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Josiani Napolitano (Abiogás): “Esperamos, com ansiedade, a emissão do primeiro CGOB”

Para a executiva, é preciso criar mercados para destravar o potencial de crescimento do setor de biogás e biometano

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A expectativa pela emissão do primeiro Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) está alta dentro da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás). A presidente da entidade, Josiani Napolitano, acredita que é muito importante que isso ocorra rapidamente.

Em entrevista ao NovaCana, a engenheira – que possui mais de 30 anos de experiência no setor elétrico –, afirmou que a estreia deste novo papel deve iniciar o crescimento do mercado de biometano. Além disso, o primeiro CGOB servirá para o setor entender melhor como será o processo de certificação e a comercialização.

“Hoje, o biometano não é mais um potencial. Estamos falando de uma indústria que cresce, que recebe muitos investimentos e que tem o potencial de dar ao Brasil muito mais segurança – e, por que não dizer, soberania – energética”, afirma.

Ela reforça que o Brasil recebe volumes relevantes de gás natural fóssil e diesel importados. Por conta disso, o país está sujeito a uma grande volatilidade, como a vista no início da guerra na Ucrânia e com o fechamento do Estreito de Ormuz. “O biometano é um combustível produzido no Brasil, que traz competitividade, que melhora a balança comercial e que traz essa autonomia que todos têm buscado”, enfatiza.

Napolitano será uma das palestrantes do painel “Além do etanol: SAF, biobunker e a nova era dos biocombustíveis” durante a Conferência NovaCana 2026. O evento acontece nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP), e as inscrições já estão abertas.

A executiva ainda deve participar de um debate com o coordenador de temas ambientais para assuntos da Organização Marítima Internacional (IMO), Flavio Haruo Mathuiy; o presidente da Airbus Brasil, Gilberto Peralta; e o líder para a América Latina da BloombergNEF, Rafael Rabioglio.

A programação da Conferência NovaCana 2026 já está disponível. A seguir, leia a entrevista completa.

Você assumiu a presidência da Abiogás em maio deste ano. Como foram esses primeiros meses? Quais foram os principais desafios e quais são as expectativas para os próximos?
Tive muitas interações com os nossos associados, com os membros do conselho e com stakeholders para entender como a Abiogás pode contribuir para o desenvolvimento do setor e, também, com as bandeiras dos nossos associados. Foi um momento de muita escuta para, agora, conseguir colocar em prática e encarar o principal desafio desse momento, que é dar escala para todo o potencial que o setor tem. Já começamos a atuar, temos um estudo consolidado e estruturamos alguns pilares e frentes de atuação. Inclusive, pretendemos apresentar isso para os candidatos à presidência e para alguns governos estaduais mais estratégicos.

Recentemente, a diretoria da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou uma resolução sobre especificação e controle da qualidade do biometano. Além disso, desde a sanção da lei do Combustível do Futuro, as regulamentações em torno do biocombustível têm avançado. O que mais é preciso e quais são as perspectivas da Abiogás quanto ao andamento disso?
Esperamos com grande ansiedade a emissão do primeiro CGOB. Ele foi estabelecido na lei do Combustível do Futuro e, na verdade, cria e inicia o que chamamos de mandato do biometano. Com isso, alguns agentes, especialmente os produtores e importadores de gás, terão a obrigação de misturar biogás e de comprar o CGOB. O percentual disso é definido pelo CNPE [Conselho Nacional de Política Energética]. A partir desse ano, com a primeira emissão do CGOB, começa a valer essa obrigação. Está todo mundo preparado e com auditoria contratada. Estamos só aguardando o sistema que o Serpro [Serviço Federal de Processamento de Dados] está desenvolvendo junto com a ANP. Uma das APIs [interfaces de programação de aplicações] precisa conversar com a Receita Federal porque a rastreabilidade vai ser feita com base na emissão da nota fiscal. Com isso, esses agentes, importadores e produtores de gás natural fóssil, podem iniciar a obrigatoriedade de compra do certificado.

Para o setor sucroenergético, um dos grandes usos do biometano é interno, pensando nos maquinários e nas frotas agrícolas, mas também há iniciativas como a BioRota, que procura expandir essa utilização. Qual é o real potencial dessa expansão, considerando tanto a produção quanto o consumo?
O Brasil tem um potencial de produção de biometano na ordem de 120 milhões de metros cúbicos por dia. Hoje, usamos menos de 2% desse volume. E o potencial pode ser aplicado em diversos setores. Como você falou, o transporte pesado da própria indústria sucroalcooleira tem a possibilidade de converter caminhões movidos a diesel para o biometano. Mas isso pode chegar a toda a frota pesada de caminhões que circulam no Brasil. Temos uma força-tarefa e boa parte do estudo que fizemos está dedicado ao setor de transporte porque o biometano já é extremamente competitivo em relação ao diesel, desde a aquisição do veículo a biometano até o valor da molécula. A autonomia do veículo também é competitiva. Nós entendemos que o transporte pesado, que é um setor de difícil descarbonização, é um dos que mais podem apresentar uma demanda. Mas não é só ele, claro.

