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Em crise, Braskem e Raízen usam cenário eleitoral em “paralisia negocial estratégica”

Reação do mercado e valorização dos ativos brasileiros após primeiro turno abre espaço para tentativa de rever termos da negociação da dívida com credores ou para ganhar mais tempo

O Globo 5 min de leitura

A melhora temporária do mercado está influenciando o rumo nas mesas de negociação de empresas em recuperação judicial e extrajudicial.

Advogados especialistas no tema consultados pelo Globo observam que, com a possibilidade no radar de queda de juros e valorização de ativos brasileiros, sinalizada pelo desempenho da Bolsa e da baixa nos contratos de juros futuros após o candidato Flávio Bolsonaro (PL) sair na frente no primeiro turno da eleição presidencial, companhias devedoras com algum fôlego financeiro adotam uma postura mais cautelosa.

Ou seja, elas estão avaliando se vale a pena vender bens e unidades produtivas agora ou esperar para negociar em uma posição melhor.

“Existe um clima de compasso de espera, gerando o que podemos chamar de ‘paralisia negocial estratégica’”, afirma o administrador judicial e sócio do Arake, Tomazette, Borges & Glicério Advogados, João Glicério.

Ele explica: “O devedor quer empurrar a negociação com a barriga, apostando que o juro vai cair e o ativo vai valorizar. O credor, do outro lado da mesa, avalia que, se a situação do devedor vai melhorar no ano que vem, por que dar um grande desconto agora? Fica esse cabo de guerra tático”.

Processos de reestruturação financeira de grandes companhias, como a Cosan (uma das controladoras da Raízen, que entrou em processo de recuperação extrajudicial) e a Braskem (que também entrou com pedido de recuperação extrajudicial), ilustram como as expectativas sobre decisões políticas e sobre o mercado financeiro já entram nessas contas.

A Cosan vinha sendo pressionada pelo custo elevado dos juros para reduzir sua dívida. A lógica diante de juros altos e endividamento é vender patrimônio rapidamente para fazer caixa e quitar débitos. Ela amortizou dívidas com um aporte de R$ 10,5 bilhões de investidores como BTG e Perfin, e do próprio controlador, Rubens Ometto, no fim do ano passado.

Além disso, reduziu custos operacionais, o que fez com que a empresa ganhasse liquidez. Com isso, passou a reavaliar o momento para não vender na baixa ativos como a Rumo (logística), Compass (gás e energia) e Moove (lubrificantes), conforme noticiado pela Bloomberg e confirmado pelo Globo. Com o otimismo recente do mercado, suas ações dispararam 24% na primeira semana de outubro.

Na Braskem, a mudança de expectativa aparece na avaliação de risco e na disputa por aportes de capital. Os credores internacionais (bondholders) exigem garantias concretas e um aporte robusto de capital (US$ 3 bilhões aos acionistas, enquanto a proposta recente ofereceu US$ 1 bilhão).

Sendo a Petrobras uma acionista importante na Braskem, a expectativa de novos rumos na condução do governo e da política econômica altera a leitura sobre como a estatal se posicionará. As partes têm até hoje para um acordo, que se não for fechado poderia levar a empresa a um pedido de recuperação judicial.

“Os casos da Cosan e da Braskem mostram que o cenário político e econômico já começa a entrar nas contas de quem está negociando uma reestruturação de dívidas”, aponta a advogada especialista em recuperação judicial sócia da WLM Advogados, Mara Denise Poffo Wilhelm.

Ela completa: “Uma eventual queda dos juros e uma melhora do mercado podem fazer com que empresas reavaliem a necessidade de alienar determinados ativos agora, preferindo esperar por uma valorização maior”.

Marcos Pelozato, advogado e especialista em reestruturação empresarial, observa que algumas empresas e credores estão adotando postura mais cautelosa nas negociações até que exista maior clareza sobre o resultado eleitoral e a política econômica.

Mas ele lembra que Cosan e Braskem são grandes companhias, com ativos relevantes, acesso a investidores estrangeiros e alternativas para captar recursos.

Já uma empresa de médio porte, muitas vezes, depende do crédito bancário, dos fornecedores e do próprio faturamento para continuar funcionando. “Por isso, esperar pode ser uma estratégia para quem tem liquidez”, diz.

O que o investidor sinalizou com alta da Bolsa e baixa do dólar é uma aposta em mais disciplina fiscal, numa eventual troca de governo, e, por consequência, juros mais baixos adiante.

Outras variáveis

Glicério lembra que além da eleição presidencial, há outras variáveis, como Reforma Tributária, crise do Judiciário, guerras no exterior, que também são observadas: “Diante disso, o que temos visto é uma certa reticência, uma espera, de ambos os lados (credor e devedor). Minutas de acordos ou de redações de cláusulas que já deveriam ter sido finalizadas estão sendo retidas até a poeira assentar”.

Procurada, a Cosan não comentou. Fontes de mercado a par do processo de desalavancagem da empresa, disseram que a companhia manterá as alienações de ativos divulgadas em fatos relevantes ao mercado e que a companhia não pautou esse processo contando com uma mudança de cenário político-econômico.

A Braskem informou que os termos da negociação estão em andamento, independentemente do cenário eleitoral e sendo discutidos entre as partes. “A companhia permanece empenhada em buscar uma solução consensual e ordenada para sua reestruturação financeira e manterá o mercado informado sobre os próximos passos, no momento adequado”, disse a Braskem em nota.

João Sorima Neto

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