Ao contrário do senso comum que costuma rotular “inovação” como algo completamente diferente de tudo o que já se viu antes, a aplicação do conceito em contextos de pesquisas e na indústria costuma ser no melhoramento de tecnologias já existentes. O objetivo frequentemente é ganhar eficiência em um processo ou aprimorar um produto. Ainda assim, há inovações que prometem verdadeiras “revoluções”.
A Conferência NovaCana 2023 deve abordar várias destas promessas voltadas para o futuro dos canaviais. Elas podem envolver desde mudanças no manejo – com a adoção de inteligência artificial e outras tecnologias, por exemplo – até transformações completas no processo de plantio, objetivo da semente artificial de cana. No meio do caminho há também questões como as pesquisas de novas variedades e a adoção da cana transgênica, além de alternativas para aumentar a produtividade no campo.
De acordo com o diretor de pesquisa e desenvolvimento do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Suleiman Hassuani, o projeto de sementes sintéticas de cana-de-açúcar começou em 2011 com uma equipe reduzida e, hoje, é uma das principais apostas da companhia.
“O objetivo é criar um novo sistema de plantio para o setor de cana-de-açúcar”, relata Hassuani, que explica: “Todos os sistemas alternativos de plantio que foram tentados até hoje usavam sempre um pedaço da cana; você tem que plantar um canavial, tirar aquele pedaço e transformar aquilo em uma raiz. Então, a ideia desse projeto é sair desse conceito e ir para algo totalmente inovador”.
Hassuani será um dos palestrantes da Conferência NovaCana 2023. Ele participará de um painel voltado justamente para as novas tecnologias que devem chegar ao campo – clique aqui para ver a programação completa do evento. As inscrições se encerram amanhã, 18.
Em evento para a imprensa realizado em 2022, o diretor de recursos humanos e comunicação corporativa do CTC, Fabio Hayashida, explicou que, embora ainda não houvesse um prazo para a semente sintética estar disponível comercialmente, o plantio em larga escala em usinas parceiras iria começar em 2023.
Na ocasião, ele reforçou que, atualmente, os produtores precisam lidar com muitas falhas no canavial e que essa é uma das principais questões que a nova tecnologia visa resolver. “Queremos mudar como se faz manejo e alterar a dinâmica da renovação do canavial a cada seis anos”, projeta e segue: “O conceito é ter um plantio muito mais eficiente, como no grão a grão, onde vamos ter um canavial sem falhas e com plantio mecanizado”.
“[A semente de cana] vai aumentar a produtividade, permitir uma operação mais amigável e gerar a adoção acelerada de novas variedades”, Fabio Hayashida (CTC)
Considerando que os maiores grupos sucroenergéticos têm participação no CTC – Raízen, Copersucar, Tereos, BP Bunge, São Martinho, Coruripe e outros, totalizando mais de 60% da moagem brasileira –, Hayashida acredita o produto será bem recebido. De acordo com ele, a semente sintética é “a menina dos olhos” dos acionistas.
Para o diretor comercial do CTC, Luiz Antônio Paes, uma das principais vantagens da semente sintética é que ela dispensa o plantio de viveiros ou a utilização de parte da cana comercial, ampliando a área útil de canavial para moagem: “Hoje, para plantar 4 hectares de cana, você precisa de 1 hectare. Esse quinto hectare, você podia estar moendo”.
Ele ainda reforça a rapidez no processo como um todo. “Para chegar a uma área significativa com determinada variedade, começando com 1 hectare, você precisa de cinco anos. Com a semente, você conseguiria a área desejada no primeiro ano”, coloca Paes.
Para que isso seja possível, o CTC pretende expandir a produção da semente sintética, que atualmente ocorre em laboratórios dentro de seu complexo em Piracicaba (SP), para uma unidade própria – em um primeiro momento, segundo Hassuani, ela pode seguir dentro do CTC. A partir deste local, os envelopes com as sementes serão enviados para unidades de encapsulamento, que ficarão mais próximas dos produtores.
“A questão de logística deste material é muito mais simples do que a da cana”, garante. Desta forma, uma das vantagens da semente sintética seria facilitar e ampliar o acesso dos produtores a novas variedades, justamente um dos grandes empecilhos do setor.
Mas, enquanto as sementes sintéticas seguem sendo uma aposta para o futuro, diversos produtores de cana mostram que a adoção de novas variedades, técnicas e tecnologias já faz parte do seu dia a dia. Um exemplo é a usina Mandu, do grupo Tereos, que recebeu o prêmio Excelência Nacional no Uso de Variedades de Cana-de-açúcar pela segunda vez consecutiva.
A premiação é feita anualmente pelo Programa Cana do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que integra a secretaria de agricultura e abastecimento do estado de São Paulo. O objetivo é estimular as empresas a cuidarem melhor dos seus canaviais e melhorarem a sua produtividade.
A avaliação do IAC é feita por meio de dois dados: o Índice de Atualização Varietal (IAV) e o Índice de Concentração Varietal Ajustado (ICVA). A obtenção do menor IAV significa maior produtividade dos canaviais; já o menor ICVA demonstra segurança genética.
“Basicamente, os índices têm duas premissas. [A primeira é a] baixa concentração varietal, para reduzir o risco ambiental em função do aparecimento de uma nova doença, como já ocorreu muitas vezes. Isso provoca um prejuízo tremendo”, explica o consultor do IAC, Rubens Braga Junior.
Além disso, a segunda premissa envolve o uso de variedades mais novas para aproveitar o ganho de oportunidade que os programas oferecem no lançamento de novos cultivares.

Em 2022, foram consideradas 222 usinas, responsáveis por 6 milhões de hectares, caracterizando a maior pesquisa nacional sobre variedades de cana-de-açúcar.
A Mandu, da Tereos, atingiu um IAV de 4,23 anos, valor abaixo de um ano antes, quando o índice era de 4,51 anos, melhorando o seu resultado. Além disso, os números são inferiores a cinco anos, o que é considerado satisfatório no ranking nacional. Um IAV menor significa que variedades mais novas foram plantadas, o que deve resultar em incremento de produtividade.
Já no caso do ICVA, o valor foi de 27,2%, também inferior aos 33,5% do prêmio anterior. Este dado representa a segurança genética do canavial, com as principais variedades ocupando menos espaço de plantio.
“Sempre trabalhamos com foco na melhoria do censo varietal, que resulta em uma cana de qualidade superior, com alto nível de aproveitamento. Temos mais de 50 variedades comerciais, desenvolvidas em parceria com centros de pesquisa, que nos ajudam no desenvolvimento de nossa matéria-prima”, ressalta o superintendente de excelência agronômica e negócios agrícolas da Tereos, José Olavo Vendramini.
Para saber mais sobre inovações que já estão fazendo a diferença nos canaviais – ou que devem chegar nos próximos anos –, inscreva-se na Conferência NovaCana 2023. A sexta edição do evento acontece em São Paulo (SP) nos dias 4 e 5 de setembro e a programação completa já está disponível.
Renata Bossle – NovaCana
Com reportagem de Gabrielle Rumor Koster