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Jalles Machado reestreia o setor agro na bolsa e mostra que empresas menores têm espaço

Com governança forte e comportamento de companhia de capital aberto, sucroenergética teve sucesso com seu IPO e pode abrir o caminho para outras

NovaCana 20 min de leitura

Após um hiato de oito anos, a Jalles Machado foi a responsável pela reestreia do agronegócio – ou, mais especificamente, do setor sucroenergético – na bolsa de valores brasileira. A companhia também foi a primeira a abrir capital na história de Goiás.

De acordo com especialistas consultados pelo NovaCana, o processo de IPO – sigla em inglês para oferta pública inicial, feita quando a empresa deseja acessar a bolsa de valores – por uma empresa de médio porte demostra um maior apetite dos investidores no capital brasileiro. O movimento também dá sinais de um crescente interesse destes investidores na área agrícola, ganhando mais confiança para alocar seu capital.

“Se tem um setor com mais oportunidades e posição na bolsa, o investidor vai buscar se profissionalizar nele”, considera o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas, que expressa que o setor agrícola, com menos exposição no mercado de ações, acaba não sendo prioridade.

Assim, o maior ingresso destas empresas na B3 pode deixar o caminho menos tortuoso para que outras sucroenergéticas, por exemplo, também sigam este rumo, desde que possuam bons níveis de crescimento, governança, custo-caixa e gestão de risco.

Conforme o diretor financeiro da Jalles Machado, Rodrigo Penna, a abertura de capital não era uma meta a curto prazo da empresa. “Não pensávamos nisso por agora, achávamos que a companhia ainda não tinha porte”, relata.

Ele conta que a Jalles Machado foi instigada pela XP Investimentos, com quem já tinha um relacionamento na área de mercado de capitais, especialmente por conta de emissões de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA). “Eles disseram que tínhamos uma geração de Ebitda grande, éramos uma empresa com governança organizada e questionaram se não queríamos avaliar a abertura de capital”, lembra.

A companhia, que completa 41 anos em 2021, tem um viés familiar que vem se transformando ao longo do tempo e, de acordo com Penna, a abertura do capital fortalece a intenção de a perpetuar. “Pensamos nos vários desafios que o setor teve no passado e em como nós tivemos sucesso; não foram muitas as empresas que conseguiram passar por todos os períodos de crise e chegar bem”, afirma.

Além disso, a entrada no mercado de capitais é um “salto de governança”, indica Penna. “Vamos blindar o profissionalismo que a Jalles Machado sempre teve para as futuras gerações”, considera.

Para o diretor financeiro da companhia, críticas e questionamentos vindos dos novos acionistas, analistas e fundos funcionarão como alavanca de melhoria contínua. “Sempre gostamos de contar com consultorias e apoio externo para termos uma visão de fora, diferente da nossa. Teremos mais gente nos ajudando a enxergar caminhos e alternativas”, completa.

Ainda de acordo com ele, o ingresso na bolsa oferece mais liquidez, dando maior liberdade aos acionistas caso queiram sair da sociedade, além de melhor conhecimento e transparência do valor que eles detêm.

Confira, na versão completa, o percurso da Jalles Machado para ingresso na bolsa e as perspectivas para o futuro a partir da visão do diretor financeiro da companhia e de profissionais da XP Investimentos, FG/A e Peers Consulting.

Após um hiato de oito anos, a Jalles Machado foi a responsável pela reestreia do agronegócio – ou, mais especificamente, do setor sucroenergético – na bolsa de valores brasileira. A companhia também foi a primeira a abrir capital na história de Goiás.

De acordo com especialistas consultados pelo NovaCana, o processo de IPO – sigla em inglês para oferta pública inicial, feita quando a empresa deseja acessar a bolsa de valores – por uma empresa de médio porte demostra um maior apetite dos investidores no capital brasileiro. O movimento também dá sinais de um crescente interesse destes investidores na área agrícola, ganhando mais confiança para alocar seu capital.

“Se tem um setor com mais oportunidades e posição na bolsa, o investidor vai buscar se profissionalizar nele”, considera o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas, que expressa que o setor agrícola, com menos exposição no mercado de ações, acaba não sendo prioridade.

Assim, o maior ingresso destas empresas na B3 pode deixar o caminho menos tortuoso para que outras sucroenergéticas, por exemplo, também sigam este rumo, desde que possuam bons níveis de crescimento, governança, custo-caixa e gestão de risco.

Conforme o diretor financeiro da Jalles Machado, Rodrigo Penna, a abertura de capital não era uma meta a curto prazo da empresa. “Não pensávamos nisso por agora, achávamos que a companhia ainda não tinha porte”, relata.

