Em um setor onde grande parte dos custos fixos estão alocados no campo, as sucroenergéticas precisam manter o foco em controlar gastos e buscar uma maior produtividade. O caminho para isso, entretanto, depende de estudos e visões estratégicas de gestão
A fórmula para manter as contas de uma usina de açúcar e etanol no azul parece ser simples: controlar os gastos e comercializar em bons momentos de preço. Obviamente, a prática é bem diferente, com despesas que podem flutuar conforme circunstâncias climáticas e macroeconômicas, além de valores de venda que dependem de diferentes fatores ao redor do globo.
É o que explica o gerente agrícola da São Manoel, Murilo Gasparoto, em entrevista ao NovaCana. Segundo ele, para serem rentáveis, os canaviais precisam apresentar não apenas de uma boa produtividade, mas também de maior longevidade. “Isso vai trazer uma contribuição relevante ao otimizar o maior investimento agrícola de hoje, que é o plantio”, assegura.
A partir de sua experiência na unidade localizada em São Manuel (SP), ele defende que a gestão dos canaviais possui um papel fundamental na geração de margem das sucroenergéticas. Isso inclui a escolha de variedades de cana-de-açúcar adequadas, decisões relativas a manejo e plantio, monitoramento da colheita, otimização de recursos, combate a pragas, adoção de novas tecnologias, entre outros aspectos.
Assim, para entender mais sobre o processo decisório e a adoção de diferentes estratégias, a Conferência NovaCana 2025 convidou Gasparoto para ser um dos palestrantes do painel “Investindo na resiliência do canavial: irrigação e tecnologias frente às mudanças climáticas”.
Ele irá abordar o tema na companhia do CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira; do diretor de pesquisa e desenvolvimento do CTC, Suleiman Hassuani, e do analista de mercado do Pecege Consultoria e Projetos, Raphael Delloiagono. O evento acontecerá em São Paulo (SP), nos dias 15 e 16 de setembro.
Gasparoto é agrônomo e tem quase 20 anos de experiência no setor sucroenergético. Antes de ingressar na São Manoel, em 2015, fez parte da equipe da Guarani (atual Tereos) e da Tonon Bioenergia.
A programação completa da Conferência NovaCana 2025 já está disponível. Interessados podem fazer a inscrição no site do evento.
A seguir, leia a entrevista completa com Murilo Gasparoto.
A produtividade nos canaviais é essencial para o setor sucroenergético porque grande parte dos custos do setor são despesas agrícolas fixas. Para começar, será que você pode falar um pouco sobre esta questão? Considerando o atual contexto macroeconômico e as características do setor, os gastos estão subindo?
Realmente, os custos de produção estão se elevando. Isso faz com que o setor se reinvente cada dia mais, buscando novas tecnologias e novas ações. Na Usina São Manoel, costumamos falar que conseguimos controlar o que é da porteira para dentro; da porteira para fora, por ser uma produção de commodities, nós não temos ação sobre o preço de venda. Os custos de produção, embora tenhamos uma atuação específica com cana-de-açúcar, envolvem insumos generalistas – desde óleo diesel até insumos de plantio e de tratos culturais. Esses produtos não dependem somente da nossa commodity para a formação [de preço], então, quando uma commodity não está remunerando com margens boas, existem outras que estão. Assim, nós também não conseguimos ter esse controle. Mas o que nós conseguimos controlar? O caminho é fazer nossas operações de forma mais eficiente, buscando cada vez mais produtividade e criando margem dentro do nosso negócio.
Você poderia compartilhar algumas das estratégias usadas para criar essa margem? Quais caminhos estão sendo adotados na São Manoel?
No setor operacional e agrícola, onde eu faço gestão, um dos principais balizadores é o uso de telemetria. Isso nos faz atingir números elevados de horas trabalhadas por máquina, otimizando cada vez mais o uso de óleo diesel, que é um insumo de grande uso na agricultura. Nós também buscamos a renovação de frota com máquinas de tecnologia embarcada, que possam aumentar o rendimento e reduzir o consumo de diesel. Na parte agronômica, buscamos aumentar a produtividade por meio de novas oportunidades, como o uso de vinhaça localizada, que é uma ferramenta que está agregando muito. No manejo varietal, a busca de novas variedades é muito importante.
“Fazer um plantio sólido é um grande passo para fechar o ciclo com boa competitividade em relação ao restante do mercado”, Murilo Gasparoto (São Manoel)
Há alguma estratégia que foi estudada, mas acabou não sendo adotada por questões de custos de aplicação, necessidades de altos investimentos ou outros fatores?
