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“O mercado está muito demandado para um produto que só a gente tem”, diz CEO da Raízen

Ricardo Mussa comenta o potencial de produção do etanol de segunda geração e as vantagens do modelo de negócio e das tecnologias adotadas pela companhia

NovaCana 11 min de leitura

Imagine se, em vez de 1 litro de etanol, uma usina de cana-de-açúcar produzisse 1,5 litro com a mesma quantidade de matéria-prima. Segundo o CEO da Raízen, Ricardo Mussa, isso não somente é possível como já está sendo feito na unidade da companhia em Piracicaba (SP). O “segredo”, na verdade, já é de conhecimento do setor: o etanol celulósico, também conhecido como etanol de segunda geração (E2G).

De acordo com Mussa, o potencial da gigante sucroenergética é de 2 bilhões de litros do biocombustível celulósico, considerando uma fabricação total de 4 bilhões de litros de E1G. “O interessante dessa tecnologia é que a gente consegue aumentar em 50% a produção de etanol sem precisar de um pé de cana a mais”, garante e completa: “Você tem um produto que é feito a partir de um resíduo e consegue aumentar muito a produção sem precisar aumentar a área plantada”.

Ele ainda ressalta que o E2G pode ser vendido a preços mais altos que o etanol convencional. No caso da Raízen, o prêmio médio é de 70% sobre o valor do E1G – mas a companhia já chegou a registrar variações de 90% entre os etanóis. “A gente está conseguindo prêmios fantásticos. Este produto está muito demandado, principalmente nos mercados europeu e americano”, conta.

O executivo ainda comemora vendas referentes à produção de plantas futuras, feitas com até nove anos de antecedência, como aconteceu em contratos firmados em agosto deste ano. “O mercado está muito demandado para um produto que somente a gente tem. É um exemplo claro do potencial que isso tem para a nossa indústria”, declara.

A principal vantagem do etanol celulósico, segundo ele, está em sua menor pegada de carbono. O biocombustível emite cerca de 80% menos carbono na atmosfera em comparação com a gasolina e em torno de 30% a menos ante o etanol de primeira geração de cana-de-açúcar.

Estes números foram destacados pelo CEO da Raízen durante apresentação na 21ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, realizada em São Paulo (SP). Segundo os valores divulgados pela empresa, o E2G emite o equivalente a 16 gramas de dióxido de carbono por megajoule, enquanto o E1G de cana-de-açúcar emite 23 gCO2/MJ. Já o E1G de milho gera 58 gCO2/MJ, enquanto a gasolina chega a até 87 gCO2/MJ.

Leia mais no texto completo (exclusivo para assinantes):

- Aproveitamento integral da energia da cana
- Valor já investido pela Raízen em tecnologia
- Vantagens da planta de E2G integrada à usina de E1G
- Principais mercados para o E2G e suas características
- Potencial do biogás
- Aposta na economia circular
- Novos termos: parque de biotecnologia

Imagine se, em vez de 1 litro de etanol, uma usina de cana-de-açúcar produzisse 1,5 litro com a mesma quantidade de matéria-prima. Segundo o CEO da Raízen, Ricardo Mussa, isso não somente é possível como já está sendo feito na unidade da companhia em Piracicaba (SP). O “segredo”, na verdade, já é de conhecimento do setor: o etanol celulósico, também conhecido como etanol de segunda geração (E2G).

De acordo com Mussa, o potencial da gigante sucroenergética é de 2 bilhões de litros do biocombustível celulósico, considerando uma fabricação total de 4 bilhões de litros de E1G. “O interessante dessa tecnologia é que a gente consegue aumentar em 50% a produção de etanol sem precisar de um pé de cana a mais”, garante e completa: “Você tem um produto que é feito a partir de um resíduo e consegue aumentar muito a produção sem precisar aumentar a área plantada”.

Ele ainda ressalta que o E2G pode ser vendido a preços mais altos que o etanol convencional. No caso da Raízen, o prêmio médio é de 70% sobre o valor do E1G – mas a companhia já chegou a registrar variações de 90% entre os etanóis. “A gente está conseguindo prêmios fantásticos. Este produto está muito demandado, principalmente nos mercados europeu e americano”, conta.

