Com uma redução que pode superar as 78 milhões de toneladas, as consultorias e empresas especializadas preveem números inferiores ao do levantamento feito em maio
Atualização (03/09, às 15h): O texto e os gráficos abaixo foram alterados para atualizar as estimativas da Datagro e incluir as da Alvean
Ao que tudo indica, 2021/22 terá a menor moagem de cana-de-açúcar em dez safras. A combinação de uma seca com intensidade que não se via há pelo menos uma década, conforme a Czarnikow, com três episódios de geadas intensas, somadas à já prevista redução de área de plantio e as mais recentes queimadas, estão levando os canaviais do Centro-Sul brasileiro a uma quebra bastante consistente. Com o período de colheita próximo à metade, as consultorias são unânimes ao destacarem a redução. O que varia é o tamanho dela.
Desde a primeira sondagem sobre a temporada corrente até então, as companhias consultadas pelo NovaCana vêm reduzindo seus números. Se no final de 2020, a média das estimativas de moagem era de 584,61 milhões de toneladas, em maio, elas já haviam caído para 575,47 milhões, uma retração de 1,5%.
No mais recente levantamento, realizado em agosto a partir de dados de 27 empresas, 24 delas disponibilizaram suas expectativas de moagem para 2021/22. Na média, o grupo espera que sejam esmagadas 526,87 milhões de toneladas até o final da temporada, volume equivalente a uma retração de 13% no comparativo com o fechamento de 2020/21, de 605,46 milhões de toneladas, conforme dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), e um declínio de 8,4% no comparativo com a pesquisa de maio, realizada pelo portal.
As menores expectativas de moagem para o ciclo vieram da RPA Consultoria e da Wilmar International, uma vez que ambas estimam 510 milhões de toneladas de cana em 2021/22. O chefe de análise de mercado de açúcar da trading asiática de commodities, Karim Salamon, destacou à Bloomberg: “Nunca vimos tais condições de safra, com um déficit recorde de chuvas mês após mês. Não há referência de tal estiagem no Centro-Sul do Brasil em um período tão longo”.
Já a RPA destacou sua previsão de redução de área de colheita no Centro-Sul, de 2,4%, e uma produtividade média de 67 toneladas por hectare. Estes números levam a uma regressão ante as últimas nove safras no Centro-Sul. “É apenas superior à temporada 2011/12, que teve moagem de 493 milhões de toneladas”, destaca o CEO da empresa, Ricardo Pinto, em podcast divulgado pela empresa.
Na outra ponta, a maior previsão do levantamento foi da Archer Consulting, com 550 milhões de toneladas. Com tais extremos, esta é a maior discrepância desde 2016 entre a visão mais altista e mais baixista, atingindo 40 milhões de toneladas. O comparativo considera os levantamentos feitos em época semelhante ao atual.
Confira, na versão completa e restrita para assinantes, as estimativas e os argumentos de 27 empresas em relação à temporada 2021/22 do Centro-Sul incluindo moagem, produção de açúcar, de etanol de milho e de etanol de cana, além de perspectivas de mix, de ATR total e médio.
Atualização (03/09, às 15h): O texto e os gráficos abaixo foram alterados para atualizar as estimativas da Datagro e incluir as da Alvean
Ao que tudo indica, 2021/22 terá a menor moagem de cana-de-açúcar em dez safras. A combinação de uma seca com intensidade que não se via há pelo menos uma década, conforme a Czarnikow, com três episódios de geadas intensas, somadas à já prevista redução de área de plantio e as mais recentes queimadas, estão levando os canaviais do Centro-Sul brasileiro a uma quebra bastante consistente. Com o período de colheita próximo à metade, as consultorias são unânimes ao destacarem a redução. O que varia é o tamanho dela.
Desde a primeira sondagem sobre a temporada corrente até então, as companhias consultadas pelo NovaCana vêm reduzindo seus números. Se no final de 2020, a média das estimativas de moagem era de 584,61 milhões de toneladas, em maio, elas já haviam caído para 575,47 milhões, uma retração de 1,5%.
