Levantamento confirma e detalha tendências ao reunir estimativas atualizadas sobre o balanço do mercado global de açúcar nas temporadas 2017/18 e 2018/19
O mercado mundial de açúcar vive um panorama delicado: enquanto, no Brasil, a safra atual tem um tamanho incerto por causa da seca, países como Índia e Tailândia estão batendo recordes de produção.
A pesquisa concluída ontem (11) pelo NovaCana com 15 consultorias e empresas especializadas deixa claro que as estimativas da relação entre produção e consumo mundiais do adoçante seguem aumentando. A expectativa é de um excedente recorde na safra 2017/18, seguido de outro superávit, mesmo que menor, na safra que se inicia em outubro.
O levantamento exclusivo traz previsões que detalham a atual situação do mercado e projetam um excedente de açúcar por pelo menos duas safras – mesmo que as anteriores tenham sido deficitárias.
Confira gráficos comparativos, os fatores que mexem com o mercado e as previsões das seguintes consultorias e empresas especializadas:
- Abares
- BTG Pactual
- Citygroup Inc.
- Datagro
- F.O. Licht
- Greenpool
- Informa
- INTL FCStone
- ISO
- Louis Dreyfus
- Platts Kingsman
- Rabobank
- Sucden
- TRS
- USDA
O mercado mundial de açúcar vive um panorama delicado: enquanto, no Brasil, a safra atual tem um tamanho incerto por causa da seca, países como Índia e Tailândia estão batendo recordes de produção.
A pesquisa concluída ontem (11) pelo NovaCana com 15 consultorias e empresas especializadas deixa claro que as estimativas da relação entre produção e consumo mundiais do adoçante seguem aumentando. A expectativa é de um excedente recorde na safra 2017/18, seguido de outro superávit, mesmo que menor, na safra que se inicia em outubro.
O levantamento exclusivo traz previsões que detalham a atual situação do mercado e projetam um excedente de açúcar por pelo menos duas safras – mesmo que as anteriores tenham sido deficitárias.

A sondagem anterior, realizada em março, trouxe a visão de 15 empresas especializadas sobre a safra 2017/18. Na ocasião, todas, em diferentes medidas, indicavam um superávit de açúcar na temporada que vai até setembro deste ano.
Enquanto as estimativas de março giravam entre 3 milhões e 11,51 milhões de toneladas excedentes, com uma média de 5,92 milhões de toneladas, a pesquisa mais recente traz resultados que variam de 6,9 milhões a 19,56 milhões de toneladas excedentes, com uma média de 11,4 milhões de toneladas.
Comparativamente, o atual levantamento traz um aumento de 93% na média das estimativas feitas.

Dois superávits seguidos

Para a safra que se inicia em outubro, a expectativa é de mais um superávit, porém menor do que o esperado para 2017/18. Com números divulgados por 13 consultorias, o volume de açúcar excedente de 2018/19 tende a ser 44,7% menor que o da safra anterior, com a média de estimativas chegando a 6,3 milhões de toneladas.
O Departamento Australiano de Economia Agrícola e de Recursos (Abares) espera um superávit de 11 milhões de toneladas na safra 2017/18 e de 4 milhões de toneladas na próxima. Para a organização, a diferença entre as temporadas é consequência da queda na produção da União Europeia – que voltará aos rendimentos médios após os bons resultados deste ano – e da expectativa de que a produção na China e na Tailândia seja menor após uma temporada de recordes.
Já a trading Sucden estima um superávit de 11,8 milhões de toneladas nesta safra e de 7,3 milhões na próxima. Para o grupo, mesmo com o colapso nos preços do adoçante a nível mundial, não é esperada uma redução significativa nas colheitas de cana-de-açúcar ou de beterraba em 2018/19.
Porém, com o Brasil direcionando sua produção para o etanol, a previsão é que a produção global de açúcar volte aos níveis médios de desempenho. Para 2019/20, o grupo já arrisca um palpite: “Essa safra será atingida pelos preços baixos, pela diminuição das áreas de cultivo e pelo menor manejo da plantação, fazendo com que o campo fique mais suscetível a ameaças de eventos climáticos, diminuindo a produção”.
A menor estimativa para a safra 2018/19 é da Louis Dreyfus, com apenas 2 milhões de toneladas de açúcar excedente. O gerente de comércio global da empresa, Enrico Biancheri, afirma que “a companhia não compartilha da ideia de que a próxima safra também terá um grande superávit”. Assim, a multinacional aposta que a Índia não aumentará a produção da mesma forma que em 2017/18 e não surpreenderá mais uma vez o mercado global do adoçante.

