Na safra 2021/22, biocombustível feito a partir do grão custou R$ 1,76 por litro, contra R$ 2,15/L do etanol de cana-de-açúcar
O etanol de milho tem ganhado cada vez mais espaço no Brasil – e a tendência é de um crescimento vertiginoso. De acordo com dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a produção do biocombustível a partir do grão foi de 30 milhões de litros na safra 2013/14, um volume que deve chegar a 9,6 bilhões de litros em 2030/31.
Se confirmada, esta quantia representaria um aumento de 179,8% ante os 3,43 bilhões produzidos na safra 2021/22.
Na quinta edição da Conferência NovaCana, o analista de equity do BTG Pactual, Thiago Duarte, explicou que o crescimento do grão foi notável nas últimas três décadas. Enquanto isso, a principal matéria-prima para fabricação de etanol no Brasil, a cana-de-açúcar, manteve-se praticamente estagnada. “O milho quase triplicou a produtividade e a cana está quase no mesmo lugar”, aponta.
A Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), em seu primeiro levantamento da safra de grão 2022/23, projetou que o milho terá uma produção recorde de 126,94 milhões de toneladas, com a segunda safra podendo chegar a 96,28 milhões de toneladas. A Unem acredita que este aumento reforça as perspectivas de crescimento do etanol de milho, especialmente porque a principal fonte das usinas é o grão da segunda safra.
Quem corrobora com a importância do uso desta matéria-prima para a fabricação do biocombustível é o analista de inteligência de mercado da StoneX, Filipe Cardoso: “Safra a safra, o etanol de milho vem fazendo uma participação cada vez mais relevante no setor”.
Segundo ele, o biocombustível a partir do grão representou 14,4% do total produzido em 2021/22 e deve ser responsável por 20,9% em 2023/24, ou 5,5 bilhões de litros.
Mesmo que o milho tenha se mostrado mais eficiente em termos de produção, o diretor de processamento de grãos para América Latina da IFF, Mario Cacho, alega que o etanol a base do grão “não estaria aqui se não fosse a cana”.
Com isso, Cacho ressalta que o setor de milho está seguindo um caminho já trilhado pelo sucroenergético. Ele conta que viu o nascimento da primeira usina flex do país, no estado de Mato Grosso, há dez anos. “Dá orgulho ver como cresceu essa indústria”, declara.
Mas, além de oportunidades, o setor de etanol de milho também conta com alguns desafios econômicos e ambientais.
No texto completo, exclusivo para assinantes, você encontra mais detalhes sobre a rentabilidade do etanol de milho, assim como as principais oportunidades e desafios do setor, listadas por especialistas que passaram pela quinta edição da Conferência NovaCana.
O etanol de milho tem ganhado cada vez mais espaço no Brasil – e a tendência é de um crescimento vertiginoso. De acordo com dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), a produção do biocombustível a partir do grão foi de 30 milhões de litros na safra 2013/14, um volume que deve chegar a 9,6 bilhões de litros em 2030/31.
Se confirmada, esta quantia representaria um aumento de 179,8% ante os 3,43 bilhões produzidos na safra 2021/22.
Na quinta edição da Conferência NovaCana, o analista de equity do BTG Pactual, Thiago Duarte, explicou que o crescimento do grão foi notável nas últimas três décadas. Enquanto isso, a principal matéria-prima para fabricação de etanol no Brasil, a cana-de-açúcar, manteve-se praticamente estagnada. “O milho quase triplicou a produtividade e a cana está quase no mesmo lugar”, aponta.
A Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), em seu primeiro levantamento da safra de grão 2022/23, projetou que o milho terá uma produção recorde de 126,94 milhões de toneladas, com a segunda safra podendo chegar a 96,28 milhões de toneladas. A Unem acredita que este aumento reforça as perspectivas de crescimento do etanol de milho, especialmente porque a principal fonte das usinas é o grão da segunda safra.
Quem corrobora com a importância do uso desta matéria-prima para a fabricação do biocombustível é o analista de inteligência de mercado da StoneX, Filipe Cardoso: “Safra a safra, o etanol de milho vem fazendo uma participação cada vez mais relevante no setor”.
Segundo ele, o biocombustível a partir do grão representou 14,4% do total produzido em 2021/22 e deve ser responsável por 20,9% em 2023/24, ou 5,5 bilhões de litros.
Mesmo que o milho tenha se mostrado mais eficiente em termos de produção, o diretor de processamento de grãos para América Latina da IFF, Mario Cacho, alega que o etanol a base do grão “não estaria aqui se não fosse a cana”.