No mais recente levantamento, realizado em agosto a partir de dados de 27 empresas, 24 delas disponibilizaram suas expectativas de moagem para 2021/22. Na média, o grupo espera que sejam esmagadas 526,87 milhões de toneladas até o final da temporada, volume equivalente a uma retração de 13% no comparativo com o fechamento de 2020/21, de 605,46 milhões de toneladas, conforme dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), e um declínio de 8,4% no comparativo com a pesquisa de maio, realizada pelo portal.
As menores expectativas de moagem para o ciclo vieram da RPA Consultoria e da Wilmar International, uma vez que ambas estimam 510 milhões de toneladas de cana em 2021/22. O chefe de análise de mercado de açúcar da trading asiática de commodities, Karim Salamon, destacou à Bloomberg: “Nunca vimos tais condições de safra, com um déficit recorde de chuvas mês após mês. Não há referência de tal estiagem no Centro-Sul do Brasil em um período tão longo”.
Já a RPA destacou sua previsão de redução de área de colheita no Centro-Sul, de 2,4%, e uma produtividade média de 67 toneladas por hectare. Estes números levam a uma regressão ante as últimas nove safras no Centro-Sul. “É apenas superior à temporada 2011/12, que teve moagem de 493 milhões de toneladas”, destaca o CEO da empresa, Ricardo Pinto, em podcast divulgado pela empresa.
Na outra ponta, a maior previsão do levantamento foi da Archer Consulting, com 550 milhões de toneladas. Com tais extremos, esta é a maior discrepância desde 2016 entre a visão mais altista e mais baixista, atingindo 40 milhões de toneladas. O comparativo considera os levantamentos feitos em época semelhante ao atual.

As analistas da StoneX, Marina Malzoni, Rafaela Souza e Natalia Silva, também apontam a continuidade do tempo seco sobre o cinturão canavieiro e a ocorrência de geadas em áreas produtivas de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. Estes fatores seriam determinantes e têm “inflado as preocupações” em relação às perdas, detalham em relatório lançado em 3 de agosto.
Considerando que a área de produção atinja 7,6 milhões de hectares na atual temporada, a StoneX estima uma moagem de 541 milhões de toneladas de cana em 2021/22 – a queda quanto à previsão anterior da consultoria foi de 4,8% e, no comparativo com o fechamento de 2020/21, de 10,6%
Mas as analistas alertam: “Dado que os impactos das ondas de frio que atingiram o Centro-Sul ainda estão sendo computados, novas revisões negativas em nossos números não são descartadas, a depender da extensão das áreas canavieiras atingidas”.
Já a FG/A visualiza uma safra com 539 milhões de toneladas de cana moída, também contemplando os efeitos do estresse climático e do gelo. A consultoria ainda estima 258 hectares bisados, ou seja, áreas de canas que só serão moídas na próxima temporada.
A previsão de ausência de chuvas juntamente com um risco crescente do fenômeno La Niña, atrasando o início da estação chuvosa no Centro-Sul, reduziu a estimativa da Tropical Research Services (TRS), que passou de 545 milhões de toneladas para 532 milhões de toneladas de cana, conforme relatório de 18 de agosto.
“É uma perspectiva mais realista”, completa a empresa. A consultoria acredita que a volta das chuvas de setembro é “crucial” para o desenvolvimento normal da cana nos próximos meses, mas o cenário parece “cada vez mais improvável”.
“Se as chuvas voltarem aos padrões históricos ou os rendimentos agrícolas forem melhores do que o esperado em agosto e setembro, podemos revisar nossa estimativa para cima no futuro”, completa a TRS.
“Não há dúvidas de que a safra 2021/22 será desastrosa”, enxerga a consultoria Datagro, expressando que, ainda que alguma quebra na moagem fosse prevista no início do ano devido à seca, não se esperava algo nessa magnitude. A empresa estima uma produção de 530,5 milhões de toneladas e considera a “inesperada onda de geadas em julho”, que agravou as condições dos canaviais já afetados pela ausência de chuvas. “Há viés de baixa no nosso número”, completa.
A seca, considerada “a pior dos últimos 90 anos”, e as geadas também retraíram a previsão da Agroconsult de esmagamento no Centro-Sul, das 585 milhões de toneladas estimadas em março para 530 milhões de toneladas em agosto.