Quais seriam os outros mercados?
No setor elétrico, existe a possibilidade do biogás; e nem precisa purificar para biometano. Tem também o setor de fertilizantes, onde o biometano pode servir tanto de insumo para a produção de fertilizantes sintéticos – porque é necessário um grande volume de gás para essa fabricação –, como por meio do digestato, que é um subproduto da produção do biometano com uma capacidade incrível de tornar o Brasil independente de importação de fertilizantes nitrogenados. Isso ainda depende de especificação e regulamentação para que possa ser amplamente utilizado, mas a indústria sucroalcooleira já utiliza nas suas lavouras. Por fim, nos combustíveis avançados, como o e-metanol e o CO2 biogênico, o biometano é um insumo para a produção também.


“Essas são as quatro frentes em que estamos atuando para criar mercado para o biometano: substituição ao diesel, geração de energia, aplicações no setor de fertilizantes e produção de biocombustíveis avançados”, Josiani Napolitano (Abiogás)


Em relação à geração de energia, que você mencionou, o uso de biogás e biometano já começou a aparecer no mercado regulado, mas essa via foi encarada no passado como uma de menor rentabilidade. Na sua visão, quais são as perspectivas reais para essa possibilidade?
Eu identifico um super potencial para a geração de energia, mas não na modalidade que foi contratada no passado, quando a planta ficava praticamente dedicada a produzir e comercializar energia. É nos leilões de reserva de capacidade que eu acho que há um grande potencial para a utilização do biogás. Hoje, o setor elétrico praticamente expande com geração solar e eólica, mas essas fontes não são controláveis, elas só geram quando têm o recurso natural. E, para continuar expandindo, é necessário ter geração firme, despachável. O que o governo tem feito ultimamente são leilões de reserva de capacidade utilizando o combustível fóssil, tanto gás natural quanto carvão – o último leilão teve carvão –, que, além de serem grandes emissores de CO2 na atmosfera, também são combustíveis caros e, no caso do gás, é inclusive importado.

Para o consumidor, como a opção pelos fósseis se compara com o biogás?
O fóssil traz um custo muito elevado para o consumidor brasileiro, seja ele industrial, comercial ou residencial. Essa conta vai surgir lá na frente, quando essas usinas entrarem em operação, mas já se fala em R$ 80 por megawatt-hora, só desse leilão. É um valor substancialmente elevado e que tira a competitividade da indústria. A nossa proposta é que o governo possa fazer os próximos leilões de reserva de capacidade utilizando o biogás. Ele tem a possibilidade de armazenar matéria-prima e poder gerar no horário que o ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] definir. Além disso, é despachável, então, o ONS pode mandar parar, entrar e sair da rede quando for necessário e de forma muito célere. O que acontece com as outras fontes é que elas têm um tempo muito elevado para entrada no sistema, para tomada de carga. Por exemplo, digamos que o ONS quer que o carvão gere às 18 horas; ele precisa começar às 10 horas da manhã. Além disso, ele desloca fontes renováveis, que têm custo variável de operação nulo, como sol e vento, e acaba trazendo um custo elevado para o consumidor.


“O biogás resolve um problema ambiental, porque ele tem esse atributo de transformar o resíduo orgânico, o passivo ambiental, em um recurso energético”, Josiani Napolitano (Abiogás)


Além disso, o biogás é produzido no Brasil, ou seja, o reajuste dele não está atrelado ao indexador internacional; ele seria atualizado pelo IPCA. Isso traz vantagens competitivas muito elevadas. E, em termos operacionais, ele tem uma questão muito relevante: essas plantas, habitualmente, estão localizadas próximas ao centro de carga e são menores em relação às grandes termelétricas. Por isso, em sua grande maioria, elas não acessam a rede básica; elas estão conectadas na rede de distribuição e, portanto, não pagam o encargo de transmissão, o que torna a energia gerada muito mais competitiva. Para o setor elétrico, eu vejo um ganha-ganha porque o biogás traz segurança a um custo menor. E, no biogás, há um empilhamento de receitas porque gera energia em algumas horas do dia e, em outras, continua produzindo biometano.