Claro. Quando partimos para o estudo agronômico de alguma nova tecnologia, nós verificamos diversos pontos. Já estudamos irrigação, já observamos margens de contribuição de plantio, já avaliamos o melhor momento para a reforma, já analisamos modelos para a renovação de frota. Nós vemos viabilidade em tudo isso, mas adotamos a premissa de ver o que tem uma contribuição de margem maior naquele momento. Então, hoje, nós estamos estudando irrigação e vamos ver qual é o próximo passo para um projeto-piloto.
Dentro desse assunto: alguns anos atrás, os investimentos em irrigação eram restritos a áreas realmente mais secas e à ampliação do uso de vinhaça. Atualmente, no entanto, já se fala no uso da técnica para garantir uma produtividade adequada em um contexto de mudanças climáticas. Como a São Manoel – que, a princípio, tem uma localização privilegiada em termos de chuvas – enxerga esse cenário?
A preocupação com a irrigação se fortaleceu, realmente, após essas crises hídricas que vivemos, buscando aumento de produtividade. Nós estamos, sim, em uma região privilegiada, com um volume anual por volta de 1,5 mil mm de média histórica bem distribuídos, mas mais acentuados no verão. Para nós, o estudo de irrigação é evolutivo e foi inicialmente considerado para solucionar a produtividade. Mas, para quem tem um custo de formação de canavial em torno de R$ 20 mil [por hectare], é preciso ir além da produtividade: tem que buscar longevidade. Nós estamos em busca dessa longevidade para podermos colher vários cortes. É isso que vai dar uma contribuição relevante ao otimizar o maior investimento agrícola de hoje, que é o plantio, a formação do canavial.
A São Manoel é uma usina conhecida por seus projetos ligados à sustentabilidade. Vocês já foram premiados e contrataram financiamentos ligados a essas iniciativas. Além do cumprimento da agenda ESG, como isso impacta nas atividades?
Nós temos um projeto muito forte em relação à apicultura que se chama Ciclo do Mel. Ele nos proporcionou atuar com a comunidade do entorno da usina, podendo fazer um trabalho com o qual todos estão se beneficiando. Em todas as nossas matas, perto de APPs [áreas de proteção permanente], temos uma parceria com os apicultores, em que eles fazem o uso de caixas para extração do mel. Com isso, fazemos o nosso manejo de pragas de forma integrada, potencializando o uso de opções biológicas. Temos algumas intervenções químicas, mas com um viés bem sustentável, onde tanto a usina quanto a comunidade só colhem frutos positivos. Esse trabalho é importante para a cadeia e reverte para nós uma porcentagem dessa produção de mel. Nós apoiamos a Casa Santa Maria, aqui em São Manuel, revertendo os benefícios do mel para eles. Essa casa abriga menores que estão aguardando adoção ou que não estão mais em convívio com a família. É uma iniciativa bem sustentável, envolvendo agricultura, meio ambiente e sociedade.
Recentemente, nós publicamos uma reportagem sobre uma palestra do gerente industrial da São Manoel, Rafael Bassetto, em que ele comentava as estratégias adotadas dentro da usina após as queimadas vistas em agosto do ano passado. Você pode contar um pouco sobre como foram as coisas do seu lado, no campo?
Eu diria que não foram dias difíceis: foram dias desafiadores. Após o levantamento dos danos causados pela queimada, mobilizamos toda a nossa equipe agrícola e conseguimos fazer uma logística que atendesse a necessidade imediata de colheita. Conseguimos passar por isso sem derrubar meta alguma, sem redução de produção, sem redução nos nossos compromissos de açúcar, que é o principal produto afetado nesse caso. Então, acredito que foi importante a velocidade para estancar esse prejuízo pelo qual todo o setor passou. E eu falo que foram dias desafiadores porque, hoje, nas usinas, nós não temos mais a expertise de antigamente, de quando era empregado o fogo. Com o passar do tempo e com a vinda da colheita mecanizada, isso já não é normal dentro das unidades – ainda bem.
“A partir do momento em que ocorre uma queimada, o prejuízo já está instalado para a usina. Então, a velocidade [de colheita] vai impactar em um maior ou menor prejuízo”, Murilo Gasparoto (São Manoel)
Para esse ano, quais iniciativas estão sendo tomadas pela São Manoel para evitar novos incêndios?
Nós fizemos investimentos altos. Já tínhamos uma brigada muito grande e muito bem treinada. Inclusive, acredito que os impactos na São Manoel, quando se compara com outras usinas, foram menores justamente pelo treinamento dessa brigada. Além disso, agregamos o uso de tecnologias, com câmeras de monitoramento integral de nossa lavoura. Isso está nos possibilitando detectar focos de fogo cada vez mais rápido. O tamanho de incêndio é em virtude do tempo que decorre para poder combater, então, aumentamos nossa rastreabilidade e, na entressafra, contactamos bombeiros para treinamentos visando, cada vez mais, evoluirmos com a nossa brigada de incêndio.