Especificamente, a ausência de chuvas motivou quatro revisões de perspectiva da consultoria. “As usinas até mesmo atrasaram o início da safra à espera de chuvas para melhorar o desenvolvimento vegetativo dos canaviais – essa chuva não veio”, destacou o analista da Agroconsult, André Petry.
Uma nova revisão foi realizada para contemplar as geadas, sendo que os dois últimos fenômenos de julho foram mais intensos e abrangentes, motivando uma queda na expectativa produtiva em 30 milhões de toneladas. Petry relembra que os canaviais de Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul foram os mais afetados.
“Vamos ver um aceleramento da colheita por conta dessa geada, que deve fazer com que a safra termine até mais cedo do que o normal, afetando também o planejamento de 2022/23”, André Petry (Agroconsult)

Por sua vez, a Unica divulgou uma pesquisa realizada pela entidade junto aos produtores da região Centro-Sul, chegando às mesmas 530 milhões de toneladas estimadas para o fim do ciclo. O dado tem viés de baixa, considerando o impacto ainda incerto da terceira geada e dos focos de incêndio que estão sendo observados. Com este volume, a redução ante 2020/21 seria de 75 milhões de toneladas.
De acordo com reportagem feita pelo G1, a Unica ainda não sabe o tamanho da área que deve ser atingida pelas queimadas, mas prevê que elas atinjam tanto canaviais em que a colheita já havia ocorrido quanto os que ainda teriam matéria-prima para ser retirada.
Outro fator para a menor moagem é a já mencionada redução da área de plantio. Conforme o diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues, tal retração era esperada: “As empresas, em janeiro, fevereiro e março, prepararam mais áreas para o plantio, mas não conseguiram por falta de muda e de insumo”.
Com uma estimativa de moagem de 522 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, a S&P Global Platts Analytics destaca que, além desta safra ser a menor em dez anos, espera-se que também seja a de menor produção de etanol no Centro-Sul em nove anos. “Há um risco de queda para este número, dado que os impactos mais recentes da terceira onda de geadas ainda estão sendo avaliados”, completa a analista de biocombustíveis da Platts, Beatriz Pupo.
Ainda que esta geada aparentemente não tenha se igualado às anteriores em intensidade, ela não favorece o crescimento da cana, conforme detalha Pupo.
A analista da Czarnikow, Ana Zancaner, também informa, em relatório de 12 de agosto, que os impactos da geada “ainda estão sendo medidos” e que agravaram uma safra já complicada. A visão da trading é de uma produção ainda menor do que das outras empresas: com uma queda da produtividade agrícola em torno de 13,5%, a colheita efetiva do Centro-Sul deve chegar a 520 milhões de toneladas. “Não descartamos qualquer risco de queda para este número”, completa.
Ainda que estime uma moagem de 521,03 milhões de toneladas em um panorama intermediário, o Sistema TempoCampo espera que o volume fique entre este cenário e o pessimista estipulado pela entidade, de 510,5 milhões de toneladas. “Diante do baixo volume de chuvas observados em maio e junho, bem como dos cenários de pouca chuva trazidos pelos institutos de meteorologia do Brasil e do exterior para o inverno, entende-se que o cenário mais provável de produção seja este”, detalha em relatório.

Além disso, ao que tudo indica, 2021/22 acabará logo. A StoneX considera um fim antecipado da temporada, entre outubro e novembro; já a Green Pool espera uma entressafra “muito longa”. Para a Platts, a moagem deve encerrar em novembro, o que deve adicionar mais pressão aos estoques de etanol no final do período, com quase quatro meses de forte consumo de combustível sem que haja produção.
Considerando este volume e o ritmo de colheita atual, a TRS, por sua vez, acredita que a safra irá terminar em 21 de outubro, mais de um mês antes do normal. “Espera-se que algumas usinas concluam a colheita no final de setembro”, considera.
Chuvas e geadas: o combo nocivo
As projeções do Sistema TempoCampo indicam que o clima vem afetando a maior parte da região produtora de cana dos estados do Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, além das regiões sudeste de Goiás, oeste e norte de São Paulo, locais onde as perdas podem ser superiores a 15%.
