Existe um grupo de empresas que, mesmo em um cenário de dúvidas e precaução nos investimentos, conseguiu fazer de 2014 um ano lucrativo
Margens negativas e retorno do capital investido bem abaixo do esperado são rotineiros em um setor que se deteriora há anos. Impulsionada pelo alto endividamento e falta de políticas públicas de incentivo à produção de etanol, a crise do setor sucroenergético está encolhendo o setor, com o paulatino fechamento de usinas.
Há, porém, exceções. Existe um grupo de empresas que, mesmo em um cenário de dúvidas e precaução nos investimentos, conseguiu fazer de 2014 um ano lucrativo.
O NovaCana elaborou um ranking com base nas 81 maiores empresas do setor sucroenergético, incluídas na lista das mil maiores empresas do país em faturamento.
Das 81 empresas, 50 obtiveram lucro em 2014. O número é maior que o registrado em 2013, quando, das 78 companhias listadas entre as maiores do segmento, 41 encerraram o período “no azul”. A média dos lucros destas 50 chegou a US$ 19,13 milhões.
O ano passado também marcou um período de recuperação, após as 20 empresas mais lucrativas verem seu lucro cair pela metade de 2011 para 2013. Em 2014 a rentabilidade somada desta elite subiu para US$ 772 milhões, uma recuperação em relação aos US$ 581 milhões do ano anterior, mas ainda abaixo dos registrados em 2012 (US$ 856 milhões). Veja gráfico abaixo.

Top 50
Quem acompanha os resultados financeiros das empresas, vai notar que as três no topo da lista são uma surpresa.
Margens negativas e retorno do capital investido bem abaixo do esperado são rotineiros em um setor que se deteriora há anos. Impulsionada pelo alto endividamento e falta de políticas públicas de incentivo à produção de etanol, a crise do setor sucroenergético vem levando ao encolhimento do setor, com o paulatino fechamento de usinas. Há, porém, exceções. Existe um grupo de empresas que, mesmo em um cenário de dúvidas e precaução nos investimentos, conseguiu fazer de 2014 um ano lucrativo.
O NovaCana elaborou um ranking com base nas 81 maiores empresas do setor sucroenergético, incluídas na lista das mil maiores empresas do país em faturamento, elaborada pela Revista Exame em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuárias e Financeiras (Fipecafi).
Das 81 empresas, 50 obtiveram lucro em 2014. O número é maior que o registrado na edição de 2013, quando, das 78 companhias listadas entre as maiores do segmento, 41 encerraram o período “no azul”. A média dos lucros destas 50 chegou a US$ 19,13 milhões.
O lucro somado das 20 empresas mais lucrativas do setor em 2014 foi de US$ 772,30 milhões, o que indica uma recuperação em relação aos US$ 581 milhões do ano anterior, mas ainda abaixo dos registrados em 2012 (US$ 856 milhões) e 2011 (1,17 bilhão).

Pódio contraditório
As três empresas no topo da lista da Exame entre as que mais lucraram no ano passado pertencem ao grupo Odebrecht Agroindustrial, que conta com nove usinas. As unidades Agro Energia Santa Luzia (MS), Conquista do Portal (SP) e Rio Claro (GO) teriam lucrado, respectivamente, US$ 108 milhões, US$ 95,7 milhões e US$ 69,4 milhões.
O resultado é surpreendente; primeiro porque as três usinas do grupo Odebrecht que lideram a lista figuraram entre as empresas do setor com os maiores prejuízos em 2013. Além disso, no consolidado da última safra canavieira (abril 2014 até março 2015), as unidades da Odebrecht Agro registraram um prejuízo conjunto de quase R$ 1,2 bilhão.
A distorção pode ser atribuída à limitação do período contabilizado. A metodologia empregada na pesquisa realizada pela Exame e Fipecafi, considera os resultados financeiros disponibilizados até maio de 2015. Com isso, em geral, os valores mencionados não refletem o ano fiscal das companhias, mas sim o ano civil de 2014. Esse recorte deixa para trás o último trimestre das sucroenergéticas, que começam a publicar o resultado integral do exercício, encerrado em 31 de março, a partir de junho.
Também da Odebrecht Agro, estão no rol das maiores usinas em 2014 as empresas Usina Eldorado (MS), com lucro de US$ 43,2 milhões, Alcídia (SP) e Brenco (SP), com prejuízos respectivos de US$ 27,6 milhões e US$ 32,1 milhões.

