Depois de quatro anos na GranBio, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, é o entrevistado do NovaCana, agora como diretor do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE)
Depois de quatro anos na GranBio, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, é o entrevistado do NovaCana, agora como diretor do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Descolado da imagem da Granbio, companhia que ajudou a construir como co-fundador, Guimarães Pereira fala do atual momento do celulósico, cujos players traçam uma discreta trajetória de avanços, segundo ele.
“O que fizemos na Granbio foi como um desses projetos de levar o homem à Lua”, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira
Guimarães Pereira está desde outubro à frente do CTBE, um dos quatro laboratórios abertos à comunidade científica e empresarial que integram o Centro Nacional de Pesquisa e Energia em Materiais (CNPEM). Ele ainda é professor titular da Universidade Estadual de Campinas, onde ingressou em 1997.
Em sua trajetória ainda está a posição de Chief Scientific Officer (CSO) da GranBio. Foi na GranBio, aliás, que ele pôde ir além, com uma ação de estratégia tecnológica coorporativa, coordenando a empresa BioCelere, dedicada ao desenvolvimento de biomassa de alta produtividade e biologia sintética para produção de biocombustíveis e bioquímicos a partir de açúcar de segunda geração.
Um apaixonado por genética, o novo diretor do CTBE já avisa que a conversa “vai longe” quando começa a falar, com traços do seu sotaque baiano, sobre a área que escolheu para atuar.
Com o NovaCana, Guimarães falou suas perspectivas para os projetos realizados pelo CTBE, além de analisar quais devem ser os próximos capítulos no desenvolvimento do etanol celulósico no Brasil, cana-energia, enzimas, palha da cana e avanços tecnológicos.
Depois de quatro anos na GranBio, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, é o entrevistado do NovaCana, agora como diretor do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Descolado da imagem da Granbio, companhia que ajudou a construir como co-fundador, Guimarães Pereira fala do atual momento do celulósico, cujos players traçam uma discreta trajetória de avanços, segundo ele.
Ele explica que, após o setor enfrentar problemas elementares, as plantas possuem dois desafios: o de diminuir custos e, principalmente, o de vencer a desconfiança, provando que ganharam conhecimento e, assim, atrair os investidores
“O que fizemos na Granbio foi como um desses projetos de levar o homem à Lua”, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira
Guimarães Pereira está desde outubro à frente do CTBE, um dos quatro laboratórios abertos à comunidade científica e empresarial que integram o Centro Nacional de Pesquisa e Energia em Materiais (CNPEM). Ele ainda é professor titular da Universidade Estadual de Campinas, onde ingressou em 1997.
Em sua trajetória ainda está a posição de Chief Scientific Officer (CSO) da GranBio. Foi na GranBio, aliás, que ele pôde ir além, com uma ação de estratégia tecnológica coorporativa, coordenando a empresa BioCelere, dedicada ao desenvolvimento de biomassa de alta produtividade e biologia sintética para produção de biocombustíveis e bioquímicos a partir de açúcar de segunda geração.
Um apaixonado por genética, o novo diretor do CTBE já avisa que a conversa “vai longe” quando começa a falar, com traços do seu sotaque baiano, sobre a área que escolheu para atuar. “O genoma é uma espécie de manual de instrução, onde você encontra uma série de comandos. O homem, ao longo dos anos, começou a aprender a ler a vida. E homem pode hoje construir e escrever uma série de itens que são importantes para a civilização que hoje nós temos”, afirma.
Com o NovaCana, Guimarães falou suas perspectivas para os projetos realizados pelo CTBE, além de analisar quais devem ser os próximos capítulos no desenvolvimento do etanol celulósico no Brasil.

NovaCana | O que despertou interesse para essa área de atuação e por que o setor sucroenergético?
Gonçalo Amarante Guimarães Pereira | O que sempre mantive em mente foi que eu queria resolver problemas e, especialmente, problemas brasileiros. O que eu queria resolver estava relacionado à genética. Então, enxergando a célula como motor propulsor, comecei a trabalhar [no laboratório da Unicamp] em uma série de problemas nacionais. E está claro para todo mundo que precisamos substituir os fósseis por combustíveis renováveis.
