Projeto, que nasceu com a companhia, alia irrigação por pivôs e por gotejamento
Localizada em João Pinheiro, no noroeste de Minas Gerais, a Bevap Bioenergia é a sucroenergética com o maior projeto de irrigação no país, segundo a própria empresa. Entre as áreas próprias e as de fornecedores, são 30 mil hectares de cultivo de cana-de-açúcar com mais de 150 pivôs; para completar, a companhia também possui irrigação por gotejamento.
Ainda de acordo com a Bevap, a iniciativa nasceu junto com a unidade, que possui capacidade de moagem de 4,5 milhões de toneladas. No momento, a Bevap atua com cerca de 60% desse total e busca a expansão.
Atualmente, a produtividade média dos canaviais é de 109 toneladas por hectare, enquanto a média de São Paulo, estado líder de produção no país, é de 68 t/ha. Já a concentração de açúcar total recuperável (ATR) foi de 140 quilos por tonelada de cana na média até maio de 2022.
Para entender melhor como a irrigação funciona e impacta o dia a dia da usina, o NovaCana conversou com o CEO da companhia, Newton Santana, que assumiu o cargo no final de abril.
O conteúdo foi divulgado inicialmente na newsletter NC+, enviada com exclusividade para os assinantes do NovaCana. O acesso é exclusivo para os assinantes do portal.
Localizada em João Pinheiro, no noroeste de Minas Gerais, a Bevap Bioenergia é a sucroenergética com o maior projeto de irrigação no país, segundo a própria empresa. Entre as áreas próprias e as de fornecedores, são 30 mil hectares de cultivo de cana-de-açúcar com mais de 150 pivôs; para completar, a companhia também possui irrigação por gotejamento.
Ainda de acordo com a Bevap, a iniciativa nasceu junto com a unidade, que possui capacidade de moagem de 4,5 milhões de toneladas. No momento, a Bevap atua com cerca de 60% desse total e busca a expansão.
Atualmente, a produtividade média dos canaviais é de 109 toneladas por hectare, enquanto a média de São Paulo, estado líder de produção no país, é de 68 t/ha. Já a concentração de açúcar total recuperável (ATR) foi de 140 quilos por tonelada de cana na média até maio de 2022.
Para entender melhor como a irrigação funciona e impacta o dia a dia da usina, o NovaCana conversou com o CEO da companhia, Newton Santana, que assumiu o cargo no final de abril.
O conteúdo foi divulgado inicialmente na newsletter NC+, enviada com exclusividade para os assinantes do NovaCana.
Como a Bevap iniciou o projeto de irrigação para o setor sucroenergético?
O projeto de irrigação nasceu junto com a Bevap quando ela foi concebida pelos engenheiros, que são os sócios-fundadores. Eles fizeram o projeto olhando e aprendendo com o setor, descobrindo coisas que são elementos essenciais ao cultivo da cana e ao estabelecimento de uma operação. Uma das mais importantes era ter uma cana com irrigação. Pelo sofrimento do setor, está mais do que provado que a cana precisa de extremos: de água e de insolação. Por isso, quando eles foram construir a Bevap já pensaram em um local que tivesse essa característica. A região em que estamos, no noroeste de Minas Gerais, tem dentre os vários fatores a previsibilidade. O solo não é tão frutífero como no interior de São Paulo; o Centro-Sul já conhecido e é disputadíssimo. Mas eles olharam a região e viram uma grande disponibilidade de água, pois tem uma bacia hídrica abastecida por três rios de grande porte, e começaram a conciliar os elementos essenciais para uma cultura de sucesso. Era uma planície tipicamente de Cerrado, o que para os projetos de colheita era fundamental, dado que usamos a colheita mecanizada e fazê-la em locais com muito aclive e declive é perigosíssimo.
A operação da usina seria possível sem o projeto de irrigação?
Pelo alto grau de insolação e pela previsibilidade meteorológica, onde de abril a outubro não chove, a condição de irrigação era quase obrigatória desde a partida. O projeto de irrigação na Bevap não ocorreu por acaso, foi justamente para que ela pudesse popular aquela área e aproveitar as vantagens. Além disso, a região tem o adicional de ter fornecedores que foram muito importantes para termos uma curva de aprendizado, já que atuavam com outras culturas com sistema de irrigação. Para aquela região, a irrigação não era uma novidade desbravadora.
Apesar do aumento de produtividade, a irrigação é onerosa para a empresa. Como a Bevap dilui e cobre esses gastos para que compensem no final da conta?