Preço em queda constante
Com essas previsões a nível global, o preço do açúcar tem sofrido quedas vertiginosas, batendo recordes negativos e preocupando o mercado. Em maio de 2017, o adoçante foi negociado a 15,31 centavos de dólar por libra-peso, um valor que o mercado não via desde abril de 2016.
Já em agosto de 2017, o valor chegou a cUS$ 10,44/lb, o mais baixo visto nos últimos cinco anos. Por mais que tenha se recuperado no início de 2018, a commodity segue em queda, mantendo-se na faixa entre cUS$ 11 e cUS$ 16 por libra-peso.

Para o Abares, a previsão para o preço do açúcar na próxima safra é ainda pior. A expectativa é que ele caia mais 15%, para uma média de cUS$ 11/lb. O relatório afirma que “se concretizado, o preço indicador do açúcar mundial seria o menor desde 2003/04, quando ficou em torno de cUS$ 0,9/lb”.
Seguindo o mesmo raciocínio, o analista da Platts Kingsman na Suíça, Claudiu Covrig, em entrevista nos bastidores da Semana do Açúcar, afirmou que existe a possibilidade de que os preços do adoçante atinjam “dígito único” se as quedas continuarem. O declínio para esses níveis dependerá das perspectivas climáticas para a América do Sul e do ritmo das exportações da Índia, comentou.
Já o BTG Pactual concorda com o pessimismo sobre o preço, mas acredita que ele provavelmente se manterá entre os cUS$ 11 e cUS$ 12/lb no próximo ano. O banco projeta que, na safra 2018/19, o valor médio do açúcar pode ser o menor desde a safra 2006/07, quando chegou a cUS$ 10,4/lb.
O Rabobank conclui, em seu mais recente relatório sobre a commodity, que a relação entre oferta e demanda e os fluxos comerciais estão assumindo um papel cada vez mais importante na determinação da direção dos preços. Além disso, o banco também acredita que os valores sofrerão mais pressões negativas se o dólar continuar a se fortalecer.
Produção recorde
No Brasil, o período anormal de seca – que afetou, principalmente, o estado de São Paulo – teve bastante influência na colheita da cana no início da safra nacional. Somado ao fato de que o preço de açúcar não está compensando tanto quanto o do etanol, a produção do adoçante nesta temporada está mais baixa do que a vista nos últimos anos.
A Platts afirma que, entre abril e junho, as chuvas na região Centro-Sul “ficaram cerca de 48% abaixo da média histórica”, fazendo com que vários analistas reduzissem suas estimativas de produção de açúcar na região, especialmente considerando a segunda metade da safra.
O Abares, por outro lado, justifica a queda na produção brasileira de açúcar pelos preços relativamente baixos da commodity a nível nacional, incentivando as usinas a desviarem a cana-de-açúcar para a produção de etanol. Para a organização australiana, a expectativa de menor superávit em 2018/19 vem justamente da situação apresentada pelo maior produtor mundial de açúcar.
Em compensação, países como a Índia e a Tailândia estão batendo recordes históricos de produção, e são estes números que aumentaram a média das previsões para as safras atual e próxima.
O Rabobank já estava esperando grandes colheitas nos dois países, porém, em seu mais recente relatório, o banco afirmou que “estava errado”: “As safras não foram apenas grandes, mas sim, enormes”. Mesmo com a queda na produção de vários outros grandes produtores, inclusive o Brasil, o excedente global deve seguir alto graças à produção destes países, acredita o banco.
A Sucden concorda e afirma que a Índia está no caminho de alcançar seu maior recorde histórico. “A combinação de aumento de área cultivada, clima favorável, bons cuidados com a cultura e variedades melhoradas está levando o país a aumentar sua produção em mais de 50%”, afirma o relatório.