Ele conta que a empresa foi instigada pela XP Investimentos, com quem já tinha um relacionamento na área de mercado de capitais, especialmente por conta de emissões de Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA). “Eles disseram que tínhamos uma geração de Ebitda grande, éramos uma empresa com governança organizada e questionaram se não queríamos avaliar a abertura de capital”, lembra.

A companhia, que completa 41 anos em 2021, tem um viés familiar que vem se transformando ao longo do tempo e, de acordo com Penna, a abertura do capital fortalece a intenção de a perpetuar. “Pensamos nos vários desafios que o setor teve no passado e em como nós tivemos sucesso; não foram muitas as empresas que conseguiram passar por todos os períodos de crise e chegar bem”, afirma.

Pontos fortes

A entrada no mercado de capitais é um “salto de governança”, indica Penna. “Vamos blindar o profissionalismo que a Jalles Machado sempre teve para as futuras gerações”, considera.

Para o diretor financeiro da companhia, críticas e questionamentos vindos dos novos acionistas, analistas e fundos funcionarão como alavanca de melhoria contínua. “Sempre gostamos de contar com consultorias e apoio externo para ajudar a termos uma visão de fora, diferente da nossa. Teremos mais gente nos ajudando a enxergar caminhos e alternativas”, completa.

Ainda de acordo com ele, o ingresso na bolsa oferece mais liquidez, dando maior liberdade aos acionistas caso queiram sair da sociedade, além de melhor conhecimento e transparência do valor que eles detêm.

Segundo o consultor sênior da Peers Consulting, Pedro Terra, a Jalles Machado é uma empresa com poucas unidades, o que possibilita reagir às necessidades de mercado mais rapidamente, e que possui propostas diferentes no comparativo com o setor.

“Ela se posiciona como exportadora de açúcar orgânico, produto que apresenta preços muito vantajosos ante o cristal e o VHP. Além disso, mais de um terço de suas receitas são de produtos ‘não-commoditizados’”, afirma. Segundo ele, este último fator faz com que a companhia se afaste do perfil tradicional das usinas, abrandando a volatilidade típica do setor sucroenergético.

“A Jalles Machado também é referência em termos de produtividade agrícola no cenário brasileiro de açúcar e etanol, utilizando tecnologias de ponta e focando na integração entre o segmento agrícola e o industrial”, completa Terra.

De acordo com o sócio da FG/A Willian Hernandes, o processo foi um grande desafio para a Jalles Machado. Ainda assim, ele aponta que a oportunidade sempre surge para as empresas que conseguem construir um bom modelo de negócio, uma vez que há apetite do investidor por este tipo de ativo.

“A Jalles Machado estava preparada, ela se tornou aberta e não mudou. A empresa evoluiu do ponto de vista de estrutura de capital e ficou mais robusta; mas no operacional, na governança, alterou muito pouco, pois já estava em um patamar de empresas abertas”, Willian Hernandes (FG/A)

Para o passo não ser maior do que a perna, Hernandes pontua que um histórico de governança corporativa é muito relevante para a tomada de decisão. “É um histórico de 20 ou 30 anos, não esse da ‘moda’ ESG [sigla em inglês para a adoção de boas práticas ambientais, sociais e de governança] que veio há dois ou três anos. A Jalles Machado tem balanços auditados desde 1987; o que era até um contrassenso. Isto mostra um pouco dos motivos pelos quais eles conseguiram vencer essa barreira pelo agro”, detalha.

A FG/A assessora a Jalles Machado há 15 anos e Hernandes reforça que, para o IPO, o investidor olha para a cultura da companhia, algo que não se constrói da noite para o dia. Como parte do processo de abertura, a consultoria trabalhou junto com a sucroenergética na precificação, na escolha dos bancos e advogados, e em toda a estrutura que contribuiu para a oferta.

“Fizemos uma série de ações que ajudaram a empresa a estar bem-preparada. Não é necessário estar 15 anos neste processo ou ter um balanço auditado de 1987; o mercado enxerga cada vez mais a adesão de estilos de governança corporativa diferentes, aceitando que os empresários estão se adaptando. Mas ter um histórico mais longo ajuda”, considera.

O chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas, reforça esta visão. Além dos balanços auditados, ele destaca a existência do site de relação com investidores da Jalles Machado, implantado antes da companhia pensar no IPO, e afirma que ela se portava como uma empresa de capital aberto há pelo menos cinco anos, divulgando informações trimestrais de resultados. “Ela se comportava praticamente como a São Martinho”, afirma, referindo-se à empresa que está na bolsa desde fevereiro de 2007.