NovaCana | É aí que entra o setor sucroenergético.
Sim. Quando você pensa na utilização da biomassa, começamos a falar em reduzir a quantidade de CO2 da atmosfera e efetivamente alterar o clima para melhor. Isso é diferente do que se tem com outras formas de energia renovável. É nisso que eu foquei minha carreira e, da seguinte forma: fazendo uma ciência de qualidade e alto nível para resolver problemas, em particular na bioenergia – essa área que pode fazer o nosso país realmente virar uma liderança mundial.
Agora, aqui [no CTBE], atuamos nesse sentido por meio de dois caminhos. O primeiro é o da biomassa. O petróleo é incrível, mas o problema são todas as consequências negativas ambientais que ele gera. Mas, se você tiver uma planta de alta densidade energética, você começa a rivalizar com o petróleo. O segundo elemento é o desenvolvimento de microrganismos capazes de pegar os açúcares que vem da biomassa e convertê-los em produtos como etanol e outras moléculas, como butanol e outras que hoje são produzidas pela indústria petroquímica.
A cana é o nosso petróleo. E é com a cana-energia que vamos conseguir fazer a substituição [dos combustíveis fósseis]. A analogia é que, em cima desse novo petróleo, tem toda uma petroquímica para ser desenvolvida e é isso que nós somos capazes de catalisar.
NovaCana | Você esteve com a GranBio no início do projeto deles. Como foi esse envolvimento?
Como professor, sempre desenvolvi essas áreas [de cana-energia e microrganismos para transformação da biomassa] em interação com empresas. A curiosidade é que eu e o [presidente da Granbio] Bernardo Gradin fomos colegas de exército. Cada um seguiu uma carreira e nos reencontramos 30 anos depois – ele como presidente da Braskem e eu desenvolvendo um grande projeto com a companhia. Então, em 2011, ele me perguntou sobre o interesse de investir nessa área de biotecnologia. Foi quando resolvemos fazer uma empresa, que hoje é a Granbio.
NovaCana | Como foram os quatro anos que esteve na GranBio?
Na Granbio, nós, em pouquíssimo tempo, desenvolvemos variedades de cana-energia que hoje estão no mercado; uma usina de segunda geração, que está operando com regularidade e produzindo etanol. Além de desenvolvermos microrganismos, como a levedura de segunda geração, que é hoje, sem dúvida, a mais eficiente do mercado – e desenvolvida toda no país, desde a ciência básica até a entrada na indústria. Eu diria que essa é a levedura que já produziu mais etanol de segunda geração no mundo. Isso tudo foi feito no Brasil, mostrando que o país já tem um nível maturidade científica capaz de suportar as nossas necessidades tecnológicas.
Hoje, a Granbio está produzindo etanol de segunda geração para valer e desenvolveu uma série de outras tecnologias. Sabe o que acontece? No Brasil, pelas nossas questões culturais e até de colonização, os empresários têm muita dificuldade em fazer pela primeira vez. O brasileiro copia rápido - é um fast follower. No entanto, não quer se arriscar. Dificilmente o brasileiro teria feito um projeto para levar o homem à Lua porque ninguém nunca tinha ido. Mas países desenvolvidos assumem esse risco. O que fizemos na GranBio foi como um desses projetos de levar o homem à Lua. Foi uma aposta com um empreendedor fantástico, que tem a compreensão de que projetos como esse fazem o Brasil entrar na liderança em uma via incrível.

NovaCana | Há muitos que olham a questão do E2G de forma bem cética. Apostam no combustível, mas não estão tão otimistas no curto e médio prazo. Como você enxerga isso?
Quando as usinas começaram a investir no etanol celulósico, e todas elas foram mais ou menos na mesma época, o petróleo estava acima de US$ 100 – por isso, era uma conjuntura de bastante euforia no mercado.
