Em um setor onde a pressão cambial, a enorme quantidade de débitos e a necessidade constante de gerar liquidez são cada vez mais presentes, qualquer medida é bem-vinda
Hoje o setor é palco de uma divisão clara: quem está bem e quem não está. Ao mesmo tempo em que uma parte mais robusta está pronta para operar com margens não vistas há alguns períodos, outra parte está sufocada pelo peso das dívidas, não teve oportunidades de fixar e está desequilibrada operacionalmente. São empresas em situação precária e que devem continuar afundando.
Baixar o endividamento é a prioridade número zero das sucroenergéticas. Em um setor onde a pressão cambial, a enorme quantidade de débitos e a necessidade constante de gerar liquidez são cada vez mais presentes no dia a dia das usinas, qualquer medida que ajude a reverter a situação é bem-vinda.
O movimento do início de ano envolvendo a economia chinesa e os preços do petróleo afetou o comportamento das finanças mundiais e colocou investidores em modo de espera. Aliado ao momento interno, esse ciclo reforçou a insegurança brasileira e a incerteza em relação ao etanol, mesmo com a subida de preços do açúcar.
Luis Gustavo Torrano Corrêa, diretor-presidente da FG Agro e Alexandre Figliolino, ex-Itaú BBA, convergem em suas opiniões e apontam para um sentimento de cautela envolvendo o setor sucroenergético. Mas, acreditam que há espaço para investimentos e a partir deste ano será possível enxergar um movimento voltado à consolidação do setor, ainda que limitado às possibilidades das empresas.
Confira a seguir as opiniões dos dois executivos sobre a disparidade entre os grupos, o movimento de fusões e aquisições, os investimentos no horizonte das usinas e os cuidados necessários diante do cenário atual.
Baixar o endividamento é a prioridade número zero das sucroenergéticas. A afirmação é do consultor Alexandre Figliolino, que passou a integrar o corpo da MB Agro no início deste ano. Em um setor onde a pressão cambial, a enorme quantidade de débitos e a necessidade constante de gerar liquidez são cada vez mais presentes no dia a dia das usinas, qualquer medida que ajude a reverter a situação é bem-vinda.
Somente no ano passado, 13 usinas entraram com pedidos de recuperação judicial, contra uma média de 10 dos últimos seis anos.
Em um cenário que não vem agradando seus participantes há algum tempo, no entanto, há espaço para melhorias. Mas serão extremamente seletivas. “Usinas que não fizeram a lição de casa entrarão em mais dificuldades”, diz o diretor-presidente da FG Agro, Luis Gustavo Torrano Corrêa.
O movimento do início de ano envolvendo a economia chinesa e os preços do petróleo afetou o comportamento das finanças mundiais e colocou investidores em modo de espera. Aliado ao momento interno, esse ciclo reforçou a insegurança brasileira e a incerteza em relação ao etanol, mesmo com a subida de preços do açúcar. “Estamos vivendo uma fase muito dura do ponto de vista do custo do dinheiro. Isso faz com que os empresários priorizem redução de endividamento a crescimento. Uma parte dos problemas o setor ainda está longe de ser resolvida”, alerta Alexandre Figliolino.
Essa visão é compartilhada por diversos observadores do setor, inclusive por Figliolino e Corrêa. Ambos falam em cautela, mas acreditam que há espaço para investimentos e que a partir deste ano será possível enxergar um movimento voltado à consolidação do setor, ainda que limitado às possibilidades das empresas.
Situação assimétrica
Hoje o setor é palco de uma divisão clara: quem está bem e quem não está. Ao mesmo tempo em que uma parte mais robusta está pronta para operar com margens não vistas há alguns períodos, outra parte está sufocada pelo peso das dívidas, não teve oportunidades de fixar e está desequilibrada operacionalmente. São empresas em situação precária e que devem continuar afundando.
As empresas em situação melhor exibem características semelhantes: não têm grande parte das dívidas em dólar, cuidaram bem de seus canaviais e têm limites de crédito com corretoras, bancos e trades que permitem a fixação dos preços a longo prazo. “Essa parte do setor vai ter um ano excepcional”, garante Fligliolino.
Do outro lado, aquelas usinas que não prestaram atenção no negócio, sofrerão com a pressão dos bancos e a concorrência roubando posições. “Essas companhias continuam em um processo de deterioração”, explica Corrêa. Pontos importantes como trabalhar a liquidez para garantir disponibilidade de caixa, cuidados com os canaviais e gerenciamento de riscos serão cruciais para garantir a saúde de quem está em situação complicada.
Consolidação
Previsões anteriores já apontavam que a partir de 2016 o setor poderia começar a ver mais consolidações. A possibilidade se mostra real. Um exemplo recente foi a compra da Ruette pela Black River. Ainda assim, o movimento não deve ser muito forte. “Um movimento muito intenso, não. Mas de forma mais ativa que nos últimos anos. Vamos ter algumas coisas acontecendo para um mercado que estava paralisado”, aponta Figliolino.
Um entrave para esse tipo de negociação é o alto valor necessário para consolidar outra operação. Se comparado ao retorno de um investimento na operação dos players tidos como consolidadores, a atratividade é baixa. “A Ruette, por exemplo: é uma transação de R$ 800 milhões para 4 milhões de toneladas de cana. Pouco mais de 0,5% do setor. É muita grana”, enfatiza Corrêa.
Segundo ele, seria possível enxergar um processo de consolidação mais ativo se o fluxo de caixa dos consolidadores tivesse proporção muito maior que o das empresas que podem ser consolidadas, mas isso não acontece.
No total, são três pontos: a diferença de fluxo de caixa, a quantidade de capital envolvida para adquirir market share e o fato de não ser um setor com retornos elevados a ponto de atrair novos entrantes. Isso cria uma dicotomia. Por priorizarem investimentos na produção, as usinas não consolidam, o que traz a necessidade de capital externo. Porém, o setor não é atraente para novos entrantes. Atualmente, situações de consolidação dependem de condições especiais e interesse externo em um setor visto como desinteressante pelos investidores. “Por que a Guarani não adquiriu [o grupo Ruette]? Está do lado. Teve de vir um entrante com condições fora do padrão e desconto na dívida para assumir a operação”, questiona Corrêa.
Ainda assim, qualquer atividade é melhor que nenhuma, como foi o reflexo do setor nos últimos anos. “O número de operações foi quase nulo”, diz Figliolino.
Impacto cambial
Outro fator determinante é a questão do dólar. A falta de um “hedge natural” atrapalha a negociação das commodities do setor. O fato de o açúcar ser negociado em dólares em Nova Iorque não é pressuposto de que o preço se sustente em cents/lb diante da desvalorização do real.
Corrêa fala em moedas de commodity. Países que têm em sua balança comercial grandes volumes de exportação de commodities sentem a fragilidade da moeda em momentos de desvalorização, como é o caso do Brasil. “Isso ajuda a reforçar o fato de que ter exportação de commodities não dá hedge suficiente para fazer financiamentos em dólar”, conclui o diretor.
Capital em moeda estrangeira só é vantajoso para quem fixou preços em dólar como estratégia de médio a longo prazo. Ou seja, empresas que têm um ativo, de fato, dolarizado.
Mas aí também mora o perigo: se a dívida em moeda internacional excede o valor dos ativos dolarizados, se deterioram os indicadores de dívida e EBITDA e sobem os custos dos encargos, pois os juros incidirão sobre um valor maior. Em um cenário de desvalorização, como o que aconteceu recentemente, a situação fica ainda pior. “Um indicador importante para se olhar é a dívida em dólares vis-à-vis os ativos”, esclarece Corrêa.
Investimentos
Mesmo fora da lista de prioridades do setor, segundo os consultores, investimentos devem ser realizados neste ano, mas apenas nas empresas bem estruturadas e, ainda, de maneira marginal.
Qualquer pequeno investimento que possa ser realizado já deve ser suficiente para refletir em acréscimos na produção. Aos poucos, essas medidas devem crescer. “É uma otimização aqui, um desgargalamento ali, uma oportunidade que surgiu”, assinala o consultor da MBAgro.
Essas plantas têm espaço para crescer, principalmente com investimentos em brownfield, segundo Corrêa, da FG Agro. Ele diz esperar incrementos em capacidade de moagem, caldeiras, produção de açúcar e cogeração.
Isso pode ser reflexo do otimismo que vêm se instalando no setor com as melhores perspectivas de preços, margens e resultados operacionais. “Nada para deixar empresário mais otimista que ver a geração de caixa operacional acontecendo. E vai acontecer forte para algumas empresas”, prevê Figliolino.
Mas é preciso cautela. O empresariado quer investir, mas também precisa de retornos rápidos. Figliolino lembra que recentemente ouviu de um usineiro que só estão sendo realizados investimentos que tragam retorno em até um ano. Ou seja, ainda há um grau de seletividade grande em relação às aplicações.
Cogeração
“Quem investiu em cogeração de energia passou a ter um outro ativo não atrelado ao preço do açúcar e etanol, então, diminui risco, gera fluxo de caixa adicional e pode ser um ativo a ter liquidez e ajudar a fazer frente a refinanciamento em um momento de restrição de caixa”, avalia o diretor da FG.
Mesmo com preços menores, o retorno ainda é positivo. E, indiretamente, os investimentos em ampliação de plantas industriais acabam refletindo na geração de energia. Um investimento em caldeira para aumentar a produção de açúcar, por exemplo, pode se transformar em uma maneira de capturar o retorno da energia elétrica.
Corrêa diz não acreditar que mesmo com o cenário altista do açúcar a cogeração deixe de ser um driver de captura de vantagem competitiva a longo prazo dentro do setor.
Cuidados
Pode parecer óbvio, mas manter a operação saudável é a melhor maneira de evitar sustos ao longo da safra. Manter nível de disponibilidade de caixa elevado para ter saídas em momentos de menor disponibilidade de financiamento; cuidar dos investimentos no canavial e na indústria; ficar atento às políticas de fixação, se estão sendo realizadas nos melhores momentos, com os preços mais atraentes e na moeda correta de acordo com a dívida da empresa.
Cuidar da manutenção industrial para que não haja perda da capacidade de extração também é fundamental, alerta Luis Corrêa. “Isso pode gerar uma estratégia equivocada de priorizar a moagem em vez da eficiência.”
Já Figliolino reforça sua visão de cautela, mas enxerga que existe uma luz que não está tão no fim do túnel. “Está todo mundo ainda muito cauteloso. É um cenário de melhoria, porém extremamente seletiva. Não vamos ver um furor de gente interessada em aquisição de ativos, mas na medida em que o dinheiro cair no cofre, todo mundo vai olhar onde tem oportunidade para fazer geração de caixa.”
Jorge Mariano – NovaCana