Somente em São Paulo, estado com a maior produção de cana, já foram detectados mais de 5 mil focos de incêndio entre janeiro e 4 de outubro deste ano
Em um ano de seca extrema, o mais recente reflexo da crise hídrica foram as tempestades de poeira. Conforme noticiado na BBC, o fenômeno que atingiu o interior de São Paulo e também o triângulo mineiro no último dia 26, tem vínculo direto com grandes áreas de solo seco e sem cobertura vegetal. Ainda de acordo com a reportagem, a região com forte presença do agronegócio dispõe de um dos menores índices de cobertura florestal original do país. A cana-de-açúcar é a principal cultura da área afetada.
Além disso, o clima vem prejudicando a produção da matéria-prima do setor sucroenergético. A quebra da safra 2021/22, decorrente da retração da área de plantio, da seca e das geadas também é derivada dos incêndios. Durante os meses de agosto e de setembro, diversas queimadas acometeram as áreas canavieiras.
Os dados deixam esse cenário mais claro. De janeiro até o dia 4 deste mês, já foram detectados 5,33 mil focos de incêndio somente no estado de São Paulo. No acumulado de 2020, foram 6,12 mil focos e, em 2019, 3,07 mil – portanto, 2021 já supera a marca de dois anos atrás.
Os números são do monitoramento de focos de incêndio ativos detectados via satélite, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em agosto deste ano, especificamente, foi atingida a marca de 2,27 mil focos de incêndio em São Paulo – a maior quantidade desde 2010 –, contra 1,11 mil de um ano antes e 742 em 2019. Já no mês de setembro, foram verificados 1,66 mil focos de queimadas no estado paulista, superando os 872 casos de 2019. Em 2020, foram 2,25 mil durante todo mês, atual recorde do período, na série histórica iniciada em 1998. Em somente quatro dias de outubro, 34 incêndios foram reportados no estado.

Se for considerado o acumulado de 2021, até o dia 4 de outubro, já foram registrados 17,54 mil focos de incêndios na região Sudeste, onde se concentra a maior parte da produção de cana-de-açúcar. A quantia é a maior no acumulado anual desde 2010 – lembrando que ainda faltam pouco mais de dois meses para o fim do ano.
Com isso, os canaviais ficam cada vez mais fragilizados. A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) enxerga para 2021/22 uma retração de 75 milhões de toneladas na moagem ante o ciclo anterior devido aos impactos das queimadas e das geadas. A visão é semelhante ao levantamento feito pelo NovaCana com 27 consultorias.
Conforme o diretor técnico da Unica, Antônio de Pádua Rodrigues, o fogo prejudica tanto a cana que restou para ser colhida, reduzindo a sua produtividade, quanto a matéria-prima disponível para a próxima temporada, uma vez que o ciclo de plantio é alterado.
Além disso, a entidade estima que 3% dos canaviais do estado de São Paulo foram destruídos por incêndios desde agosto desse ano, equivalendo a 150 mil hectares com estragos que devem refletir para o próximo ano.
Sobre este assunto, o NovaCana conversou com o economista do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres, que trouxe alguns pormenores em relação aos incêndios, especialmente focado nos reflexos para o setor sucroenergético. A entrevista completa foi originalmente enviada por meio do newsletter NC+ e, agora, está disponível para os assinantes do portal.
Em um ano de seca extrema, o mais recente reflexo da crise hídrica foram as tempestades de poeira. Conforme noticiado na BBC, o fenômeno que atingiu o interior de São Paulo e também o triângulo mineiro no último dia 26, tem vínculo direto com grandes áreas de solo seco e sem cobertura vegetal. Ainda de acordo com a reportagem, a região com forte presença do agronegócio dispõe de um dos menores índices de cobertura florestal original do país. A cana-de-açúcar é a principal cultura da área afetada.
Além disso, o clima vem prejudicando a produção da matéria-prima do setor sucroenergético. A quebra da safra 2021/22, decorrente da retração da área de plantio, da seca e das geadas também é derivada dos incêndios. Durante os meses de agosto e de setembro, diversas queimadas acometeram as áreas canavieiras.
Os dados deixam esse cenário mais claro. De janeiro até o dia 4 deste mês, já foram detectados 5,33 mil focos de incêndio somente no estado de São Paulo. No acumulado de 2020, foram 6,12 mil focos e, em 2019, 3,07 mil – portanto, 2021 já supera a marca de dois anos atrás.
Os números são do monitoramento de focos de incêndio ativos detectados via satélite, disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em agosto deste ano, especificamente, foi atingida a marca de 2,27 mil focos de incêndio em São Paulo – a maior quantidade desde 2010 –, contra 1,11 mil de um ano antes e 742 em 2019. Já no mês de setembro, foram verificados 1,66 mil focos de queimadas no estado paulista, superando os 872 casos de 2019. Em 2020, foram 2,25 mil durante todo mês, atual recorde do período, na série histórica iniciada em 1998. Em somente quatro dias de outubro, 34 incêndios foram reportados no estado.

