A China é um país de superlativos. Encontrar um setor da economia mundial que não gostaria de ver o mercado chinês se abrir, não é fácil
A China é um país de superlativos. Encontrar um setor da economia mundial que não gostaria de ver o mercado chinês se abrir, não é fácil.
As usinas de etanol estão na fila para enviar etanol para a China. Os EUA saíram na frente nas conversas com o gigante chinês, mas o mercado brasileiro já dá os primeiros passos nessa direção.
No entanto, o país possui diversas particularidades e as importações de etanol enfrentam obstáculos.
Confira a seguir um panorama do mercado chinês com os aspectios regulatórios, o perfil das usinas, a evolução da produção, as matérias-primas utilizadas, as dificuldades para abertura de mercado e a presença crescente do etanol celulósico no país.
A China é um país de superlativos. Encontrar um setor da economia mundial que não gostaria de ver o mercado chinês se abrir, não é fácil.
As usinas de etanol estão na fila para enviar etanol para a China. Os EUA saíram na frente nas conversas com o gigante chinês, mas o mercado brasileiro já dá os primeiros passos nessa direção.
Visto como um mercado potencial para as exportações brasileiras de etanol, o país tem enfrentado dificuldades para incentivar a produção e o consumo do biocombustível. Uma política regulatória restritiva e a escassez de matérias-primas são os principais obstáculos ao desenvolvimento da indústria local.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) divulgou no mês passado um relatório em que traça um panorama geral da produção de etanol na China.
Produção
Estimada em 2,8 bilhões de litros, a produção de etanol na China subiu 6% em 2014, puxada por um maior consumo de combustível em províncias que adotam misturas obrigatórias de etanol na gasolina.
Para 2015, o USDA projeta um crescimento de 5% na produção, que deve chegar a 2,9 bilhões de litros.
Embora apresente uma expansão contínua na produção de etanol ao longo dos últimos quatro anos, a segunda maior economia do planeta enfrenta dificuldades para incentivar a fabricação do combustível a partir de matérias-primas não oriundas de grãos. O principal entrave é a escassez destes insumos, que não são suficientes para abastecer a produção em larga escala.
Os primeiros programas de incentivo ao setor foram implementados pelo governo em 2000, em resposta à abundante oferta de grãos. Como resultado, pouco tempo depois, de 2003 a 2006, a China viu sua produção saltar de 25,3 milhões de litros para 1,6 bilhão de litros (veja o gráfico).

Com o aumento do preços internos das commodities em 2008, o governo, preocupado com uma possível escassez de grãos, passou a limitar o uso deste tipo de matéria-prima. Na tentativa de manter a autossuficiência do país na produção de grãos, o governo chinês tem incentivado o uso de outras culturas para os biocombustíveis, como a mandioca e o sorgo sacarino.
Mesmo assim, boa parte do etanol feito no país ainda é oriunda de grãos como o milho e o trigo, que respondem por 76 e 14% da produção doméstica, respectivamente. Fontes complementares como a mandioca e o sorgo sacarino também são utilizadas, mas representam apenas 1 e 8% da produção total do renovável.
Usinas
Segundo o USDA, há apenas duas usinas de etanol – uma de mandioca e outra de sorgo sacarino – processando estas matérias-primas “alternativas”.
Localizada no interior da Mongólia, a primeira usina de etanol de sorgo sacarino só começou a operar em junho de 2014. A unidade abastece três cidades e tem capacidade para produzir 63,3 milhões litros de etanol por ano. Segundo projeções do USDA, até 2015 a unidade deverá produzir 25,3 milhões litros do biocombustível por ano.
Já a primeira usina de etanol de mandioca do país foi construída em 2007 e tem capacidade para produzir 253,4 milhões litros por ano.
Embora o país conte com 160 plantas de etanol – a grande maioria destinada à fabricação de bebidas, licores e produtos químicos - apenas sete são autorizadas a produzir etanol combustível (a partir de milho, resíduos de milho, mandioca e sorgo sacarino).
Estas sete plantas têm um mercado de distribuição específico e operam em uma ou mais províncias.
A produção de etanol da China corresponde a menos de 1% da produção total de combustíveis líquidos do país.
Regulação
O governo exerce uma forte influência sobre o setor de biocombustíveis. A construção de usinas de etanol é sujeita à aprovação da Administração Nacional de Energia (ANE), órgão que regula o setor de biocombustíveis.
Nos últimos anos, o governo limitou o apoio financeiro à produção de etanol a partir de grãos e anunciou, por meio do Ministério da Fazenda, a retirada de um desconto no Value Added Tax, um imposto de 17% que corresponde ao ICMS no Brasil.