Quando se olha a produtividade da cana em sistemas irrigados ela naturalmente é maior, vai de 20% a 30%, dependendo da idade do trato; mas não é só água que a cana precisa. É preciso ter quatro fatores: clima, água, nutrição e barreiras. Ter um bom desenvolvimento, em sistemas irrigados e levando a alta produtividade, requer uma menor quantidade de área. A Bevap não é dona das suas áreas, é uma arrendante. Para ter o mesmo volume de cana, necessita de um menor tamanho de área. Além disso, é preciso ter as outorgas, junto aos órgãos ambientais, algo que temos totalmente atendido. É necessário que a estrutura de captação faça parte desde o projeto inicial e entre na equação de valor. É obvio que, como estamos produzindo bioenergia e bioprodutos – açúcar e etanol – que são regrados pelos mercados de commodities, às vezes as margens ficam mais apertadas ou mais robustas, dependendo de como o mercado está em preço. Então essa equação de valor também tem uma flutuação não somente pelos sistemas irrigados.
Qual é a diferença técnica da irrigação por pivô e por gotejamento e quais são os benefícios delas para a cultura?
Nós temos, na nossa totalidade de áreas irrigadas, três modelos: pivôs, que podem ser centrais ou lineares; o gotejamento, que está em 1,5 mil hectares dos quase 20 mil hectares próprios que temos; e o hidro roll, que é a irrigação de salvação. Falando dos dois principais – de gotejo e pivôs – uma grande vantagem do segundo é o preço; a tecnologia é superada, a parte de painéis de controle de solo e de umidade já é dominada. Além disso, tem mais ofertantes do sistema e, por ser acima da terra, tem condições de maior controle do processo de irrigação e operação de manutenção. Outro fator importante é quando renovamos um canavial. No nosso caso, com sistema irrigado, a cana é mais longeva, mantendo boa produtividade e o pivô não atrapalha.
E como funciona no sistema de gotejo?
No gotejo também tem o sistema de monitoramento e acionamento, podem ser colocados alguns adubos líquidos na mistura e a grande vantagem é que ele está mais próximo do principal cliente dessa água, que é a raiz da cana. No ponto de vista de eficácia, especialmente nos locais onde a cana já cresceu, o gotejo não enxerga o crescimento da cana, pois está na raiz, ou seja, de 40 a 45 centímetros de profundidade. Com isso, a eficácia chega a ser maior dependendo do estágio de crescimento da cana. É verdade que na manutenção tem uma aposta, pois o profissional não está vendo e ele assume o que está acontecendo. É eficaz, tem dosagem hídrica mais precisa, mas a contrapartida é que quando o canavial chega no fim da vida útil e é preciso fazer a reforma, as mangueiras são perdidas. Quando a soqueira é arrancada, a mangueira é fisicamente danificada. Então, tem uma mão de obra e um material de instalação desse sistema de gotejo. No entanto, preferimos os dois modelos aliados, pois em uma reforma eu costumo dizer que nós não temos uma mesa, temos áreas irregulares e os pivôs centrais não dão cobertura plena na área. O gotejo dá uma liberdade física que o pivô não dá. É uma ação combinada. Temos uma área de plantio que estamos expandindo, de 350 hectares. Nestes, 260 hectares estão cobertos por dois pivôs e o restante da área usamos gotejo para ter 100% da área irrigada.
Quais outras estratégias a Bevap aplica junto à irrigação para ampliar a produtividade e o ATR?
O Brasil tem uma grande vantagem, pois há uma faixa que cruza do Norte, Centro-Oeste até quase o Sul, que é o chamado “cinturão solar”; ele é super relevante para a cana. Mas isso não é suficiente e nós também cometemos erros em nossa curva de aprendizagem – afinal, a Bevap é uma empresa jovem – de ter canaviais que foram feitos com plantio de baixa qualidade em relação ao adubo e aos herbicidas iniciais, do trato da cana-planta; o manejo cultural é muito importante. A dosagem nutricional da cana e as barreiras biológicas são tão ou até mais importantes do que a própria água e luz. Não é um fator isolado que dá uma boa produtividade.
Quais são as ações imediatas da Bevap em relação a isso?
O que estamos aprendendo a partir de alguns ensaios dolorosos é que ter muita água na cana é bom e ruim para indústria, pois o que interessa para processamento é o açúcar que tem dentro da cana e que será convertido em etanol ou açúcar. Estamos usando algumas técnicas de dry off, de desligar antes a água da cana, onde tipicamente ela se manteria irrigada até 30 dias antes da colheita. Com isso, a cana entra em maturação acelerada ou sofrimento pela alta insolação; ela estressa e cria açúcar. Se perde em corpo, mas tem ganho de ATR e, por isso, os nossos índices de ATR também estão mais altos. Isso acontece um pouco de forma planejada e um pouco atipicamente, afinal, quase não choveu em março e esse é um mês típico de precipitação.