As analistas da StoneX, por outro lado, destacam que o indicador que mede a saúde vegetal da planta – que varia de 0 a 100, indo de “estresse extremo” à “saúde plena” – tem se elevado no Centro-Sul. Na segunda semana de julho, o chamado ISV, que pondera os impactos da umidade e temperatura sobre a saúde da vegetação, alcançou 50,5 pontos, um incremento de 53,8% frente à mínima registrada em maio. Por outro lado, ele está 9% abaixo da média de dez anos para o período.
“Ainda assim, a manutenção do clima atipicamente seco e os impactos localizados das geadas já contribuem para perspectivas mais pessimistas em relação ao rendimento médio das lavouras do Centro-Sul”, expressam as analistas.
A TRS apresenta outro indicador relacionado à falta de chuvas e que também demonstra o impacto negativo. O chamado índice anual de umidade do solo foi analisado no final de agosto de 2021 e representa um balanço hídrico acumulado resultante da diferença entre a precipitação mensal e a evapotranspiração mensal entre setembro e agosto. A projeção está em 136 milímetros negativos, ou 320 mm abaixo da média histórica de cinco anos, de 184 mm positivos. “É o maior déficit de umidade do solo visto no Centro-Sul do Brasil desde o início de nosso monitoramento meteorológico, em 2013”, destaca o documento, de 18 de agosto.
De acordo com o modelo de análise da TRS, não há previsão de perda de dias de moagem devido à chuva durante a primeira quinzena de setembro, perspectiva que fica abaixo do limite médio histórico de cinco anos, de meio dia perdido. Além disso, as condições de seca devem permanecer na segunda metade do mês, sem previsão de chuvas em todo o Centro-Sul. Neste caso, o valor médio de cinco anos é de 24 mm.
Ainda que a cana-de-açúcar seja resiliente às intempéries climáticas, a estiagem persistente desde 2020 tem pressionado o desenvolvimento dos canaviais, conforme destaca a Czarnikow. A empresa relembra que as chuvas de início de ano, que são fundamentais para o desenvolvimento da planta, ficaram 38% abaixo da média nesta temporada.
“Foi o primeiro trimestre mais seco da década, ainda mais do que o verificado em 2014, ano da última grande queda de safra no Centro-Sul”, Ana Zancaner (Czarnikow)
O que tornou a situação pior foi a continuidade do clima seco. No acumulado de abril a julho, as chuvas ficaram 61% abaixo da média da região, consolidando também o período mais seco dos últimos dez anos, de acordo com a trading.
Já para o analista de commodities sênior da Green Pool, Eder Vieito, os efeitos adversos da seca no desenvolvimento da cana colhida durante junho e julho foram “um pouco maiores” do que o esperado pela consultoria, o que desemboca na redução de em torno de 10% no tamanho da safra.
A TRS ainda destaca que, quando a geada atinge áreas de cana que já foram colhidas, os rendimentos da safra seguinte podem ser afetados, mas usualmente em um grau pequeno. Porém, quando a planta ainda não foi retirada, os danos causados pelos fenômenos dependem do estágio de desenvolvimento da cultura.
Com base nas baixas temperaturas observadas nas três ondas de frio, a TRS estimou que aproximadamente 42% da área canavieira de São Paulo foi potencialmente afetada por geadas moderadas, enquanto 19% foram afetadas por um evento mais severo. “Segundo fontes do mercado, a primeira geada atingiu 50% de Mato Grosso do Sul e do Paraná e 25% das áreas de cana-de-açúcar de Minas Gerais”, completa o relatório.
A empresa também observa que, nos eventos seguintes, as usinas da região relataram que o fenômeno foi mais ameno, envolvendo predominantemente as mesmas áreas afetadas pela primeira geada.
“Conversamos com algumas usinas, que confirmaram que a geada não atingiu todas as áreas com a mesma intensidade. Em nossa pesquisa, elas relataram uma área total afetada variando de 10% a 20%”, TRS
Algumas usinas mais acometidas pela primeira onda de frio estimaram perdas de cerca de 2% do volume total de açúcar total recuperável (ATR) inicialmente esperado. Relatórios preliminares para a segunda onda de frio revelaram estimativas semelhantes de queda, ainda conforme a TRS.