Apenas sete usinas de etanol estatais podem vender o combustível a petroleiras como Sinopec e PetroChina, também controladas pelo governo, a um preço fixo de 91,1% do valor atual da gasolina.
Importação de etanol
A importação de etanol desnaturado é restrita para uso na indústria química. Em 2014, as compras externas do produto foram taxadas em 5%. A fim de incentivar a importação adicional de co-produtos e matérias-primas, a China apostou num redução da tarifa de importação ao longo dos últimos anos, que em 2009, por exemplo, chegou a 30%.
Segundo a imprensa local, uma carga de 10,5 mil toneladas (13,3 milhões de litros) de etanol, vinda dos Estados Unidos, foi enviada ao porto de Zhenjiang, na província de Jiangsu. Fontes locais estimam que o custo da tonelada do etanol importado, incluindo a tarifa de importação de 5% e o imposto “ICMS” local de 17%, o VAT, seja da ordem de U$ 1170,95 (R$ 3048,38).
Este custo de importação é maior que o preço do etanol anidro no mercado doméstico, estimado em U$ 999,89 (R$ 2602,89), mas ainda assim é inferior ao preço estabelecido pelo governo para o etanol combustível.
De acordo com fontes locais, o etanol importado em 2014 fez parte de um estudo conduzido pelo governo cujo objetivo foi avaliar se a importação do renovável era viável do ponto de vista econômico. A pesquisa comprovou que as compras externas são, de fato, economicamente viáveis, mas acabaram resultando em um controle mais restritivo por parte do governo, uma vez que a legislação atual impede a importação de etanol para uso no setor de transportes.
O documento publicado pelo USDA alerta que futuras importações vão requerer mudanças na política energética nacional e nas regras atuais impostas pelo governo ao setor de biocombustíveis.
“O governo tem sido relutante em mudar sua estratégia, apesar da necessidade de combustível importado e das pressões [vindas de diversos setores da sociedade civil] quanto a mudanças na qualidade do ar, entre elas, o desejo de proteger a indústria doméstica de etanol, que atualmente está operando num nível de 40% de sua capacidade”.
“Os altos preços do milho no mercado doméstico e a lenta demanda industrial e do setor de bebidas por etanol têm afetado os produtores locais nos últimos anos. Oficiais do governo também citam a preocupação quanto ao possível preço [do combustível] e a volatilidade no suprimento como um motivo para não importar etanol”, afirma o relatório.
A estrutura tarifária para o etanol é a mesma desde o ano passado. Para o etanol não desnaturado, o imposto é de 40%. Além disso, também é cobrada a tarifa de 17% de VAT, e uma taxa de consumo de 5%. Em 2012, a China eliminou as tarifas de importação que incidiam sobre o etanol desnaturado e não desnaturado de países como o Chile, a Cingapura, o Paquistão, e de membros da Associação dos Países do Sudeste Asiático.
Mistura obrigatória
O nível de mistura obrigatória de etanol na gasolina na China é de 10%. Em 2014, os mandatos de mistura atingiram seis províncias e abrangeram outras trinta cidades em cinco províncias.
Segundo o USDA, na China, são as estatais petroleiras que compram o etanol e fazem a mistura.
Embora o teor do etanol adicionado à gasolina previsto para estas localidades seja de 10%, na prática, os níveis de mistura acabam variando entre 8 e 12%.
Segundo fontes locais, o nível da mistura é reduzido para 8% quando o volume de produção é menor que o esperado.
Etanol celulósico
A produção de etanol celulósico cresceu 42 milhões de litros em 2014, alta de 3% na comparação com o ano anterior. A única planta comercial do país tem capacidade para produzir 63,4 milhões de litros e usa como matéria-prima resíduos do milho.
Desde outubro de 2012, a usina já forneceu o combustível a sete cidades na província de Shandong.
Espera-se que outras plantas de etanol celulóscio sejam construídas, incluindo usinas de demonstração e projetos que farão uso de matérias-primas como a palha do milho e a palha de trigo.
Recentemente, a Anhui M&G Guozhen Green Refinery CO, uma joint venture entre a M&G Chemicals e a chinesa Anhui Guozhen Co, anunciou a construção da maior usina de etanol celulósico do mundo.
A planta terá capacidade para produzir aproximadamente 235 milhões de litros de etanol celulósico por ano, número quase três vezes superior à capacidade projetada para a usina da GranBio, em Alagoas.
O documento, com mais detalhes sobre o mercado pode ser acessado aqui.
Leonardo Siqueira – NovaCana