Se você olhar o número de usinas de segunda geração que foi anunciado de 2010 a 2012, verá que é um número muito grande. O que acontece nesses casos – e isso não é crítica – é que esse primeiro período da onda tecnológica é o momento do cara com sangue no olho. Do investidor ou do empresário que quer ser o único, ser pioneiro. E ele sai atropelando, não quer esperar ter tudo pronto para assumir o risco.
“Os investidores, antes mesmo de terem todas as demonstrações prontas e as operações realmente funcionando, resolveram assumir um risco. Acho que todos nós lembramos dessa fase de euforia”
NovaCana | A dimensão dos desafios com o E2G ainda não estava bem compreendida pelos principais players e eles apostaram mesmo assim?
Em suma, seria isso. Com o tempo, com o amadurecimento e com o fazer e o avaliar – e tudo isso já em escala industrial –, a gente descobriu que existiam coisas simples que foram completamente subestimadas.
Por exemplo, toda a parte de grandes maquinários veio das indústrias de papel e celulose, que já estavam acostumadas à biomassa. Mas a biomassa não é uma coisa só. A indústria de papel e celulose conhecia a biomassa de madeira. Se você jogar água em uma mesa de madeira, provavelmente ela vai escorrer, pois a natureza criou o material para ser hidrofóbico, ou seja, para repelir água. Entretanto, nenhuma dessas usinas de segunda geração foi feita para a madeira porque essa é uma matéria-prima muito cara. Todas [as usinas de E2G] usaram os restos, a palha... Esses são materiais que a natureza gerou para serem exatamente o contrário: hidrofílicos. Dentro da cana está cheio de água. O que acontece com o eucalipto se ele for cortado? Sairá água de dentro? Não.
Parece ser uma coisa simples, mas sempre digo que quem resolveu mexer com segunda geração faltou nas aulas de fisiologia vegetal. Se tivessem ido a essas aulas, eles iam saber que não dá para fazer um sistema industrial baseado em um monte de roscas quando entra um bagaço molhado – ou melhor, cozido. Isso vira um mingau.
“Se a segunda geração estivesse começando agora, com o que se tem de conhecimento nesse ponto, a situação seria completamente diferente.”
Todo mundo subestimou, achando que isso seria uma coisa simples. Em 100% dos casos, as usinas de segunda geração pararam nesse problema [da biomassa]. Só que agora, quando esses problemas estão resolvidos, não temos mais petróleo a mais de US$ 100. O petróleo que estava em US$ 30, chegou a US$ 50 e há uma dúvida enorme de que caminho vai seguir. Assim, não tem mais uma euforia de um monte de gente querendo investir daquela forma. Aquela evolução que se viu, de forma abrupta, vai passar a se dar de forma linear. A primeira usina vai demonstrar, com menos euforia, que está funcionando, que sabe o que está fazendo e as demais darão sequência. A Raízen está nesse sistema, a Granbio e o CTC também.
NovaCana | Essa dificuldade em fazer a tecnologia do etanol de segunda geração decolar faz parte do processo?
Quando a crise acaba, todos esquecem que ela existiu. Na hora que a segunda geração funcionar, ninguém vai lembrar desse período de pioneirismo. Se você olhar os desafios enfrentados no petróleo, você vai ver que eles são idênticos aos desafios que a indústria da segunda geração está enfrentando. Idênticos. Quem hoje lembra que algum dia houve desafio de petróleo?
O que nós temos que fazer no Brasil, pensando em termos de políticas públicas, é avançar com isso. Os investidores têm de olhar cada vez mais o que é que está acontecendo, o que está sendo feito. Eu garanto: se a segunda geração estivesse começando agora, com o que se tem de conhecimento nesse ponto, a situação seria completamente diferente.