Geadas quebram a qualidade
Na média, as empresas e consultorias especializadas estimam que o volume de açúcar total recuperável por tonelada de cana seja de 142,42 quilos por tonelada em 2021/22 – uma retração de 1,6% em relação ao fechamento de 2020/21, de 144,71 kg/t, conforme dados da Unica. Ainda assim, o valor está acima do estimado pelas empresas consultadas pelo NovaCana nos outros três levantamentos para o ciclo corrente; em maio, a expectativa era de 139,54 kg/t.
A Safras & Mercado e a Agroconsult são as companhias que enxergam a menor qualidade da matéria-prima do levantamento, de 140 kg/t; já a Job Economia estima a maior, com 145,9 kg/t.
O segundo maior número veio da StoneX, de 145,5 kg/t – um aumento de 3,1% ante a perspectiva anterior e de 0,6% no comparativo com 2020/21. O valor é justificado com base no argumento de que, com menos chuvas, o ATR médio dos canaviais acaba ficando mais sustentado. Em relatório, as analistas da consultoria recordam que até a primeira quinzena de julho, o indicador já era de 134,8 kg/t no acumulado da temporada.

“A elevação do ATR médio deve contribuir para que a quantidade de cana efetivamente processada pela indústria – isto é, o ATR total – ainda se posicione em patamares relativamente sustentados”, destacam as analistas. A expectativa é de que o ATR total atinja 78,7 milhões de toneladas em 2021/22, retração de 1,4 milhão de toneladas frente à estimativa anterior e de 10,1% ante a safra passada.
A consultoria também tem a maior visão para o indicador que, na média das estimativas, deve ficar em 75,28 milhões de toneladas – retração safra a safra de 14,1% e de 6,3% no comparativo com as expectativas de maio.
Já a Czarnikow tem uma visão oposta, tendo reduzido a sua previsão de ATR médio para 142,9 kg/t – o que totaliza 74,37 milhões de toneladas de açúcar equivalente. Conforme a trading, os canaviais que foram afetados pela geada tiveram que ser colhidos antes da hora, fator que tem “impacto negativo” no ATR. “Isso significa menos sacarose disponível, afetando a produção final esperada de açúcar em Centro-Sul”, destaca a analista Ana Zancaner.
Previsão semelhante tem a Green Pool, que visualiza um rendimento em torno de 142,8 kg/t ou até mesmo abaixo disso; até julho, a consultoria imaginava que a safra poderia encerrar com ATR acima dos 143 kg/t. Com o volume de moagem estimado pela empresa, espera-se que o açúcar equivalente total atinja 74,97 milhões de toneladas.
“As geadas tiraram um pouco do brilho do crescimento de ATR, que começou o ano muito forte”, Eder Vieito (Green Pool)
“Diversas usinas já informaram que, devido à necessidade de colheita nas áreas afetadas pela geada, o ATR ficou abaixo do esperado”, corrobora a TRS em seu relatório. A empresa reduziu sua previsão para 142 kg/t.
O Pecege, por sua vez, estima um ATR médio ainda inferior, de 140,68 kg/t – uma redução de 3% ante a visão de junho do instituto. “Sentiremos o impacto sobre a qualidade da matéria-prima, uma vez que as usinas priorizaram as áreas afetadas pelas geadas, em especial os canaviais mais jovens (menos de 11 meses) e fora de maturação ideal – em outras palavras, com colheitas ‘fora de hora’ ou de idade – implicando em redução do ATR”, destaca o economista Haroldo Torres.

Produtividade em queda
Conforme dados da Unica referentes à primeira quinzena de agosto, no acumulado do ciclo, a retração na produtividade agrícola dos canaviais do Centro-Sul já era de 12,8%, com 75,1 toneladas por hectare observadas na safra atual, ante as 86,1 t/ha registradas em igual período de 2020/21.
O diretor técnico Antonio de Padua Rodrigues ainda explica, em relatório divulgado pela entidade, que a queda de produtividade mais intensa em julho e agosto já era esperada, pois neste período foi colhida uma grande quantidade de cana impactada pela geada. Além disso, as duas geadas ocorridas atingiram cerca de um milhão de hectares, representando aproximadamente 11,9% da área disponível para colheita, ou 26,9% da área a ser colhida até o final de 2021/22.