O diretor financeiro da Jalles Machado relembra este histórico. De acordo com ele, em 2013, foram implantadas auditorias semestrais de balanço e, no ano seguinte, foi criada a área de relações com investidores.

A companhia também foi uma das primeiras a fazer cogeração no início dos anos 2000, além de ter o campo com cobertura 4G. “Começaremos a fazer agricultura orgânica e o IPO foi mais um pioneirismo para empresas do estado”, pontua Penna.

Além da governança, conforme destaca Freitas, os outros aspectos de ESG, ou seja, as boas práticas sociais e ambientais, também foram relevantes no IPO. “É um setor que muito faz pelo meio ambiente, mas pouco divulga. Pegamos o exemplo do RenovaBio e alguns outros programas que mundialmente são bem recebidos. O investidor gosta muito, no caso trabalhado da Jalles Machado, destes aspectos de governança ambiental e social”, completa.

Penna relata que, no final da década de 1980, foi realizado um programa de recomposição da mata ciliar onde a companhia atua. A empresa também tem uma interação muito grande com a comunidade e patrocina uma escola por meio da Fundação Jalles Machado; são mais de 400 alunos, em sua maioria, filhos de colaboradores.

O pós-IPO

A abertura de capital é uma forma da companhia se financiar – ainda que, conforme destaca o diretor financeiro, a Jalles Machado não estivesse necessitando recursos. “Uma vez que a empresa está no mercado e demonstra que possui uma boa execução, entrega o que propõe com seriedade. Quando surge uma boa oportunidade, temos a capacidade de buscar, por exemplo, uma emissão de ação. É dar liquidez”, considera.

Com o processo, é possível incrementar o crescimento da companhia. Com o valor levantado no IPO, a Jalles Machado está focada em um projeto de crescimento brownfield (expansão de empreendimento já existente), aumentando em um milhão de toneladas a capacidade de moagem das duas unidades existentes. Outro plano é a aquisição de uma nova planta. Penna esclarece que ela será em outra região, já que, na atual, a companhia ficaria mais limitada para expandir.

De acordo com ele, os objetivos se mantiveram mesmo com o IPO menor do que o esperado. Em um primeiro momento, a empresa esperava movimentar cerca de R$ 900 milhões; no entanto, a oferta realizada no início de fevereiro alcançou R$ 737,77 milhões.

Atualmente, a Jalles Machado possui as usinas Matriz e Otávio Lage, ambas localizadas em Goianésia (GO). “Em 37 safras, crescemos mais de 9% de moagem ao ano. Também agregamos valor em toda a cadeia: no começo era só destilaria, depois incluímos o açúcar; usávamos só cana de terceiros e passamos a ter cana própria; depois, vieram as linhas de saneantes, açúcar orgânico, empacotamento”, elenca o diretor financeiro, que enxerga novas possibilidades de crescimento e expansão no aproveitamento de oportunidades que surgem no mercado.

Para isso, atualmente, a empresa vem se adaptando ao novo modelo de negócio. “Estamos bem focados no crescimento após o IPO, em todas as normas e cuidados”, expressa Penna.

Uma das mudanças foi a reeducação da liderança, incluindo executivos, diretores e acionistas, uma vez que era habitual a realização de conversas informais sobre o andamento de projetos. Agora, porém, é preciso divulgar qualquer novidade de forma conjunta. “Estamos seguindo com muito cuidado esta questão da equidade, para todos os investidores terem a mesma informação no mesmo momento; é uma regra. Assim, nenhum é privilegiado em relação ao outro”, completa.

No momento, a Jalles Machado ainda está no início do processo e teve somente a divulgação de um resultado financeiro trimestral e nenhum fato relevante até então. “Estamos tendo interações com várias pessoas, algumas pedindo conversas com a empresa para entender mais a estrutura. Até para participar de uma live temos que mandar um comunicado a mercado; caso alguém queira ver, deve ter esta possibilidade”, relata Penna.

A intenção é entregar uma comunicação transparente e clara com o mercado, mostrando os caminhos que a Jalles Machado está tomando. “Vamos seguir fazendo o que sempre fizemos, tomar as decisões sempre de forma técnica e profissional, olhando o que vai gerar mais valor ao acionista”, promete o diretor financeiro.

Chances para ofertas menores

Para os próximos meses, Penna aponta a dificuldade que a empresa pode enfrentar devido ao mercado ser imediatista e olhar os resultados trimestre a trimestre, fator que mexe com o valor da ação. “Às vezes temos planos de médio a longo prazo para a companhia e os investidores podem ter questionamentos por não terem uma visão de longo prazo. Teremos que administrar isso, faz parte saber se comunicar bem com o mercado”, completa.