“É importantíssimo que o poder público e a política pública compreendam que esse é um processo de avanço e pioneirismo tecnológicos como a gente nunca teve no Brasil”
NovaCana | Mesmo essa visão de que hoje a dimensão dos desafios com o E2G está bem compreendida pelos principais players, o que eu percebo é que há um silêncio sobre os projetos em andamento. Vejo assim um interesse reduzido no E2G por parte do público em geral, semelhante ao do investidor.
As pessoas não se interessam muito pela coisa linear, mas pelo explosivo. Mas, sim, há um avanço silencioso de melhorias – é uma rosca de maquinário modificada, um processo que era de um jeito e agora é outro, uma levedura...
Um exemplo: as melhorias de fermentação obtidas pela Granbio reduziram o andamento processo inteiro de uma forma incrível. É quase uma fermentação de primeira geração em termos de tempo. Um processo incrível, desenvolvido com ciência, mas com respostas industriais, mostrando que nós já estamos capacitados para encontrar as soluções. É uma pena que a indústria nacional tenha sofrido tanto nos últimos anos e boa parte das empresas que poderiam estar coladas nesse desenvolvimento e se capacitando para produzir usinas de segunda geração estejam em crise, mas nós temos que reagir a isso.
“Não tenho dúvida que esse é um setor que vai explodir e na hora que a segunda geração começar a operar, a primeira geração não vai ser tão competitiva”
NovaCana | O problema do pré-tratamento do E2G está relacionado ao início do processo de produção. Assim, ainda existe o desafio de alcançar escala nas outras etapas do processo? Como você vê o desenvolvimento da larga escala na demais etapas do processo de produção do E2G?
Você vai na Granbio e na Raízen e vai ver hidrólise funcionando normalmente. O que acabou acontecendo de problema foi na área que tudo imaginou que estava equacionada: o pré-tratamento. Foi justamente nas roscas, nas bombas, em coisas que aparentemente estavam certas, que a dificuldade apareceu. Só que é uma tecnologia que, com conhecimento, colocando o processo adequado e correto, você consegue resolver.
A larga escala, hoje, está toda equacionada. O que era realmente gargalo tecnológico, de enzima e levedura, eu garanto que já está resolvido. O CTBE está atuando fortemente para aumentar a competitividade, mas o processo está completo.

NovaCana | E como está sendo essa atuação do CTBE com o etanol celulósico?
O primeiro momento é fazer o processo funcionar bem e com regularidade. Vamos pensar na analogia de um carro: ele está funcionando, mas gasta 100 litros de etanol por quilômetro rodado. É melhor ir a cavalo que, embora demore mais, gasta menos. A segunda geração está vivendo isso, é um carro que já anda bem, mas agora temos que otimizar o desempenho dele para que o custo final do etanol seja competitivo.
O que eu garanto é o seguinte: considerando que a gente consegue ter uma biomassa muito mais barata do que a [matéria-prima] hoje usada para primeira geração, as nossas chances de sucesso são grandes. Com 500 a 600 reais, eu consigo produzir a biomassa para gerar uma tonelada de etanol. Uma tonelada de etanol de segunda geração, nesse primeiro momento, você conseguir exportar e aproveitar os RINs, então, estamos falando de R$ 3.400.
“Se nós tivéssemos começando hoje, mas com tudo que sabemos, veríamos que é um supernegócio, que a segunda geração pode ser altamente rentável. O problema, agora, é vencer as desconfianças”
Mas as desconfianças [com o etanol celulósico] serão vencidas quando uma usina de segunda geração, das que estão aí, começar a mostrar lucratividade. Para isso, na minha visão, o apoio a essas usinas é importantíssimo.
NovaCana | Você apresenta a questão mais como uma espécie de imagem maculada do que, de fato, como desafios que precisam ser superados . Tendo isso em vista, a questão financeira desses projetos preocupa? Como atrair investidores para uma tecnologia que ainda enfrenta esse cenário de desconfiança?
É isso mesmo. Há uma imagem maculada porque a aposta foi muito grande. A euforia é importante para que os mais arrojados invistam, mas agora é o momento do pé no chão. Está na hora desses primeiros investidores mostrarem a situação do negócio e daí, sim, ir atrás e atrair mais investidores.