O executivo ainda comemora vendas referentes à produção de plantas futuras, feitas com até nove anos de antecedência, como aconteceu em contratos firmados em agosto deste ano. “O mercado está muito demandado para um produto que somente a gente tem. É um exemplo claro do potencial que isso tem para a nossa indústria”, declara.

A principal vantagem do etanol celulósico, segundo ele, está em sua menor pegada de carbono. O biocombustível emite cerca de 80% menos carbono na atmosfera em comparação com a gasolina e em torno de 30% a menos ante o etanol de primeira geração de cana-de-açúcar.

Estes números foram destacados pelo CEO da Raízen durante apresentação na 21ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, realizada em São Paulo (SP). Segundo os valores divulgados pela empresa, o E2G emite o equivalente a 16 gramas de dióxido de carbono por megajoule, enquanto o E1G de cana-de-açúcar emite 23 gCO2/MJ. Já o E1G de milho gera 58 gCO2/MJ, enquanto a gasolina chega a até 87 gCO2/MJ.

Aproveitando toda a energia da cana

De acordo com o executivo, o potencial energético da cana está dividido em três partes aproximadamente iguais. Na primeira, ele coloca os produtos derivados do suco da planta. “Você espreme a cana-de-açúcar e consegue extrair um terço da energia; com isso, você faz ou etanol de primeira geração ou açúcar; e tem como subproduto a torta de filtro e a vinhaça”, relata.

O segundo terço envolveria o aproveitamento do bagaço para a geração de energia elétrica. Entretanto, segundo Mussa, isso representa apenas 60% deste potencial, com os outros 40% sendo referentes à produção de biogás e de etanol celulósico. Por fim, o último terço seria a palha da cana-de-açúcar, que costuma permanecer no campo e, segundo o CEO, é pouco explorada pelas empresas.

“Tanto o biogás como o E2G são tecnologias que pegam os resíduos da produção da cana-de-açúcar – seja a vinhaça, a torta de filtro, o bagaço ou as folhas – para a produção ou de etanol de segunda geração, que é o etanol celulósico, ou de biometano e energia”, detalha.

Em relação ao uso do bagaço para a geração de eletricidade ou para a produção de E2G, Mussa explica que é importante analisar a biomassa: quando a qualidade é considerada inferior, ela é direcionada para a queima na caldeira da termelétrica; quando ela é superior, é destinada para o etanol celulósico. Por conta disso, ele também acredita que o acesso a um grande volume de matéria-prima seja uma grande vantagem do setor sucroenergético nacional.

“A garantia do controle do acesso à matéria-prima é algo único do nosso setor”, afirma. “Há 15 anos, muita gente já conseguia fazer o etanol de segunda geração em laboratório, mas era um ambiente com biomassa e temperatura controladas. Ninguém tinha conseguido fazer o etanol de segunda geração em larga escala”.

Investimento superior a US$ 500 milhões

Mussa ainda afirma que os bons resultados da Raízen com o E2G só foram possíveis após quase 15 anos de investimentos em tecnologia. “Foram investidos mais de US$ 500 milhões; a gente tem uma tecnologia proprietária”, relata. “É realmente difícil que alguém consiga copiar isso em um espaço curto de tempo”, segue.

De acordo com ele, uma vantagem do modelo adotado pela Raízen é a integração com uma usina de etanol de primeira geração. “Uma empresa que vai fazer uma planta de etanol de segunda geração fora de uma usina – uma planta sozinha, como tentaram fazer na Europa – não consegue garantir uniformidade da biomassa”, completa.

Outro benefício está na redução dos custos, especialmente por meio do aproveitamento da vinhaça gerada no processo de produção do E2G, que pode ser direcionada para os canaviais ou para a produção de biogás. Neste caso, uma planta que não seja integrada precisaria construir a estrutura para tratar este resíduo.

“A planta de etanol de segunda geração só é competitiva porque ela está anexada a uma usina existente”, Ricardo Mussa (Raízen)

Assim, ainda que o custo de produção do E2G seja maior que o de seu equivalente de primeira geração, Mussa enxerga vantagens. “A estrutura de custos do etanol de primeira geração está alinhada por conta do Consecana – se aumenta o preço do E1G, sobe o Consecana e, por consequência, também o valor do arrendamento da terra”, relata.