Se for considerado o acumulado de 2021, até o dia 4 de outubro, já foram registrados 17,54 mil focos de incêndios na região Sudeste, onde se concentra a maior parte da produção de cana-de-açúcar. A quantia é a maior no acumulado anual desde 2010 – lembrando que ainda faltam pouco mais de dois meses para o fim do ano.
Com isso, os canaviais ficam cada vez mais fragilizados. A União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) enxerga para 2021/22 uma retração de 75 milhões de toneladas na moagem ante o ciclo anterior devido aos impactos das queimadas e das geadas. A visão é semelhante ao levantamento feito pelo NovaCana com 27 consultorias.
Conforme o diretor técnico da Unica, Antônio de Pádua Rodrigues, o fogo prejudica tanto a cana que restou para ser colhida, reduzindo a sua produtividade, quanto a matéria-prima disponível para a próxima temporada, uma vez que o ciclo de plantio é alterado.
Além disso, a entidade estima que 3% dos canaviais do estado de São Paulo foram destruídos por incêndios desde agosto desse ano, equivalendo a 150 mil hectares com estragos que devem refletir para o próximo ano.
Sobre este assunto, o NovaCana conversou com o economista do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres, que trouxe alguns pormenores em relação aos incêndios, especialmente focado nos reflexos para o setor sucroenergético. A entrevista completa foi originalmente enviada por meio do newsletter NC+.
Os incêndios vêm castigando os canaviais nos últimos meses. Já é possível dimensionar, em volume de cana ou qualidade, quanto vai se perder no ciclo 2021/22 por conta das queimadas?
Em termos de quantificação, o volume ainda é difícil de medir nesse momento, afinal, algumas regiões ainda estão sendo impactadas. Eu mesmo fui visitar uma usina recentemente que estava atuando em focos de incêndio. Mas, em termos de qualidade, é possível quantificar. A qualidade será castigada por dois impactos: primeiro pelas geadas e, segundo, pelos incêndios. O efeito ocorre, pois estamos antecipando uma cana que seria colhida mais à frente. A nossa estimativa nesse momento é de uma queda de aproximadamente 4% a 5% do ATR [Açúcar Total Recuperável] em relação à qualidade da cana que seria colhida em seu período ideal.
Como tem sido os impactos dos incêndios nos canaviais?
Eles têm classificações diferentes em função de algumas questões. Se a área atingida já tiver sido colhida, afetando basicamente a palhada que foi deixada no campo, eu diria que temos um tipo. Porém, se a área atingida foi de cana que ainda não foi colhida, o impacto é outro. No primeiro caso, basicamente, perde-se quase todo o investimento com trato cultural. A usina vai precisar fazer reposição de corretivos e adubos onde ocorreu a queima da palha. Outra consequência é uma falha, ou seja, um problema de brotação das soqueiras. Isso pode gerar um tombo de produtividade na próxima safra. Se eu tiver um número maior de falhas por conta da brotação prejudicada da soqueira, isso pode implicar na necessidade de fazer a reforma do canavial mais cedo. É muito comum o pessoal fazer aplicação de vinhaça na área que foi queimada para tentar garantir essa brotação e manter o estande da cana. Isso é essencial para manter a longevidade, pois esses casos geram impactos futuros do ponto de vista de produtividade.
E quais são os reflexos para a cana que ainda não foi colhida?
Tem os reflexos imediatos. Se a cana não está no ponto ideal de colheita, será preciso antecipar esse processo e, consequentemente, esta cana terá menor produtividade e menor teor de sacarose. Além disso, a cana que está sendo colhida depois de queimada gera impactos na indústria. Há uma quantidade maior de impureza mineral sendo levada para dentro da usina, além de uma dificuldade na purificação do caldo. Isso gera um aumento do brix [índice que mede o teor de sacarose] e da fibra, pois há ressecamento dos colmos, o que pode levar até mesmo a uma infestação de microrganismos. Essas perdas representam um número muito preliminar em termos de produtividade. Mas, quando somamos os reflexos, além de todos aqueles problemas que já tivemos (estiagem e geada), podemos ter um impacto global de quase 30% em termos de ATR e produtividade, o que vai ser sentido por mais de um ano, especialmente em relação à brotação. O efeito financeiro para as usinas é extremamente relevante quando falamos de incêndios.
São Paulo parece ser o estado mais afetado com o fogo nas últimas semanas, embora outras áreas do Centro-Sul também tenham registrado incêndios. Qual é a região menos afetada?
O incêndio acaba sendo o próprio reflexo da estiagem. As áreas que já estavam mais fortemente impactadas pela estiagem serão as mais fortemente impactadas por incêndios. A região norte de Goiás foi pouco afetada pela seca e, provavelmente, também terá menos incêndios. Existe uma relação muito próxima, pois o tempo seco com alta temperatura eleva muito os riscos de queimadas. Mas eu enfatizo que muitos desses incêndios são criminosos. Precisamos fazer campanhas olhando para fora do setor, pois é importante mostrar isso. Eu acho que, este ano, a sociedade começou a entender, pois áreas próximas às cidades foram afetadas e a população compreendeu o impacto que isso pode ter na saúde.