Uma coisa que eu acho muito importante é que os investidores brasileiros olhem isso com apetite de investidor – não um apetite eufórico –, mas que coloquem isso no radar e olhem de forma profissional para não perder a oportunidade. Não tenho nada contra o investimento estrangeiro, muito pelo contrário, acho que é importantíssimo, mas também que o capital nacional esteja no comando dessas oportunidades. O capital nacional não pode, simplesmente, ficar a reboque de processos que estão com nível de maturidade muito alto. Quanto maior o nível de maturidade, menor o de lucratividade.
Os investidores que embarcarem [no mercado de etanol celulósico] nesse momento, já estão com um risco muito menor do que quem entrou no primeiro momento. O investidor já consegue enxergar com muito mais serenidade a direção a ser tomada. Então, eu sou muito otimista e acho que dominaremos isso.
NovaCana | Em relação a outros países, o Brasil está em condições de avançar antes quando o assunto é etanol celulósico?
Com certeza. Uma tonelada de biomassa na Europa não é menos de 120 ou 130 euros, uns 400 reais, sendo que eu fui generoso. Aqui, uma tonelada de biomassa sai por menos de 100 reais. Já temos um ponto de partida de um quarto do preço. Quem lidera quando a tecnologia está pronta é quem é mais eficiente, mais competitivo. Agora, vamos ser mais eficientes. Temos tudo para liderar de novo. A tecnologia de foguete que existia, que é justamente a engenharia genética por trás das cepas de levedura, os fungos para produzir enzima – isso já foi dominado. Essa é a grande notícia. As outras tecnologias são de ajuste, organizar uma coisa e outra. Mas ninguém acha que isso seja, nem de longe, um grande desafio tecnológico. O que aconteceu foi que se apostou na euforia, em uma tecnologia que deu errado em um primeiro momento e agora a mensagem que ficou é que não funciona.
NovaCana | Na última conversa que tivemos com o CTBE, foi comentado que vocês estavam trabalhando para diminuir o valor das enzimas e que o coquetel não funcionava sozinho. O segredo estava nas enzimas acessórias envolvidas no processo. Como está o andamento disso?
Super bem. O que posso dizer é que demos início a um programa de usinas e minha expectativa é que pelo menos até o final do ano que vem, ele esteja em um estágio de maturidade. A ideia é ter uma opção tecnológica de produção de enzima on site, ou seja, produzir enzima no próprio local da usina.
Para entender melhor: quem produz a enzima é um fungo. Esse fungo come e, em retribuição, gera enzima. O desafio é produzir um fungo que se alimente de uma comida barata e traga muita enzima. Estamos desenvolvendo aqui duas coisas, um fungo que já joga bastante enzima para fora e um que come uma comida muito barata, feita principalmente por restos de cultura, como casca de soja e coisas desse tipo.

NovaCana | Qual é a vantagem da opção nacional sobre a importada em termos de custos?
O que encarece o custo da enzima produzida em outros países é que o substrato utilizado, o açúcar puro, é muito caro. Isso faz com que o fungo tenha um tratamento VIP. Aqui, estamos dando chope, enquanto lá fora dão champanhe. No fundo, os dois fungos ficam bêbados, mas o nosso foi embebedado de forma mais barata. É mais ou menos isso, utilizando criatividade e todos os nossos recursos, criamos vantagens competitivas para atingir um preço mais barato.
Quando uma enzima é produzida em uma unidade no exterior, ela é purificada, cristalizada – passa por uma série de processos. Então, quando chega ao país, ainda mais somando-se os custos de transporte, importação e refrigeração (porque é um produto perecível), a competitividade fica reduzida, pois isso aumenta muito o preço da enzima.