Já a Platts acrescenta que as principais regiões indianas de cultivo de cana-de-açúcar, como Maharashtra, Marathwada, Uttara Karnataka e Tamil Nadu, tiveram chuvas 8%, 122%, 78% e 31,3% acima da média nesta safra, respectivamente.
O grupo ainda afirma que a produção tailandesa desafiou todas as estimativas e atingiu um recorde de 135 milhões de toneladas de cana produzidas. Porém, diferentemente da Índia, essa produção já tem destinação certa e estará disponível para a exportação.
Neste tema, o Rabobank explica que o país indiano propôs uma série de medidas para resolver os problemas criados pela grande safra, como a determinação de um estoque de 3 milhões de toneladas de açúcar. Mas, além disso, muitos analistas afirmam que o produtor precisará se concentrar nas exportações, senão nesta safra, nas próximas, para lidar com tamanho excedente.
João Paulo Botelho, analista da INTL FCStone, concorda: “Com um aumento tão rápido da produção da Índia, o mercado de açúcar está tendo de enfrentar uma questão que não era esperada para este ano: a possibilidade de exportações de grandes volumes de açúcar branco pelo país asiático nos próximos meses”.
Ele analisa que a sobreoferta do adoçante aumentaria ainda mais com a entrada do país no mercado, pois o Paquistão e a União Europeia também passaram a ser grandes exportadores este ano. Ainda assim, o Brasil deve seguir exportando mais do que qualquer outra nação.
Crescimento moderado do consumo
O superávit de açúcar acontece quando a relação produção-consumo está desequilibrada. Para o Abares, na safra 2018/19, o consumo terá um crescimento moderado, acompanhando os preços do adoçante e o aumento da população nos países em desenvolvimento.
Já nas economias mais desenvolvidas, o crescimento da demanda pelo açúcar é limitado pelo lento aumento populacional, pela dieta focada na saúde e pela consequente substituição do adoçante por alternativas mais saudáveis.
“Com exceção da União Europeia, o consumo deverá aumentar ligeiramente em todos os principais países consumidores de açúcar, incluindo os Estados Unidos. A previsão é de estabilidade em outras economias desenvolvidas, como Austrália, Canadá, Japão e Nova Zelândia”, afirma o relatório.

Para a INTL FCStone, a demanda deve crescer entre 1,3% a 1,4% na próxima safra. A expectativa dos preços baixos deve estimular o consumo, “atingindo principalmente os países subdesenvolvidos, onde a redução no custo de aquisição do adoçante terá mais impacto sobre o orçamento de indústrias e famílias”.
No maior país consumidor do mundo, a Índia, a previsão da consultoria para a grande oferta de açúcar – que vai manter a pressão sobre os preços domésticos – é que a população aumente a demanda do adoçante em detrimento de alternativas mais baratas, como o gur.
Especificamente na Índia, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) prevê um recorde de consumo graças à população em constante crescimento e a uma grande demanda por parte de processadoras de alimentos.
O diretor-executivo da Organização Internacional do Açúcar (ISO), José Orive, foi categórico sobre a queda da demanda: “O consumo deverá crescer neste ano ao ritmo mais fraco desde 2000, uma desaceleração ‘perigosa’ que está ampliando o excedente. A mudança nas preferências dos consumidores tem contribuído para a demanda morna, considerando que mais pessoas estão se distanciando do açúcar adicionado aos alimentos e das bebidas açucaradas devido a preocupações com a saúde”.
Concentração nos estoques
Com a produção superando o consumo, a expectativa é de estoques cada vez mais cheios. O Abares acredita que, em 2018/19, as reservas batam também os recordes históricos.
“Estima-se que os estoques mundiais de açúcar aumentem 5% em 2018/19, devido à produção mundial exceder o consumo pelo segundo ano consecutivo. A relação entre estoques e uso mundiais deve ficar em torno de 47% em 2018/19, acima dos 45% de 2017/18”, afirma o relatório da organização.

A FCStone espera estoques ainda maiores, já que o incremento da demanda não foi suficiente para alcançar a oferta. A previsão é que eles cresçam 7,2 milhões de toneladas. “Com isso, a relação estoques-uso do açúcar deve subir para 48,1% ao final da safra 2018/19, o maior nível de nossa série histórica”, avalia o analista de mercado João Paulo Botelho.
A Platts concorda, resumindo: “Com tudo isso somado, o excesso de açúcar se mantém: de 2006/07 até o final de 2018/19, vemos um excedente acumulado global de açúcar de até 48,09 milhões de toneladas”.
NovaCana DATA
Rafaella Coury – NovaCana