A StoneX destaca, entretanto, que houve uma tendência sazonal de alta, uma vez que o valor acumulado de junho superou a mínima histórica em mais de 6 t/ha – em abril e maio as diferenças foram de 4,4 t/ha e 2,8 t/ha, respectivamente. “Fica claro que, apesar da quebra de produtividade frente ao ano anterior se mostrar clara, ainda é cedo para afirmar quedas tão abruptas, tal como a observada em 2011/12 (-17% no comparativo anual), por exemplo”, completam as analistas.
Ainda assim, com os impactos que já eram evidenciados pela estimativa quinzenal da Unica, referente à primeira quinzena de julho, a expectativa da StoneX é uma produtividade de 71,5 t/ha em 2021/22, representando retração de 7,9% no comparativo com a última temporada.
O desempenho é próximo ao projetado em cenário otimista pelo sistema TempoCampo; já em uma perspectiva intermediária, a entidade espera 69,91 t/ha para 2021/22. Além disso, o relatório pontua que algumas áreas podem chegar a 85 t/ha, a exemplo das regiões paulistas de Bauru e Sorocaba, enquanto outras detém produtividade abaixo de 60 t/ha, como ao norte do Mato Grosso e Goiás.
Por sua vez, o CEO da RPA Consultoria, Ricardo Pinto, enxerga que a produtividade agrícola no Centro-Sul fechar 2021/22 com 67 t/ha, representando uma quebra de 14% em relação à temporada passada. Já a ED&F Man considera que a produtividade dos canaviais neste ciclo deverá ser “a menor da história recente”.
Açúcar é prioridade, mas nem tanto
Existem pontos favoráveis a um mix de produção um pouco menos açucareiro na temporada, mas eles são limitados. Na média das empresas especializadas abordadas pelo NovaCana, 45,7% da cana deve ser destinada à fabricação do adoçante, 0,4 ponto percentual abaixo do resultado de 2020/21, de 46,1%.
A StoneX estima que, em 2021/22, o mix açucareiro se mantenha inalterado no comparativo com a temporada anterior; há uma queda de 0,7 ponto percentual em relação à divulgação de maio.
Malzoni, Souza e Silva destacam no relatório da consultoria que a maior parte das usinas segue maximizando a produção da commodity a fim de saldar os contratos de exportação acordados previamente. Por outro lado, algumas unidades têm direcionado uma maior quantia de matéria-prima para o etanol por conta do estreitamento na relação de preços entre o biocombustível e o açúcar – em alguns locais, o etanol já tem se mostrado mais competitivo.
“Tal conjuntura pode ganhar força na cauda final do ciclo corrente, em vista das expectativas otimistas com relação à oferta por players asiáticos”, destaca o relatório das analistas.
Ainda assim, Petry, da Agroconsult, afirma que uma alteração mais intensa no mix das usinas para aproveitar os preços do etanol é limitada pelas vendas antecipadas de açúcar, que “põem um teto na participação do renovável no mix de produção”. A empresa estima o menor mix de produção da análise, com 44% da matéria-prima destinada ao açúcar.
Além disso, ele completa que a oferta reduzida do renovável, a gasolina em alta no mercado e o retorno gradual do consumo de combustível “jogam a favor” dos preços do etanol, por mais que as cotações do açúcar sigam em patamares elevados.

Com um dos menores percentuais do levantamento, a TRS espera que 45,6% da matéria-prima seja destinada ao açúcar em 2021/22, pouco acima do que havia previsto anteriormente. O valor foi baseado no aumento recente no prêmio para o açúcar bruto VHP brasileiro para exportação em relação aos valores do etanol hidratado doméstico do país. “O aumento da destinação do mix para o açúcar compensou parcialmente o efeito da redução da estimativa de oferta de cana”, completa o documento.
A TRS ressalta que, apesar do recente aumento no preço internacional do açúcar, as usinas podem não maximizar a produção da commodity devido a restrições técnicas, já que as unidades também precisam ampliar a fabricação do etanol anidro.
A consultoria explica que a produção do renovável que é misturado à gasolina e a do açúcar consomem mais vapor no processamento do que a geração do hidratado. Com a baixa disponibilidade de bagaço, algumas usinas não conseguem maximizar a produção dos dois produtos. “Neste cenário, o etanol anidro tende a ser a principal opção, uma vez que a escassez dele pode custar caro para as usinas”, completa.