Se você consegue colocar na usina um fungo, que é um parente próximo da levedura em condições limpas, mas não estéreis, por que isso encarece muito, e fazer ele comer coisas simples e gerando uma sopa com as enzimas – isso daí não precisa nem purificar depois. É pegar o que foi produzido por esse fungo e verter tudo dentro da biomassa pré-tratada para ter um açúcar solúvel que a levedura vai consumir. Essa simplificação é o que vai fazer diferença no custo.
No passado, foi citado que o laboratório estava trabalhando com companhias como a Dow, mas nenhuma brasileira. Como está o trabalho do CTBE nesse sentido atualmente?
Atualmente, há um conjunto enorme de empresas com quem estamos atuando, tanto nacionais quanto multinacionais presentes no país. A partir dessa relação, muito em breve – talvez ainda esse ano –, serão divulgadas tecnologias industriais para o setor que vão impactar o mesmo de forma significativa. Não posso dar mais detalhes, infelizmente, mas a própria empresa deve apresentar isso logo.
NovaCana | Sobre a sua saída da GranBio, o que motivou esta decisão?
A interação universidade-empresa no Brasil é difícil porque o professor tem uma série de restrições. Eu, como professor da Unicamp, só podia ficar na empresa como executivo por quatro anos. Passado esse período, eu precisava voltar ao tempo integral na universidade e é isso que ocorreu em outubro do ano passado.
Por coincidência, fui convidado para dirigir o CTBE. A nossa missão aqui é muito clara: é fazer do Brasil e das empresas que atuam no país líderes da área de produtos da bioeconomia, não só de etanol. Queremos dar esse suporte científico, tecnológico e de inovação para que as empresas fiquem ricas e formosas – ganhem dinheiro, gerem empregos e coloquem o Brasil para liderar.
É importante registrar que, apesar de ficarmos em São Paulo, somos um laboratório nacional. Queremos resolver os problemas do país ou apoiar a solução dos mesmos. Esse centro, assim como os outros laboratórios nacionais, desenvolve pesquisa de altíssimo nível. Conheço o mundo inteiro e isso aqui é excelente. Temos condições de dar todo suporte científico e tecnológico para que o Brasil lidere, inove e melhore as capacidades produtivas que temos atualmente e que são ridículas em relação ao nosso potencial. Fazer isso virar realidade só cabe a nós mesmos.
NovaCana | Você saiu de uma empresa mais voltada ao mercado e foi para uma direcionada à pesquisa. Como esse olhar do “outro lado”, do lado das empresas, contribui para o amadurecimento do trabalho realizado pelo CTBE?
Fui convidado pela primeira vez para ser diretor do CTBE, por volta de 2011 ou 2012. Estava começando a Granbio, então não pude aceitar. Hoje, digo uma coisa: graças a Deus que não aceitei! As leis e regras nacionais, diferente do que acontece no resto do mundo, segregam o professor da atividade empresarial. E, hoje, posso dizer com toda tranquilidade que, graças a essa minha visão de empresário durante os quatro anos [na Granbio], consigo chegar aqui e organizar o CTBE de uma forma que eu, apenas como professor universitário, não conseguiria.
Há um número que eu considero importante: o Brasil é o 13º maior produtor de ciência do mundo e o 80º em inovação tecnológica. Isso significa que o que se produz de conhecimento não se comunica com o setor produtivo. O CTBE é uma das raras pontes que a gente tem no Brasil entre o setor científico-tecnológico e o setor produtivo. Meu papel é resolver problemas, fazer essa interlocução e, como disse, como missão o que nós [do CTBE] queremos é que as empresas enriqueçam e façam o país enriquecer. Temos muita sorte de estar vivendo esse momento e de estar nessa posição, porque o CTBE é uma power house para o setor da cana.
Não tem riqueza, por melhor que seja a ciência que um país faça, se essa ciência vira simplesmente artigo científico, relatório, curiosidade. O país não avança – e hoje é esse o quadro que temos no Brasil.
Sempre vejo essa imagem: o cientista brasileiro aprendeu a pedalar. Só que ele está pedalando uma bicicleta ergométrica, que não sai do lugar. É a junção com a indústria que nos vai permitir botar essa bicicleta no chão e ganhar quilometragem.