Com isso, Cacho ressalta que o setor de milho está seguindo um caminho já trilhado pelo sucroenergético. Ele conta que viu o nascimento da primeira usina flex do país, no estado de Mato Grosso, há dez anos. “Dá orgulho ver como cresceu essa indústria”, declara.
Mas, além de oportunidades, o setor de etanol de milho também conta com alguns desafios econômicos e ambientais. Entre os especialistas que passaram pela Conferência NovaCana, o diretor-presidente da Cerradinho, Paulo Motta, cita alguns reveses como: a necessidade de maximizar o rendimento do grão; a compra de biomassa sustentável; logística otimizada para o etanol e coprodutos; e, por fim, a elegibilidade das usinas de milho no programa RenovaBio.
Milho e cana
Em sua palestra voltada para o lado financeiro das sucroenergéticas, Thiago Duarte, do BTG, indica que o crescimento exponencial do milho pode resultar em perda de áreas para a cana-de-açúcar. Isso aconteceria porque o produtor pode trocar a cultura pelo grão, buscando uma maior rentabilidade para sua terra.
Ele usa como exemplo a soja, cujo arrendamento rendeu pelo menos 20% a mais em comparação com a cana-de-açúcar. “Se você pegar o milho, não vai chegar a uma conclusão muito diferente”, afirma.
Além disso, outra vantagem para o cereal está na diluição dos custos com os coprodutos, como DDG e óleo. Segundo dados da safra 2021/22 apresentados por Duarte, o custo de produção do etanol de milho foi de R$ 1,76 por litro; enquanto isso, as usinas de cana-de-açúcar listadas em bolsa trabalharam com gastos de R$ 2,15/L.
“O etanol de milho tem se mostrado mais eficiente em termos de produção”, Thiago Duarte (BTG Pactual)
Na abertura da Conferência NovaCana, o coordenador-geral de cana-de-açúcar e agroenergia da secretaria de política agrícola do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Cid Caldas, ressaltou que pesquisas relacionadas ao aumento de produtividade do grão são realizadas em até dois anos, com a variedade pronta para uso ao final deste tempo.
Por outro lado, o desenvolvimento de uma variedade da cana precisa esperar a finalização de pelo menos dois ciclos, de seis anos cada. Segundo Caldas, a falta de novas espécies para o cultivo de cultura é um empecilho para o crescimento do setor sucroenergético.
Ele também considera que, no ano de 2032, a produção de etanol deve alcançar entre 48 bilhões e 50 bilhões de litros e que este montante “certamente não virá da cana”. Para o coordenador, o volume previsto deverá ser atingido com a complementaridade de outras matérias-primas, como o milho, e também dos resíduos da cana-de-açúcar, no chamado etanol de segunda geração (E2G).
Caldas completa que em alguns estados do Centro-Sul, como no Paraná, já houve a troca de área de cana para grãos.
Mesmo assim, o etanol de milho ainda conta com certas dificuldades. Mario Cacho, da IFF, aponta que as usinas que utilizam o grão não podem variar o seu mix de produção, da forma como as companhias de cana-de-açúcar o fazem, a depender do preço de mercado para o biocombustível e para o açúcar.
Então, em momentos de oscilação, a melhor opção para estas companhias seria “produzir o etanol e tentar maximizar os coprodutos”, de acordo com Cacho. A diferença entre o preço do milho e do etanol também tem se tornado um grande problema para a indústria.
Custos de produção
Os gastos são vistos por Cacho como um dos principais gargalos do setor: “Os custos estão levando algumas empresas a fechar, lamentavelmente”. Ele conta que já soube de duas plantas flex que irão encerrar as atividades, mas não cita nomes. Uma delas venderá todo o milho que tem em estoque, enquanto a outra vai trabalhar com os grãos que possui, aguardando por uma oportunidade, afirma.
O diretor da IFF explica que, a depender do processo e da usina, o grão pode representar até 70% do custo da companhia. Nestes casos, é importante otimizar a produção “para que se tire o máximo possível do milho”, segundo ele.
Da mesma forma, o diretor-presidente da Cerradinho conta que o custo do cereal pode pesar no setor, exatamente por se tratar de uma commodity sujeita às variações no mercado. Por esta razão, as usinas devem procurar pela diluição destes gastos, maximizando a eficiência e o rendimento do grão.
“Não olhe para quanto custou o seu milho. Fabrique o máximo possível porque aquele centavo vai render muito mais com uma produção em maior quantidade”, Mario Cacho (IFF)
De acordo com Cacho, uma das possibilidades seria ampliar as opções de leveduras no processo de produção. Ele afirma que a IFF conta com quatro tipos, metade já disponível no mercado, e que a mistura entre elas poderá levar a um aumento de rendimento.