Uma das principais recomendações na busca por uma maior produtividade é a adoção de variedades de cana mais modernas, mas isso costuma ser algo lento quando se olha para o setor de forma ampla. Você pode compartilhar um pouco sobre os processos da São Manoel nesse sentido, como a escolha de novas variedades e as etapas adotadas até que elas estejam presentes nos canaviais?
Nós esperamos pelo resultado no campo, mas esse é um processo que começa dentro de uma sala. Temos um departamento de recomendações e planejamento agronômico e é por meio dele que buscamos novas variedades, em parcerias com CTC e Ridesa. Nos nossos viveiros, acompanhamos as novas variedades no nosso ambiente – isso é importantíssimo porque o lançamento de um cultivar não ocorre regionalmente, é algo em nível nacional. Então, nós fazemos a climatização das novas variedades em nossos viveiros, em campo. Também realizamos o acompanhamento do desenvolvimento delas com esse departamento técnico, olhando o NDVI [índice de vegetação por diferença normalizada] e o perfilhamento – que, hoje, acredito ser uma das principais características que variedade deve ter. Então, instalamos esses campos nos quais acompanhamos o ciclo total da cana, coletando dados de crescimento, perfilhamento, acúmulo de açúcar e, depois, criamos a nossa matriz varietal. Como eu falei, as instituições lançam, mas eu acho que é importantíssimo cada usina ter sua matriz varietal para conhecer e poder multiplicar essas novas variedades.
Você destacou o perfilhamento. Por quê?
Tanto pela questão da produtividade quanto pela resistência a pragas. Hoje, a maior praga do setor não é mais a broca, mas sim o Sphenophorus [bicudo da cana]. Então, eu acredito muito na busca de variedades novas com bom perfilhamento. Consequentemente, também espero a criação de uma cana geneticamente modificada que seja resistente ao Sphenophorus.
Olhando para o setor de uma forma mais ampla, tanto pesquisadores quanto consultorias já apontaram que está crescendo o plantio de canas comerciais de segundo ou terceiro corte. Na sua visão profissional, qual será a consequência disso para os canaviais?
Eu costumo falar que muda não é cana de safra. Então, não acredito que a multiplicação de segundo corte é um caminho. Embora isso exista, eu defendo que essa prática não pode ser adotada. Como gerente agrícola, tenho que levantar a bandeira de que muda é muda. Uma muda sadia, livre de doenças e livre de pragas representa começar o canavial da melhor forma possível, otimizando o principal custo, que é o de formação de canavial. Os investimentos em viveiros e mudas, além do planejamento de muda, são essenciais para criar a margem que as usinas buscam para serem competitivas. Inclusive, nós somos uma das poucas usinas que fazem a análise de raquitismo. Nós temos premissas para a utilização de mudas – não é porque ela está em um viveiro que está blindada de algumas situações. Então, temos premissas, como não ultrapassar dez meses de muda e fazer as análises de raquitismo. Isso tudo é feito para podermos implantar essa planta no campo.
Quais são as suas perspectivas para a temporada 2025/26? De que forma ela se diferencia das anteriores?
Todas as safras são diferentes. Em 2024/25, nós trabalhamos a questão do incêndio. Agora, recentemente, tivemos geada; mais um desafio para a equipe agrícola. O setor teve uma geada abrangente, que atingiu uma área grande. Eu estou na São Manoel há dez anos e já passamos por geadas; em termos de hectares computados, essa foi grande. Nós fizemos a análise de criticidade e esse é mais um manejo em que temos que focar com todo o nosso poder de colheita para não impactar a indústria. Mas eu acredito que, com o impacto do ano passado, pelos incêndios, e adicionando o efeito da geada, o canavial da usina São Manoel, em virtude do pacote tecnológico e do manejo que nós adotamos, está surpreendendo em termos de produtividade; ele está muito resiliente. Nesse momento, em que vemos quebras de estimativas, estamos conseguindo nos manter na casa de 2% acima da nossa expectativa. É claro que tem muita água para passar embaixo dessa ponte, mas isso demonstra que temos um canavial resiliente. Eu acho que é esse o papel de um trato cultural bem realizado.
Análises e opiniões a respeito de estratégias e tecnologias para os canaviais serão debatidas na Conferência NovaCana 2025. Confira a programação completa do evento, clicando aqui.
Renata Bossle – NovaCana