A cana-de-açúcar vive o dilema da mulher de César: não basta ser sustentável, é necessário demonstrá-lo recorrentemente.![]() |
Decantada como uma opção que reduz emissões de GEE, a cana-de-açúcar vive o dilema da mulher de César: não basta ser sustentável, é necessário demonstrá-lo recorrentemente. Não basta produzir bioetanol, um biocombustível amigável ao ambiente, é necessário demonstrar sua sustentabilidade.
Teoria e prática
No vácuo de estudos de campo, modelos matemáticos têm sido usados para estimar as emissões de GEE da cana. Um modelo que vinha sendo amplamente aceito em setores governamentais e acadêmicos foi desenvolvido pelo Dr. Paul Crutzen (Premio Nobel de Química) e colaboradores. No modelo foram utilizados...
É consenso o fato de que o impulso dos últimos dez anos à produção e uso de energia renovável – biocombustíveis inclusos – deve-se, em grande parte, às questões ambientais. E o principal ícone da temática ambiental ligada à energia, são as emissões de gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas globais. Menores emissões podem significar a diferença entre ocupar maior ou menor espaço de mercado, razão pela qual é muito importante estabelecer, além de qualquer dúvida razoável, as emissões reais de qualquer fonte de energia.
Decantada como uma opção que reduz emissões de GEE, a cana-de-açúcar vive o dilema da mulher de César: não basta ser sustentável, é necessário demonstrá-lo recorrentemente. Não basta produzir bioetanol, um biocombustível amigável ao ambiente, é necessário demonstrar sua sustentabilidade. Um dos critérios de sustentabilidade de uma cultura exige a demonstração de que as emissões de gases de efeito estufa sejam baixas, comparativamente a outros cultivos ou outras fontes de emissão.
O modelo estabeleceu que se o fator de emissão de N2O da cultura de cana-de-açúcar ultrapassasse 5% da quantidade de nitrogênio dos fertilizantes, os ganhos ambientais do uso do etanol como biocombustíveis seriam frágeis demais para que o produto fosse considerado uma fonte de energia limpa. O prejuízo ambiental causado pela emissão de N2O não seria compensado pelo sequestro de carbono ocasionado pela fotossíntese e pela alta eficiência energética da cana-de-açúcar. A íntegra do estudo pode ser obtida em Crutzen, P. J.; Mosier, A. R.; Smith, K. A.; Winiwarter, W. - "N2O release from agro-biofuel production negates global warming reduction by replacing fossil fuels". Atmos. Chem. Phys. 8: 389–395 (2008).
Obviamente que um estudo assinado por um detentor de um Premio Nobel de Química, negando a mitigação das mudanças climáticas globais, devido a elevadas emissões de GEE no ciclo produtivo de matéria prima de biocombustíveis, tem o poder de impactar negativamente investimentos públicos e privados no setor.
Contrariamente ao que consta no artigo do Dr. Crutzen e colaboradores, a principal conclusão do estudo é que as emissões efetivas são menores que aquelas estimadas pelos modelos. A pesquisa liderada pela Dra. Janaína do Carmo, da UFSCar, encontrou emissões de 6,9 kg/ha/ano de CO2 e 7,5 kg/ha/ano de N2O. Como o potencial de aquecimento global do NO2 é 310 vezes superior ao CO2, as emissões de NO2 medidas em CO2 equivalente (o padrão universal de medida de emissões de GEE) ascendem a 2.330 kg/ha/ano. Se computadas as emissões de metano, este valor poderia chegar a 3.000 kg/ha/ano.
O fator de emissão de uma fonte é fundamental para o estabelecimento de políticas públicas, como a definição de "biocombustível avançado", que exige baixas emissões para seu enquadramento nesta categoria, o que lhe confere melhores condições de acesso ao mercado. Portanto, o estabelecimento dos valores reais de GEE nos ciclos de produção de biocombustíveis é fundamental para o planejamento energético dos países, que se desdobra na definição dos investimentos no sistema industrial e na produção da matéria prima.
Como as emissões de óxido nitroso estão fortemente associadas com a adubação e com a presença de resíduos da cultura no campo, estes aspectos foram estudados pelos cientistas. Por tratar-se de um estudo experimental, os pesquisadores procuraram avaliar a interação entre diferentes situações, mesmo extrapolando as doses de fertilizantes. Foi, então, observado que as emissões aumentavam quando a cana foi fertilizada com vinhaça e torta de filtro (resíduos da produção de etanol, ricos em fertilizantes, especialmente em nitrogênio), e quando havia grande quantidade de palha de cana no solo, que também é rica em nitrogênio, e cuja decomposição libera óxido nitroso. Assim mesmo, os fatores de emissão situavam-se abaixo do calculado pelo Dr. Crutzen e seus colaboradores, reforçando as conclusões anteriores.
Com o aprendizado obtido neste estudo, os autores já planejam investigar o balanço das emissões e captações de gases do efeito estufa na produção de etanol, para estabelecer, em definitivo, as emissões reais durante todo o ciclo da cultura, em condições de campo.
Décio Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.
Teoria e prática
No vácuo de estudos de campo, modelos matemáticos têm sido usados para estimar as emissões de GEE da cana. Um modelo que vinha sendo amplamente aceito em setores governamentais e acadêmicos foi desenvolvido pelo Dr. Paul Crutzen (Premio Nobel de Química) e colaboradores. No modelo foram utilizados...
É consenso o fato de que o impulso dos últimos dez anos à produção e uso de energia renovável – biocombustíveis inclusos – deve-se, em grande parte, às questões ambientais. E o principal ícone da temática ambiental ligada à energia, são as emissões de gases de efeito estufa (GEE), causadores das mudanças climáticas globais. Menores emissões podem significar a diferença entre ocupar maior ou menor espaço de mercado, razão pela qual é muito importante estabelecer, além de qualquer dúvida razoável, as emissões reais de qualquer fonte de energia.
Decantada como uma opção que reduz emissões de GEE, a cana-de-açúcar vive o dilema da mulher de César: não basta ser sustentável, é necessário demonstrá-lo recorrentemente. Não basta produzir bioetanol, um biocombustível amigável ao ambiente, é necessário demonstrar sua sustentabilidade. Um dos critérios de sustentabilidade de uma cultura exige a demonstração de que as emissões de gases de efeito estufa sejam baixas, comparativamente a outros cultivos ou outras fontes de emissão.
Teoria e prática
No vácuo de estudos de campo, modelos matemáticos têm sido usados para estimar as emissões de GEE da cana. Um modelo que vinha sendo amplamente aceito em setores governamentais e acadêmicos foi desenvolvido pelo Dr. Paul Crutzen (Premio Nobel de Química) e colaboradores. No modelo foram utilizados valores extraídos de um estudo publicado em 2008, cujo título é muito taxativo (Liberação de óxido nitroso na produção de agrobiocombustíveis nega mitigação do aquecimento global pela substituição de combustíveis fósseis).O modelo estabeleceu que se o fator de emissão de N2O da cultura de cana-de-açúcar ultrapassasse 5% da quantidade de nitrogênio dos fertilizantes, os ganhos ambientais do uso do etanol como biocombustíveis seriam frágeis demais para que o produto fosse considerado uma fonte de energia limpa. O prejuízo ambiental causado pela emissão de N2O não seria compensado pelo sequestro de carbono ocasionado pela fotossíntese e pela alta eficiência energética da cana-de-açúcar. A íntegra do estudo pode ser obtida em Crutzen, P. J.; Mosier, A. R.; Smith, K. A.; Winiwarter, W. - "N2O release from agro-biofuel production negates global warming reduction by replacing fossil fuels". Atmos. Chem. Phys. 8: 389–395 (2008).
Obviamente que um estudo assinado por um detentor de um Premio Nobel de Química, negando a mitigação das mudanças climáticas globais, devido a elevadas emissões de GEE no ciclo produtivo de matéria prima de biocombustíveis, tem o poder de impactar negativamente investimentos públicos e privados no setor.
Emissões reais
Cientistas brasileiros resolveram aprofundar o estudo do tema, em condições de campo. Um trabalho pioneiro, liderado pela UFSCar, e que envolveu outras Universidades, a Embrapa, o IAC e o CTC, investigou a relação entre as emissões de GEE, a adubação e o acúmulo de palhada no canavial. O estudo completo pode ser acessado em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1757-1707.2012.01199.x/pdf.Contrariamente ao que consta no artigo do Dr. Crutzen e colaboradores, a principal conclusão do estudo é que as emissões efetivas são menores que aquelas estimadas pelos modelos. A pesquisa liderada pela Dra. Janaína do Carmo, da UFSCar, encontrou emissões de 6,9 kg/ha/ano de CO2 e 7,5 kg/ha/ano de N2O. Como o potencial de aquecimento global do NO2 é 310 vezes superior ao CO2, as emissões de NO2 medidas em CO2 equivalente (o padrão universal de medida de emissões de GEE) ascendem a 2.330 kg/ha/ano. Se computadas as emissões de metano, este valor poderia chegar a 3.000 kg/ha/ano.
Fator de emissão
A pesquisa revelou que o fator de emissão nos canaviais adubados apenas com fertilizantes nitrogenados chegou a 0,68%. Em outras palavras, de cada 100 quilos de nitrogênio utilizados como adubo, 680 gramas foram transformados em óxido nitroso e emitidos para a atmosfera. Este valor situa-se muito abaixo dos 5% estimados no trabalho de Crutzen e colaboradores.O fator de emissão de uma fonte é fundamental para o estabelecimento de políticas públicas, como a definição de "biocombustível avançado", que exige baixas emissões para seu enquadramento nesta categoria, o que lhe confere melhores condições de acesso ao mercado. Portanto, o estabelecimento dos valores reais de GEE nos ciclos de produção de biocombustíveis é fundamental para o planejamento energético dos países, que se desdobra na definição dos investimentos no sistema industrial e na produção da matéria prima.
Conclusões
Nas medições, realizadas em canaviais de Jaú e Piracicaba, os cientistas encontraram fatores de emissão tão baixos quanto 0,68%. Na média final do estudo, o fator calculado foi inferior a 1%, contrastando fortemente com os valores de 3-5%, usados pelo Dr. Crutzen e colaboradores em seu modelo matemático.Como as emissões de óxido nitroso estão fortemente associadas com a adubação e com a presença de resíduos da cultura no campo, estes aspectos foram estudados pelos cientistas. Por tratar-se de um estudo experimental, os pesquisadores procuraram avaliar a interação entre diferentes situações, mesmo extrapolando as doses de fertilizantes. Foi, então, observado que as emissões aumentavam quando a cana foi fertilizada com vinhaça e torta de filtro (resíduos da produção de etanol, ricos em fertilizantes, especialmente em nitrogênio), e quando havia grande quantidade de palha de cana no solo, que também é rica em nitrogênio, e cuja decomposição libera óxido nitroso. Assim mesmo, os fatores de emissão situavam-se abaixo do calculado pelo Dr. Crutzen e seus colaboradores, reforçando as conclusões anteriores.
Com o aprendizado obtido neste estudo, os autores já planejam investigar o balanço das emissões e captações de gases do efeito estufa na produção de etanol, para estabelecer, em definitivo, as emissões reais durante todo o ciclo da cultura, em condições de campo.
Décio Gazzoni é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.