Vocês pretendem ampliar o nível de produtividade conciliando irrigação com outros processos?
Esse ano, teremos uma pequena quebra. Não temos números oficiais porque a irrigação cria um berço esplêndido, mas não podemos renegar os outros processos de tratos culturais. No ano passado, não tivemos problemas de nutrição de cana, mas vamos pagar o preço esse ano. Nosso plano de médio e longo prazos é chegar na capacidade máxima da fábrica, que é em torno de 4,5 milhões de toneladas processadas por ciclo. Estamos com 60% de ocupação da capacidade, em 2,6 a 2,7 milhões de toneladas, que é o que devemos moer esse ano; um pouco abaixo da estimativa inicial. O nosso plano é crescer de maneira ponderada e qualquer passo que dermos tem que ser considerando um hectare irrigado. Vamos expandir cerca de 500 hectares nesse ano; é pouco, mas é irrigado. Com esse dinheiro, talvez desse para fazer 1.000 hectares no sequeiro. Mas quais os riscos, qualidade e produtividade? Nós sabemos que alguns fornecedores tiveram problema no fornecimento de energia elétrica e não irrigaram o canavial; nessa condição climática, é quase a morte do corte.
Quais são os principais desafios na implantação de sistemas de irrigação?
Temos os desafios da natureza, então, vamos continuar torcendo para que a bacia hídrica se mantenha, apesar de termos uma ótima capacidade e o nosso volume consumido ser bem abaixo do outorgado, principalmente pelo uso consciente da água. Por outro lado, tem um desafio que estamos em via de superar que é no fornecimento dos sistemas de irrigação. Os equipamentos para gotejo só existiam pela Netafim [fabricante israelense], de altíssima tecnologia, que fez milagre nos desertos de Israel e até então era praticamente a única nos sistemas de gotejo. Hoje, sabemos que tem mais uma em grau de igualdade. Na parte de pivôs, são dois ou três [fornecedores]; é um mercado que não tem como fazer uma cotação tão ampla dos sistemas. Isso faz com que, a partir do momento em que todas as culturas, especialmente sucroalcooleira, começam a descobrir que na irrigação é possível ter bons resultados e tirar uma das variáveis climáticas, aumenta a fila de espera para ter esses sistemas e, por consequência, o custo e a entrega.
Existem outros desafios?
A outra contraparte é que no nosso setor isso não faz muito parte da cultura e da formação profissional. Não adianta ter uma maravilha tecnológica à disposição, pois quem vai operar no final do dia, por mais alto o grau de automação, são pessoas. Precisa ter pessoas formadas para ter um bom entendimento dos sistemas de irrigação, da leitura, do grau de umidade do solo, do sistema operacional e de manutenção. É um desafio ter profissionais qualificados e bem treinados para operarem um sistema oneroso e que tem alta tecnologia empregada, mas que, sozinho, não faz muita coisa.
A Bevap pretende expandir seus negócios com a aquisição de novos ativos ou aumento da capacidade da unidade já existente?
Está em nosso radar, temos conversado com os acionistas por meio do conselho de administração. Mas a Bevap, antes de investir em outras coisas correlatas ao setor – como biogás, etanol de milho, fertilizantes, que são atraentes para o nosso negócio –, precisa encher a fábrica. Enchendo-a, vamos inevitavelmente aumentar a capacidade de geração de energia, que hoje já é de 90 MW combinados em três geradores de 30 MW cada. Quando se constrói uma fábrica, como estratégia industrial, não se constrói plenamente para o máximo de capacidade, vai se criando uma curva de mobilização de ativos, até porque é capital empregado. Quanto atingirmos um estágio de 3,8 milhões de toneladas de processamento na indústria será preciso fazer um upgrade de geração de valor, uma caldeira. Colocando uma caldeira nova, automaticamente se coloca mais um gerador robusto, muito provavelmente de 50 MW. Mas o fluxo principal de processamento da cana está preparado para 4,5 milhões de toneladas e precisamos de alguns itens periféricos que são colocados para aumentar a capacidade. Isso requer investimento no campo, em renovação de canavial, em sistemas de irrigação e o nosso capex está muito voltado para isso.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana