Instituto aponta que a temporada será de uma recuperação modesta, com índices ainda abaixo da média histórica
Depois de enfrentarem uma série de desafios climáticos na safra 2021/22, é normal que os produtores de cana-de-açúcar esperem por um cenário melhor na temporada seguinte. Entretanto, com pouco mais de dois meses do início do ciclo 2022/23, a recuperação se mostra tímida.
Após um primeiro trimestre mais chuvoso em 2022, a safra começou com um bom nível de umidade para os canaviais da região Centro-Sul. Apesar de serem boas notícias, as precipitações acabam influenciando na produtividade da cana-de-açúcar, levando a uma curva de açúcares totais recuperáveis (ATR) mais baixa do que a vista na temporada anterior.
No mais recente evento Expedição Custos Cana, promovido pelo Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), o analista Raphael Delloiagono explicou o contexto da safra até o dia 19 de junho e falou sobre quais são as perspectivas para os próximos meses em relação a moagem, qualidade, mix de produção e o futuro dos preços dos produtos.
O analista aponta que, em 2021/22, houve uma queda expressiva da qualidade da matéria-prima, porém, isso ocorreu apenas a partir do segundo semestre, como resultado das geadas que atingiram boa parte da região.
O ciclo atual, então, é visto como uma continuação da quebra, com índices ainda abaixo da média histórica. “Mas a expectativa é de que não ocorra um caimento acentuado, sob condições climáticas dentro da normalidade”, afirma.
Em relação ao direcionamento desta matéria-prima para a produção, o instituto acredita que 2022/23 será uma safra mais alcooleira. Afinal, houve uma valorização dos combustíveis, com aumentos recentes do preço do petróleo, principalmente devido a uma retomada do consumo e da guerra no leste europeu. “O início de safra geralmente é voltado ao etanol, mas agora foi maior do que o normal”, disse.
O analista ainda aponta que, nestes primeiros meses de temporada, o mix de produção aumentou em quase 5 pontos percentuais em benefício do biocombustível.
Ainda assim, o Pecege acredita que a temporada 2022/23 será de uma recuperação tímida. Isso ocorre porque o aumento previsto para a produção ainda deverá ser afetado pela reforma dos canaviais e pela migração de cultura, uma vez que os grãos, em especial milho e soja, estão sendo mais rentáveis aos produtores. Ou seja, há uma queda na área agrícola total destinada a cana nesta safra.
Confira no texto completo, exclusivo para assinantes, mais detalhes sobre as perspectivas do Pecege em relação à temporada corrente, incluindo projeções para a produção e para os preços de etanol e açúcar.
Depois de enfrentarem uma série de desafios climáticos na safra 2021/22, é normal que os produtores de cana-de-açúcar esperem por um cenário melhor na temporada seguinte. Entretanto, com pouco mais de dois meses do início do ciclo 2022/23, a recuperação se mostra tímida.
Após um primeiro trimestre mais chuvoso, a safra começou com um bom nível de umidade para os canaviais da região Centro-Sul. Apesar de serem boas notícias, as precipitações acabam influenciando na produtividade da cana-de-açúcar, levando a uma curva de açúcares totais recuperáveis (ATR) mais baixa do que a vista na temporada anterior.
No mais recente evento Expedição Custos Cana, promovido pelo Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), o analista Raphael Delloiagono explicou o contexto da safra até o dia 19 de junho e falou sobre quais são as perspectivas para os próximos meses em relação a moagem, qualidade, mix de produção e o futuro dos preços dos produtos.
O analista aponta que, em 2021/22, houve uma queda expressiva da qualidade da matéria-prima, porém, isso ocorreu apenas a partir do segundo semestre, como resultado das geadas que atingiram boa parte da região.
O ciclo atual, então, é visto como uma continuação da quebra, com índices ainda abaixo da média histórica. “Mas a expectativa é de que não ocorra um caimento acentuado, sob condições climáticas dentro da normalidade”, afirma.
Em relação ao direcionamento desta matéria-prima para a produção, o instituto acredita que 2022/23 será uma safra mais alcooleira. Afinal, houve uma valorização dos combustíveis, com aumentos recentes do preço do petróleo, principalmente devido a uma retomada do consumo e da guerra no leste europeu. “O início de safra geralmente é voltado ao etanol, mas agora foi maior do que o normal”, disse.
O analista ainda aponta que, nestes primeiros meses de temporada, o mix de produção aumentou em quase 5 pontos percentuais em benefício do biocombustível.
Moagem e qualidade da cana
De forma geral, o Pecege acredita que a temporada 2022/23 será de uma recuperação tímida. Isso ocorre porque o aumento previsto para a produção ainda deverá ser afetado pela reforma dos canaviais e pela migração de cultura, uma vez que os grãos, em especial milho e soja, estão sendo mais rentáveis aos produtores. Ou seja, há uma queda na área agrícola total destinada a cana nesta safra.
Até o dia 19 de junho, perto de completar três meses do início da temporada, a moagem chegou a 107,1 milhões de toneladas. O volume representa uma queda de 18% ante as 130,4 milhões de tonelada que já haviam sido moídas no mesmo período do ano passado.
Até o final da safra, o Pecege acredita que a moagem chegará a 542 milhões de toneladas, apenas 3,6% acima das 523 milhões de toneladas vistas na temporada anterior. A estimativa do instituto, inclusive, é uma das menores entre as 24 empresas consultadas pelo NovaCana ainda no começo do mês.
Delloiagono, entretanto, aponta que, mesmo com uma maior produção, a qualidade da matéria-prima ainda tende a cair. Até a segunda quinzena de maio, o nível acumulado da qualidade da cana chegou a 122,1 quilos de ATR por tonelada, 5% abaixo do ciclo anterior, de 128,5 kg/t – o que foi influenciado justamente pelas chuvas no período de entressafra.
Assumindo uma normalidade climática nos próximos meses, o Pecege estima que o indicador poderá se estabilizar próximo da média histórica, mas ainda deve apresentar uma queda ao final da temporada, ficando em 136,93 kg/t e totalizando 74,29 mil toneladas.
Com a moagem tendo começado mais tarde, Delloiagono acredita que é possível que a temporada 2022/23 também alongue o seu encerramento, chegando aos meses mais chuvosos do ano a partir do início da primavera – e a umidade excessiva pode influenciar diretamente o nível de ATR.
Ainda assim, ele explica que, baseado nas safras anteriores, a tendência é de que mais de 90% da matéria-prima esteja colhida até outubro.
Produção de açúcar e etanol
Devido aos preços mais elevados dos combustíveis, o instituto projeta que esta será uma safra mais voltada para a produção de etanol, ficando até mesmo acima da média dos últimos anos no pico da temporada.
Há quase três meses de seu início, o mix de produção já chegou a 59,5% em favorecimento ao biocombustível, um aumento de 4,5 pontos percentuais na comparação entre ciclos. “Se o etanol deixar de ser tão rentável como neste começo de safra, a curva do mix poderá voltar à normalidade, ou eventualmente até ficar abaixo disso”, esclarece Delloiagono.
No cenário de alta para a produção de etanol, o instituto não considera as mudanças políticas para uma nova formação de preços, como o teto de 17% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que foi sancionado pelo presidente na última quinta-feira, 23. O analista afirma que essas mudanças poderão alterar a relação entre os preços de etanol e gasolina, afetando sua trajetória no decorrer do ano.
Além disso, o volume de produção ainda não voltou a normalidade devido ao atraso no início da moagem. Até a segunda metade de maio, já foram fabricadas 5,05 milhões de toneladas de açúcar, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica). O valor implica em uma queda de 29,8% em comparação com as 7,19 milhões de toneladas vistas no mesmo período do ano passado.
A expectativa do instituto é que, até o encerramento do ciclo, sejam produzidas 29,35 milhões de toneladas. Isto representaria uma retração de 8,5% ante 2021/22.
O biocombustível, mesmo com um mix mais focado em sua produção, registrou quedas tanto com o anidro quanto com o hidratado. O volume de etanol a ser misturado à gasolina chegou a 1,6 bilhão de litros no acumulado do ano, decréscimo de 13%, enquanto a versão do produto que pode abastecer diretamente os veículos somou 3,6 bilhões de litros, redução de 12%.
Até o final da temporada, o instituto espera que sejam fabricados 10 bilhões de litros de etanol anidro (-5%) e 17,97 bilhões de litros de hidratado (+6%).
Sendo assim, o Pecege aponta para uma produção mais modesta durante a temporada. O aumento da moagem e a queda da produtividade deve resultar em um nível de ATR equivalente ao da safra passada. “É como se o aumento da produção fosse compensado pela queda na qualidade”, justifica Delloiagono.
Mercado de açúcar
No mercado internacional, o preço de açúcar se encontra abaixo de outras commodities, como o milho e a soja. Isso justifica o movimento de troca de culturas, com o produtor dando preferência para os grãos, considerados mais rentáveis atualmente.
Ainda assim, o Pecege acredita que o balanço global de açúcar será positivo ao final da temporada, com um superávit em torno de 2 milhões de toneladas. O instituto estima que as boas safras da Índia e da Tailândia poderão compensar a queda na produção brasileira do adoçante.
Já é esperado, com a queda na produção, que a exportação de açúcar também seja menor. Por mais que o Brasil tenda a exportar todo o seu excedente produtivo, o país deverá ser responsável por 42% dos envios internacionais em 2022/23, mesma média da safra anterior. Ele será seguido por Tailândia (17%), Índia (8%) e Austrália (6%).
Em relação ao fundo especulativo do mercado de açúcar, o Pecege aponta que houve um recuo após o início da safra do Centro-Sul, com um breve estresse durante a semana de frio mais intenso vivida em maio, pois os agentes enxergaram pouco espaço para aumento dos preços. “O mercado está percebendo que a safra foi tardia e que a recuperação do canavial, depois do tombo da safra passada, não seria tão expressiva”, aponta Delloiagono.
Assim, a tendência é que as pressões altistas de preços sejam reduzidas. Da mesma forma, a perspectiva de queda no preço do etanol brasileiro também favorece uma diminuição nos valores internacionais do adoçante. Esta queda, entretanto, é limitada pelo alto preço do petróleo negociado internacionalmente.
De acordo com o Pecege, a partir de dados da ICE e do Banco Central do Brasil, o preço do açúcar no mercado internacional pode chegar a 18,95 centavos de dólar por libra-peso, o que seria equivalente a R$ 2,08 mil por tonelada.
Já no mercado interno, o preço do açúcar deve se manter estável. O Pecege projeta que o indicador do açúcar VHP em São Paulo ficará em R$ 96,26 por saca de 50 quilos, uma queda de 3% ante a safra passada. Enquanto isso, o açúcar cristal deverá ser negociado a R$ 124,2 por saca de 50 kg, uma valorização de 3,5%.
Mercado de etanol
Na safra 2021/22, o aumento da demanda por gasolina favoreceu as vendas de etanol anidro. Mas, a redução no nível de moagem, os preços internacionais e a taxa de câmbio desvalorizada favoreceram para uma menor produção final do biocombustível no período.
Neste início de safra, as vendas do hidratado se mantêm em um patamar menor, com o anidro ainda valorizado. Isso se justifica principalmente pelo fato de que o preço do etanol hidratado está mais que 70% acima do valor da gasolina – ultrapassando a faixa em que o renovável é tido como economicamente vantajoso aos consumidores.
Entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, esse indicador ficou, em média, a 76,8%, fazendo com que a preferência pelo combustível fóssil prevaleça.
Além disso, os estoques de etanol do início da safra estavam ligeiramente abaixo do volume registrado no ciclo anterior. Entretanto, com o aumento da moagem e com as usinas favorecendo a produção do etanol, o Pacege acredita ser possível que a armazenagem fique acima da vista em 2021/22.
Em relação à cotação do petróleo, que guia os preços dos combustíveis, o Pecege projeta que a curva deverá se manter acima dos US$ 100 por barril. Entre os fatores para que o preço siga em um patamar mais elevado estão: a guerra no leste europeu, as sanções à Rússia, e oscilações na demanda pela China, que ainda está sofrendo com a pandemia de covid-19.
Desta forma, a perspectiva do instituto é de que os preços do etanol no estado de São Paulo fiquem mais estáveis durante 2022/23, com o anidro ficando em torno de R$ 3,75 por litro, alta de 4,7%, e o hidratado em R$ 3,28/L, uma valorização de 5,8%.
Ainda assim, o cenário não considera as mudanças nas políticas de preço dos combustíveis, assim como novos atrasos ou ajustes de valores por parte da Petrobras – relacionadas à política de preço atualmente em vigor na estatal.
Já considerando as mudanças tributárias, com ICMS da gasolina a 18%, ICMS do etanol a 9,56% e desoneração dos impostos federais até o final do ano, o valor do anidro chegaria a R$ 3,46/L (-7,7%) e o hidratado a R$ 3,04/L (-7,3%).
Preço da cana-de-açúcar
Usando como referência o Conselho de Produtores de Cana-de-açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP), o Pecege prevê uma evolução no preço mensal do quilograma do ATR na região, chegando a R$ 1,14. O preço real nominal, por sua vez, seria de R$ 1,20/kg.
Com as mudanças tributárias já citadas, esse valor poderá oscilar para R$ 1,11/kg, uma redução de 7,53%.
A nova configuração de preços também deve reduzir a remuneração do etanol, favorecendo a produção do açúcar VHP, específico para exportação.
Giully Regina – NovaCana