A menor disponibilidade de ATR prevista pela Czarnikow fez com que a trading considerasse um mix açucareiro um pouco menor do que na temporada anterior, com 45,9%. Conforme a companhia, o percentual destinado ao adoçante tem sido “consistentemente um pouco menor” do que o observado no ano passado, possivelmente devido à qualidade da cana.
Menos açúcar e hidratado e mais anidro
Na média, as consultorias que disponibilizaram dados de produção de açúcar estimam que sejam fabricadas 32,86 milhões de toneladas da commodity em 2021/22, volume 14,6% abaixo do fechamento de 2020/21 e 8,1% inferior à perspectiva de maio.
A visão mais baixista é a da Safras & Mercado, com a expectativa de 28 milhões de toneladas. Em seguida, a trading Wilmar International visualiza 31 milhões de toneladas. De acordo com reportagem da Bloomberg, o chefe de análise de mercado de açúcar da trading, Karim Salamon, destaca: “A situação deve piorar daqui para frente, e a produtividade no Centro-Sul do Brasil deve cair ainda mais”, posição que justifica o número baixo.
Na outra ponta, está o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), estimando 39,92 milhões de toneladas do produto. Na sequência, a StoneX detém a segunda maior estimativa, com 34,6 milhões de toneladas, volume 10,1% abaixo de 2020/21 e queda de 3,3% em relação à última projeção da consultoria.
Com uma visão de 33,4 milhões de toneladas de açúcar para 2021/22, a Job Economia detalha que o valor representa uma redução de 5 milhões de toneladas ante o último ciclo e retração semelhante a esta nas exportações do adoçante. “Isto compensa boa parte do aumento de exportações da safra passada, que foi pouco acima de 12 milhões de toneladas”, completa o sócio-diretor da Job, Julio Maria Borges.
Ainda que tenha ampliado a alocação de matéria-prima para o açúcar no comparativo com sua estimativa anterior, a TRS espera a produção de 32,9 milhões de toneladas do adoçante, um volume abaixo do previsto anteriormente, devido à menor disponibilidade de ATR.
Já a Czarnikow prevê um volume de 32,5 milhões de toneladas, já considerando uma redução no mix para o adoçante e a menor moagem.

Enquanto isso, a produção média de etanol de cana estimada pelas consultorias deve ser de 24,27 bilhões de litros. Incluindo a perspectiva média para o etanol de milho, de 3,27 bilhões de litros, a fabricação do renovável no Centro-Sul em 2021/22 deve atingir 27,54 bilhões de litros. A quantidade é 9,3% inferior à vista no ciclo anterior e 5% abaixo das perspectivas de maio.
Para a StoneX, a fabricação de renovável advindo da cana deve chegar a 24,9 bilhões de litros – 0,6% abaixo da visão anterior e 10,4% menor do que na safra anterior. Especificamente, a fabricação de hidratado deve atingir 15,2 bilhões de litros, retração de 19,1% ano a ano. Por outro lado, a produção de anidro deve aumentar 7,6% no mesmo comparativo, atingindo 9,7 bilhões de litros; a ampliação se deve ao crescimento do consumo de gasolina, combustível em que é adicionado 27% de anidro.
A Green Pool também destaca que as usinas já estão priorizando a produção do renovável que é misturado à gasolina. “Elas estão se antecipando a um eventual aperto de oferta que a quebra poderia causar durante a entressafra”, destaca Eder Vieito. Com isso, a consultoria estima uma fabricação de 23,7 bilhões de litros de etanol advindo da cana – sendo 13,9 bilhões de hidratado e os outros 9,8 bilhões de anidro.

Ana Zancaner, da Czanikow, detalha que a “virada” de produção a favor do anidro se deu a partir de maio, comportamento impulsionado pelos maiores prêmios para o este tipo de etanol negociados tanto em contratos quanto no mercado à vista, além da migração da preferência do consumidor para a gasolina.
Ainda assim, em relatório, a analista detalha que a produção de etanol será a menor em três anos por conta da quebra de safra. A trading prevê 26,9 bilhões de litros do renovável, sendo 23,6 bilhões advindos da cana e outros 3,3 bilhões de litros do milho. Como resultado desta retração, a empresa enxerga um estoque de passagem restrito, que sustentará os preços.
