumo de açúcar, mas o crescimento em termos de consumo per capita será maior na China, Indonésia, Arábia Saudita e Tailândia. A África deverá ter o maior crescimento no consumo mundial, mas os países da África subsaariana ainda terão o menor consumo per capita no final do período", projeta o documento.

Na Tailândia, o consumo deverá crescer 2,9% ao ano e alcançará 4,1 milhões de toneladas em 2023.

Até o final da década, o consumo na Índia está projetado em 32 milhões de toneladas, volume ligeiramente superior à sua capacidade de produção de 31 milhões de toneladas. "Dependendo da fase do ciclo de produção, estas tendências de oferta e demanda farão com que a Índia se torne um significante importador de açúcar em alguns anos, e um pequeno e periódico exportador em outros".

No Brasil, o consumo do adoçante crescerá fortemente, numa média de 1,8% ao ano, e chegará a 16,3 milhões de toneladas em 2023.

Exportações e importações

Maior mercado produtor de açúcar do mundo, o Brasil concentrará e liderará os volumes de exportação, seguido pela Tailândia. A maior potência da América Latina responderá em 2023 por 48% das exportações mundiais.

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A Tailândia, por sua vez, também apresenta boas perspectivas de exportação. O país asiático continuará investindo em novos sistemas de irrigação e tecnologia a fim de otimizar a produção de cana-de-açúcar. O volume de exportações projetado para 2023 é de 2,4 milhões de toneladas.

A Austrália assumirá um papel cada vez mais relevante no mercado de exportação. O crescimento será o resultado de investimentos do setor público e privado nas usinas existentes e em novas áreas de cana, bem como em novas variedades e na criação de sistemas de irrigação. A projeção é que as exportações australianas alcancem 4 milhões de toneladas até 2023.

O relatório também destaca algumas mudanças no cenário de importações e exportações. No início do período analisado, por exemplo, União Europeia, China e Indonésia figuram entre os maiores importadores de açúcar. Contudo, a Europa perderá o posto para a Indonésia, que ao longo da década deverá ter um déficit maior e se tornará o maior importador da commodity, seguido por Estados Unidos e China. Os Estados Unidos deverão importar 3,2 milhões de toneladas até 2023.

Já a União Europeia, que em 2017 abolirá as cotas de produção e preço mínimo, dedicará mais beterraba à produção de açúcar, já que a sua fabricação é mais lucrativa que a produção de etanol, o que diminuirá as importações de açúcar. Os volumes reduzirão para 1,9 milhões de toneladas em 2023.

A Rússia também diminuirá suas importações, ante uma produção maior de açúcar e um crescimento populacional mais lento.

Matéria-prima
A cana-de-açúcar continuará sendo a principal matéria-prima utilizada na fabricação do adoçante. Cerca de 86% da produção mundial de açúcar em 2023 virá da planta, com uma contribuição marginal do açúcar de beterraba.

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Brasil: produção mais alcooleira

Destacando as dificuldades pelas quais o setor sucroalcooleiro passou nos últimos anos, com custos de produção cada vez mais elevados e margens de lucro menores, a análise conjunta dos órgãos internacionais aponta para uma recuperação da lucratividade das usinas nos próximos anos.

Até 2023, a área de cana deve crescer numa média de 1,3% ao ano e a produção de cana será mais alcooleira do açucareira.

A participação da cana destinada à produção de etanol subirá de 52% em 2013 para mais de 63% em 2023. Esta tendência deverá ser um "fator-chave" que influenciará tanto a produção global de açúcar como os preços futuros até 2023.

Confirmando as projeções de uma safra menor em 2014/15, o documento projeta volumes de produção maiores nos próximos anos, os quais fortalecerão os preços do açúcar em termos de moeda nacional, já que o real deverá ser desvalorizado ante o dólar na próxima década.

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"Isso irá impulsionar a competitividade da indústria e efetivamente baixar o preço base mundial para o açúcar", prevê o documento.

Incertezas

Entre as incertezas ou fatores que podem afetar as projeções para a commodity, destacam-se a competição com outros adoçantes, como o xarope de milho de alta frutose (HFCS, na sigla em inglês), e a utilização do açúcar para a produção de biocombustível.

"A parcela da cana-de-açúcar alocada para a produção de etanol em detrimento do açúcar utilizado como alimento no Brasil acrescenta uma outra dimensão de incerteza às projeções. Tal participação continua fortemente ligada à política energética brasileira. Qualquer mudança nesta participação motivada por políticas energéticas e/ou de biocombustíveis, como níveis maiores de mistura no Brasil ou novos mandatos nos Estados Unidos, poderão afetar a disponibilidade [da cana] no Brasil", alerta o documento.

O relatório destaca ainda a forte influência de políticas governamentais no mercado de açúcar, como as cotas de produção estabelecidas pela União Europeia e as reformas adotadas pela Índia e Estados Unidos. "O mercado e os preços mundiais do açúcar são fortemente influenciados por políticas de governo; o mercado de açúcar permanece como um dos mais protegidos. Ele é dominado por medidas alfandegárias, incluindo impostos de importação altos e subsídios aos preços da commodity", avaliam as agências mundiais. "Quaisquer mudanças nestas políticas poderão afetar as projeções atuais e resultar em novas estimativas", finaliza o documento.

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O documento na íntegra pode ser acessado aqui (.pdf).

Leonardo Siqueira – NovaCana
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