NovaCana | Entre os trabalhos desenvolvidos no CTBE qual é aquele que você acredita que tem potencial para causar, o mais breve possível, impacto no setor?
Em primeiro lugar, hoje já se sabe que temos uma Itaipu no chão, representada pela palha. A palha disponível chega a em torno de 114 milhões de toneladas. Esse volume, com tecnologia, geraria 86 terawatts-hora (TWh) por ano. A Itaipu gera 100 TWh.
Já temos toda a tecnologia e processos estruturados e, ainda este ano, forneceremos um conjunto de recomendações que permitem ao empresário interessado em geração de energia ter um protocolo para proteger seu investimento. Dessa maneira, é possível determinar o que será feito e prever qual a taxa de retorno e desenrolar nos processos. A nossa ideia, o que já estamos propondo, é um pacote – tanto para o empresário como para políticas públicas.
“Qual o problema da eletricidade? Em primeiro lugar, as baterias. Não existe lítio no mundo capaz de bancar um ambiente cheio de carros elétricos. O pessoal não se atém a esse detalhe. Vamos entrar em guerra pelo lítio, como temos hoje guerra pelo petróleo”
NovaCana | E para o campo, o que estão desenvolvendo?
Outra atividade de impacto imediato é a agricultura de precisão. O Brasil importa cerca de 70% do adubo que utiliza. Isso não é um problema pequeno, é um problema brutal. Todo o nosso setor de agronegócio está com uma fragilidade em alicerce de vida. E vamos ter de alterar esse cenário de várias formas. Uma delas é a utilização racional dos fertilizantes. Desenvolvemos um estudo aqui e vamos apresentar em breve o resultado disso – com uma correlação direta entre a qualidade do solo e o tipo de fertilização. Dessa forma, as usinas do setor de cana-de-açúcar devem identificar e organizar seus talhões para fazer a adubação e tratamento corretos. O que vemos hoje é muito desperdício, áreas que não precisam sendo adubadas e também o contrário, além de tratamentos inadequados para cada área. Isso acaba acarretando na baixíssima produtividade que vemos em boa parte dos canaviais brasileiros.
Uma terceira área, também de impacto imediato, é a mecanização. Estamos finalizando aqui o desenvolvimento de uma plantadeira de cana. As plantadeiras de cana hoje disponíveis no mercado gastam uma quantidade de cana brutal para plantar. Conseguimos reduzir isso em aproximadamente metade. Essas são as tecnologias de uso imediato.
NovaCana | Você mencionou anteriormente a cana-energia. Ela também faz parte desses projetos?
Sim. Estamos trabalhando muito em como cristalizar o açúcar que tem na cana-energia. A cana-energia pode ser duas ou três vezes mais produtiva do que a cana-de-açúcar, com uma redução muito grande do custo de produção porque a mecanização e a adubação são mais simples e porque ela vegeta bem em solos inferiores. Só que o problema é que a quantidade de sacarose no suco da cana-energia é relativamente menor. A pureza é pior. Então, pela dificuldade em cristalizar o açúcar, muitas vezes isso não é feito. Estamos desenvolvendo um processo de cristalização do açúcar para a cana-energia. Isso revoluciona, quando você considera que ela é mais duas vezes produtiva. Mas pelo fato de você não cristalizar o açúcar, usinas que produzem esse produto ainda tem dificuldade para usar cana-energia.
NovaCana | O que mais está entrando no escopo do CTBE?
Estamos trabalhando também em áreas mais sofisticadas, como na segunda geração. Já temos desenvolvido todo um pipeline, pois acreditamos que, de um a dois anos, a gente também terá – do mesmo jeito em que estamos fazendo a recomendação para a produção de energia elétrica –, um conjunto de recomendações para a segunda geração. Mas não serão só recomendações, mas um oferecimento para o mercado dos insumos fundamentais, como, por exemplo, a enzima e a levedura.
Marina Gallucci – NovaCana