De todo modo, a XP Investimentos, que foi a coordenadora líder do IPO da Jalles Machado, detalha que, em ofertas iniciais, os investidores buscam empresas com bons níveis de crescimento, sólida governança e uma história muito bem explicada.

Freitas completa que o maior desafio de ingresso de companhias do agronegócio na bolsa é voltado ao desenvolvimento de mercado. “Existem muitas empresas espalhadas e que não necessariamente são grandes, como é o caso da Jalles Machado, que é uma usina média do interior de Goiás, e isso acarreta uma impossibilidade de fazer uma oferta muito grande”, explica.

Parte do sucesso do IPO da empresa vem do desenvolvimento do mercado local. Se, até 2013, por volta de 80% das transações eram compradas por investidores estrangeiros, nos últimos dois anos, ocorre o inverso. “Cerca de 80% das ações são adquiridas por investidores locais. Esse foi inclusive um número muito próximo do que aconteceu no caso da Jalles Machado”, detalha Freitas.

Com este movimento, novos fundos se interessam pelo capital brasileiro, com investidores de diferentes perfis possibilitando transações menores, conforme explica o chefe de agro da XP Investimentos. “Fizemos o IPO da Jalles Machado, que até alguns anos atrás seria uma transação pequena. Hoje, é uma transação com tamanho razoável” completa.

Queda no preço

Em uma sondagem inicial, a Jalles Machado pretendia levantar R$ 1 bilhão com sua oferta pública inicial, com ações valendo entre R$ 10,35 e R$ 12,95.

“O primeiro (valor) foi só uma estimativa, não tínhamos conversado com o mercado e as pessoas sugeriram a oferta de R$ 1 bilhão, que seria entre 25% e 30% da companhia ofertada”, relata Penna. Segundo ele, após as conversas, o valor caiu para R$ 800 milhões. A queda para o efetivado no IPO, R$ 737,77 milhões, ocorreu especialmente por um momento de mercado.

“Quando resolvemos ir para o mercado de fato, tinham muitas ofertas, vários IPOs acontecendo”, comenta. Ele conta que a equipe se reuniu para discutir a proposta e, apesar do mercado enxergar que o preço estava elevado, a companhia o considerava justo e acreditava que tinha uma chance de upside (potencial de alta que um determinado ativo possui) para quem entrasse naquele preço.

“Dada a concorrência de oferta, tivemos uma decisão difícil: se faríamos ou não a redução para trazer mais investidores de qualidade. Acabamos decidindo por um desconto grande e a oferta base, que era de R$ 800 milhões, foi para R$ 640 milhões. Mas, como tivemos o green shoe [lote suplementar de ações de até 15%], acabou sendo de pouco mais de R$ 730 milhões”, relata Penna.

Segundo ele, a companhia renunciou ao hot issue, lote adicional em que a empresa decide se vai ou não vender mais ações, que pode ser até 20% superior às ofertas iniciais. “Teve demanda para muito mais que isso, mas preferimos não vender, pois estava saindo com desconto de 20%”, detalha.

“Choveu oferta [no IPO da Jalles Machado]. O interesse aumentou muito. A maior parte da emissão foi primária, não no preço que queríamos, mas foi um passo importante e uma decisão acertada”, Rodrigo Penna (Jalles Machado)

Penna completa que, como poucas ofertas foram secundárias (vendas de ações que já existem e que não acrescentam capital à empresa), os acionistas trouxeram mais pessoas para fazerem parte do negócio.

Pedro Freitas, da XP Investimentos, explica que esta queda no valor não é um desconto, já que todo processo de IPO envolve comunicação com o mercado e que, durante ele, pode haver mudanças: “Não é um ‘vamos para o mercado agora’, é uma construção que demora alguns meses e, durante essa trajetória, são feitas várias interações”.

Freitas pontua que, no começo, a interação com o investidor é mais institucional, seguida de outra mais aprofundada até o momento em que o contato evolui para tiradas de dúvida a fim de que os investidores consigam fazer suas análises e concluir sobre a vontade de investir na companhia e a qual preço.

“Nós formamos este preço na Jalles Machado e a decisão da companhia foi reduzir um pouco o tamanho da oferta, diminuir a diluição dos controladores e entregar o resultado resiliente que eles vinham apresentado também ao longo dos próximos anos”, relata.

Se a empresa entrega o resultado e o investidor fica satisfeito, muito provavelmente ela entra em um círculo virtuoso de apreciação de ações e os acionistas controladores podem pensar em uma diluição subsequente por meio de um follow on (emissão de mais ações para serem negociadas no mercado) em outros patamares de valoração, conforme detalha o chefe de agro da XP Investimentos.

Hernandes, da FG/A, reforça que os volumes de emissão dependem do momento da bolsa: “Tem um atraso entre a ida dos documentos à CVM, protocolos e a colocação de fato a mercado. Naquele momento específico, o mercado estava bem volátil, próximo à queda do presidente da Petrobras, e com altos números da covid-19; o Brasil não está estável. Cabe à companhia olhar a precificação e decidir se vai continuar ou não”. Ele completa que a empresa achou que era importante fazer este movimento e concluir o processo de IPO.

Hernandes também acredita que, apesar de o valor de entrada da Jalles Machado ter ficado um pouco abaixo do esperado, foi o suficiente para que a empresa seguisse com o plano de investimentos. “Os preços de açúcar e etanol estão mais altos, o que deve gerar mais caixa do que o previsto pela companhia e, certamente, vai surtir efeito a médio prazo”, destaca. Além disso, o valor de mercado da empresa é próximo de R$ 2,6 bilhões, avalia.

Como foi o processo

Após fazer seu pedido de IPO, em dezembro do ano passado, a Jalles Machado chegou ao mercado em 5 de fevereiro, movimentando R$ 737,77 milhões com papéis valendo R$ 8,30 conforme divulgado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Economia responsável por esse mercado no Brasil.

No primeiro dia de negociações na bolsa de valores, 8 de fevereiro, os papéis da companhia fecharam com alta de 8,92%, indo para R$ 9,04, valor que chegou a subir mais de 10% durante o dia.

Mas o processo começou muito antes disso e requereu o cumprimento de diversas etapas. Conforme relata o diretor financeiro da Jalles Machado, a XP Investimentos apontou o potencial da companhia para entrada na bolsa ainda antes da pandemia. A conversa foi interrompida e a retomada dos planos ocorreu em agosto de 2020. Foi apenas nesse momento que a diretoria concluiu que a sucroenergética estava em um bom momento e organizada para dar este passo.

A partir desse ponto, a companhia deu início a vários processos, como o contato com o mercado e o cumprimento das regulações da CVM e da B3, além de interação com investidores. Além disso, a companhia contratou os bancos responsáveis para ingresso na bolsa em outubro – além da XP Investimentos, fizeram parte BTG Pactual, Citi e Santander.

Penna relata que foi realizado também o no deal roadshow: reuniões com o intuito de aproximar a companhia de potenciais investidores futuros. Nessas oportunidades, a Jalles Machado apresentou suas características e coletou opiniões, a fim de que os investidores entendessem a companhia e seu segmento de forma mais aprofundada. “É para ter uma primeira temperatura de interesse dos investidores”, resume Penna.

Em seguida, foi realizado o pilot fishing, uma sondagem inicial com os investidores que ocorre após o primeiro arquivamento da oferta na CVM. Trata-se da discussão inicial da tese de investimento da companhia, ainda que não haja discussões sobre preços, somente coleta de intenções.

Segundo Penna, o pilot fishing serve para analisar se há investidores capazes de ancorar a operação e dar sensibilidade ao preço. Em seguida, relata o diretor financeiro, a CVM retorna o processo com as pendências e, assim que os papéis são reenviados para a entidade governamental, é dado início ao processo de roadshow. “São duas semanas trabalhando para valer com o mercado. Já é para vender o IPO, fazer reservas, reuniões com os investidores”, detalha Penna.

O roadshow começa, portanto, após a divulgação do aviso ao mercado e da apresentação do prospecto preliminar e se estende até a precificação. Nele, a empresa e a oferta pública são apresentadas para diferentes investidores e é feita a coleta de intenções de preços.

“Isso vai formando o livro de ofertas. Tivemos três vezes mais oferta do que o valor, então foi preciso alocar e fazer o rateio. Nesse momento, os bancos assessoram e mostram os fundos que têm mais perfil com o nosso negócio, criando uma perspectiva de longo prazo para tentar formar um quadro de acionistas que compartilham com a visão da companhia”, detalha Penna.

Na sequência, é no bookbuilding que ocorre a determinação do preço de lançamento do IPO de acordo com a demanda e com os preços que os investidores institucionais estão dispostos a pagar pelo ativo. O book é construído no período de reserva, sendo fechado quando é definido o preço e a quantidade de ações disponíveis para cada investidor.

É somente após esta sequência de processos que a empresa realiza o IPO, ou o ingresso na bolsa de valores.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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