Para a StoneX, a produção de etanol de milho deve equilibrar, até certo ponto, a queda produtiva do renovável vindo da cana. “Embora tal dinâmica sinalize balanço de oferta e demanda apertado para o biocombustível, a produção de etanol de milho deve ajudar a contrabalancear, ainda que parcialmente, esse cenário”, destaca.
Pelas estimativas da consultoria, devem ser produzidos 3,5 bilhões de litros do etanol a partir do grão em 2021/22, volume que representa ampliação anual de 37,1%. Deste total, 2,5 bilhões de litros devem ser de hidratado (+31%), e 1 bilhão de litros de anidro (+54,2%).

Já a TRS reduziu a sua estimativa para a produção de etanol de milho, indo de 3,3 bilhões de litros para 3,1 bilhões de litros, uma vez que observou que algumas usinas não haviam garantido a totalidade de suas necessidades pelo grão e estavam tendo dificuldades para comprar a matéria-prima no mercado à vista. “A sucessão de secas e geadas reduziu drasticamente a oferta de milho no Brasil, elevando os preços no mercado interno”, completa.
Por sua vez, a Job Economia prevê um crescimento anual de cerca de 1 bilhão de litros na produção de etanol de milho; portanto, estima uma fabricação de 3,63 bilhões de litros do produto, a maior da sondagem. “A produção de etanol de milho mantém sua trajetória de aumentos anuais vigorosos de produção”, completa Borges.
E daqui para frente?
O cenário atual certamente terá consequências para além da temporada vigente. A Datagro alerta: “Daqui a pouco, a dúvida não será mais o quanto vamos moer em 2021/22, mas sim qual será o impacto para 2022/23”.
Pupo, da Platts, também visualiza que o cenário adverso pode refletir no próximo ciclo. “O clima durante a temporada de entressafra, portanto, será decisivo”, completa.
A TRS completa, em relatório, que as geadas também podem prejudicar o desenvolvimento da cana a ser colhida na próxima temporada. As chuvas de verão, entre outubro de 2021 e março de 2022, “tornaram-se ainda mais críticas para o desenvolvimento dos canaviais”, destaca. Ainda assim, afirma ser muito cedo para confirmar a extensão dos danos, considerando que o manejo correto da cultura pode minimizar os efeitos prejudiciais aos canaviais.
A chefe de pesquisas na América da corretora ED&F Man, Raissa Cury Pires da Silva, igualmente ressalta a relevância das chuvas na quantidade de cana para a próxima temporada. “A questão agora se volta para a cana disponível para próxima safra. Com o canavial encerrando 2021/22 com uma produtividade tão baixa, os impactos deverão ser sentidos no ano que vem também”, expressa.
Ela completa que as chuvas do último trimestre do ano e do primeiro de 2021 serão “extremamente relevantes” e capazes de mudar o cenário. “O mercado está acompanhando de perto as previsões de chuva, já de olho no ano que vem”, diz.
Conforme reportagem da Agência Estado, o diretor financeiro e de relações com investidores da São Martinho, Felipe Vicchiato, também considera que os problemas climáticos podem afetar a próxima temporada, especialmente se as chuvas no verão forem igualmente fracas. “Se a chuva voltar ao normal entre novembro e março, o impacto deve ser pequeno”, completa.
Já o analista da Safras & Mercado, Maurício Muruci, declarou ao Notícias Agrícolas que os mapas de clima para setembro e outubro apontam para a possibilidade de retomada das chuvas no Centro-Sul, favorecendo a próxima temporada. Com isso, estima que sejam moídas 570 milhões de toneladas na temporada 2022/23, considerando uma entressafra com precipitações regulares.
Outro fator que irá influenciar na temporada que está por vir é a consequência dos incêndios que atingiram os canaviais. Conforme Rodrigues, da Unica, existe uma grande área da cana que pegou fogo. “A cana já estava com três ou quatro meses e, se queimou tudo, vou ter que roçar; e quando é que vou colher? Vai mudar o período de completar o ciclo. Geralmente, a cana que é colhida em maio deste ano é novamente colhida em maio do ano que vem”, explica em entrevista ao G1.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana