Embora usinas e produtores de cana precisem atuar em conjunto para o sucesso de ambas as partes, este não é um relacionamento livre de conflitos. Com boa parte dos custos sucroenergéticos concentrados no campo, a busca por mais produtividade é um objetivo comum, mas há um desequilíbrio no acesso a recursos e novas tecnologias.
A discussão sobre os desafios enfrentados para o avanço do rendimento da cana-de-açúcar envolve, entre outros pontos, os impactos financeiros e as perspectivas de curto, médio e longo prazos, incluindo a análise de custo-benefício para adoção de soluções. Aspectos como a mitigação de riscos e danos dos incêndios e as possibilidades da irrigação também entram na conta.
Para trazer o ponto de vista dos produtores independentes ao debate, a Conferência NovaCana 2025 convidou o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira. Ele será um dos palestrantes do painel “Investindo na resiliência do canavial: irrigação e tecnologias frente às mudanças climáticas”.
Agrônomo com mais de 15 anos de experiência, Nogueira já atuou na cooperativa agroindustrial Coplana; na Tereos; na Associação dos Fornecedores de Cana (Socicana); no Sebrae; e no Markestral.
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A seguir, leia uma entrevista exclusiva com José Guilherme Nogueira, sobre mudanças no RenovaBio, revisão do Consecana-SP, busca por uma maior produtividade, perspectivas para a safra de cana-de-açúcar e outros tópicos.
Há pouco mais de um ano, nós conversamos sobre a tramitação de um projeto – que agora já é uma lei sancionada – envolvendo o rateio dos ganhos obtidos com créditos de descarbonização (CBios) entre usinas e produtores de cana. A Orplana está participando do processo de regulamentação?
Sim. Uns dois meses atrás, mais ou menos, nós estivemos na ANP para falar com os técnicos, demonstrando e, principalmente, trazendo as fórmulas que julgamos que trariam transparência e segurança para os produtores. Tem algumas definições que não estão na lei, apesar de o texto estar bem claro. São coisas como: a usina vai utilizar que preço? Ela vai usar a média do ano ou o preço vendido do CBio naquela unidade? Como a nota de eficiência energético-ambiental do produtor vai ser passada? Quem vai informar essa nota? Em relação aos descontos que a usina vai realizar – não só de impostos, mas também das custas de certificação –, como que eles vão ser trazidos? Então, tem muito ainda para se ver dentro da regulamentação.
Como a Orplana se posiciona em relação à versão final do texto?
O nosso grande pleito era a inserção do produtor de cana [no RenovaBio] e isso foi atendido, apesar de algumas usinas terem uma resistência muito grande. Nós percebemos, também, movimentos de algumas distribuidoras que querem restringir o RenovaBio, o que não é a nossa posição. A Orplana entende o RenovaBio como uma política importante e que precisa acontecer. Ainda assim, a nossa posição é: gostaríamos de ter uma proporção ainda maior que esses 60%. Já é um ganho? Sim, é um ganho e é um reconhecimento. Mas é 60% da cana do produtor. A lei é muito clara ao falar que o valor é, no mínimo, de 60%. Entendemos que isso poderia, em um futuro bem breve, ter aumentos para que o produtor possa ser ainda mais estimulado. É nessa linha que a Orplana está trabalhando.
“Quem ajuda a descarbonizar o Brasil precisa ser recompensado. Os produtores de cana são um desses grupos, assim como outros produtores de biomassa para biocombustíveis”, José Guilherme Nogueira (Orplana)
Ainda dentro desse tema, quais são as perspectivas para a distribuição dos recursos do RenovaBio com os produtores? Tanto em termos de datas quanto de valores.
Várias usinas já estão pagando aos produtores, mas nem todas. Nós temos algumas mensurações, mas o valor depende da usina – se ela faz etanol, se ela usa o modelo Consecana, se usa o mix do estado de São Paulo, entre outros fatores. Depende de cada caso, mas temos estimado algo em torno de entre R$ 2 a R$ 4 por tonelada. No ano passado, o produtor deveria receber dentro do volume de CBios que poderia ser gerado pela cana dele. Se levarmos em consideração um volume de cana de mais de 230 milhões de toneladas, conseguimos estimar qual é o volume total de CBios ao produtor. Isso ajuda também a estimular o produtor a ter mais dados primários, a buscar aumentar a sua nota e, claro, a aumentar a quantidade de CBios e ajudar toda a cadeia nesse processo de descarbonização.
Você mencionou o ano passado, mas a lei foi sancionada apenas em dezembro.
Estamos trabalhando na questão das usinas que usaram dados do produtor no passado para fazer os seus CBios. As associações filiadas à Orplana estão fazendo tratativas com essas unidades e falando: “Você usou o dado do produtor – o CAR dele, o CPF dele –, uma vez que ele é dono daquela produção de cana, mas ele não foi remunerado pelos CBios no ano passado ou no ano retrasado. Como é que nós vamos resolver isso?”. As associações estão fazendo esses comunicados para as usinas, estão tentando resolver esse ponto. A Orplana também tem uma ação junto à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para discutirmos esse ponto de as usinas terem usado, no passado – vamos deixar isso bem claro, no passado –, os dados do produtor, sem repassar aqueles direitos a ele. Isso é importante.
Outro ponto que comentamos há um ano, entretanto, ainda segue sem uma definição: a revisão do Consecana-SP. Recentemente, inclusive, diversos impasses vieram à tona. Você pode comentar um pouco sobre como está o andamento do processo?
Infelizmente, esse é um momento de muita tensão perante as duas partes. Gostaríamos que a Unica [União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia] pensasse no produtor. Eu acho que esse é um grande ponto: falta pensamento no produtor e em resolução dos problemas. Os produtores têm amargado prejuízos há vários anos e o modelo de precificação precisa ser resolvido o quanto antes. A Unica e a Orplana precisam conversar e chegar a uma determinação técnica para aplicação do Consecana, permitindo a manutenção de um sistema que é tão robusto. Mas é sempre bom deixar claro que o produtor está tendo reações e que ele está buscando os seus direitos nesse processo todo. O Consecana é um instrumento de 25 anos. Ele teve poucas revisões efetivas, técnicas, densas; e essa pela qual estamos passando é uma delas. As duas partes precisam discutir tecnicamente todos os pontos que forem necessários para não ter nenhuma ponta solta. Depois disso, devem continuar com o desenvolvimento do Consecana.
Agora, entrando mais no tema do painel da Conferência NovaCana. A produtividade nos canaviais é essencial para o setor sucroenergético porque grande parte dos custos do setor são despesas agrícolas fixas, que podem ser diluídas apenas com uma maior produção. Entretanto, os produtores precisam balizar potenciais ganhos de rendimento com os investimentos a serem feitos. Como saber se uma mudança realmente vale a pena?
Esse é um pensamento corriqueiro do produtor. Ele sempre busca ter maior produtividade e fica muito preocupado com o nível de investimento que vai ter, principalmente em relação ao retorno esperado. Por conta disso, o produtor está sempre procurando tecnologias que maximizem o retorno. Temos percebido que os produtores estão mudando um pouquinho seus protocolos de produção. No manejo, por exemplo, estão aumentando a quantidade de calcário ou até fazendo um processo de calcário bem mais denso. Eles também estão alternando algumas tecnologias. O plantio direto de cana não era mencionado; você tinha que fazer sempre uma sulcação, uma aragem, uma gradagem do solo. Mas, hoje, isso também está sendo discutido para reduzir os gastos. Ainda assim, é claro que a produtividade depende de diversos fatores, principalmente de idade de canavial.
Há também os aspectos que estão além do alcance do produtor...
O fator ambiental tem um impacto muito grande, especialmente o nível de chuvas. Por isso, é importante pensar no manejo e no controle de pragas e de plantas daninhas. Há vários pontos que podem ser trabalhados para aumentar a produtividade e, com isso, melhorar o retorno sobre o investimento. Se o produtor está aportando R$ 16 mil na implantação do seu canavial e, também, mais R$ 4 mil por ano na cana soca, ele precisa ter o retorno sobre esses valores. Se ele tiver uma produtividade baixa, aquilo certamente não vai ser correspondido. Então, ele precisa trabalhar muito forte nas alavancas de produtividade, como o manejo. Outros pontos que têm gerado muita discussão são os investimentos em irrigação e a redução de gastos com mão de obra. O produtor está muito atento a isso, está focado em novas oportunidades, tecnologias e modelos para conseguir melhorar os resultados.
“A questão da mão de obra no campo é importante não só em razão do custo, mas também pelos riscos, devido às exigências e aos processos necessários na atividade canavieira”, José Guilherme Nogueira (Orplana)
Você mencionou a irrigação e eu queria que se aprofundasse um pouco nisso. Há alguns anos, esses investimentos eram restritos às áreas realmente mais secas e à ampliação do uso de vinhaça, com a fertirrigação. Atualmente, no entanto, fala-se no uso da técnica para garantir uma produtividade adequada em um contexto de mudanças climáticas. Isso já se reflete no campo?
Mesmo com os atuais juros altos, nós percebemos que os produtores – todos eles – estão montando projetos. Eles ainda não estão implementando, mas se preparando. Quando tiver linhas que subsidiem ou que auxiliem o produtor a utilizar aquele sistema de irrigação, certamente isso vai acontecer. Só que a água não vai resolver todos os problemas. Precisamos ter um solo muito bem estruturado, com matéria orgânica, que esteja pronto para a irrigação. Assim, o que vemos é uma preparação intensa dos produtores. Eles querem entender mais de irrigação e vemos isso nas palestras, nos seminários. Eles querem saber não só sobre os custos, mas sobre a outorga e os outros processos.
Como você enxerga os investimentos que já estão acontecendo nessa área?
Alguns produtores estão aumentando a área irrigada, não só de gotejamento, mas principalmente a irrigação por canhão. A irrigação de salvamento tem crescido muito e a por aspersão também. São modelos que têm ampliado na ordem de 40% ano após ano. Mas temos um grande espaço, dá para aumentar muito. Como a base é baixa, um aumento de 30% ou 40% ainda representa uma área muito pequena. Então, vamos ter esses crescimentos mais vultuosos nesse primeiro momento. Mas o que restringe, ainda, o nível de investimento são o custo da questão elétrica, as outorgas e a documentação.
Ainda nessa questão de produtividade, uma das principais recomendações na busca por um maior rendimento é a adoção de variedades de cana mais modernas, mas isso costuma ser um processo lento, tanto pela cultura do setor quanto pela própria necessidade de ter viveiros e desdobrar o canavial, por exemplo. Este quadro está mudando?
A Orplana tem buscado, junto às associações, fazer essa mudança de comportamento. Também estamos atuando com os grandes institutos, como o IAC, a Ridesa e o CTC, que ajudam muito nisso. Mas o plantel canavieiro ainda é idoso, vamos dizer assim, em relação à quando aquela variedade foi introduzida. Temos, realmente, canaviais com variedades bem antigas. O produtor muitas vezes acha muito, observa pouco e mede quase nada. Ele precisa ter parceiros que ajudem na medição. Além disso, é preciso entender que ninguém faz um “desmelhoramento” genético. As empresas estão sempre melhorando e se adaptando ao clima, não piorando. Mas a adoção de variedades acontece muito pela disponibilidade, pela rapidez e pela facilidade. Às vezes, é difícil encontrar uma variedade mais nova, sem contar o desconhecimento sobre a maturação daquela variedade. São vários fatores. Para mudar essa cultura e esse processo precisamos das associações e desses institutos, fazendo parcerias e fazendo isso acontecer.
Na safra passada, um dos maiores entraves para a produção de açúcar foi a queda na qualidade da pureza do caldo, em razão do clima e de outros fatores, como a avanço da síndrome da murcha da cana. Para os produtores de cana, de que forma e em qual intensidade isso impactou nos rendimentos?
Para os produtores, o impacto obviamente é no preço, na quantidade de ATR. Se a usina produz menos açúcar – e o açúcar é um produto que estava remunerando melhor –, isso vai impactar o valor do ATR do produtor e o recebimento. Agora, é preciso considerar que esse canavial foi afetado, principalmente, por condições edafoclimáticas – os incêndios também interferiram bastante e houve uma seca muito prolongada. Isso interfere no açúcar lá na usina. Para o produtor, o efeito surge na precificação, quando as curvas de comercialização do preço do ATR são ajustadas.
Para encerrar, quais são as suas perspectivas para a safra 2025/26? De que forma esta temporada se diferencia das anteriores?
Na safra passada, sofremos bastante com um clima bem seco. Algumas regiões ficaram até 170 dias sem chuvas e a produtividade foi bem impactada. Mas, mesmo assim, conseguimos colher 618 milhões de toneladas no Centro-Sul. Para esse ano, a expectativa é que a gente colha menos que essas 618 milhões de toneladas. A Orplana não faz estimativa de safra diretamente; ela pega números de vários institutos e analisa, com apoio das 35 entidades associadas. A partir disso, nós esperamos uma colheita próxima de 600 milhões de toneladas ou abaixo disso. É o que estimamos pelos canaviais, principalmente por conta desse primeiro terço da safra. Estamos vendo grandes impactos na moagem, áreas sendo bastante reduzidas, com 20% a 30% de quebra. Mas é preciso lembrar que a safra é longa; ela vai até novembro ou dezembro. A cana é uma cultura bem resiliente e podemos ter surpresas. Nesse primeiro momento, acreditamos que vai ser uma safra pior do que a do ano passado, com um canavial também mais velho. E o que mais preocupa não é nem a safra que estamos tendo agora, mas a próxima. Em 2026/27, a cana colhida terá sido plantada a partir de canas comerciais, de segundo ou terceiro corte. Parece que se perdeu o capricho de quando tínhamos mais viveiros e estamos plantando cana comercial. Isso pode ter um impacto grande, mas ainda não sabemos ao certo. Vamos aguardar um pouco mais.
Estas e outras análises a respeito dos canaviais brasileiros serão apresentadas durante a Conferência NovaCana 2025. A programação completa está disponível no site do evento.
Renata Bossle – NovaCana