Contexto da tríade
Liderando a lista de 2014, a Agro Energia Santa Luzia obteve US$ 180 milhões de lucro em 2014. A usina, situada em Nova Alvorada do Sul (MS), também é a primeira no ranking de rentabilidade do patrimônio ajustado, com 106,3%. Em 2013, o mesmo indicador registrou uma queda vertiginosa de 297%.
Em agosto do ano passado, a unidade conseguiu esmagar 32 mil toneladas de cana-de-açúcar em apenas um dia e em uma única linha de moagem. À época, a companhia avaliou o feito como um provável recorde mundial.
Com capacidade de moagem de 6 milhões de toneladas de cana por safra e 3,7 milhões de litros de etanol diários, sendo 900 mil de anidro e 2,8 milhões de hidratado, mais 624 mil MWh de capacidade de produção de energia, a empresa vem de prejuízo de US$ 30 milhões registrado em 2013.
Em vendas líquidas, a companhia aparece na 42ª posição, com US$ 143,2 milhões, leve decréscimo se comparado a 2013, quando a soma chegou a US$ 143,4 milhões.
Segunda na relação dos maiores lucros, com US$ 95,7 milhões, a Usina Conquista do Pontal, em Mirante do Paranapanema (SP), também reverteu o quadro negativo de 2013, quando encerrou o período com prejuízo de US$ 27,4 milhões.
Em vendas líquidas, a companhia ocupa um modesto 36ª lugar entre as 50 maiores no quesito, com US$ 152,7 milhões, acréscimo de 6% na comparação com o obtido em 2013, que foi de US$ 143,6 milhões.
No ano passado, a usina teve acesso a R$ 64,3 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no âmbito do ProRenova, e foi a principal beneficiada com recursos do programa. A empresa foi uma das 14 do setor que receberam, juntas, no terceiro trimestre, R$ 1,4 bilhão em financiamentos do banco.
A empresa Rio Claro, terceira no ranking de maiores lucros do setor e também parte do grupo Odebrecht Agroindustrial, somou US$ 69,4 milhões ao final de 2014. Das três listadas no topo da lista, foi a que registou maior prejuízo no período anterior, de US$ 71,5 milhões, vindo de uma também forte retração em 2012, US$ 50, 9 milhões.
Em vendas líquidas, a unidade, com sede em Caçú (GO), ocupa um dos últimos postos na relação das 50 maiores lucrativas, com US$ 137,4 milhões. O valor representa um crescimento de 23% sobre o registrado os US$ 111,6 milhões somados em 2013. Já se observado o crescimento das vendas, a empresa ocupa a 11ª posição entre as 50 mais lucrativas, com acréscimo de 23% em relação a 2013.
A usina foi uma das duas escolhidas pelo grupo para conquistar a certificação do Conselho de qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês) para estar apta a exportar etanol ao estado norte-americano, tradicionalmente um dos mais lucrativos para as usinas brasileiras. A busca pela certificação é parte de um processo de "expansão mais seletiva" apresentado pela Odebrecht Agroindustrial no relatório da safra 2013/2014, divulgado no segundo semestre do ano passado.
Usaçúcar, Raízen e São Martinho
A sequência da lista de maiores lucros obtidos em 2014, devolve razoabilidade ao ranking, com a presença dos grupos Usaçúcar, Raízen Energia e São Martinho.
Campeã do ano passado, o grupo paranaense Usaçúcar, com nove usinas, aparece na quarta posição. A companhia somou um lucro de US$ 56,4 milhões em 2014, 14% abaixo dos US$ 66,3 milhões que a colocou no primeiro posto na relação das mais positivas de 2013.
Já a Raízen, maior grupo sucroalcooleiro do país, que congrega ao todo 24 usinas, vem na sequência. A companhia tem resultados segmentados em quatro empresas diferentes – Raízen Energia, Raízen Tarumã, Cosan Caarapó e Raízen Araraquara – sendo a principal a Raízen Energia (SP), que caiu da terceira para a quinta posição, ainda que tenha elevado o lucro em 2014, que foi de US$ 50,8 milhões. No ano anterior, a empresa chegou a US$ 37,7 milhões e ficou no terceiro posto.
No sexto lugar entre as 50 mais lucrativas, aparecem empatadas a Usina Iracema (SP), do grupo São Martinho, e a Raízen Tarumã (SP), cada uma com um ganho de US$ 46,8 milhões em 2014. O resultado da Iracema é 99% superior ao obtido no ano anterior, quando a empresa obteve lucro de US$ 23,5 milhões e ficou na oitava posição. Já a Raízen Tarumã não estava no rol das maiores de 2013.
Cosan Caarapó e Raízen Araraquara registraram um resultado líquido ajustado de US$ 9,9 milhões e US$ 18,9 milhões, nesta ordem.
Metodologia
Considerando que a metodologia empregada na pesquisa realizada pela Exame e Fipecafi, contabiliza os resultados financeiros disponibilizados até maio de 2015, em geral, os valores mencionados não refletem o ano fiscal das companhias, mas sim o ano civil de 2014.
Mesmo para as companhias que tem o real como moeda funcional, todos os indicadores são expressos em dólares de abril de 2015, quando a média do câmbio pago pela moeda norte-americana foi de R$ 3,04. O câmbio deste período também reflete em alterações sobre os dados de anos anteriores.
Dados completos
A listagem completa com opções avançadas de filtro e navegação por todos os 26 indicadores financeiros de cada usina ou empresa pode ser acessado na plataforma de dados.
Filipe Albuquerque — NovaCana