Além disso, aminoácidos também poderiam ser adicionados ao DDG final, o que aumentaria o valor nutritivo da ração animal.
Biomassa e transporte
Motta, por sua vez, ainda lista a obtenção de biomassa para ativar as plantas de milho como um dos obstáculos do setor. Ele afirma que é importante adquirir uma matéria-prima que seja sustentável e, em regiões com produção de milho, pode não haver disponibilidade.
“Nem sempre o milho está onde está a biomassa e essa é uma necessidade extremamente importante para uma operação sustentável”, assegura.
O diretor-presidente ressalta que é preciso pensar na origem da biomassa antes mesmo de iniciar a construção de uma planta de etanol de milho. Ele exemplifica que, no novo projeto da Cerradinho, localizado no município de Maracaju (MS), a companhia assegurou a biomassa necessária para sete anos de operação e já está crescendo sua própria floresta de eucalipto para o período subsequente.
A coordenadora de desenvolvimento regional do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Vanessa Gach, lembra que, entre 2017 e 2021, a área de floresta de eucalipto – a principal biomassa utilizada pelas usinas – cresceu apenas 8,5%, totalizando 128 mil hectares. A matéria-prima tem um ciclo de seis anos e também é utilizada para a secagem dos grãos, além de ter uso em outros setores produtivos, como o de celulose.
Mas, além da logística para obtenção de matéria-prima para as caldeiras, o transporte também surge como um gargalo para a própria distribuição do etanol de milho. Motta relata que os compradores importantes de biocombustíveis não estão na região Centro-Oeste, grande produtora do grão e onde estão boa parte das usinas.
Oportunidades
Apesar destas dificuldades, Cacho aponta que os coprodutos advindos do etanol de milho são uma oportunidade para o setor. Ele explica que, nos momentos em que o biocombustível não esteja gerando lucro, o DDG e o óleo podem fazer a diferença para que a usina fique no azul.
Em uma operação normal, o amido do milho é usado para a fabricação de etanol, enquanto uma parte do gérmen vai para o óleo e a outra, somada à fibra e à proteína, é transformada em DDG. Entretanto, como explica Cacho, uma usina especializada poderia separar mais fibras e obter uma fração maior de coprodutos. Seria possível até mesmo fornecer um DDG mais proteico e outro mais fibroso, que seria indicado para gado de leite, por exemplo.
Cacho conta que, no mercado de etanol de milho dos Estados Unidos, a semente é vendida pela quantidade de amido disponível. Nesse contexto, grãos com mais de 70% desta substância são interessantes para a indústria.
Motta também acredita que a capacidade de aumentar a geração de etanol e dos coprodutos depende da tecnologia e da qualidade de operação da planta. Mas ele alerta que este mercado ainda precisa ser desenvolvido, com fidelização de clientes, para que o DDG em especial, não fique parado na usina e realmente traga o retorno esperado.
Ele ainda relembra que grande parte do coproduto é consumida pelo setor de confinamento bovino, que trabalha com uma dinâmica sazonal. Então, segundo Motta, é preciso “organizar bem” essas vendas.
RenovaBio e o milho
Outro ponto levantado por Motta é que o etanol de milho possui uma pegada de carbono semelhante ao de cana. Porém, a maneira como o mercado de grãos funciona faz com haja uma disparidade no programa RenovaBio. Segundo ele, isso faz com que a usina de cana-de-açúcar de Chapadão do Céu (GO) gere seis vezes mais créditos de descarbonização (CBios) do que sua contraparte de milho.
Conforme dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a nota da usina de cana do grupo é 63,8, enquanto a de milho chegou a 45,6, em uma diferença de 40%. A maior discrepância entre as duas, entretanto, é em relação ao volume elegível de matéria-prima: 95,6% para a cana e 20,8% para o milho.
Para Motta, a rastreabilidade do grão é o grande fator dificultador: “Muito do suprimento de milho vem de cooperativas e tradings. Fazer o rastreamento adequado para atender às demandas da RenovaCalc é extremamente difícil, para não dizer impossível”.
Segundo ele, é necessário fazer uma atualização, pois o etanol de milho pode auxiliar no aumento de ofertas de CBios, de forma a garantir que haja títulos suficientes para cumprimento das metas para os próximos anos.
Ele, no entanto, não cita as novas propostas para a cadeia de custódia de grãos, que preveem melhoria na rastreabilidade de grãos no programa. Os estudos já renderam até mesmo um informe técnico pela ANP.
“Este é um desafio importante, tanto no lado de ajustes na RenovaCalc quanto para produtores, que terão que encontrar mecanismos com fornecedores, cooperativas e tradings para atender aquilo que vier a ser definido”, conclui.
Giully Regina – NovaCana