No momento, menos de dez sucroenergéticas estão autorizadas a produzir biometano pela ANP, embora muitas companhias tenham demonstrado interesse nos últimos anos. O que tem travado um aceleramento dessa expansão?
É um contexto geral. Ao todo, são 21 plantas em operação produzindo biometano. Existem os aterros sanitários e a produção agrícola e pecuária, com biodigestores. Temos uma produção total, comparada ao potencial, pequena. O que precisa, na minha opinião, para destravar esses investimentos é criar um mercado que absorva. Ninguém vai investir sem ter certeza de que vai conseguir alocar o seu produto no mercado consumidor. É uma questão importante e é por isso estamos trabalhando nesse plano para desenvolver essas frentes no transporte, no setor elétrico, em fertilizantes e em combustíveis avançados. Uma outra questão muito importante é a da infraestrutura, pois sabemos que a malha de gás ainda é restrita. A produção de biometano é muito descentralizada; ela está pulverizada. Com a exceção dos aterros, que estão mais próximos do centro consumidor, os biodigestores estão longe. Então, é necessário infraestrutura tanto de malha de gás quanto de corredores verdes. É preciso ter alguns corredores que tenham pontos de abastecimento de biometano para que dê segurança ao usuário de que ele vai conseguir abastecer em um país como o nosso, com dimensões continentais.

Como as políticas públicas entram nesse contexto?
As políticas públicas ajudam na construção dessa demanda. Já temos uma bem importante, com a lei do Combustível do Futuro, que trouxe esse mandato do biometano para os produtores e importadores de gás natural, mas existem outros incentivos que talvez possam estimular esse mercado. Por exemplo, no setor de transporte, falamos em isenção de IPVA, o que já existe em alguns estados; eventualmente, isenção de pedágio; e que esses veículos possam ter prioridade nas filas dos portos. Existe uma série de incentivos que podem ser concedidos por meio de políticas públicas e que vão trazer tração para essa indústria do biogás e biometano.

Você mencionou o Combustível do Futuro. Qual é a visão da Abiogás para o futuro próximo do biogás, considerando especialmente o início das metas? Como a entidade encarou a fixação em 0,5% de descarbonização?
O Ministério de Minas e Energia, que coordena esse processo de definição das metas, já estabeleceu a mesa de monitoramento envolvendo todos os principais players do setor, além das instituições setoriais, como EPE, ANP, CCEE e a própria Aneel. Isso tudo para definir a meta. Nós, da Abiogás, estamos nos preparando para uma plataforma onde os produtores possam inserir algumas das informações que serão importantes para o ministério ter segurança de ampliar essa meta, inclusive para além do 1% previsto em lei. O que acontece é que muitos produtores consideram algumas informações como estratégicas e, muitas vezes, não gostam de abrir. Mas essa plataforma que estamos construindo vai possibilitar que os produtores possam inserir as suas informações, garantindo a confidencialidade; ou seja, cada um vê os seus números, mas não vê os do outro, e nós vamos poder passar de forma agregada essas informações de produção e de quanto já está comprometido com o mercado voluntário e quanto tem disponível para atendimento do mercado regulado. Com esses dados, o ministério vai ter mais condições de ampliar a meta.

No ano passado, em uma entrevista com o Tiago Santovito, ele trouxe uma perspectiva de cerca de 70 plantas de biometano em usinas sucroenergéticas em 2030. Mas qual seria a visão mais imediata?
No total, temos 48 plantas em processo de autorização; destas, sete utilizam matérias-primas sucroenergéticas, sendo quatro dedicadas exclusivamente a resíduos de cana e três em regime de codigestão com outros resíduos. Esse processo de autorização é algo muito acelerado; não é uma coisa que está no pipeline, ou seja, já há uma segurança. São plantas que efetivamente estão buscando autorização da ANP para poderem iniciar a sua produção de biometano.

E para um horizonte de longo prazo? Qual é a sua perspectiva em relação ao futuro do biogás e do biometano?
O biogás e o biometano vão ter uma participação muito relevante no setor energético de uma forma geral. Com o estabelecimento do sistema de comercialização de créditos de carbono e das metas que serão aplicadas a diferentes setores, as empresas de muitos segmentos que precisam reduzir suas emissões – não só as que estão previstas na lei do Combustível do Futuro. O setor elétrico é um dos que possuem um patamar muito elevado em termos de renovabilidade. Mas sabemos que outros segmentos não são assim, então, na medida em que essas metas forem definidas para cada setor, existirá uma necessidade de que as plantas industriais, por meio de seus inventários, reduzam as emissões. E, obviamente, o biometano é uma dessas formas de redução. Assim, eu vejo com grande otimismo o crescimento do biometano para os próximos anos.


Josiani Napolitano é uma das palestrantes confirmadas na Conferência NovaCana 2026, que acontece em São Paulo (SP), nos dias 28 e 29 de setembro. Ela participará do painel “Além do etanol: SAF, biobunker e a nova era dos biocombustíveis”, que discutirá sobre a convergência entre etanol e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF); como os biocombustíveis para transporte marítimo se posicionam na prática; as rotas tecnológicas em disputa; a viabilidade econômica e o “prêmio verde”; as parcerias internacionais e a geopolítica na energia limpa; e questões de escala, investimentos e infraestrutura. Clique aqui e acesse a programação completa.


Renata Bossle – NovaCana

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