No caso do E2G, isso não acontece e, dependendo do momento do mercado, pode acontecer de o produto celulósico ser mais barato. É o que está acontecendo no momento: “Hoje, por incrível que pareça, o E2G está mais barato que o E1G”, afirma Mussa, que pondera que isso não corresponde ao padrão da média histórica. “Mas essa tecnologia vai melhorar ao longo do tempo”.

Mercado aquecido

Segundo o CEO, a demanda pelo E2G vem principalmente de locais onde existem mandatos de descarbonização, como acontece nos Estados Unidos e na Europa. Entretanto, ainda há outros interessados, como as empresas que querem oferecer produtos com uma menor pegada de carbono a seus clientes. “A gente tem uma negociação com o Boticário, que produz fragrâncias com etanol celulósico”, exemplifica.

Conforme uma estimativa da Raízen, o mercado do E2G está em torno de 180 bilhões de litros – ou seja, é 90 vezes maior que o potencial produtivo do grupo, de 2 bilhões de litros. “E é um mercado que só vai crescer. Para 2030, já seriam quase 300 bilhões de litros e, em 2050, 400 bilhões de litros”, completa Mussa.

Entretanto, ele observa que cada localidade tem suas próprias características. No mercado europeu, a análise se dá pela procedência da matéria-prima utilizada, beneficiando especialmente os combustíveis produzidos a partir de resíduos, como o E2G. Já nos Estados Unidos, a avaliação do produto acontece de acordo com a tecnologia de produção; neste caso, o E2G é classificado como um biocombustível avançado.

O país conta com um programa conhecido como Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS, na sigla em inglês), que funciona de maneira similar ao RenovaBio. “Em média, o prêmio que o etanol de segunda geração tem no mercado americano tem sido de 70%”, disse o executivo, referindo-se ao período de 2018 a maio de 2021.

Biogás e a economia circular

Indo além do E2G, Mussa também comenta sobre o mercado de biogás, que começou a ser explorado pela Raízen no ano passado, com a inauguração de uma planta em Guariba (SP), após investimentos de R$ 153 milhões.

De acordo com o executivo, os 4 bilhões de litros de etanol de primeira geração da Raízen produzem 500 bilhões de litros de vinhaça; já os potenciais 2 bilhões de litros de E2G podem resultar em mais 30 bilhões de litros deste resíduo. O volume total, em conjunto com a torta de filtro gerada na fabricação de açúcar, pode ser direcionado para a produção de biogás. Neste caso, o potencial equivale a 1 bilhão de normal metro cúbico de biometano ou 4 TWh de energia elétrica.

“Essa é a economia circular completa. Esse é o exemplo da Raízen”, afirma e segue: “Eu consigo produzir 2 bilhões de litros de etanol de segunda geração e mais um bilhão de litros equivalentes a diesel com o biogás, sem precisar de um pé de cana a mais”.

Parque de bioenergia

Em sua fala, Mussa valorizou o setor sucroenergético brasileiro, afirmando que “ninguém duvida” que a cana-de-açúcar seja “a melhor planta para converter a energia solar em biomassa”. Segundo ele, o Brasil apresenta as condições ideais para cultivo e a indústria estaria pronta para converter toda a biomassa em energia por meio de uma série de produtos. “E o momento é o certo”, conclui.

O CEO também defendeu mudanças nas nomenclaturas usadas pelo setor. Para ele, o termo “usina” é antigo e não representa mais o setor, que entrega mais do que açúcar e etanol ao mercado. “Nós chamamos a nossa unidade de Araraquara (SP), a antiga usina Bonfim, de parque de bioenergia”, exemplifica.

Ele completa: “Uma usina, hoje em dia, faz muito mais do que açúcar e etanol. Tem etanol de primeira geração, etanol de segunda geração, bioeletricidade, biogás, pellets, bioplástico. Isso tudo mostra o potencial que esse setor tem de transformar toda a energia em diversos produtos”.

Renata Bossle – NovaCana

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