Existe alguma influência das geadas no aumento do índice de queimadas mais recente?
Sim, isso também acontece. As áreas que tiveram geadas são mais suscetíveis. Porém, praticamente todas as mais impactadas já foram colhidas. Eu vejo um impacto menor, mas ele existe porque a cana que está sofrendo pela geada, mas que não foi colhida, também acabou sendo um foco para incêndio.
Com a colheita sendo “apressada” por conta desses fatores climáticos, quais são os reflexos na indústria?
Nos últimos cinco anos, a área em que mais se ganhou eficiência foi no CTT [corte, transbordo e transporte]. O setor utiliza práticas modernas, como softwares de alocação, ganhando eficiência e reduzindo custos. Porém, nessa safra, uma das variáveis que mais vai pressionar o custo da matéria-prima é CTT. Isso ocorre porque há uma estrutura de custo fixo muito alto e uma cana de baixíssima produtividade, prejudicando a diluição do custo fixo. Outro efeito é o preço do diesel, que impactou fortemente os custos. Para completar, as geadas e os incêndios. Além da estrutura de apoio, a usina tem toda uma programação de colheita. Se pegou fogo naquela área, toda a estrutura de CTT precisa ser deslocada e o custo de apoio aumenta muito. Quem estava na operação de apoio e CTT fez magia de agosto para frente. Primeiro, atacou áreas afetadas por geada: o caminhão sambou mais do que escola de samba, pois foi atuar em área atingida por geada e, agora, em área atingida por incêndios. E como a moagem vai acabar mais cedo e recomeçar mais tarde, teremos uma entressafra muito longa. Isso gera uma maior preocupação do ponto de vista de pessoas; como as usinas vão fazer a alocação de todo o time de CTT, que teoricamente vai ficar ocioso por quase seis meses. As usinas já começaram a discutir eventuais demissões ou a estudar como essa estrutura de CTT pode ser utilizada em outras operações agrícolas. Mas o plantio, por enquanto, é uma das áreas que menos será utilizada, pois não tem mudas nem condições climáticas para plantar.
Quais são as medidas que as usinas usualmente tomam para evitar ou reduzir a ocorrência de queimadas?
Um dos pontos de maior atenção do setor são as ações preventivas contra incêndios por conta justamente de todos os impactos que mencionamos, de reprogramação da colheita, perda de rendimento industrial, perda de produtividade e no teor de açúcar, comprometimento da fertilidade do solo para a próxima safra. Entre as medidas preventivas está a implantação de aceiros, que são faixas sem vegetação ou sem resíduos que possam alastrar os incêndios de uma área para a outra. A segunda alternativa é a instalação de fumódromos nas áreas de convivência. Com o tempo seco, um dos itens causadores acaba sendo a bituca de cigarro. Além disso, são feitas rotinas de inspeção nos equipamentos de combate a incêndios e nas máquinas agrícolas, para evitar o vazamento de óleo ou até mesmo emissão de faíscas que possam provocar eventuais focos de incêndio. O setor olha, inclusive, para dentro de casa no combate à incêndios. Também há a presença de caminhões-pipa em quase todas as frentes de colheita. Existem, hoje, equipes treinadas no combate de incêndios, seja na própria usina ou em propriedades vizinhas, ou até mesmo equipes ou brigadistas que ficam disponíveis 24 horas. O setor olha muito para dentro, fazendo um trabalho exímio dentro de casa, não só com a brigadas, mas com treinamentos internos com seus colaborares.
E para além das usinas, o que pode ser feito?
Ainda assim, o setor ainda precisa avançar muito em ações de educação ambiental para externos. Ou seja, não queimar lixo na proximidade de canaviais, não jogar bitucas de cigarro nem fósforos nas margens das rodovias, evitar acender fogueiras, não soltar balões... É preciso dar um salto nessa educação, seja em parceria com o Ibama ou com outras associações, para conscientizar a sociedade. Não se trata só do impacto financeiro para as usinas, mas das consequências ambientais e à saúde humana. A questão das queimadas perpassa o universo das usinas e precisa ser levada à sociedade.
Essa questão da comunicação com a sociedade envolve uma mudança de paradigma em relação à atividade sucroenergética.
Sim. Às vezes, as pessoas falam “do que a usina está reclamando, se antes ela colocava fogo na cana para colher?”. Mas é preciso lembrar que hoje, em São Paulo, mais de 99% da cana do estado é colhida sem queima. Eventuais incêndios em canaviais trazem prejuízos irreparáveis para as usinas e produtores rurais, uma vez que toda a estrutura foi adaptada para o processamento sem queima. Há mais de dez anos, toda a lógica foi mudada, tanto na área industrial quanto em máquinas e equipamentos, que já são totalmente diferentes do que eram lá atrás. É preciso reverberar essas questões.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana